Os assassinos da Memória

Um depoimento de Elie Wiesel


Elie Wiesel fotografado por William Coupon.


(…) Devo dizer desde já que não sinto qualquer ódio pelo acusado. Nunca o conheci; os nossos caminhos nunca se cruzaram. Mas conheci assassinos que, como ele, com ele, escolheram ser inimigos do meu povo e da humanidade. Posso ter conhecido algumas das suas vítimas. Eu assemelho-me a eles, da mesma forma que eles se assemelhavam a mim. Dentro do reino de maldição criado pelo acusado e pelos seus camaradas, todos os prisioneiros judeus, todos os judeus, tinham o mesmo rosto, os mesmos olhos; todos partilhavam o mesmo destino. Às vezes dava a impressão que o mesmo judeu era morto pelo inimigo seis milhões de vezes.
Não, em mim não há ódio: nunca houve ódio. Não é de ódio que se trata aqui – mas de justiça. E de memória. Tentamos fazer justiça à nossa memória.
Aqui vai uma memória: a da Primavera de 1944. Poucos dias antes das festividades pentecostais judaicas – Shavuot. Eu tinha 15 anos. Uma criança profundamente religiosa, eu era movido por sonhos messiânicos e orações. Longe de Jerusalém, eu vivia por Jerusalém e Jerusalém vivia em mim.
Apesar do regime fascista, os judeus da Hungria não tinham sofrido ainda muito. Os meus pais tinham uma loja, as minhas três irmãs iam à escola, o Shabbat envolvia-nos em paz… a guerra? Essa estava à beira do fim. Os Aliados estavam prestes a desembarcar. O Exército Vermelho estava a 20 ou 30 quilómetros. Mas foi então…
Os alemães invadiram a Hungria a 19 de Março de 1944. A partir dai os acontecimento evoluíram a um passo tão rápido que não nos deixou respirar. Uma sucessão de decretos antisemitas foram passados: a proibição de viajar, a confiscação de bens, a obrigatoriedade de usar a estrela amarela, os guetos, as deportações.
Nós olhávamos impotentes à medida que o nosso mundo encolhia sistematicamente. Para os judeus, o país foi limitado a uma cidade, a cidade a um bairro, o bairro a uma rua, a rua a um quarto, o quarto a um vagão selado que de noite atravessava os campos polacos.
Tal como as 44 crianças judias de Izieu (deportadas para Auschwitz em 1944), os adolescentes judeus da minha terra chegaram tarde à estação de Auschwitz. O que era isto? Perguntámo-nos. Ninguém sabia. O nome não evocava em nós qualquer memória. Pouco depois da meia noite o combóio começou a mover-se. Uma mulher no nosso vagão gritou, “vejo fogo, vejo fogo!” Fizeram-na calar. Lembro-me do silêncio no vagão. Lembro-me do resto. As vedações de arame farpado até ao infinito. Os gritos dos prisioneiros cujo dever era dar-nos as “boas-vindas”, os tiros disparados pelas SS, o ladrar dos seus cães. E sobre nós, sobre o próprio planeta, chamas imensas erguiam-se para o céu como se o consumissem.
Desde essa noite, quando olho para o céu vejo-o frequentemente em chamas… mas nessa noite não podia olhar para o céu por muito tempo. Estava ocupado a agarrar-me à minha família. Ouviu-se uma ordem: “Alinhem-se por famílias.” Eram bom, pensei eu, vamos ficar juntos. Passados uns minutos: “Homens para a direita, mulheres para a esquerda.” Choviam pancadas de todos os lados. Não fui capaz de me despedir da minha mãe. Nem da minha avó. Nem de beijar a minha irmã mais nova. Com as minhas duas irmãs mais velhas ela afastava-se, arrastada pela desvairada maré negra…
Esta foi uma separação que cortou a minha família ao meio. Raramente falo dela, quase nunca. Não consigo pensar na minha mãe ou na minha irmã pequena. Com os meus olhos, ainda as procuro. Irei sempre procurá-las. No entanto, eu sei… Eu sei tudo. Não, tudo não… não se pode saber tudo. Podia imaginá-lo, mas não o quero fazer. É preciso saber parar… O meu olhar estanca à entrada das câmaras de gás. Mesmo em pensamento, eu recuso violar a privacidade das vítimas no momento da morte.
O que vi chega-me. Numa pequena floresta algures em Birkenau eu vi crianças serem atiradas vivas para as chamas pelas SS. Às vezes maldigo a capacidade de ver. Devia ter-me deixado sem nunca voltar. Eu devia ter ficado com aqueles pequenos corpos carbonizados… Desde essa noite, eu passei a sentir um profundo e imenso amor pelas crianças e pelos idosos. Cada idoso faz-me lembrar o meu avô, a minha avó, cada criança recorda-me a minha pequena irmã, a irmã das crianças judias mortas de Izieu…
Noite após noite, continuei a interrogar-me – o que significa tudo isto? Qual é o sentido desta indústria assassina? Funcionava perfeitamente. Os assassinos matavam, as vítimas morriam, os fogos ardiam e um povo inteiro ansioso por eternidade transformava-se em cinzas, aniquilado por uma nação que, até então, era considerada a mais instruída, a mais culta do mundo. Diplomados pelas melhores universidades, amantes de música e pintura, médicos, advogados e filósofos participaram na Solução Final e tornaram-se cúmplices da morte. Académicos e engenheiros inventaram métodos mais eficientes para exterminar massas em tempo recorde… Como foi isto possível?
Não sei a resposta. Na sua extensão, no seu aspecto ontológico e nas suas ambições escatológicas, esta tragédia desafia e excede todas as respostas. Se alguém reclamar ter uma resposta, essa só pode ser falsa. Tanto luto, tanta agonia, tantas mortes de um lado e uma simples resposta do outro? Não se pode perceber Auschwitz nem com Deus nem sem Deus. Não se pode perceber nos termos dos homens ou dos céus. Porque havia tanto ódio para com crianças e velhos judeus? Para quê esta crueldade contra um povo cuja memória de sofrimento é a mais antiga do mundo?
(…) Sim, um mundo maldito onde se falava outra linguagem, onde uma nova religião era proclamada: uma religião de crueldade, dominada pela desumanidade; uma sociedade que evoluíra do outro lado da sociedade, do outro lado da vida, do outro lado da morte talvez; um mundo onde um pequeno pedaço de pão valia todos os ideais, onde um adolescente uniformizado tinha poder absoluto sobre milhares de prisioneiros, onde seres humanos pareciam pertencer a outra espécie, tremendo perante a morte, que tinha todos os atributos de Deus…
Como judeu, é impossível para mim não sublinhar o sofrimento do meu povo durante o seu tormento. Peço que não vejam nisto qualquer tentativa de negar ou minimizar o sofrimento das populações dos países ocupados ou a tortura sofrida pelos nossos camaradas, os nossos amigos cristãos ou ateus a quem o inimigo comum puniu com uma brutalidade imperdoável. Como se fossem nossos irmãos? Eles são nossos irmãos.
É impossível para mim, como judeu, deixar de sublinhar que, pela primeira vez, um povo inteiro – do maior ao mais pequeno, do mais rico ao mais pobre – foi condenado à aniquilação. Para o extirpar, para o extrair da história, para o matar na memória matando toda a memória dele: era este o plano do inimigo.
Marcado, isolado, humilhado, espancado, esfomeado, torturado, o judeu foi entregue ao carrasco, não por ter defendido uma qualquer opinião, não por possuir riquezas e tesouros, não por ter adoptado um certo comportamento proibido. O judeu foi condenado à morte simplesmente porque nasceu judeu, porque carregava com ele a memória judaica.
Declarado ser menos que um homem, e por isso sem merecer compaixão ou pena, o judeu nascera apenas para morrer – tal como o assassino nascera apenas para matar. Consequentemente, o assassino não tinha qualquer sentimento de culpa. Um investigador americano colocou a questão nestes termos: o assassino não perdera o sentido de moralidade, mas sim o sentido de realidade.
(…) Auschwitz e Treblinka, Maidanek e Ponar, Belzec e Mathausen, e tantos, tantos outros nomes: o apocalipse estava por todo o lado. Por todo o lado, procissões mudas caminhavam para valas cheias de cadáveres. Poucas lágrimas, muito poucos choravam. Pela sua aparência, resignadas, as vítimas pareciam deixar este mundo sem remorsos. Era como se estes homens e mulheres optassem por não viver numa sociedade desfigurada, desnaturada pelo ódio e pela violência.
Depois da guerra, o sobrevivente tentou contar aquilo, prestar testemunho… mas quem conseguia encontrar palavras para descrever o indiscritível?
O silêncio contemplativo dos velhos que sabiam, das crianças que tinham medo de saber… o horror das mães que enlouqueciam, a aterradora lucidez de gente louca num mundo de delírio… o canto grave do rabino recitando o Kaddish, o murmúrio dos seus seguidores caminhando atrás dele para o fim, para os céus… a criança que despia o irmão pequeno… dizendo-lhe para não ter medo da morte… talvez lhe dissesse para não ter medo dos mortos…
E na cidade, na grande cidade de Kiev, a mãe e os seus dois filhos frente a soldados alemães que riem… tiram-lhe uma das crianças a matam-na à vista da mãe… depois matam a segunda… ela quer morrer; os assassinos deixam-na viva, mas habitada pela morte… depois ela pega nos dois pequenos corpos, abraça-os e chora… como se pode descrever esta mãe? Como pode alguém descrever o seu sofrimento? Nesta tragédia há algo que dói para além da dor – e eu não sei o que é.
Sei que temos que falar. Não sei como. Por este crime ser absoluto, toda a linguagem é imperfeita. É por isso que há no sobrevivente um sentimento de impotência. Era mais fácil para ele imaginar-se livre em Auschwitz do que é imaginar-se em Auschwitz sendo livre. É esse o problema: quem não passou por este acontecimento nunca será capaz de o perceber. Mesmo assim, o sobrevivente tem consciência do seu dever de prestar testemunho. De contar o que viveu. De protestar cada vez que qualquer “revisionista” moralmente perverso ouse negar a morte dos que morreram. E a verdade da memória transmitida pelos sobreviventes.
(…) Pode morrer-se mais do que uma vez? Sim, pode-se. O sobrevivente morre cada vez que se junta, nos seus pensamentos, à procissão nocturna que na realidade nunca deixou. Como pode ele distanciar-se sem os trair? Durante muito tempo ele falou com eles, tal como eu falo com a minha mãe e a minha irmã: vejo-as afastar-se sob o céu em chamas… peço-lhes que me perdoem por não as ter seguido…
É pelos mortos, mas também pelos sobreviventes e pelas crianças deles – e pelas vossas – que este julgamento é importante: ele pesará no futuro. Em nome da Justiça? Em nome da memória. Justiça sem memória é uma justiça incompleta, falsa e injusta. Esquecer seria a injustiça absoluta da mesma forma que Auschwitz foi o crime absoluto. Esquecer seria o triunfo final do inimigo.
Na verdade, o inimigo mata duas vezes – da segunda vez tenta obliterar os vestígios dos seus crimes. Foi por isso que ele empurrou o seu plano atroz e aterrador aos limites da linguagem, e para além dela: “mesmo que sobrevivas, mesmo que contes, ninguém acreditará em ti”, disse um oficial das SS a um jovem judeu algures na Galicia.
Este julgamento contradisse já esse assassino. As testemunhas falaram; as suas verdades entraram na consciência da humanidade. Graças a eles, as crianças judias de Izieu jamais serão esquecidas.
Como guardiões das sepulturas invisíveis, sepulturas de cinzas encrostadas num céu eterno de nevoeiro e chamas, temos de lhes permanecer fiéis. Temos de tentar. Recusar falar, quando se esperam palavras, seria admitir o triunfo último do desespero.
(…) Graças a este julgamento, os sobreviventes têm uma justificação para a sua sobrevivência. O seu testemunho conta, as suas memórias fazem parte da memória colectiva. Claro, nada pode trazer os mortos de volta. Mas por causa deste encontro, por causa das suas palavras, o acusado não será capaz de matar de novo os mortos. Tivesse ele sucesso a culpa não seria dele, mas nossa.
Tendo lugar sob o signo da justiça, este julgamento tem também de honrar a memória.

Elie Wiesel, Prémio Nobel da Paz, sobrevivente dos campos de extermínio de Auschwitz e Buchenwald. Testemunho prestado no Julgamento de Klaus Barbie, em Lyon, a 2 de Junho de 1987. Retirado e traduzido do livro From the Kingdom of Memory, Summit Books, New York, 1990.

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1 Response to “Os assassinos da Memória”


  1. 1 | ma-schamba
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