Archive for the 'Judeus Portugueses' Category

Outras Judiarias…

Há algum tempo que ando para partilhar aqui um post fantástico que reconta uma viagem que José Alves, autor do The Sefaradi, empreendeu por algumas Judiarias. Texto e fotos para ler e ver com vagar, aqui: Uma (pequena) viagem pelo judaísmo.

Os Judeus Sefarditas de Inglaterra

Foto: The Guardian
Entrada para a Sinagoga Bevis Marks, Londres

Por Mordecai Zvi

De acordo com Alfred A. Zara, da Foundation for the Advanced Sephardic Studies & Culture, não existem registos de judeus na Grã-Bretanha durante o período Românico, ao contrário da Península Ibérica, França e Alemanha. Os primeiros judeus chegaram depois da Conquista Normanda em 1066. Após a conquista, Guilherme da Normandia convidou judeus financeiros de Rouen a se estabelecerem em Inglaterra.
Prosperaram em Inglaterra, principalmente no negócio dos empréstimos, facto que mais tarde ditou a sua condição de “indesejados” por se tornarem alvo de preconceito por parte de alguns Nobres, seus principais devedores. Essa condição resultou na sua expulsão em 1290.
Depois da expulsão dos Judeus de Espanha em 1492 e de Portugal em 1497, e do estabelecimento da Inquisição, um grupo de judeus mercadores portugueses, ostensivamente católicos, mas consistentemente marranos (muitos dos quais prontos para retornar ao Judaísmo), estabeleceu-se em Inglaterra.
Em 1656, o Rabino Menasseh ben Israel de Amsterdão fez uma visita a Inglaterra para tentar persuadir o Governo Inglês a autorizar os judeus a se estabelecerem uma vez mais em solo britânico. Foi então que conheceu Oliver Cromwell, que se dispunha favorável à ideia. Após a deliberação da comissão reguladora, relativamente à questão, foi anunciado que o Decreto de Expulsão de 1290 já não tinha relevância.
Seguidamente, os mercadores portugueses “criaram” uma sinagoga numa habitação, e retornaram abertamente ao Judaísmo. O Rabino Menasseh oficiou numa ocasião um serviço religioso. A comunidade judaica é assim estabelecida na Inglaterra pelos judeus sefarditas, facto que, ao longo dos anos atraiu muitos marranos de Espanha e Portugal, fugidos das Inquisição.
Muitos destes mercadores portugueses eram bem sucedidos e atingiram posições proeminentes na sociedade britânica. A comunidade sefardita prosperou e construiu a sua primeira sinagoga em Bevis Marks (Londres), no ano de 1701.
Refugiados judeus ashkenazitas da Polónia e Alemanha foram ajudados pelos sefarditas a emigrarem para a Grã-Bretanha. Ainda assim, em número pouco expressivo, pelo que os sefarditas permaneceram como a maior comunidade por mais de 100 anos. Nas suas actas ficaram registados variados nomes de famílias de origem Ibérica, tais como: Montefiore, Lindo, Disraeli, Mocatta, Da Costa, etc.
Somente no século XIX, após uma gigantesca vaga de refugiados polacos e da Europa de leste, a composição demográfica da comunidade judaica britânica foi alterada e famílias ashkenazitas, tais como os Rothschilds, se tornaram proeminentes. Os judeus sefarditas continuaram a exercer cargos de grande importância na sociedade britânica, mas foram largamente ultrapassados em número, pelo elevado fluxo de emigrantes ashkenazitas que então aí se fixaram.
Por volta de 1912, um novo fluxo demográfico de judeus sefarditas chegou à ilha, desta vez desde a Turquia e Grécia, principalmente Salónica. Devido ao declínio do Império Otomano e o controlo de Salónica pelos gregos, ocorre um enorme êxodo sefardita, com muitos partindo para os Estados Unidos da América, França e Inglaterra. Aqueles que chegaram a Inglaterra criaram uma nova comunidade separada da Bevis Marks, aceitando no entanto, autoridade da mais antiga.
Com a ajuda da Sinagoga Bevis Marks e da Fundação David Sassoon, a comunidade Oriental conseguiu construir a sua própria sinagoga em Holland Park (Londres) no ano de 1928. Embora ambas as comunidades tivessem nas suas origens os Judeus de Espanha e Portugal, foi a Sinagoga Holland Park que manteve a sua herança histórica com idioma Judeo-Espanhol e o Ladino. A Sinagoga Bevis Marks tinha as suas origens quase exclusivamente na língua portuguesa, em vez do Ladino.
Hoje, haverão cerca de 10 sinagogas sefarditas na Grã-Bretanha com uma forte vida comunitária, grande parte delas situadas em Londres, mas a Bevis Marks continua a ser a sinagoga sefardita “per se”.

Em baixo, poderá ver a imagem de um Siddur (livro de rezas) utilizado em 8 de Março de 1841 na Sinagoga Bevis Marks, que serviu para comemorar o êxito que assistiu Sir Moses Montefiore na sua missão ao Leste:

Publicado originalmente no blog Menino Rabino

Colecção “Sefarad” é lançada em Lisboa


A editora Nova Vega vai lançar esta semana a sua muito aguardada colecção Sefarad, coordenada por Jorge Martins. O lançamento vai ter lugar na próxima quinta-feira, dia 24 de Setembro, às 18:30H, na livraria Círculo das Letras, na Rua Augusto Gil 15B, em Lisboa. A inaugurar a colecção serão apresentados os seus dois primeiros livros: Breve História dos Judeus em Portugal, de Jorge Martins; e A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, de António Júlio de Andrade e Maria Fernanda Guimarães. As obras serão apresentadas por António Eloy e António Marques de Almeida, respectivamente.
Segundo o Professor Jorge Martins, esta colecção tem por missão principal “divulgar os estudos judaicos e inquisitoriais portugueses, preenchendo assim um vazio editorial.”

Os judeus portugueses de Newport (I)

A Sinagoga Touro

“A Sinagoga Touro não só é a mais antiga sinagoga da América, mas também um dos seus mais antigos símbolos de liberdade. Não há melhor tradição do que a história das contribuições da Sinagoga Touro para os objectivos de liberdade e justiça para todos.”
John F. Kennedy, Presidente dos Estados Unidos,
15 de Setembro de 1963


Ostentando o nome de uma família judaica luso-americana com raízes em Tomar, a Sinagoga Touro, de Newport, Rhode Island, foi dedicada a 7 de Dezembro de 1763, no primeiro dia de Hanuká, e permanece hoje como a mais antiga sinagoga dos Estados Unidos — a única do período colonial que ainda sobrevive e se mantém em actividade. A congregação foi fundada em 1658 (apenas 4 anos após a chegada dos primeiros judeus portugueses a Nova Iorque) por judeus sefarditas, na sua maioria marranos e descendentes de marranos que inicialmente tinham fugido da Inquisição portuguesa e que escapavam agora de perseguições sofridas nas Caraíbas às mãos dos espanhóis. Entre os fundadores da comunidade contavam-se Mordecai Campanal, Moisés Israel Pacheco, Simão Mendes e Abraão Burgos. O líder religioso chamava-se Isaac Touro — e um dos seus filhos, Judah Touro ficaria para a história como um dos maiores beneméritos norte-americanos do século XIX. Mas sobre ele prometo escrever outro dia.
Inicialmente impossibilitados de construir uma sinagoga própria, a comunidade de judeus portugueses de Newport reunia-se em casas particulares nas noites de sexta-feira e nas manhãs de sábado.
Durante o seu primeiro século de permanência em Rhode Island (a primeira colónia das 13 colónias originais americanas a declarar independência da Grã-Bretanha), os judeus portugueses prosperaram, tornando-se artesão e mercadores respeitados na colónia esmagadoramente protestante. O seu sucesso atraiu um influxo migratória de judeus sefarditas e asquenazim (judeus da Europa Oriental, com raiz na palavra hebraica Asquenaz, que significa Alemanha), que se juntaram à comunidade inicial, adoptando em conjunto os rituais religiosos tradicionais dos judeus de Portugal e Espanha. Com o crescimento da comunidade veio a necessidade de encontrar um local permanente para a realização dos serviços religiosos, e para isso voltaram-se para outras comunidades de judeus portugueses. A primeira resposta veio da congregação Shearith Israel, de Nova Iorque, a mais antiga do país, que enviou uma generosa contribuição de £149.060. Outras congregações de judeus portugueses — nomeadamente da Jamaica, Curaçao, Suriname e Londres — contribuíram também com ajuda financeira para a construção da sinagoga.
Peter Harrison, o mais famoso arquitecto americano do século XVIII, ofereceu-se para fazer o projecto do edifício, que demorou quatro anos a construir, sendo dedicado a 2 de Dezembro de 1763 pelo rabino da congregação, o luso-americano Isaac Touro.
A cerimónia de dedicação do edifício contou com a presença de muitos notáveis entre a elite protestante de Newport. A sinagoga Touro é considerada uma das mais emblemáticas obras de Peter Harrison, entre as quais se incluem a Kings Chapel, de Boston, e a Igreja de Cristo, em Cambridge, ambas no estado de Massachussetts.

Com a sinagoga, e um cemitério adquirido anos antes, a congregação portuguesa podia agora cumprir três das funções essenciais da vida comunitária judaica — os rituais religiosos propriamente ditos, a educação das crianças e os funerais. A congregação de judeus portugueses de Newport escolheu para si o nome de Yeshuat Israel (Salvação de Israel).
Durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos, e por causa do bloqueio britânico ao porto da cidade, grande parte da comunidade escapou para Nova Iorque. Findo o conflito, a vitalidade da congregação reacendeu-se. Pelo facto de durante a guerra muitos dos edifícios públicos da cidade terem ficado danificados, a Sinagoga Touro foi utilizada também para reuniões da Assembleia Geral de Rhode Island e do Supremo Tribunal estadual.
Em 1790, a convite do rabino Moisés Seixas, o Presidente George Washington visita esta sinagoga de judeus portugueses e dias depois lhes envia uma carta que ficaria para a história, reafirmando os princípios de igualdade e tolerância religiosa que norteavam a Constituição americana: “(…) Porque felizmente, o governo dos Estados Unidos, que não confere sanção à intolerância, nem à perseguição assistência (…)”. Estas palavras eram escritas um ano antes da Declaração de Direitos, que mesmo assim apenas se aplicava ao governo federal.

A par da Sinagoga Touro, o cemitério da congregação de judeus sefarditas de Newport é outro testemunho da dimensão e peso da comunidade de Newport. No Verão de 1852, o poeta Henry Wadsworth Longfellow ficou tão impressionado com o cemitério sefardita que o imortalizou num dos seus mais reconhecidos poemas, publicado na Putnam’s Monthly Magazine, em Julho de 1854:

The Jewish Cemetery at Newport

How strange it seems! These Hebrews in their graves,
Close by the street of this fair seaport town,
Silent beside the never-silent waves,
At rest in all this moving up and down!

The trees are white with dust, that o’er their sleep
Wave their broad curtains in the south-wind’s breath,
While underneath these leafy tents they keep
The long, mysterious Exodus of Death.

And these sepulchral stones, so old and brown,
That pave with level flags their burial-place,
Seem like the tablets of the Law, thrown down
And broken by Moses at the mountain’s base.

The very names recorded here are strange,
Of foreign accent, and of different climes;
Alvares and Rivera interchange
With Abraham and Jacob of old times.

“Blessed be God! for he created Death!”
The mourners said, “and Death is rest and peace;”
Then added, in the certainty of faith,
“And giveth Life that nevermore shall cease.”

Closed are the portals of their Synagogue,
No Psalms of David now the silence break,
No Rabbi reads the ancient Decalogue
In the grand dialect the Prophets spake.

Gone are the living, but the dead remain,
And not neglected; for a hand unseen,
Scattering its bounty, like a summer rain,
Still keeps their graves and their remembrance green.

How came they here? What burst of Christian hate,
What persecution, merciless and blind,
Drove o’er the sea — that desert desolate–
These Ishmaels and Hagars of mankind?

They lived in narrow streets and lanes obscure,
Ghetto and Judenstrass, in mirk and mire;
Taught in the school of patience to endure
The life of anguish and the death of fire.

All their lives long, with the unleavened bread
And bitter herbs of exile and its fears,
The wasting famine of the heart they fed,
And slaked its thirst with marah of their tears.

Anathema maranatha! was the cry
That rang from town to town, from street to street;
At every gate the accursed Mordecai
Was mocked and jeered, and spurned by Christian feet.

Pride and humiliation hand in hand
Walked with them through the world where’er they went;
Trampled and beaten were they as the sand,
And yet unshaken as the continent.

For in the background figures vague and vast
Of patriarchs and of prophets rose sublime,
And all the great traditions of the Past
They saw reflected in the coming time.

And thus forever with reverted look
The mystic volume of the world they read,
Spelling it backward, like a Hebrew book,
Till life became a Legend of the Dead.

But ah! what once has been shall be no more!

The groaning earth in travail and in pain
Brings forth its races, but does not restore,
And the dead nations never rise again.


No seu bloco de notas, enquanto caminhava entre as campas, Longfellow foi escrevendo os nomes dos judeus portugueses ali sepultados. Professor de Românicas e Línguas Modernas em Harvard, o poeta ficou fascinado com a conjugação dos sobrenomes portugueses aos nomes próprios hebraicos que ele se habituara a encontrar na Bíblia.

Escrevendo como um observador externo, Longfellow seria ainda indirectamente responsável por outra ligação dos judeus portugueses de Newport à poesia novecentista americana. Inspirada no poema de Henry Wadsworth Longfellow, Emma Lazarus — ela própria descendente de judeus portugueses — visita Newport em 1867 e, com apenas 18 anos de idade, escreve um poema sobre a Sinagoga Touro fazendo-o, desta vez, do lado de dentro da comunidade judaica sefardita dos Estados Unidos:

In the Jewish Synagogue at Newport

Here, where the noises of the busy town,
The ocean’s plunge and roar can enter not,
We stand and gaze around with fearful awe,
And muse upon the consecrated spot.

No signs of life are here: the very prayers,
Inscribed around are in a language dead,
The light of the “perpetual lamp” is spent
That an undying radiance was to shed.

What prayers were in this temple offered up,
Wrung from sad hearts that knew no joy on earth,
By these lone exiles of a thousand years,
From the fair sunrise land that gave them birth!

Now as we gaze, in this new world of light,
Upon this relic of the days of old,
The present vanishes, and tropic bloom
And Eastern towns and temples we behold.

Again we see the patriarch with his flocks,
The purple seas, the hot sky o’erhead,
The slaves of Egypt–omens, mysteries–
Dark fleeing hosts by flaming angels led.

A wondrous light upon a sky-kissed mount,
A man who reads Jehovah’s written law,
‘Midst blinding glory and effulgence rare,
Unto a people prone with reverent awe.

The pride of luxury’s barbaric pomp,
In the rich court of royal Solomon–
Alas! we wake: one scene alone remains
The exiles by the streams of Babylon.

Our softened voices send us back again
But mournful echoes through the empty hall;
Our footsteps have a strange, unnatural sound,
And with unwonted gentleness they fall.

The weary ones, the sad, the suffering,,
All found their comfort in the holy place,
And children’s gladness, and men’s gratitude
Took voice and mingled in the chant of praise.

The funeral and the marriage, now, alas!
We know not which is sadder to recall;
For youth and happiness have followed age,
And green grass lieth gently over all.

And still the shrine is holy yet,
With its lone floors where reverent feet once trod.
Take off your shoes as by the burning bush,
Before the mystery of death and God.

Uma homenagem no último dia de Páscoa


Este quadro, da autoria de Francisco Duarte Azevedo, apresentado aqui em estreia absoluta, intitula-se The Day After the Auto-da-Fé, uma homenagem do pintor aos mortos do massacre de Lisboa, de Abril de 1506. Com uma beleza de calma aparente e toda uma carga de violência subentendida, o quadro pode também ler-se como uma metáfora à vida daqueles que tiveram de viver sob um terror constante.
Obrigados a converter-se ao catolicismo sob pena de morte e sem outra opção possível, os judeus portugueses continuaram a ser judeus, não só no segredo das suas casas, mas também aos olhos dos vizinhos cristãos-velhos que, com intolerância, nunca lhes haveriam de fazer esquecer a sua diferença. Com o correr dos séculos, as tradições judaicas familiares de muitos diluíram-se nas poeiras da história. Outros preservaram esboços de liturgias ancestrais sem se aperceberem dos significados. Outros ainda, numa tradição oral passada de pais para filhos, de avós para netos, cinco séculos depois, sabem que são judeus — um facto teimoso que continua a deitar por terra as teorias daqueles que acreditavam que o judaísmo tinha sido expulso de Portugal. A estes, convencionou-se chamar-lhes marranos — uma palavra que para uns é insulto, mas para outros motivo de intenso orgulho.

Zog Maran (Diz-me Marrano)
(uma canção para a Páscoa Judaica)

Diz-me Marrano, meu irmão,
onde pões a mesa para o Seder?
— Numa caverna escura e funda,
a minha Páscoa irei fazer.

Diz-me Marrano, onde vais
buscar os brancos matzos?
— Na caverna, com a ajuda de Deus,
a minha mulher os lá amassa.

Diz-me Marrano, como consegues
encontrar uma Hagadá?
Na caverna, entre as fendas,
há muito que escondi os livros lá.

Diz-me Marrano, como te
defenderás quando te ouvirem cantar?
— Se me vierem prender, com uma
canção nos lábios irei morrer.

Avrom Reisen

.::PARA OUVIR::.

Zog Maran, Vocolot, poema de Avrom Reisen música de Shmuel Bugatch.

Marrano” é a designação tradicional dada aos judeus forçados a converterem-se ao catolicismo na península Ibérica, sob pena de morte e confiscação de bens, nos séculos XV e XVI. Durante séculos a expressão foi considerada depreciativa por se julgar que derivava de “porco” em castelhano, na verdade, ela é obtida pela contracção das palavras hebraicas márre (מר — amargo/amargurado) e anúze (אונס — forçado / violado) – refere-se também aos seus descendentes, muitos dos quais optam agora pelo processo de conversão para “regressar” à sua tradição ancestral. Em hebraico, os marranos são conhecidos simplesmente como “anussim” (אנוסים). Para diferenciar a palavra da sua homófona depreciativa, e evitar assim qualquer tipo de comparações, o capitão Barros Basto insistia que ela deveria ser escrita com apenas um “r”.

Memória & Justiça

O filósofo e poeta espano-americano George Santayana escreveu que “aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”. Depois de séculos de esquecimento — voluntário e involuntário —, a Câmara Municipal de Lisboa contribuiu para que as gerações futuras não esqueçam um dos mais tristes e terríveis páginas da história da cidade quando, há 502 anos, milhares de cidadãos da capital foram chacinados pelos seus vizinhos pelo simples facto de serem judeus.
Segundo a Câmara Municipal de Lisboa, inaugurado agora no Largo de São Domingos, onde o massacre teve início, o memorial é composto por duas esculturas “contributos da Comunidade Judaica (da autoria da arquitecta Graça Bachmann) e da Igreja Católica (da autoria do arquitecto Segismundo Pinto e do escultor Carlos Ramos) que coexistirão como símbolo da reconciliação e do respeito; por uma lápide inscrita no pavimento, tributo da cidade de Lisboa às vítimas do Massacre Judaico de Abril de 1506 e por um mural onde se lê a frase ‘Lisboa, Cidade da Tolerância’ (da autoria dos designers Susana Jesus e Paulo Cardoso) em 34 línguas diferentes”.

.::A LER ::. 500 Anos do Massacre de Lisboa: Salomão Ibn Verga / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Garcia de Resende / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Samuel Usque / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Damião de Góis / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Alexandre Herculano / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Camilo Castelo Branco / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Oliveira Martins / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Ferreira Fernandes / 500 Anos do Massacre de Lisboa IX: Memória e Esquecimento

A origem do conceito de “licença de parto”

Num período de dois anos, entre 1913 e 1915, a América seguiu atentamente uma dura batalha judicial que haveria de mudar radicalmente a forma como as mulheres eram encaradas nos locais de trabalho.
Uma professora de Nova Iorque fora despedida a 22 de Abril de 1913 por estar grávida, com as autoridades escolares a defenderem o despedimento com base em “negligência do dever com o propósito de dar à luz”.
Numa atitude rara para a época, a professora não aceitou a decisão dos seus superiores e levou o caso para tribunal. Dois anos depois, o processo acabaria por instituir as bases de um direito que alastraria por todo o globo: a licença de parto. Esta professora, pioneira na luta pelos direitos laborais das mulheres chamava-se Bridget Peixotto e era membro da comunidade de judeus nova-iorquinos de ascendência portuguesa.
Bridget casara a 12 de Fevereiro de 1912 com Francis Raphael Maduro Peixotto, um corretor de seguros — que, nascido em 1860, era 20 anos mais velho que ela. Quando casou, Bridget Peixotto trabalhava já há 18 anos no sistema de ensino primário nova-iorquino, tendo passado com distinção os exames de promoção aos escalões mais elevados do magistério primário.
No ano lectivo de 1912/1913, Bridget e Francis Maduro Peixoto moravam no número 41 de St. Nichols Terrace, em Manhattan, ela era professora principal da Escola Pública 14, em Thongs Neck, Bronx, auferindo um salário anual de 2400 dólares (o que daria hoje qualquer coisa como 4500 dólares mensais ajustados pela inflação).
Em Fevereiro de 1913, Bridget Peixotto adoece gravemente enquanto estava grávida e notifica de imediato as autoridades escolares, tal como obrigava a lei. Na altura, no entanto, as professoras não podiam continuar na profissão depois de darem à luz, uma vez que a sociedade não via com bons olhos que uma mulher casada, e mãe de filhos, trabalhasse fora de casa.
Bridget Peixotto acabou por ser suspensa e seguidamente despedida — enquanto estava ainda no hospital depois de ter sido mãe de Helen Esther Peixotto — por “negligência do dever com o propósito de dar à luz”.
Não se dando por vencida, Bridget Peixotto desafia a acusação e a própria ideia de que uma mulher não poderia continuar a ensinar depois de ser mãe. Citada na página 7 da edição de 29 de Maio de 1913 do New York Times, ela afirma:

Contestarei o caso até ao fim. O Conselho Educativo, ao permitir que mulheres casadas ensinem ao mesmo tempo que as proíbe de cumprirem uma função fundamental do casamento, está a agir de forma ilegal. É absolutamente imoral e não será apoiado por nenhum tribunal. Em nenhum lado se pode proclamar a maternidade como uma negligência do dever. É permitido às mulheres casadas ensinarem nas escolas públicas, mas negasse-lhes tempo para que tenham filhos.

Em primeira instância, a verdade é que o Conselho Educativo manteve a decisão, votando 27 contra 5 em favor do despedimento de Bridget Peixotto. É então que ela avança para os tribunais. Depois de ver o processo arrastar-se infinitamente, com várias decisões judiciais em seu favor, por ordem do Supremo Tribunal, em 1914 Bridget Peixotto faz uma exposição ao Comissário Estadual para a Educação, John Huston Finley, que anos mais tarde seria director do New York Times. Em resposta, Finley dá-lhe razão e escreve: “A Senhora Peixotto foi acusada de negligência do dever, mas não foi declarada culpada de negligência — foi sim declarada culpada de ter dado à luz.”
Finalmente, em Janeiro de 1915, numa decisão histórica, John Finley dá ordens para que Bridget Peixotto seja reabilitada nas suas funções prévias com salário pago por completo. Três anos depois, em 1918, ela tornar-se directora da escola, mantendo-se no magistério primário em Nova Iorque até se reformar, em 1948, quando atingiu a idade limite de 70 anos.
Bridget Peixotto faleceu a 10 de Abril de 1972, em Nova Iorque, aos 92 anos de idade, deixando um legado invejável. No obituário que lhe dedicou dois dias após o seu falecimento, o New York Times afirmava que ela era “responsável pela institucionalização da licença de parto por todo o país” e pelo mundo: “O seu caso permitiu que largos milhares de mulheres pudessem tirar uma licença para dar à luz. A decisão motivou também alterações no sistema do sector privado, fazendo com que hoje seja perfeitamente normal que uma mulher possa manter o emprego quando fica grávida.”

Referências a Bridget Peixotto e ao seu caso: The Public Papers of Margaret Sanger / Her Works Praise Her: A History of Jewish Women in America from Colonial Times to the Present / JSTOR: The Elementary School Journal: Vol. 25, No. 9 (May, 1925), pp. 692-695 / Everybody’s Paid But the Teacher … / DISMISSAL OF TEACHER BECAUSE OF PREGNANCY

Bibliografia: New York Times, 29 de Maio de 1913, pág.7; NYT 11de Junho de 1913; NYT 23 Junho de 1913; NYT 26 Julho de 1913; NYT 11 de Janeiro de 1914; NYT 2 de Novembro de 1914; NYT 15 de Dezembro de 1914; NYT 12 de Janeiro de 1915; NYT 12 de Abril de 1972.
The Grandees of New Jersey (2006), Dr. Neil Rosenstein

Memória

A Câmara Municipal de Trancoso colocou recentemente online as Actas das Primeiras Jornadas do Património Judaico da Beira Interior — uma organização conjunta dos municípios de Trancoso e Belmonte que contou com a participação de dezenas de estudiosos e especialistas portugueses e espanhóis.
Nas actas, com um total de 198 páginas, encontram-se verdadeiros tesouros do património judaico bem como algumas deliciosas curiosidades — como o trabalho do engenheiro Manuel da Silva Castelo Branco, que abre a resenha, sobre a comunidade judaica de Castelo Branco e os laços ancestrais de Fernando Pessoa. Pode ainda ser lido um brilhante e aprofundado ensaio assinado pelo arquitecto José da Conceição Afonso, director da delegação do IPPAR de Castelo Branco, intitulado Judaísmo e Arquitectura Vernácula Civil na Beira Interior Quinhentista.
As actas encerram com uma resenha minuciosa do bem documentado estudo Inquisição e Independência, Um motim no Fundão -1580, da autoria da professora Maria Antonieta Garcia.
Aqui vai a lista completa dos trabalhos publicados:
A COMUNA JUDAICA DA VILA DE CASTELO BRANCO [1381-1496] / EL PROYECTO MUSEOGRÁFICO DEL MUSEO SEFARDÍ DE TOLEDO / JUDAÍSMO E ARQUITECTURA VERNÁCULA CIVIL NA BEIRA INTERIOR QUINHENTISTA / JUDIARIA DE BELMONTE – AVALIAÇÃO E REFLEXÃO SOBRE PROCESSOS DE REABILITAÇÃO / MARCAS CRUCIFORMES DE AGUIAR DA BEIRA MEDELIM - A RUA DA JUDIARIA / MEMÓRIAS GRAVADAS NA PEDRA – UM PATRIMÓNIO A CONHECER NO CONCELHO DE TRANCOSO / OS JUDEUS DE TRANCOSO: ENTRE A LEI DE MOISÉS E O BAPTISMO / UMA LÓGICA PERIFÉRICA PARA OS CENTROS: OS MENDES/BENVENISTE ENTRE A BEIRA INTERIOR E ISTAMBUL / UM MOTIM NO FUNDÃO EM 1580

O download do documento integral pode ser feito aqui: Actas das Primeiras Jornadas do Património Judaico da Beira Interior (formato pdf)

Memorial às vítimas do massacre de 1506

A Câmara Municipal de Lisboa aprovou por unanimidade a proposta para a construção de um memorial às vítimas dos motins anti-judaicos de 1506, durante os quais foram vitimados entre 2 a 4 mil judeus portugueses. Segundo a proposta, aprovada por unanimidade, o memorial deverá ser inaugurado no próximo dia 19 de Abril, altura em que passam precisamente 502 anos sobre aquele terrível evento.
O texto da proposta final bem como um registo em áudio do debate podem ser encontrados no blog do professor Jorge Martins, um historiador que tem vindo a resgatar a História dos judeus portugueses do esquecimento crónico a que foi sendo votada.

Hanuká com Manhattan em fundo

Uma das primeiras grandes lições de Kabbalah que o rabino Solomon me deu em Los Angeles condensava-se numa simples frase composta por três palavras: “Não há coincidências.” O judaísmo é pródigo em frases destas; aparentemente simples, aparentemente banais, mas densas de significados – cada uma destas frases é um verdadeiro novelo hermenêutico –, tal como, para um olhar destreinado, um diamante pode aparentar não ser mais do que um simples pedaço de vidro.
Na primeira noite de Hanuká, o Francisco José Viegas, fez-me uma enorme surpresa mas, ao evocar o milagre do reencontro, o Francisco nem imaginava este milagre da coincidência: no exacto local onde, em Fevereiro, tirámos aquela foto, ergue-se hoje um imenso Hanukiá – o candelabro de nove braços acendido paulatinamente durante os oito dias de Hanuká. A foto acima, tirada ao fim da tarde gélida que marcou o início do terceiro dia de Hanuká, com Manhattan e o fantasma das Torres Gémeas do World Trade Center no outro lado do rio, prova o feliz acaso. Se é que as coincidências existem mesmo…

Monumento à memória das vítimas do massacre de 1506


A Câmara Municipal de Lisboa vai discutir na quarta-feira, dia 31 de Outubro, a criação de um monumento evocativo da memória dos milhares de judeus portugueses assassinados na capital durante os sangrentos motins de 19, 20 e 21 de Abril de 1506. A proposta parte do vereador José Sá Fernandes, do Bloco de Esquerda, e conta com o apoio dos vereadores do PS e da vereadora Helena Roseta.
Segundo a proposta de Sá Fernandes o monumento será instalado no Largo de São Domingos, ao Rossio, local onde há 500 anos começaram os motins.
Aqui segue na integra a nota que nos chegou do gabinete do vereador José Sá Fernandes:

Na próxima sessão pública da CML, dia 31 de Outubro, Quarta-feira, o Vereador José Sá Fernandes irá propor a criação em Lisboa de um Memorial às Vítimas da Intolerância, evocativo do massacre judaico ocorrido na Cidade, em 1506, e de todas as vítimas que sofreram a discriminação e o aviltamento pessoal pelas suas origens, convicções ou ideias.
A 19, 20 e 21 de Abril de 1506, Lisboa foi palco do mais dramático e sanguinário episódio antijudaico de todos os que são conhecidos no nosso território, quando, por mera suspeita de professarem o judaísmo, foram barbaramente assassinados e queimados cerca de dois mil lisboetas.
Os acontecimentos tiveram início junto ao Convento de São Domingos (actual Largo de São Domingos) e culminaram em duas enormes fogueiras, no Rossio e na Ribeira, onde os crimes foram perpetrados.
O Vereador José Sá Fernandes propõe que a CML assinale estes acontecimentos, fazendo justiça póstuma a todas as vítimas da intolerância, naquilo que considera que constituirá uma afirmação inequívoca de Lisboa como cidade cosmopolita, multiétnica e multicultural, através da instalação de um Memorial às Vítimas da Intolerância, no Largo de São Domingos.
O memorial deverá ter, como elemento central, uma oliveira de grande porte e contemplará ainda uma lápide evocativa do massacre de 1506.
O arranjo urbanístico da área envolvente, a sua concepção, execução e instalação serão assegurados pelos serviços municipais.
De acordo com a proposta, a inauguração do Memorial deverá ter lugar no dia 19 de Abril de 2008, numa cerimónia promovida pela Câmara Municipal de Lisboa, para a qual serão convidadas todas as comunidades étnicas e religiosas da Cidade.
O Vereador José Sá Fernandes congratula-se pelo facto dos Senhores Vereadores do PS e da Senhora Vereadora Helena Roseta se terem associado a esta proposta, subscrevendo-a em conjunto.

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O terrorismo dos “meninos nazis”

O país vai de carrinho
Vai de carrinho o país
Os falcões das avenidas
São os meninos nazis (…)

Assim começava a canção de Zeca Afonso que me saltou à memória no exacto momento em que li a notícia de que o cemitério Judaico de Lisboa tinha sido profanado por dois neonazis. Pelo menos 17 túmulos foram destruídos, lápides gravadas com cruzes suásticas. No final, para cúmulo da violação, li que os dois defecaram e espalharam excrementos pelas campas. Os jornais contam ter-se provavelmente tratado de uma “cerimónia de iniciação” de um dos criminosos implicados. Honestamente, acredito que a profanação do cemitério judaico de Lisboa foi um acto de terrorismo.
A resolução 51/210 da Assembleia Geral das Nações Unidas define “terrorismo” como um “acto criminoso destinado ou calculado para provocar um estado de terror junto do público em general ou de um grupo específico de pessoas”. A mesma resolução afirma serem os actos terroristas “injustificáveis em qualquer circunstância, quaisquer que sejam as considerações políticas, filosóficas, ideológicas, raciais, étnicas, religiosas”.
A intenção primária e única deste acto de barbárie, racismo e antisemitismo é espalhar o terror, o receio e o medo por entre os judeus portugueses.
O historial de violência, assassínios, agressões, ameaças e destruição perpetrados por este grupo de gente contribuem para enquadrar as suas acções entre os parâmetros delineados pela definição de terrorismo pela Lei Internacional. Tudo isto seria mais do que suficientes para que a Justiça portuguesa funcione desta vez.
Um olhar transversal pela História faz-nos ver que o antisemitismo, e os ataques a judeus e símbolos judaicos pelo simples facto de serem judeus, são inevitavelmente um prelúdio para uma generalização da violência. Os judeus, neste caso, funcionam como “balões de ensaio” numa sociedade insensível ao seu sofrimento. São as primeiras vítimas. Foi assim na Idade Média (ver Rua da Judiaria: “Como elRei mandou degollar dous seus criados, porque roubarom huum judeu e o matarom”); foi assim com a Inquisição; foi assim na Segunda Guerra Mundial; foi assim com os atentados suicidas terroristas da intifada
Mas nem aqui os “meninos nazis” portugueses são originais. Numa pesquisa rápida, encontra-se um número considerável de notícias relacionadas com profanações de cemitérios judaicos ocorridas um pouco por todo o mundo nas últimas semanas: Jewish cemetery vandalized in Siberian city - International Herald Tribune / Jewish cemetery vandalism suspect free on personal recognizance - Boston.com / Neo-Nazi Activity Spreading Around the World - Arutz Sheva / French court hands down 30-month prison term to vandal of Jewish cemetery - International Herald Tribune / Hevron Cemetery Desecrated Over Sabbath - Arutz Sheva / 2 arrested in West Side cemetery vandalism.
No meio de todo este hediondo cenário, e navegando as hiperligações dos jornais online, confesso, sorri ao deparar com o nome de um dos “meninos nazis”, um tal Pedro Isaque. Sim, um neonazi chamado Isaque… um admirador do terceiro reich que tem o nome de um dos patriarcas do judaísmo – justiça poética, na sua melhor acepção (ver Correio da Manhã: Líder skin fica preso, de 21/09/2007; e, já agora, Wikipédia – Isaac / Isaque).
Tudo isto me fez de novo pensar na imensa ironia sobre a qual já antes aqui escrevera, a propósito da origem judaica do sobrenome Machado, ostentado pelo neonazi Mário (ver “ultimo parágrafo do texto Os media e o “crime” ).
Mas esta gente nada sabe da História do seu país e da “raça” que diz ser a sua… Quando foram forçados a converter-se ao Catolicismo sob pena de morte, em 1497, o número de judeus portugueses cifrava-se em cerca de 200 mil. Isto num total de pouco mais de um milhão de portugueses fazia com que os judeus constituíssem mais de 20 porcento da população nacional na época (ver The Virtual Jewish History Tour - Portugal).
A conversão forçada não só os impele para a “clandestinidade” como inicia um processo de miscigenação que viria a ser reforçado quando, a 25 de Maio de 1773, o Marquês de Pombal acaba com a “limpeza de sangue”, manda destruir os registos e cadastros dos “cristãos novos” e ordena que famílias nobres, até então orgulhosas da sua “pureza de raça”, organizem casamentos com os descendentes dos judeus convertidos à força nos finais do século XV.
Depois de todas estas “aventuras do sangue”, como lhes chamou Jorge Luis Borges – ele próprio um descendente desses judeus portugueses convertidos à força –, será que existe algum português, um único que seja, que continue a dizer-se livre do sangue da semente de Abraão? Será que existe algum que queira apostar tudo nessa “pureza”? Que aceitem então um desafio, esses “meninos nazis”: que façam um teste de ADN, sim, porque o ácido desoxirribonucleico não mente e a ciência faz com que o código genético seja hoje tão transparente quanto a água. E bastante acessível… (aqui, por exemplo: Family Tree DNA - we do genetic tests for your genealogy questions!)
E se porventura o teste lhes demonstrar que a sua “raça portuguesa” não é assim tão pura quanto pensavam; que, em vez de traços de Viriato Lusitano, são feitos de mesclas das gentes de África e do Médio Oriente; que, em vez de nórdico ou “ariano”, o sangue que lhes corre nas veias é idêntico ao dos judeus, que odeiam, ou dos negros, que desprezam; se for este o resultado do teste de ADN, que farão eles?
A resposta racional, obviamente, levaria ao repensar de ódios e preconceitos. Forçaria a humanização da besta. Mas de nada vale acalentar esperanças. Mesmo perante todas as provas cientificas e racionais, a irracionalidade do ódio prevaleceria. A verdade é que esta gente nada tem de racional. Como escreveu Jonathan Swift: “É inútil tentar fazer um homem abandonar pelo raciocínio algo que não adquiriu pela razão.”
Quanto a nós, judeus, resta-nos fazer aquilo que mais os irrita; o que sempre fizemos, desde os tempos remotos da escravidão no Egipto ou de Nabucodonosor: sobreviver.

::A LER:: DN “Hoje somos todos judeus” / SOS Racismo denuncia terror nas escolas da margem sul do Tejo provocado por “skinheads”; - Lusa - SAPO Notícias / New York Times: In DNA, New Clues to Jewish Roots / Family Tree DNA - we do genetic tests for your genealogy questions! / Expresso: Skins vandalizam cemitério judeu / Juiz decidiu soltar os dois skinheads perigosos: ‘Lobo Nazi” em liberdade / Skinheads ameaçam magistrada do MP / Leis penais entram em vigor: 36 skinheads acusados / Investigação na Margem Sul: PS, PCP e BE na mira / Southern Poverty Law Center Report: Hammerskin Nation / ADL: Hammerskin Nation – Extremism in America

Um pintor “português” morto em Auschwitz

Considerado um dos mais representativos retratistas holandeses dos finais do século XIX e da primeira metade do século XX, Baruch Lopes Leão de Laguna nasceu em Amsterdão, a 16 de Fevereiro de 1864, no seio de uma família sefardita portuguesa.
A sua vida começa tal como haveria de acabar – marcada pelos mesmos tons de tragédia. Aos dez anos perdeu os pais – Salomão Lopes de Leão Laguna e Sara Kroese – dando entrada no orfanato da comunidade de judeus portugueses de Amsterdão. Apoiado pelos professores da comunidade, ganhou o gosto pela pintura, estudando primeiro na Escola Quellinus e depois na Academia Nacional de Belas Artes da Holanda.
Para sobreviver, Leão Laguna trabalhou para o pintor Jacob Meijer de Haan – primeiro na pastelaria da família, no bairro judeu de Amsterdão, e posteriormente no atelier, como seu assistente.
Aos poucos, a pintura de Leão de Laguna foi ganhando fama e reconhecimento suficientes para lhe permitirem dedicar-se por completo à sua paixão. Em 1885 faz a sua primeira exposição na Associação Arti et Amicitiae, uma mostra bastante bem recebida pela crítica e pelos colegas. Por essa altura Baruch Lopes de Leão Laguna casa com Rose Asscher, filha de um lapidador de diamantes.
Durante os primeiros anos da ocupação nazi, Leão Laguna refugiou-se na região de Laren, no norte da Holanda. Terá sido nessa altura que pintou o auto-retrato que figura em cima. Auxiliado por uma família que o esconde numa quinta remota, Leão Laguna fica-lhes imensamente grato, oferecendo-lhes vários dos seus quadros (entre os quais este auto-retrato).
Eventualmente, Baruch Lopes de Leão Laguna é capturado pelos nazis e levado para o campo de extermínio de Auschwitz, onde é assassinado a 19 de Novembro de 1943, com 79 anos de idade.

Ilustração: Auto-retrato, Leão Laguna, óleo sobre tela, cerca de 1940, 82 x 54 cm

::PARA VER:: Baruch Lopes de Leao Laguna on Artnet / De Valk Lexicon kunstenaars Laren-Blaricum: Laguna / Baruch Leao Laguna – Ask Art / Kunsthandlung Nitsche / Joods Historisch Museum | Museumcollectie: Laguna…

Imagens da nossa Diáspora

A réplica de uma lápide do cemitério de judeus portugueses de Curaçao, nas Antilhas Holandesas, exposta no museu da Sinagoga Mikvé Israel-Emanuel, conhecida oficialmente como United Netherlands Portuguese Congregation Mikvé Israel-Emanuel, testemunha a presença inequivoca dos nossos e da nossa língua naquelas paragens.
Datada da primeira metade do século XVIII, a lápide encontra-se quase integralmente escrita em português, com excepção da inscrição cimeira, em hebraico, que cita o Livro de Ester: “E Mordecai compareceu perante o Rei”

No resto da lápide pode ler-se:

Do bem-aventurado e insigne varão Mordecai Hisquiau Namias de Crasto benquisto do geral e procurador da paz. Faleceu em 13 de Yiar do ano 5476 [5 de Maio de 1716]. Sua alma goze da glória.”


Esta rara imagem mostra o interior da Sinagoga Portuguesa de Curaçao, palco de uma curiosa tradição sefardita que apenas se mantém ainda nas Caraíbas: o chão encontra-se coberto de areia – por um lado para abafar os passos, recordando os tempos da Inquisição, em que o judaísmo era praticado em segredo; por outro para fazer lembrar que aqueles que a frequentam estão ainda no exílio – que pisam as areias do deserto do seu “Egipto”.

Fotos gentilmente cedidas por Francisco Duarte Azevedo.

Os nossos fantasmas em Salónica

A Chave em Salónica

Abarbanel, Farias ou Pinedo
atirados de Espanha por ímpia
perseguição, conservam todavia
a chave de uma casa de Toledo.

Livres agora da esperança e do medo,
olham a chave ao declinar do dia;
no bronze há outroras, distância,
cansado brilho e sofrimento quedo.

Hoje que sua porta é poeira, o instrumento
é cifra da diáspora e do vento,
como essa outra chave do santuário

que alguém lançou ao azul quando o romano
com fogo temerário acometeu,
e que no céu uma mão recebeu.

Jorge Luís Borges,
in El Otro, El Mismo, 1964

Este belo poema de Borges – que se considerava a si próprio um descendente de judeus portugueses fugidos da Inquisição –, vem a propósito de um interessante post no Abrupto sobre Salónica e sobre os fantasmas de uma cidade que, durante séculos, serviu de refúgio e morada a uma florescente comunidade de judeus portugueses e espanhóis que acabaria por ser aniquilada quase na totalidade pelos nazis entre 1941 e 1944. Hoje, dos sefarditas de Salónica pouco ou nada resta. Aconselho vivamente a leitura do texto de José Pacheco Pereira: Nunca é tarde para aprender: “Las mocicas de agora / todas vistem de tango”.
Leiam o que por lá se escreve e, depois, regressem à Judiaria para ouvir uma melodia cantada em Salónica, nessa língua mesclada de português e castelhano que os judeus ibéricos levaram para os lados do Levante. Chama-se “Morenica”, cantada por Savina Yannatou, do álbum “Primavera en Salonico”.
Escutem.


Savina YannatouMorenica
in Primavera en Salonico





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