O Spinoza da Rua do Mercado (VI)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Parte VI (ver Parte I; Parte II; Parte III; Parte IV e Parte V)


Conversa no Gueto de Varsóvia, Polónia, inverno de 1938. Fotografia de Roman Vishniac.

O Dr. Fischelson tinha a certeza que iria morrer brevemente. Escreveu um testamento, deixando todos os seus livros e manuscritos à biblioteca da sinagoga. As suas roupas e mobília iam para Dobbe, uma vez que ela tinha tomado conta dele. Mas a morte não veio. Em vez disso, a sua saúde melhorou. Dobbe voltou à sua banca no mercado, mas visitava-os várias vezes ao dia, fazia-lhe sopa, deixava-lhe uma chávena de chá e contava-lhe as notícias da guerra. Os alemães tinham ocupado Kalish, Bendin, Cestechow e marchavam agora em direcção a Varsóvia. Dizia-se que numa manhã sossegada se podia ouvir, ao longe, o estrondo dos canhões. Dobbe contou-lhe que as baixas eram pesadas. “Eles caiem que nem moscas”, disse ela. “Que desgraça para as pobres mulheres.”
Ela não conseguia explicar porquê, mas o quarto do velhote atraia-a. Gostava de tirar das estantes os livros debruados a dourado, de os limpar, e depois de os arejar no parapeito da janela. De vez em quando ela subia os degraus até à janela e espreitava pelo telescópio. Também gostava de conversar com o Dr. Fischelson. Ele falou-lhe da Suíça, onde estudara, das grandes cidades por onde tinha passado, das grande montanhas que se cobriam de neve mesmo no Verão. O seu pai tinha sido um rabino, contou ele, e antes de ter ido para a universidade o próprio Dr. Fischelson tinha estudado num seminário rabínico. Ela perguntou-lhe quantas línguas ele conhecia, ele respondeu-lhe que conseguia falar e escrever em hebraico, russo, alemão e francês, para além do yiddish. Também sabia latim. Dobbe ficava estupefacta que um homem com tanta instrução pudesse viver num sótão na Rua do Mercado. Mas o que mais a espantava era o facto de ele não poder passar receitas, apesar de ter o título de “doutor”. “Porque não se torna um doutor a sério?” perguntou-lhe ela. “Mas eu sou um doutor. Não sou médico, mas sou doutor.” “Que espécie de doutor?” “Doutor de filosofia.” Apesar de não fazer a mínima ideia do que isso significava, ela sentia que devia ser muito importante. “Oh, mas onde é que foi buscar uma cabeça dessas?”, dizia-lhe ela.
Uma noite, depois de Dobbe lhe ter um copo de leite com bolachas, ele começou a fazer-lhe perguntas: de onde tinha vindo; quem eram os seus pais; e porque não se tinha casado. Dobbe ficou surpresa. Nunca ninguém lhe perguntara estas coisas. Ela contou-lhe a sua história em voz baixa e ficou até às onze da noite. O seu pai fora moço de fretes num talho kosher. A mãe depenara galinhas num matadouro. A família viveu numa cave do número 19 da Rua do Mercado. Quando ela tinha dez anos começara a trabalhar como criada. O seu patrão era um receptador que comprava mercadoria roubada aos ladrões na praça. Dobbe tinha um irmão que foi para o exército russo e nunca mais voltou. A irmã casara com um cocheiro de Praga e morrera ao dar à luz. Dobbe contou as batalhas entre o submundo e os revolucionários em 1905; falou-lhe do cego Itche e da sua quadrilha e de como eles cobravam dinheiro aos comerciantes em troca de protecção, dos criminosos que atacavam rapazes e raparigas que passeavam nas tardes de sábado se não lhes dessem dinheiro. Falou também de proxenetas que vagueavam pelas ruas em carroças raptando moças novas para serem vendidas em Buenos Aires. Dobbe jurou até que um homem a tentou seduzir a entrar num bordel, mas que ela conseguiu fugir. Queixou-se de milhares de males de que tinha sido vítima. Tinha sido roubada; tinham-lhe roubado o namorado; uma vendedora sua inimiga vazara um dia gasolina na sua cesta de pão; o seu próprio primo, o sapateiro, tinha-a feito perder uma centena de rublos antes de partir para a América. O Dr. Fischelson ouvia atentamente. Fazia-lhe perguntas, abanava a cabeça, suspirava.
“Bem, acreditas em Deus?” perguntou ele finalmente.
“Não sei”, respondeu ela. “E você acredita?”
“Sim, acredito.”
“Então porque não vai à sinagoga?” perguntou ela.
“Deus está em todo o lado. Na sinagoga. No mercado. Neste mesmo quarto. Nós próprios fazemos parte de Deus”, respondeu ele.
“Não diga essas coisas que me assusta”, disse Dobbe.
Ela saiu do quarto e o Dr. Fischelson ficou com a certeza que ela se tinha ido deitar. Mas ficou sem perceber porque não tinha ela dito “boa noite.” “Assustei-a com a minha filosofia”, pensou ele. Momentos depois ouviu-lhe os passos. Ele entrou no quarto carregando uma pilha de roupa, como se fosse uma vendedora ambulante.
“Queria-lhe mostrar isto. É o meu enxoval”, disse ela. E começou a desdobrar vestidos sobre a cadeira – de lã, de seda, de veludo. Tirando um vestido de cada vez, ela segurava-os contra o seu corpo. Mostrou-lhe tudo o que tinha no enxoval – roupa interior, sapatos, meias.
“Não sou gastadora. Sou muito poupada. Tenho dinheiro suficiente para ir para a América”, disse-lhe ela.
Depois fez-se silêncio e a sua cara ficou vermelha como um tijolo. Ela olhou para o Dr. Fischelson pelo canto do olho, tímida, curiosa. O corpo do Dr. Fischelson começou a tremer como se ele tivesse febre. “Muito bonito… coisas muito bonitas”, disse ele. Com as sobrancelhas arqueadas, puxou pela barba com dois dedos. Um sorriso triste apoderou-se da sua boca desdentada e os seus grandes olhos agitados, olhando à distância através da janela do sótão, sorriam também melancolicamente.

(continua…)

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