À minha mãe

Procuro,
folheio livros e livros,
em busca de um poema,
de um parágrafo, de uma frase,
que me falasse de ti
sem que eu tivesse que procurar-te
nas minhas entranhas.
Celan, Heine e Ginsberg não te conheceram,
e nem nos seus mais tristes versos
contam a falta que me fazes.
Mas as palavras dos outros são sempre
mais fáceis. Mais distantes.
Procurei,
em livros e livros,
um poema, um parágrafo, uma frase,
que me resguardasse da mágoa,
como janela de vidro protegendo o rosto
da chuva.
Mas nada do que leio
chega para contar o que sinto.
I miss you
Perco-te. Perdi-te.
Mais do que saudade, que a saudade,
a dor verdadeira está na eternidade
da tua ausência. I miss you
Perco-te. Perdi-te.
Nada que eu faça — nem que galgue quilómetros,
nem que nade o Atlântico — fará com que
me beijes novamente a testa,
que me chames outra vez filhote.

Fecho os livros. Não há poemas
que me possam abrigar a ferida em chaga
que faz hoje dois anos se me abriu na alma.
Com o rosto molhado de lágrimas, desvio
o olhar para a janela. Fixando as luzes da cidade
sob o fundo negro do céu e do rio, vejo o teu rosto
como se estivesses ao meu lado.
Instintivamente levo as mãos aos olhos,
para os secar.
Não quero que me vejas chorar.

N.G.J.
New York, 26 de Novembro de 2008.

Os judeus portugueses de Newport (I)

A Sinagoga Touro

“A Sinagoga Touro não só é a mais antiga sinagoga da América, mas também um dos seus mais antigos símbolos de liberdade. Não há melhor tradição do que a história das contribuições da Sinagoga Touro para os objectivos de liberdade e justiça para todos.”
John F. Kennedy, Presidente dos Estados Unidos,
15 de Setembro de 1963


Ostentando o nome de uma família judaica luso-americana com raízes em Tomar, a Sinagoga Touro, de Newport, Rhode Island, foi dedicada a 7 de Dezembro de 1763, no primeiro dia de Hanuká, e permanece hoje como a mais antiga sinagoga dos Estados Unidos — a única do período colonial que ainda sobrevive e se mantém em actividade. A congregação foi fundada em 1658 (apenas 4 anos após a chegada dos primeiros judeus portugueses a Nova Iorque) por judeus sefarditas, na sua maioria marranos e descendentes de marranos que inicialmente tinham fugido da Inquisição portuguesa e que escapavam agora de perseguições sofridas nas Caraíbas às mãos dos espanhóis. Entre os fundadores da comunidade contavam-se Mordecai Campanal, Moisés Israel Pacheco, Simão Mendes e Abraão Burgos. O líder religioso chamava-se Isaac Touro — e um dos seus filhos, Judah Touro ficaria para a história como um dos maiores beneméritos norte-americanos do século XIX. Mas sobre ele prometo escrever outro dia.
Inicialmente impossibilitados de construir uma sinagoga própria, a comunidade de judeus portugueses de Newport reunia-se em casas particulares nas noites de sexta-feira e nas manhãs de sábado.
Durante o seu primeiro século de permanência em Rhode Island (a primeira colónia das 13 colónias originais americanas a declarar independência da Grã-Bretanha), os judeus portugueses prosperaram, tornando-se artesão e mercadores respeitados na colónia esmagadoramente protestante. O seu sucesso atraiu um influxo migratória de judeus sefarditas e asquenazim (judeus da Europa Oriental, com raiz na palavra hebraica Asquenaz, que significa Alemanha), que se juntaram à comunidade inicial, adoptando em conjunto os rituais religiosos tradicionais dos judeus de Portugal e Espanha. Com o crescimento da comunidade veio a necessidade de encontrar um local permanente para a realização dos serviços religiosos, e para isso voltaram-se para outras comunidades de judeus portugueses. A primeira resposta veio da congregação Shearith Israel, de Nova Iorque, a mais antiga do país, que enviou uma generosa contribuição de £149.060. Outras congregações de judeus portugueses — nomeadamente da Jamaica, Curaçao, Suriname e Londres — contribuíram também com ajuda financeira para a construção da sinagoga.
Peter Harrison, o mais famoso arquitecto americano do século XVIII, ofereceu-se para fazer o projecto do edifício, que demorou quatro anos a construir, sendo dedicado a 2 de Dezembro de 1763 pelo rabino da congregação, o luso-americano Isaac Touro.
A cerimónia de dedicação do edifício contou com a presença de muitos notáveis entre a elite protestante de Newport. A sinagoga Touro é considerada uma das mais emblemáticas obras de Peter Harrison, entre as quais se incluem a Kings Chapel, de Boston, e a Igreja de Cristo, em Cambridge, ambas no estado de Massachussetts.

Com a sinagoga, e um cemitério adquirido anos antes, a congregação portuguesa podia agora cumprir três das funções essenciais da vida comunitária judaica — os rituais religiosos propriamente ditos, a educação das crianças e os funerais. A congregação de judeus portugueses de Newport escolheu para si o nome de Yeshuat Israel (Salvação de Israel).
Durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos, e por causa do bloqueio britânico ao porto da cidade, grande parte da comunidade escapou para Nova Iorque. Findo o conflito, a vitalidade da congregação reacendeu-se. Pelo facto de durante a guerra muitos dos edifícios públicos da cidade terem ficado danificados, a Sinagoga Touro foi utilizada também para reuniões da Assembleia Geral de Rhode Island e do Supremo Tribunal estadual.
Em 1790, a convite do rabino Moisés Seixas, o Presidente George Washington visita esta sinagoga de judeus portugueses e dias depois lhes envia uma carta que ficaria para a história, reafirmando os princípios de igualdade e tolerância religiosa que norteavam a Constituição americana: “(…) Porque felizmente, o governo dos Estados Unidos, que não confere sanção à intolerância, nem à perseguição assistência (…)”. Estas palavras eram escritas um ano antes da Declaração de Direitos, que mesmo assim apenas se aplicava ao governo federal.

A par da Sinagoga Touro, o cemitério da congregação de judeus sefarditas de Newport é outro testemunho da dimensão e peso da comunidade de Newport. No Verão de 1852, o poeta Henry Wadsworth Longfellow ficou tão impressionado com o cemitério sefardita que o imortalizou num dos seus mais reconhecidos poemas, publicado na Putnam’s Monthly Magazine, em Julho de 1854:

The Jewish Cemetery at Newport

How strange it seems! These Hebrews in their graves,
Close by the street of this fair seaport town,
Silent beside the never-silent waves,
At rest in all this moving up and down!

The trees are white with dust, that o’er their sleep
Wave their broad curtains in the south-wind’s breath,
While underneath these leafy tents they keep
The long, mysterious Exodus of Death.

And these sepulchral stones, so old and brown,
That pave with level flags their burial-place,
Seem like the tablets of the Law, thrown down
And broken by Moses at the mountain’s base.

The very names recorded here are strange,
Of foreign accent, and of different climes;
Alvares and Rivera interchange
With Abraham and Jacob of old times.

“Blessed be God! for he created Death!”
The mourners said, “and Death is rest and peace;”
Then added, in the certainty of faith,
“And giveth Life that nevermore shall cease.”

Closed are the portals of their Synagogue,
No Psalms of David now the silence break,
No Rabbi reads the ancient Decalogue
In the grand dialect the Prophets spake.

Gone are the living, but the dead remain,
And not neglected; for a hand unseen,
Scattering its bounty, like a summer rain,
Still keeps their graves and their remembrance green.

How came they here? What burst of Christian hate,
What persecution, merciless and blind,
Drove o’er the sea — that desert desolate–
These Ishmaels and Hagars of mankind?

They lived in narrow streets and lanes obscure,
Ghetto and Judenstrass, in mirk and mire;
Taught in the school of patience to endure
The life of anguish and the death of fire.

All their lives long, with the unleavened bread
And bitter herbs of exile and its fears,
The wasting famine of the heart they fed,
And slaked its thirst with marah of their tears.

Anathema maranatha! was the cry
That rang from town to town, from street to street;
At every gate the accursed Mordecai
Was mocked and jeered, and spurned by Christian feet.

Pride and humiliation hand in hand
Walked with them through the world where’er they went;
Trampled and beaten were they as the sand,
And yet unshaken as the continent.

For in the background figures vague and vast
Of patriarchs and of prophets rose sublime,
And all the great traditions of the Past
They saw reflected in the coming time.

And thus forever with reverted look
The mystic volume of the world they read,
Spelling it backward, like a Hebrew book,
Till life became a Legend of the Dead.

But ah! what once has been shall be no more!

The groaning earth in travail and in pain
Brings forth its races, but does not restore,
And the dead nations never rise again.


No seu bloco de notas, enquanto caminhava entre as campas, Longfellow foi escrevendo os nomes dos judeus portugueses ali sepultados. Professor de Românicas e Línguas Modernas em Harvard, o poeta ficou fascinado com a conjugação dos sobrenomes portugueses aos nomes próprios hebraicos que ele se habituara a encontrar na Bíblia.

Escrevendo como um observador externo, Longfellow seria ainda indirectamente responsável por outra ligação dos judeus portugueses de Newport à poesia novecentista americana. Inspirada no poema de Henry Wadsworth Longfellow, Emma Lazarus — ela própria descendente de judeus portugueses — visita Newport em 1867 e, com apenas 18 anos de idade, escreve um poema sobre a Sinagoga Touro fazendo-o, desta vez, do lado de dentro da comunidade judaica sefardita dos Estados Unidos:

In the Jewish Synagogue at Newport

Here, where the noises of the busy town,
The ocean’s plunge and roar can enter not,
We stand and gaze around with fearful awe,
And muse upon the consecrated spot.

No signs of life are here: the very prayers,
Inscribed around are in a language dead,
The light of the “perpetual lamp” is spent
That an undying radiance was to shed.

What prayers were in this temple offered up,
Wrung from sad hearts that knew no joy on earth,
By these lone exiles of a thousand years,
From the fair sunrise land that gave them birth!

Now as we gaze, in this new world of light,
Upon this relic of the days of old,
The present vanishes, and tropic bloom
And Eastern towns and temples we behold.

Again we see the patriarch with his flocks,
The purple seas, the hot sky o’erhead,
The slaves of Egypt–omens, mysteries–
Dark fleeing hosts by flaming angels led.

A wondrous light upon a sky-kissed mount,
A man who reads Jehovah’s written law,
‘Midst blinding glory and effulgence rare,
Unto a people prone with reverent awe.

The pride of luxury’s barbaric pomp,
In the rich court of royal Solomon–
Alas! we wake: one scene alone remains
The exiles by the streams of Babylon.

Our softened voices send us back again
But mournful echoes through the empty hall;
Our footsteps have a strange, unnatural sound,
And with unwonted gentleness they fall.

The weary ones, the sad, the suffering,,
All found their comfort in the holy place,
And children’s gladness, and men’s gratitude
Took voice and mingled in the chant of praise.

The funeral and the marriage, now, alas!
We know not which is sadder to recall;
For youth and happiness have followed age,
And green grass lieth gently over all.

And still the shrine is holy yet,
With its lone floors where reverent feet once trod.
Take off your shoes as by the burning bush,
Before the mystery of death and God.

Leituras

As plantas arquitectónicas originais utilizadas, em 1941, para a expansão dos campos de extermínio de Auschwitz foram descobertas num apartamento em Berlim, segundo noticiou o tablóide alemão Bild. A data dos projectos agora encontrados é anterior à Conferência de Wannsee, ocorrida a 20 de Janeiro de 1942, provando que o extermínio dos judeus residentes na Europa fazia já parte dos planos da Alemanha nazi.
.::PARA LER::. Auschwitz – Die Baupläne: BILD druckt Dokumente des Grauens, die jetzt in Berlin gefunden wurden - Bild.de / Blueprints for Auschwitz camp found in Germany | Reuters / Auschwitz plans found in Berlin flat - Telegraph / Auschwitz documents not new, experts say | JTA.

5 anos de Judiaria

A Rua da Judiaria (ou simplesmente רחוב הרובע היהודי, em hebraico) fez cinco anos. No dia 27 de Outubro. Apesar de o fazer com duas semanas de atraso, não queria deixar de agradecer a todos os que por aqui vão passando, superando todas as minhas expectativas: ao fim destes cinco anos, a Rua da Judiaria já vai com 2.136.195 leitores (no momento em que escrevo e segundo o Sitemeter).
Um muito genuíno e sentido obrigado a todos, com a promessa de actualizações mais frequentes num futuro muito próximo.
!תודה רבה חברים

ADENDA: Um muito obrigado especial para todos os que felicitaram, em blogs e por email, o aniversário da Rua da Judiaria.

Miriam Makeba (1932 — 2008)

Morreu a Mãe África, Miriam Makeba, cujo nome completo tinha o tamanho do seu talento: Zenzile Makeba Qgwashu Nguvama Yiketheli Nxgowa Bantana Balomzi Xa Ufun Ubajabulisa Upaphekeli Mbiza Yotshwala Sithi Xa Saku Qgiba Ukutja Sithathe Izitsha Sizi Khabe Singama Lawu Singama Qgwashu Singama Nqamla Nqgithi.

.::PARA OUVIR::.

Erev Shel Shoshanim (“Noite das Rosas”), Miriam Makeba canta em hebraico.

Porque hoje vai ser um dia histórico…


.::PARA OUVIR::.

Democracy, Leonard Cohen.

Obama e Israel III


Israelis4Obama from www.JCER.info on Vimeo.

Obama e Israel II


Retired Generals of the Israeli Defense Forces and high-ranking Mossad officials on Barack Obama… from www.JCER.info on Vimeo.

שנה טובה‎ — Feliz Ano Novo


Shaná Tová Umetuká (votos atrasados…) a todos os meus leitores (com um abraço especial a todos aqueles que me foram escrevendo ao estranhar a ausência de actualizações aqui no blog). Que o ano judaico de 5769 vos traga a realização de todos os vossos desejos positivos — e que sejam inscritos no Livro da Vida para um ano doce e bom!

Kaddish: Paul Newman (1925—2008)

O mundo permanece em silêncio III

Mas é o Mundo que paga…


Neste terceiro e último ensaio da série publicada originalmente no Ma’ariv — e traduzida aqui na Rua da Judiaria [ver O Mundo Permanece em Silêncio e O Mundo Permanece em Silêncio II (Os Refugiados)] — Ben-Dror Yemini examina o fluxo de ajuda financeira e humanitária canalizado para a Autoridade Palestiniana.
Com a acutilância que marcou os dois primeiros textos, Yemini recorre a números oficiais e relatórios internacionais para traçar um retrato da situação económica e do nível de vida dos palestinianos. Mais uma vez, tal como nos dois artigos anteriores, este texto é fundamental para colocar o conflito israelo-palestiniano em perspectiva — algo que manifestamente se encontra ausente da narrativa unilateral e polarizada que vai dominando os media.

um artigo de Ben Dror Yemeni

Segundo a opinião pública mundial, os palestinianos são o povo mais desgraçado do planeta. O mais oprimido da terra. Eles são uma nação que incorpora uma parte substantiva da imagem de vítima. Inúmeras publicações abordam esta miséria, esta pobreza, escrevem sobre o estatuto de refugiado que permanece inalterado há décadas. Mas, também aqui, a relação entre os factos e a propaganda é menor que nada.
No primeiro artigo desta série, O Mundo Permanece em Silêncio, abordámos o assassínio em massa que árabes, principalmente muçulmanos, cometem contra muçulmanos e árabes, comparando com os números relativamente baixos de árabes, em geral, e palestinianos, em particular, mortos no quadro da disputa com Israel. O segundo artigo da série, O Mundo Permanece em Silêncio II: Os Refugiados, analisou a manipulação do problema dos refugiados palestinianos: apesar de quase 40 milhões de pessoas terem sofrido com permutas populacionais realizadas com o propósito de criar estados com identidades nacionais, étnicas ou religiosas, apenas os palestinianos, de entre todas essas dezenas de milhões, permanecem como refugiados.
Este terceiro artigo irá examinar agora o mito da miséria palestiniana. Os palestinianos estão, de facto, em má situação. Ninguém disputará isto. A questão reside em perceber se isso é produto de danos causados pelos próprios e pelos quais os palestinianos são responsáveis, ou se é apenas fruto do sofrimento provocado por Israel e pelos Estados Unidos.
O mito, que é cultivado pelas “forças progressistas”, afirma que, naturalmente, os Estados Unidos são a raiz de todo o mal. Não só possuem uma “política desequilibrada”, como são o opressor das legítimas aspirações do povo palestiniano. E Israel, claro, agudiza a opressão geral. Será mesmo assim?
Continue reading ‘O mundo permanece em silêncio III’

“Ken anu yecholim”* — Obama, os judeus e Israel

Horas depois de ter assegurado a nomeação do Partido Democrata para a Presidência dos Estados Unidos, o senador Barack Obama discursou, em Washington D.C., perante a conferência anual do American Israel Public Affairs Committee.
Seguem alguns excertos:

Apercebi-me da história de Israel pela primeira vez quando tinha 11 anos. Aprendi acerca da longa jornada e da constante determinação do povo judeu em preservar a sua identidade através da fé, da família e da cultura. Ano após ano, século após século, os judeus preservaram as suas tradições, e o seu sonho de uma pátria, perante impossíveis contrariedades.
A história impressionou-me de forma profunda e poderosa. Eu crescera sem noção de raízes. O meu pai era negro, natural do Quénia, e deixou-nos quando eu tinha dois anos. A minha mãe era branca, nascera no Kansas, e eu mudei-me com ela para a Indonésia e depois para o Havaí. Durante muitos anos, eu não sabia de onde vinha. Por isso era atraia-me a ideia de que se podia sustentar uma identidade espiritual, emocional e cultural. E compreendi profundamente o ideal sionista de que há sempre uma pátria no centro da nossa história. (…)
Aprendi também acerca dos horrores do Holocausto e da terrível urgência que trouxe à jornada de retorno à pátria de Israel. Durante a maior parte da minha infância vivi com os meus avós. O meu avô combateu na Segunda Guerra Mundial, tal como o meu tio-avô. Ele era um rapaz do Kansas, que provavelmente nunca esperara ver a Europa — quanto mais os horrores que lá o esperavam. E durante meses depois de ter vindo da Alemanha, ele permaneceu em estado de coque, sozinho com as dolorosas memórias que não o abandonavam.
É que o meu avô pertencia à 89ª Divisão de Infantaria — os primeiros soldados americanos a chegarem a um campo de concentração nazi. Eles libertaram Ohrdruf, parte do campo de concentração de Buchenwald num dia de Abril de 1945. Os horrores desse campo vão muito além da nossa capacidade para os imaginar. Dezenas de milhares morreram de fome, tortura, doença, ou simplesmente assassinados — parte da máquina de morte nazi que matou seis milhões de pessoas.
Quando os americanos ali entraram, descobriram pilhas de cadáveres e sobreviventes famintos. O general Eisenhower ordenou que os alemães residentes nas terras vizinhas visitassem o campo, para que podessem ver o que tinha sido perpetrado em seu nome. Ordenou que os soldados americanos visitassem os campos, para poderem aperceber-se porque combatiam. Convidou congressistas e jornalistas para testemunharem. Ordenou que se tirassem fotografias e se filmasse. Explicando as suas acções, Eisenhower disse que queria produzir “testemunhos em primeira mão para evitar que no futuro haja alguma tendência para se dizer que isto tudo não passa de propaganda.”
Vi algumas destas imagens no Yad Vashem, e elas nunca nos deixam. E essas imagens apenas aludem levemente às histórias que os sobreviventes do shoa carregam consigo. Tal como Eisenhower, cada um de nós testemunha a tudo e todos que quiserem negar estes crimes sem nome, ou que fale em os repetir. Temos de querer dizer o que dizemos quando afirmamos: ‘nunca mais’.
Foi apenas alguns anos depois da libertação destes campos que David Ben-Gurion declarou a fundação do Estado Judaico de Israel. Sabemos que o estabelecimento de Israel foi justo e necessário, enraizado em séculos de luta e décadas de paciente labor. Mas 60 anos depois, sabemos que não podemos baixar os braços, não podemos capitular, e enquanto Presidente nunca irei ceder quando se tratar da segurança de Israel. (…)
Tal como qualquer israelita nos dirá, Israel não é um país perfeito mas, tal como os Estados Unidos, dá um exemplo a todos quando busca um futuro mais perfeito. (…) Porque há um empenho incrustado na fé e tradição judaicas: no sentido da liberdade e da lealdade; no sentido da justiça social e da igualdade de oportunidades. No sentido de tikkun olam — a obrigação de reparar o mundo.
Nunca esquecerei que não estaria aqui hoje se não fosse esse empenho. Nos grandes movimentos sociais da história do nosso país judeus e afro-americanos estiveram sempre ombro com ombro. Juntos apanharam autocarros rumo ao Sul. Marcharam juntos. Sangraram juntos. Judeus americanos como Andrew Goodman e Michael Schwerner estiveram dispostos a morrer ao lado de um homem negro — James Chaney — em nome da liberdade e da igualdade.
Vocês e eu sabemos que temos de fazer mais do que simplesmente ficar quietos. Agora é tempo de ficar vigilante e encarar todos os adversários, à medida que avançamos na busca de um futuro de paz para Israel e para todos. Agora é tempo de apoiar Israel neste novo capítulo da sua extraordinária jornada. Agora é tempo de nos juntarmos na tarefa de reparar o mundo.

.::PARA VER::.

.::PARA LER::.
Barack Obama Addresses AIPAC Conference
(texto integral do discurso)


*
Sim, podemos, em hebraico. Um dos lemas da campanha presidencial de Barack Obama.

Israel é…

Por Natalie Portman, em Nova Iorque
(ver 60 anos de Israel na Rua da Judiaria)

Onde nasci. Onde comi o meu primeiro rebuçado e aprendi a ir sozinha à casa de banho. Onde alguns dos meus amigos adolescentes passam as noites em abrigos, dormindo de capacete. Onde guardas e seguranças são as únicas profissões em excedente. Onde os desertos florescem e as histórias dos pioneiros são romantizadas. Onde um cato doce e cheio de espinhos simboliza o ideal israelita. Onde a imigração para Israel é chamada “ascender” e emigrar de Israel se chama “descender”. Onde os meus avós não nasceram, mas onde eles foram salvos.
Onde o ano passa com a estação das azeitonas, das amêndoas, das tâmaras. Onde um transgressivo prato de porco ou camarão espreita provocadoramente de uma ementa de Jerusalém. Onde, apesar de excepções substanciais, reina a laicidade. Onde o vinho é religiosamente doce. Onde há uma fonte inesgotável de humor negro. Onde o riso é a moeda corrente e as anedotas a religião. Onde os partidos políticos se multiplicam mais depressa do que as pessoas. Onde tornar-se religioso é descrito como “retornar à resposta” e tornar-se laico “retornar à questão”.
Onde, em sessenta anos, oito cidadãos ganharam Prémios Nobel. Onde há neve duas horas a norte e hamsin (vento do deserto) duas horas a sul. Onde nunca foi permitido a Moisés entrar, mas cujas ruas sujamos. Onde a linguagem na qual Abraão falou a Isaac foi ressuscitada para incluir palavras e expressões como “camisola”, “guerra química” e “conferência de Imprensa”. Onde o muezzin canta, os sinos das igrejas tocam e onde os shofars clamam livremente na direcção do Muro. Onde os comerciantes regateiam. Onde os políticos regateiam. Onde um dia haverá paz, mas nunca sossego.
Onde eu nasci; onde as minhas entranhas recusam abandonar.

A Israel no seu aniversário

Israel

Um homem encarcerado e enfeitiçado
um homem condenado a ser serpente
que guarda um ouro infame,
um homem condenado a ser Shylok,
um homem que se inclina sobre a terra
e sabe que esteve no Paraíso,
um homem velho e cego que há de destruir
as colunas do templo,
um rosto condenado a ser máscara,
um homem que apesar dos homens
é Espinosa e o Baal Shem e os Cabalistas,
um homem que é o Livro,
um homem que louva do abismo
a justiça do firmamento,
um advogado ou um dentista
que falou com Deus na montanha,
um homem condenado a ser o escárnio,
a abominação, o judeu,
um homem lapidado, incendiado
e atirado em câmaras letais,
um homem que se obstina em ser imortal
e que agora voltou à sua batalha,
à violenta luz da vitória,
formoso como um leão ao meio-dia.

Jorge Luis Borges, Elogio de la sombra (1969)
(Republicação. Tradução minha)

O que Israel representa para mim

Por David Mamet, em Nova Iorque
(ver 60 anos de Israel na Rua da Judiaria)

Noam Chomsky foi entrevistado na edição do Verão de 2004 da revista Heeb.

Heeb — E os recentes incidentes na Europa e no mundo árabe? É necessário fazer grandes acrobacias de lógica para afirmar que não são incidentes antissemitas…

Chomsky — Na Europa existe uma larga população muçulmana, e grande parte dela é conduzida ao islamismo fundamentalista. Demonstram ódio em relação aos judeus que é um reflexo das acções israelitas. Quer dizer, se alguém conduz uma brutal e malévola ocupação militar durante 35 anos… isso tem de ter consequências. Por vezes as consequências podem ser bastante feias e, entre elas, contam-se o incendiar de sinagogas em França. Sim, é antissemitismo, mas Israel insiste. Recorde-se que Israel não se intitula o país dos seus cidadãos. O Supremo Tribunal de Israel decretou à 40 anos que Israel é o Estado soberano do povo judeu, em Israel e na diáspora.

Na verdade, como o Estado judaico se auto-proclamou a pátria de todos os judeus, dentro das suas fronteira e na diáspora, para os judeus da diáspora tudo o que não seja a denúncia disto enquanto uma usurpação dos seus direitos pessoais, dos seus direitos enquanto cidadãos indiferenciados, é equivalente à aprovação do que o senhor Chomsky encara como uma aventura criminosa (o Estado de Israel). O senhor Chomsky, ele próprio um judeu, não reconhece a Israel o direito de existir; reconhece, no entanto, como moralmente vinculativos os pronunciamentos deste Estado fantasma. Vinculativos sobre quem? Sobre os membros do grupo religioso predominante nesse Estado.
Estes judeus da diáspora, é preciso notar, residem em países cujo direito à existência o senhor Chomsky reconhece. Por exemplo a França.
A França, enquanto nação soberana tem, então, o direito, que Israel não pode ter, de proteger os seus cidadãos. Este direito, no entanto, e na visão do senhor Chomsky, não é extensível aos judeus franceses — uma vez que o seu direito de viver em paz terá sido, de alguma forma, anulado pelas acções de outro Estado.
Vários países muçulmanos, como a Síria e os palestinianos, têm, como substância de religião e de doutrina política, expressado a sua intenção de destruir os judeus israelitas. Esta intenção não é uma adenda de uma disputa territorial, mas uma componente essencial do seu regime — este ódio não pode ser mitigado por concessões, negociações ou sequer por capitulação; pode apenas ser assegurado pelo sangue.
O senhor Chomsky parece não objectar a estes incitamentos ao genocídio, nem alarga ele o mesmo padrão de culpa extraterritorial à diáspora muçulmana.
Os Estados Unidos, no rescaldo do 11 de Setembro, têm tomado providências (podem ser insuficientes mas são matéria de política nacional) no sentido de proteger os direitos dos árabes-americanos, não vá uma população ignorante e assustada voltar-se contra inocentes por causa de meros laços de raça ou religião com os criminosos.
Esta parece ser a mais básica operação de justiça e humanidade — apoiar a vingança contra inocentes com base em raça ou religião é visto aqui simplesmente como uma criminosa obscenidade. O senhor Chomsky, no entanto, acha por bem compreender e aplaudir acções deste género, desde que elas tenham judeus como alvo.
Isto é antissemitismo — é ódio racial e incitamento ao assassínio.
É uma vergonha que o senhor Chomsky utilize uma capa de respeitabilidade, que ocupe a posição de “intelectual” e que continue a confundir e perverter os jovens com esta nojice. Tolerar esta vergonha é parte do preço de viver numa sociedade livre.
Israel é uma sociedade livre. Os direitos das suas minorias, dos seu oprimidos e mesmo dos seus criminosos estão protegidos. O senhor Chomsky seria livre de pronunciar estas baboseiras em Israel, tal como o é nos Estados Unidos.
Se ele se mudasse para um país do mundo árabe, seria perseguido pelo simples facto de ser judeu (tal como o poderia ser também em França).
E se ele fosse perseguido, Deus queira que não, poderia refugiar-se em Israel, ao abrigo da Lei do Retorno.
É isto que Israel representa para mim.



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