Archive for the 'Opinião & Comentário' Category

Petição pela restituição da nacionalidade portuguesa aos judeus sefarditas portugueses

Os judeus sefarditas foram expulsos de Portugal ou forçados ao exílio a partir das perseguições de finais do século XV, continuando a considerar-se e a referir-se a si mesmos como “judeus portugueses” ou “judeus da Nação portuguesa”.

Presentemente, constituem um grupo pequeno, tendo alguns membros cidadania israelita, sendo que a maioria vive no Brasil na maior parte do tempo e correspondendo quase todos a indivíduos com educação de nível superior, em geral profissionais liberais e que, na maioria, falam mais do que o português.

Há muitos judeus sefarditas que aspiram a recuperar a nacionalidade portuguesa, de que se encontram privados mercê da expulsão e/ou exílio forçado dos seus antepassados.

A Espanha – que fez expulsões similares às ocorridas em Portugal – já adoptou legislação, desde 1982, que permite a naturalização dos judeus sefarditas de origem espanhola ao fim de dois anos de residência em Espanha, à semelhança da norma aplicável a um conjunto limitidado de origens específicas. E, em 2008, adoptou a possibilidade por “carta de natureza” e atribuiu a nacionalidade espanhola, independentemente de residência, a judeus sefarditas, mercê unicamente de um conjunto de indicadores objectivos (apelidos, idioma familiar) e competente certificação pelo rabino da comunidade.

Os judeus sefarditas interessados em recuperar a nacionalidade portuguesa sublinham que outros países, como a Grécia, já adoptaram legislação de reaquisição de nacionalidade por judeus expulsos e seus descendentes e que a própria Alemanha o fez, face à tragédia mais recente.

Portugal é dos poucos países, senão o único, que não dispõe de normas para reaquisição de nacionalidade pelos descendentes de judeus expulsos.

Assim sendo, nós, cidadãos portugueses, através dos signatários desta petição, vimos solicitar perante os Poderes constituídos da República Portuguesa , a restituição da nacionalidade portuguesa aos judeus sefarditas portugueses.

Clique aqui para assinar a petição


O pintor Baruch Lopes de Leão Laguna, judeu de ascendência portuguesa, considerado um dos mais representativos retratistas dos finais do século XIX e da primeira metade do século XX, foi assassinado pelos nazis em Auschwitz, a 19 de Novembro de 1943. A nacionalidade portuguesa podia ter-lhe salvo a vida.

::A LER:: Um pintor “português” morto em Auschwitz / Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

Porque hoje vai ser um dia histórico…


.::PARA OUVIR::.

Democracy, Leonard Cohen.

Obama e Israel III


Israelis4Obama from www.JCER.info on Vimeo.

Obama e Israel II


Retired Generals of the Israeli Defense Forces and high-ranking Mossad officials on Barack Obama… from www.JCER.info on Vimeo.

O mundo permanece em silêncio III

Mas é o Mundo que paga…


Neste terceiro e último ensaio da série publicada originalmente no Ma’ariv — e traduzida aqui na Rua da Judiaria [ver O Mundo Permanece em Silêncio e O Mundo Permanece em Silêncio II (Os Refugiados)] — Ben-Dror Yemini examina o fluxo de ajuda financeira e humanitária canalizado para a Autoridade Palestiniana.
Com a acutilância que marcou os dois primeiros textos, Yemini recorre a números oficiais e relatórios internacionais para traçar um retrato da situação económica e do nível de vida dos palestinianos. Mais uma vez, tal como nos dois artigos anteriores, este texto é fundamental para colocar o conflito israelo-palestiniano em perspectiva — algo que manifestamente se encontra ausente da narrativa unilateral e polarizada que vai dominando os media.

um artigo de Ben Dror Yemeni

Segundo a opinião pública mundial, os palestinianos são o povo mais desgraçado do planeta. O mais oprimido da terra. Eles são uma nação que incorpora uma parte substantiva da imagem de vítima. Inúmeras publicações abordam esta miséria, esta pobreza, escrevem sobre o estatuto de refugiado que permanece inalterado há décadas. Mas, também aqui, a relação entre os factos e a propaganda é menor que nada.
No primeiro artigo desta série, O Mundo Permanece em Silêncio, abordámos o assassínio em massa que árabes, principalmente muçulmanos, cometem contra muçulmanos e árabes, comparando com os números relativamente baixos de árabes, em geral, e palestinianos, em particular, mortos no quadro da disputa com Israel. O segundo artigo da série, O Mundo Permanece em Silêncio II: Os Refugiados, analisou a manipulação do problema dos refugiados palestinianos: apesar de quase 40 milhões de pessoas terem sofrido com permutas populacionais realizadas com o propósito de criar estados com identidades nacionais, étnicas ou religiosas, apenas os palestinianos, de entre todas essas dezenas de milhões, permanecem como refugiados.
Este terceiro artigo irá examinar agora o mito da miséria palestiniana. Os palestinianos estão, de facto, em má situação. Ninguém disputará isto. A questão reside em perceber se isso é produto de danos causados pelos próprios e pelos quais os palestinianos são responsáveis, ou se é apenas fruto do sofrimento provocado por Israel e pelos Estados Unidos.
O mito, que é cultivado pelas “forças progressistas”, afirma que, naturalmente, os Estados Unidos são a raiz de todo o mal. Não só possuem uma “política desequilibrada”, como são o opressor das legítimas aspirações do povo palestiniano. E Israel, claro, agudiza a opressão geral. Será mesmo assim?
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“Ken anu yecholim”* — Obama, os judeus e Israel

Horas depois de ter assegurado a nomeação do Partido Democrata para a Presidência dos Estados Unidos, o senador Barack Obama discursou, em Washington D.C., perante a conferência anual do American Israel Public Affairs Committee.
Seguem alguns excertos:

Apercebi-me da história de Israel pela primeira vez quando tinha 11 anos. Aprendi acerca da longa jornada e da constante determinação do povo judeu em preservar a sua identidade através da fé, da família e da cultura. Ano após ano, século após século, os judeus preservaram as suas tradições, e o seu sonho de uma pátria, perante impossíveis contrariedades.
A história impressionou-me de forma profunda e poderosa. Eu crescera sem noção de raízes. O meu pai era negro, natural do Quénia, e deixou-nos quando eu tinha dois anos. A minha mãe era branca, nascera no Kansas, e eu mudei-me com ela para a Indonésia e depois para o Havaí. Durante muitos anos, eu não sabia de onde vinha. Por isso era atraia-me a ideia de que se podia sustentar uma identidade espiritual, emocional e cultural. E compreendi profundamente o ideal sionista de que há sempre uma pátria no centro da nossa história. (…)
Aprendi também acerca dos horrores do Holocausto e da terrível urgência que trouxe à jornada de retorno à pátria de Israel. Durante a maior parte da minha infância vivi com os meus avós. O meu avô combateu na Segunda Guerra Mundial, tal como o meu tio-avô. Ele era um rapaz do Kansas, que provavelmente nunca esperara ver a Europa — quanto mais os horrores que lá o esperavam. E durante meses depois de ter vindo da Alemanha, ele permaneceu em estado de coque, sozinho com as dolorosas memórias que não o abandonavam.
É que o meu avô pertencia à 89ª Divisão de Infantaria — os primeiros soldados americanos a chegarem a um campo de concentração nazi. Eles libertaram Ohrdruf, parte do campo de concentração de Buchenwald num dia de Abril de 1945. Os horrores desse campo vão muito além da nossa capacidade para os imaginar. Dezenas de milhares morreram de fome, tortura, doença, ou simplesmente assassinados — parte da máquina de morte nazi que matou seis milhões de pessoas.
Quando os americanos ali entraram, descobriram pilhas de cadáveres e sobreviventes famintos. O general Eisenhower ordenou que os alemães residentes nas terras vizinhas visitassem o campo, para que podessem ver o que tinha sido perpetrado em seu nome. Ordenou que os soldados americanos visitassem os campos, para poderem aperceber-se porque combatiam. Convidou congressistas e jornalistas para testemunharem. Ordenou que se tirassem fotografias e se filmasse. Explicando as suas acções, Eisenhower disse que queria produzir “testemunhos em primeira mão para evitar que no futuro haja alguma tendência para se dizer que isto tudo não passa de propaganda.”
Vi algumas destas imagens no Yad Vashem, e elas nunca nos deixam. E essas imagens apenas aludem levemente às histórias que os sobreviventes do shoa carregam consigo. Tal como Eisenhower, cada um de nós testemunha a tudo e todos que quiserem negar estes crimes sem nome, ou que fale em os repetir. Temos de querer dizer o que dizemos quando afirmamos: ‘nunca mais’.
Foi apenas alguns anos depois da libertação destes campos que David Ben-Gurion declarou a fundação do Estado Judaico de Israel. Sabemos que o estabelecimento de Israel foi justo e necessário, enraizado em séculos de luta e décadas de paciente labor. Mas 60 anos depois, sabemos que não podemos baixar os braços, não podemos capitular, e enquanto Presidente nunca irei ceder quando se tratar da segurança de Israel. (…)
Tal como qualquer israelita nos dirá, Israel não é um país perfeito mas, tal como os Estados Unidos, dá um exemplo a todos quando busca um futuro mais perfeito. (…) Porque há um empenho incrustado na fé e tradição judaicas: no sentido da liberdade e da lealdade; no sentido da justiça social e da igualdade de oportunidades. No sentido de tikkun olam — a obrigação de reparar o mundo.
Nunca esquecerei que não estaria aqui hoje se não fosse esse empenho. Nos grandes movimentos sociais da história do nosso país judeus e afro-americanos estiveram sempre ombro com ombro. Juntos apanharam autocarros rumo ao Sul. Marcharam juntos. Sangraram juntos. Judeus americanos como Andrew Goodman e Michael Schwerner estiveram dispostos a morrer ao lado de um homem negro — James Chaney — em nome da liberdade e da igualdade.
Vocês e eu sabemos que temos de fazer mais do que simplesmente ficar quietos. Agora é tempo de ficar vigilante e encarar todos os adversários, à medida que avançamos na busca de um futuro de paz para Israel e para todos. Agora é tempo de apoiar Israel neste novo capítulo da sua extraordinária jornada. Agora é tempo de nos juntarmos na tarefa de reparar o mundo.

.::PARA VER::.

.::PARA LER::.
Barack Obama Addresses AIPAC Conference
(texto integral do discurso)


*
Sim, podemos, em hebraico. Um dos lemas da campanha presidencial de Barack Obama.

O que Israel representa para mim

Por David Mamet, em Nova Iorque
(ver 60 anos de Israel na Rua da Judiaria)

Noam Chomsky foi entrevistado na edição do Verão de 2004 da revista Heeb.

Heeb — E os recentes incidentes na Europa e no mundo árabe? É necessário fazer grandes acrobacias de lógica para afirmar que não são incidentes antissemitas…

Chomsky — Na Europa existe uma larga população muçulmana, e grande parte dela é conduzida ao islamismo fundamentalista. Demonstram ódio em relação aos judeus que é um reflexo das acções israelitas. Quer dizer, se alguém conduz uma brutal e malévola ocupação militar durante 35 anos… isso tem de ter consequências. Por vezes as consequências podem ser bastante feias e, entre elas, contam-se o incendiar de sinagogas em França. Sim, é antissemitismo, mas Israel insiste. Recorde-se que Israel não se intitula o país dos seus cidadãos. O Supremo Tribunal de Israel decretou à 40 anos que Israel é o Estado soberano do povo judeu, em Israel e na diáspora.

Na verdade, como o Estado judaico se auto-proclamou a pátria de todos os judeus, dentro das suas fronteira e na diáspora, para os judeus da diáspora tudo o que não seja a denúncia disto enquanto uma usurpação dos seus direitos pessoais, dos seus direitos enquanto cidadãos indiferenciados, é equivalente à aprovação do que o senhor Chomsky encara como uma aventura criminosa (o Estado de Israel). O senhor Chomsky, ele próprio um judeu, não reconhece a Israel o direito de existir; reconhece, no entanto, como moralmente vinculativos os pronunciamentos deste Estado fantasma. Vinculativos sobre quem? Sobre os membros do grupo religioso predominante nesse Estado.
Estes judeus da diáspora, é preciso notar, residem em países cujo direito à existência o senhor Chomsky reconhece. Por exemplo a França.
A França, enquanto nação soberana tem, então, o direito, que Israel não pode ter, de proteger os seus cidadãos. Este direito, no entanto, e na visão do senhor Chomsky, não é extensível aos judeus franceses — uma vez que o seu direito de viver em paz terá sido, de alguma forma, anulado pelas acções de outro Estado.
Vários países muçulmanos, como a Síria e os palestinianos, têm, como substância de religião e de doutrina política, expressado a sua intenção de destruir os judeus israelitas. Esta intenção não é uma adenda de uma disputa territorial, mas uma componente essencial do seu regime — este ódio não pode ser mitigado por concessões, negociações ou sequer por capitulação; pode apenas ser assegurado pelo sangue.
O senhor Chomsky parece não objectar a estes incitamentos ao genocídio, nem alarga ele o mesmo padrão de culpa extraterritorial à diáspora muçulmana.
Os Estados Unidos, no rescaldo do 11 de Setembro, têm tomado providências (podem ser insuficientes mas são matéria de política nacional) no sentido de proteger os direitos dos árabes-americanos, não vá uma população ignorante e assustada voltar-se contra inocentes por causa de meros laços de raça ou religião com os criminosos.
Esta parece ser a mais básica operação de justiça e humanidade — apoiar a vingança contra inocentes com base em raça ou religião é visto aqui simplesmente como uma criminosa obscenidade. O senhor Chomsky, no entanto, acha por bem compreender e aplaudir acções deste género, desde que elas tenham judeus como alvo.
Isto é antissemitismo — é ódio racial e incitamento ao assassínio.
É uma vergonha que o senhor Chomsky utilize uma capa de respeitabilidade, que ocupe a posição de “intelectual” e que continue a confundir e perverter os jovens com esta nojice. Tolerar esta vergonha é parte do preço de viver numa sociedade livre.
Israel é uma sociedade livre. Os direitos das suas minorias, dos seu oprimidos e mesmo dos seus criminosos estão protegidos. O senhor Chomsky seria livre de pronunciar estas baboseiras em Israel, tal como o é nos Estados Unidos.
Se ele se mudasse para um país do mundo árabe, seria perseguido pelo simples facto de ser judeu (tal como o poderia ser também em França).
E se ele fosse perseguido, Deus queira que não, poderia refugiar-se em Israel, ao abrigo da Lei do Retorno.
É isto que Israel representa para mim.

Os limites do internacionalismo

Um texto de Amitai Etzioni

Numa reacção à falência do unilateralismo da Administração Bush, o internacionalismo está novamente em voga. E para relembrar como funcionam as Nações Unidas, a organização internacional por excelência, basta ver a forma como recentemente abordou o chamado “discurso de ódio”.
O Conselho dos Direitos Humanos da ONU acabou de condenar de forma inequívoca um filme feito por Geert Wilders, um político holandês de extrema-direita, no qual ataca violentamente o Islão. O governo holandês fez tudo ao seu alcance para impedir o lançamento do filme. Nenhum canal de televisão da Holanda — ou de qualquer outro país — o quis transmitir. O que, por sinal, levanta sérias questões em relação à liberdade de expressão. Finalmente, o filme seria colocado online no site britânico liveleak.com. Como reacção, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução lamentando a utilização dos media “para incitar actos de violência, xenofobia ou intolerância e discriminação contra o Islão” ou outras religiões.
Entretanto, a Al-Aksa, uma estação de televisão do Hamas, continua as suas transmissões ininterruptas para as pessoas de Gaza. A programação desta estação glorifica frequentemente os bombistas suicidas, os responsáveis pelo lançamento de morteiros Qassam e apela à destruição do Estado de Israel. Nesta estação, até os programas para crianças promovem o ódio contra o povo judeu — incluindo repetidas acusações de que os judeus usam o sangue de outros nos seus rituais e que foram eles os responsáveis pelos atentados ao World Trade Center.
Repare-se que ao contrário do filme holandês, feito por um único indivíduo, a Al-Aksa é produto do esforço organizado de um movimento inteiro e do governo de Gaza, apostado em emitir tudo isto regularmente para milhares de crianças e jovens. Mas, mesmo assim, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU não encontra aqui nada que o preocupe.
Deixem-me primeiro dizer que o povo palestiniano têm bastante com que se preocupar, e que a situação em Gaza é horrível. No entanto, nenhuma destas preocupações — que devem ser atendidas o mais depressa possível — será servida se o Hamas continuar a exigir a destruição de Israel, ensinando aos seus jovens seguidores que odeiem cegamente os judeus.
Eu próprio apontei a importância crescente das Nações Unidas como uma força principal na determinação do que a comunidade internacional considera legítimo. A ONU desempenhou um papel importante na classificação de quando a invasão a um país é legítima (como no Kuwait) e quando não é (como no Iraque de Saddam). As suas agências sociais ajudam com frequência pessoas por todo o mundo.
No entanto, se a ONU quiser tornar-se uma parte ainda mais importante da nova arquitectura global, tem de se ofender mais por causa de actos de violência e menos com liberdade de expressão (quer pode chegar a ser ofensiva e revoltante) e ser, acima de tudo, muito mais imparcial. Ódio difundido contra os judeus não é melhor nem mais aceitável do que aquele dirigido contra os muçulmanos.

Este texto foi originalmente publicado em inglês, na semana passada, (ver The Limits of Internationalism) pelo professor Amitai Etzioni.

.::A VER::. Al-Aksa TV Child TV Host of Hamas Mickey Mouse Saraa Barhoum, Sings / Hamas Rabbit: Eat the Danes! / Hamas Bunny, Assud, Replaces His “Martyred” Brother Nahoul / Kindergarten Graduation Ceremony in Gaza on Hamas TV / Hamas Indoctrinating Toddlers / Hamas Cleric: We will Conquer Rome / Hamas: “We love Death More Then Life!”.
O Conselho de Direitos humanos da ONU: UN Human Rights Council: Defeating Freedom of Expression

A coragem de Mona

Mona Eltahawy é uma mulher de imensa coragem. Jornalista muçulmana, nascida no Egipto, Mona vive actualmente em Nova Iorque, de onde escreve com uma lucidez irrepreensível. Um dos seus últimos artigos, Our Own Worst Enemy, defende a necessidade absoluta dos líderes islâmicos olharem para si próprios em vez culparem Israel e o Ocidente por todas as suas desgraças. O bombismo suicida durante décadas floresceu como táctica preferencial do terror palestiniano contra civis israelitas, com a complacência do mundo islâmico — que além de nunca ter condenado o terror suicida, o incentivou elevando-o à categoria de “martírio”. Agora, numa imensa ironia pregada pelo destino, como nota Mona Eltahawy, os bombistas suicidas transformaram-se na “arma preferida para ajustar contas entre muçulmanos, em países muçulmanos”, no Afeganistão, no Paquistão e no Iraque.
Neste seu artigo (e noutros) Mona Eltahawy dá voz a uma reflexão introspectiva absolutamente fundamental que tem de acontecer na sociedade muçulmana. Para seu próprio benefício. E para o bem de todos nós.

::A LER:: Our Own Worst Enemy — by Mona Eltahawy / O Mundo Permanece em Silêncio, uma notável análise sobre o genocídio dos árabes praticado pelos árabes assinado por Ben-Dror Yemini.

O “socialismo dos tolos”

Um glorioso choque cultural que recentemente aconteceu no Irão fez-me rir em voz alta. Os filhos de Che Guevara, o pin-up revolucionário, foram convidados à Universidade de Teerão para comemorar o 40º aniversário da morte de seu pai e para celebrar a crescente solidariedade entre “e esquerda e o Islão revolucionário”, participando numa conferência parcialmente custeada pelo Presidente venezuelano Hugo Chávez.
Houve saudações fraternais e sorrisos gerais à medida que eram denunciadas “as ambições planetárias devoradoras” da América. Mas foi então que um dos oradores, Hajj Saeed Qassemi, o coordenador da Associação dos Voluntários Mártires-Suicidas (que presumivelmente se mantém vivo desinteressadamente em nome da causa), revelou que Che era “um homem verdadeiramente religioso que acreditava em Deus e que odiava o comunismo e a União Soviética”.
Aleida, a filha de Che, interrogou-se se algo se teria perdido na tradução. “O meu pai nunca mencionou Deus”, disse ela, para consternação da assistência. “Ele nunca conheceu Deus”. Na confusão, Aleida e o irmão foram rapidamente acompanhados à saída e escoltados para o hotel. “No fim do dia, os dois Gueveras tinham-se tornado ‘não-pessoas’. A Imprensa controlada pelo Estado subitamente esqueceu a sua existência”, registou o escritor iraniano Amir Taheri.
Depois da sua partida, Qassemi prosseguiu afirmando que Fidel Castro, o “guia supremo” de Che Guevara, era também um homem de Deus. “A União Soviética acabou”, disse ele. “A liderança dos oprimidos passou para a nossa república islâmica. Aqueles que querem destruir a América têm de perceber isto e deixar-se de jogos de palavras.”

Este texto é o princípio de um artigo assinado por Sarah Baxter no Sunday Times de Londres, onde são analisadas as irreflectidas e afectuosas relações entre a esquerda “revolucionária” ocidental e o fundamentalismo islâmico. O texto pode ser lido na integra aqui: Times Online – Where do you stand in the new culture wars?
Mas sintomático é também o facto dos emblemáticos filhos de Guevara (e Hugo Chaves, Daniel Ortega e Evo Morales antes deles) nem terem pensado duas vezes em associar-se à figura sinistra de Ahmadinejad – o testa de ferro de um regime que demanda o extermínio dos judeus, persegue minorias étnicas e religiosas no seu território (ver Iran: Death penalty/ stoning - Amnesty International e Murder with Impunity: Iran targets the Baha’i - again); executa comunistas e homossexuais (ver Report: Iran Gay Teens Executed ; Iran: Two More Executions for Homosexual Conduct - Human Rights Watch)… e nos últimos tempos, após a infame “conferência” para negar a veracidade do Holocausto, se tornou a “luz” que ilumina as cabeças (algumas rapadas) de energúmenos neo-nazis.

Outro exemplo dessa estranha relação simbiótica, entre movimentos que racionalmente seriam naturalmente opostos, é o encontro que reúne anualmente, no Cairo, esquerdistas revolucionários europeus (a esmagadora maioria dos quais “ateus, laicos e republicanos”) e membros da Irmandade Islâmica, uma organização cujo lema é: “Alá é o nosso objectivo. O Profeta o nosso líder. O Corão a nossa lei. Jihad é o nosso caminho. Morrer pelo caminho de Alá é a nossa maior esperança.” O programa da próxima reunião, agendada para Maio de 2008, dispensa comentários e foi recentemente publicado na outrora respeitada revista marxista Monthly Review e pode ser lido aqui: “Resistance Movements Unite! Cairo International Conference and Liberation Forum”.
Unidos por ideais comuns de um anti-americanismo e de um antisemitismo primários, o fanatismo religioso e aqueles que sopram as últimas cinzas do materialismo dialéctico vão encontrado terreno comum naquilo que, nos finais do séc. XIX, August Bebel chamou “o socialismo dos tolos”.

::PARA LER:: Where do you stand in the new culture wars? - Times Online / Gulfnews: ‘Che like Chamran’ is a paradox / Islamist, Socialist Revolutions Don’t Mix / Guevera kids in Tehran: ‘Che would have supported Iran’ - Deutsche Presse-Agentur / Tehran Times: Children of Che Guevara meet Iran’s culture minister

::PARA VER:: YouTube - Chavez in Al Jazeera / YouTube - No gays in Iran, says Ahmadinejad / YouTube – Columbia University President Bollinger Introduces Ahmadinejad

É um Progressista da treta?


Um questionário do The Sunday Times, de Londres

1 – É permitido aos muçulmanos ser homófobos por causa da sua cultura?
2 – Devem ser punidos por lei os casamentos celebrados contra a vontade das mulheres?
3 – É aceitável exigir que as mulheres usem véus?
4 – É o antisemitismo uma reposta legítima à frustração com as políticas dos Estados Unidos e de Israel?
5 – Deve permitir-se que o regime iraniano de Ahmadinejad adquira a bomba nuclear?
6 – Pode ser-se um defensor do povo mesmo que o povo não possa eleger outra pessoa?
7 – Existem ocasiões em que prisioneiros políticos podem ser justificados?
8 – É a al-Qaeda uma organização legítima de resistência no Iraque?
9 – É Ayaan Hirsi Ali demasiado crítica em relação ao Islão?
10 – Devia o Governo Holandês retirar a sua [a Ayaan Hirsi Ali] segurança no estrangeiro?
11 – Deveria Salman Rushdie ter escrito sobre o Corão da forma que o fez em “Versículos Satânicos”?
12 – São a liberdade de expressão, a liberdade de associação e a liberdade religiosa (ou ateística) direitos humanos universais?
13 – É uma tradição cultural aceitável apelar à morte das pessoas que abandonam uma religião?
14 – É aceitável interditar a entrada em lugares sagrados a membros de outras religiões, como acontece em Meca?
15 – Podem os “crimes de honra” ou a mutilação genital de mulheres ser colocados num “contexto cultural”?
16 – É aceitável apelar à morte de cartunistas porque não se acha piada aos seus cartoons?

Respostas – 1)não; 2)sim; 3)não; 4)não; 5)não; 6)não; 7)não; 8)não; 9)não; 10)não; 11)sim; 12)sim; 13)não; 14)não; 15)não; 16)não – Se acertou na maioria das respostas, parabéns! É progressista a sério. Se falhou a maioria das respostas… então é um progressista da treta.

Original: Are you a phoney liberal? - Times Online (formato pdf)

O terrorismo dos “meninos nazis”

O país vai de carrinho
Vai de carrinho o país
Os falcões das avenidas
São os meninos nazis (…)

Assim começava a canção de Zeca Afonso que me saltou à memória no exacto momento em que li a notícia de que o cemitério Judaico de Lisboa tinha sido profanado por dois neonazis. Pelo menos 17 túmulos foram destruídos, lápides gravadas com cruzes suásticas. No final, para cúmulo da violação, li que os dois defecaram e espalharam excrementos pelas campas. Os jornais contam ter-se provavelmente tratado de uma “cerimónia de iniciação” de um dos criminosos implicados. Honestamente, acredito que a profanação do cemitério judaico de Lisboa foi um acto de terrorismo.
A resolução 51/210 da Assembleia Geral das Nações Unidas define “terrorismo” como um “acto criminoso destinado ou calculado para provocar um estado de terror junto do público em general ou de um grupo específico de pessoas”. A mesma resolução afirma serem os actos terroristas “injustificáveis em qualquer circunstância, quaisquer que sejam as considerações políticas, filosóficas, ideológicas, raciais, étnicas, religiosas”.
A intenção primária e única deste acto de barbárie, racismo e antisemitismo é espalhar o terror, o receio e o medo por entre os judeus portugueses.
O historial de violência, assassínios, agressões, ameaças e destruição perpetrados por este grupo de gente contribuem para enquadrar as suas acções entre os parâmetros delineados pela definição de terrorismo pela Lei Internacional. Tudo isto seria mais do que suficientes para que a Justiça portuguesa funcione desta vez.
Um olhar transversal pela História faz-nos ver que o antisemitismo, e os ataques a judeus e símbolos judaicos pelo simples facto de serem judeus, são inevitavelmente um prelúdio para uma generalização da violência. Os judeus, neste caso, funcionam como “balões de ensaio” numa sociedade insensível ao seu sofrimento. São as primeiras vítimas. Foi assim na Idade Média (ver Rua da Judiaria: “Como elRei mandou degollar dous seus criados, porque roubarom huum judeu e o matarom”); foi assim com a Inquisição; foi assim na Segunda Guerra Mundial; foi assim com os atentados suicidas terroristas da intifada
Mas nem aqui os “meninos nazis” portugueses são originais. Numa pesquisa rápida, encontra-se um número considerável de notícias relacionadas com profanações de cemitérios judaicos ocorridas um pouco por todo o mundo nas últimas semanas: Jewish cemetery vandalized in Siberian city - International Herald Tribune / Jewish cemetery vandalism suspect free on personal recognizance - Boston.com / Neo-Nazi Activity Spreading Around the World - Arutz Sheva / French court hands down 30-month prison term to vandal of Jewish cemetery - International Herald Tribune / Hevron Cemetery Desecrated Over Sabbath - Arutz Sheva / 2 arrested in West Side cemetery vandalism.
No meio de todo este hediondo cenário, e navegando as hiperligações dos jornais online, confesso, sorri ao deparar com o nome de um dos “meninos nazis”, um tal Pedro Isaque. Sim, um neonazi chamado Isaque… um admirador do terceiro reich que tem o nome de um dos patriarcas do judaísmo – justiça poética, na sua melhor acepção (ver Correio da Manhã: Líder skin fica preso, de 21/09/2007; e, já agora, Wikipédia – Isaac / Isaque).
Tudo isto me fez de novo pensar na imensa ironia sobre a qual já antes aqui escrevera, a propósito da origem judaica do sobrenome Machado, ostentado pelo neonazi Mário (ver “ultimo parágrafo do texto Os media e o “crime” ).
Mas esta gente nada sabe da História do seu país e da “raça” que diz ser a sua… Quando foram forçados a converter-se ao Catolicismo sob pena de morte, em 1497, o número de judeus portugueses cifrava-se em cerca de 200 mil. Isto num total de pouco mais de um milhão de portugueses fazia com que os judeus constituíssem mais de 20 porcento da população nacional na época (ver The Virtual Jewish History Tour - Portugal).
A conversão forçada não só os impele para a “clandestinidade” como inicia um processo de miscigenação que viria a ser reforçado quando, a 25 de Maio de 1773, o Marquês de Pombal acaba com a “limpeza de sangue”, manda destruir os registos e cadastros dos “cristãos novos” e ordena que famílias nobres, até então orgulhosas da sua “pureza de raça”, organizem casamentos com os descendentes dos judeus convertidos à força nos finais do século XV.
Depois de todas estas “aventuras do sangue”, como lhes chamou Jorge Luis Borges – ele próprio um descendente desses judeus portugueses convertidos à força –, será que existe algum português, um único que seja, que continue a dizer-se livre do sangue da semente de Abraão? Será que existe algum que queira apostar tudo nessa “pureza”? Que aceitem então um desafio, esses “meninos nazis”: que façam um teste de ADN, sim, porque o ácido desoxirribonucleico não mente e a ciência faz com que o código genético seja hoje tão transparente quanto a água. E bastante acessível… (aqui, por exemplo: Family Tree DNA - we do genetic tests for your genealogy questions!)
E se porventura o teste lhes demonstrar que a sua “raça portuguesa” não é assim tão pura quanto pensavam; que, em vez de traços de Viriato Lusitano, são feitos de mesclas das gentes de África e do Médio Oriente; que, em vez de nórdico ou “ariano”, o sangue que lhes corre nas veias é idêntico ao dos judeus, que odeiam, ou dos negros, que desprezam; se for este o resultado do teste de ADN, que farão eles?
A resposta racional, obviamente, levaria ao repensar de ódios e preconceitos. Forçaria a humanização da besta. Mas de nada vale acalentar esperanças. Mesmo perante todas as provas cientificas e racionais, a irracionalidade do ódio prevaleceria. A verdade é que esta gente nada tem de racional. Como escreveu Jonathan Swift: “É inútil tentar fazer um homem abandonar pelo raciocínio algo que não adquiriu pela razão.”
Quanto a nós, judeus, resta-nos fazer aquilo que mais os irrita; o que sempre fizemos, desde os tempos remotos da escravidão no Egipto ou de Nabucodonosor: sobreviver.

::A LER:: DN “Hoje somos todos judeus” / SOS Racismo denuncia terror nas escolas da margem sul do Tejo provocado por “skinheads”; - Lusa - SAPO Notícias / New York Times: In DNA, New Clues to Jewish Roots / Family Tree DNA - we do genetic tests for your genealogy questions! / Expresso: Skins vandalizam cemitério judeu / Juiz decidiu soltar os dois skinheads perigosos: ‘Lobo Nazi” em liberdade / Skinheads ameaçam magistrada do MP / Leis penais entram em vigor: 36 skinheads acusados / Investigação na Margem Sul: PS, PCP e BE na mira / Southern Poverty Law Center Report: Hammerskin Nation / ADL: Hammerskin Nation – Extremism in America

Relativismo moral e “A Mighty Heart”

Um artigo de Judea Pearl *


Angelina Jolie e Dan Futterman nos papéis de Marianne e Daniel Pearl

Acreditei em tempos que o mundo estava basicamente dividido entre dois tipos de pessoas: aqueles que eram de um modo geral tolerantes e os que se sentiam ameaçados pela diferença. Se as forças da tolerância conseguissem vencer as forças da intolerância, pensava eu, o mundo poderia finalmente conhecer alguma paz.
Mas havia um problema com a minha teoria, e nunca tal fora tão claro como numa conversa com um amigo paquistanês que me disse que abominava pessoas como o Presidente Bush, que insistia em dividir o mundo entre “nós” e “eles”. O meu amigo, é claro, tomava uma posição inocente contra a intolerância e não percebeu que, ao fazê-lo, ele próprio estava também a dividir o mundo entre “nós” e “eles”, caindo exactamente no campo das pessoas que dizia abominar.
Esta é a versão política de um famoso paradoxo formulado por Bertrand Russell em 1901, que na época abanou os alicerces lógicos das matemáticas. Qualquer pessoa que diz ser tolerante naturalmente se define a si própria em oposição àqueles que são intolerantes. Mas isso faz com que essa mesma pessoa seja intolerante em relação a certas pessoas – o que acaba por invalidar a afirmação de tolerância.
A lição política do paradoxo de Russell é que não existe tolerância absoluta. No fim de contas, é necessário poder ser intolerante em relação a certos grupos ou ideologias sem renunciar à superioridade moral normalmente ligada à tolerância e à inclusão. Deve-se, na verdade, condenar e resistir a doutrinas políticas que advogam o assassínio de inocentes, que minam as normas básicas da civilização, ou que tentam tornar impossível o pluralismo. Não pode haver equivalência moral entre aqueles que procuram – mesmo por vezes desajeitadamente – construir um mundo mais livre e tolerante, e aqueles que defendem a aniquilação de outras religiões, culturas ou estados.
Tudo isto vem a propósito do meu filho, Daniel Pearl. Graças à estreia do filme A Mighty Heart, o filme baseado no livro homónimo de Mariane Pearl, o legado de Danny está novamente a merecer atenção. É claro, nenhum filme poderia captar exactamente o que fazia de Danny uma pessoa especial – o seu sentido de humor, a sua integridade, o seu amor pela humanidade – ou por que razão ele era admirado por tantos. Para os jornalistas, Danny representa a coragem e a nobreza inerentes à sua profissão. Para os americanos, Danny é o símbolo de um dos melhores instintos nacionais: o desejo de estender uma mão de amizade e diálogo a gentes de terras distantes. E para quem tenha orgulho nas suas origens e na sua fé, as últimas palavras de Danny, “eu sou judeu”, mostraram que é possível encontrar dignidade na nossa identidade, mesmo nos momentos mais negros. Traços destas ideias são certamente evidentes em A Mighty Heart, e espero que os espectadores saiam dos cinemas sentindo-se inspirados por elas.
Ao mesmo tempo, preocupa-me que A Mighty Heart possa cair numa armadilha que Bertrand Russell teria reconhecido: o paradoxo da equivalência moral, da tentativa de esticar demasiado a lógica da tolerância. Podem ver-se traços desta lógica nas comparações feitas pelo filme entre o rapto de Danny e Guantánamo – o filme abre com imagens da prisão – e com as suas comparações entre os terroristas da al-Qaeda e os agentes da CIA. Podem ainda ler-se nos comentários do realizador do filme, Michael Winterbottom, que escreveu no site do Washington Post que A Mighty Heart e o seu filme anterior Road To Guantanamo eram “muito semelhantes. Ambos contam histórias de pessoas vítimas de um crescendo de violência de ambos os lados. Há extremistas em ambos os lados que pretendem aumentar o clima de violência e centenas de milhares de pessoas morreram por causa disso.”
Estabelecer comparações entre o assassínio de Danny e os suspeitos detidos em Guantánamo é precisamente o que os assassinos queriam, tal como o expressaram nos seus emails e no vídeo do assassínio. Obviamente, Winterbottom não quis fazer eco destes sentimentos, nem certamente justificar as suas exigências nem os seus actos. Mesmo assim, preocupa-me que aspectos deste filme possam fazer o jogo dos profissionais da ofuscação da clareza moral.
Na verdade, após um visionamento antecipado de A Mighty Heart, um representante do Council on American-Islamic Relations alegadamente afirmou: “Precisamos acabar com a cultura das bombas, da tortura, da ocupação e da violência. Esta é a mensagem que sobressai do filme.”
A mensagem passada a jovens inflamados é infeliz: Todas as formas de violência são más; então, enquanto uma persistir, as outras não podem ser postas de parte. Esta é precisamente a lógica utilizada por Mohammed Siddiqui Khan, um dos bombistas suicidas de Londres, na sua mensagem transmitida pela Al Jazeera. “O vosso governo democraticamente eleito”, disse ele aos seus compatriotas, “continua a perpetrar atrocidades contra o meu povo… nós não vamos parar.”
A tragédia de Danny exige um fim para esta lógica. Não pode haver comparações entre aqueles que têm orgulho em matar um jornalista desarmado e aqueles que fazem votos de acabar com actos semelhantes – sem apelo nem agravo. O relativismo moral morreu com Daniel Pearl, em Carachi, a 31 de Janeiro de 2002.
Tempos houve em que traçar simetrias morais entre dois lados de qualquer conflito era a marca d’água do pensamento original. Hoje, com os intelectuais ocidentais a traçarem equivalências de forma absurda e negligente, reflecte apenas um preguiçoso conformismo. O que é necessário agora aos intelectuais, realizadores de cinema e a todos nós é resistir a esta perigosa moda e traçar distinções legítimas sempre que essas distinções se justifiquem.
O meu filho Danny teve a coragem de examinar todos os lados. Ele era também um ouvinte atento e um campeão do diálogo. Mas ele tinha também princípios e linhas que não ultrapassava. Ele foi tolerante mas não o foi de forma irresponsável. Espero que os espectadores se lembrem disto quando forem ao cinema ver A Mighty Heart.


Marianne e Daniel Pearl na vida real

* Judea Pearl, matemático e professor universitário, é pai de Daniel Pearl, o jornalista do Wall Street Journal assassinado brutalmente pela al-Qaeda no Paquistão, em Janeiro de 2002. Este artigo foi publicado na edição impressa desta semana da revista The New Republic.
O filme, que está em fase de lançamento nos Estados Unidos, estreará em Portugal em meados de Setembro próximo.

Este Holocausto será diferente

um ensaio de Benny Morris

O segundo holocausto não será como o primeiro.
Os nazis industrializaram o massacre, claro. Mas, mesmo assim, eram obrigados a ter contacto com as vítimas. Antes de as matarem de forma efectiva, podem tê-las desumanizado nas suas mentes ao longo de meses e anos com recurso a humilhações terríveis, mas, mesmo assim, tinham com as suas vítimas um contacto visual e auditivo, e alguns mesmo táctil.
Os alemães, e os seus ajudantes não germânicos, tiveram de tirar de suas casas homens, mulheres e crianças; tiveram de os arrastar e de lhes bater pelas ruas e de os ceifar em bosques circundantes, ou empurrá-los para vagões de gado que comboios transportariam para campos, onde “o trabalho liberta”, separando os sãos dos completamente inúteis que colocavam sob “chuveiros”, matavam com gás e depois retiravam os corpos para a carrada que se seguia.
O segundo holocausto será bastante diferente. Numa radiante manhã, daqui a cinco ou dez anos, talvez durante uma crise regional, talvez sem qualquer motivo aparente, um dia ou um ano ou cinco anos após o Irão ter obtido a Bomba, os Mullahs de Qom reunirão numa sessão secreta, sob um retrato do Ayatollah Khomeini com olhar severo, e darão a luz verde ao presidente Mahmoud Ahmadinejad, então no seu segundo ou terceiro mandato.
As ordens serão dadas e mísseis Shihab III e IV serão lançados contra Tel Aviv, Bersheva, Haifa e Jerusalém e provavelmente contra alvos militares, incluindo meia dúzia de bases aéreas israelitas e (alegadas) bases de mísseis nucleares. Alguns dos Shihab terão ogivas nucleares. Outros serão meros engodos, carregados com agentes químicos e biológicos, ou simplesmente com jornais velhos, destinados a confundir as bateiras antimísseis israelitas.
Para um país com o tamanho e a forma de Israel (20 mil quilómetros quadrados alongados), provavelmente quatro ou cinco ataques serão suficientes. Adeus Israel. Um milhão ou mais de israelitas nas áreas metropolitanas de Jerusalém, Tel Aviv e Haifa morrerá imediatamente. Milhões sofrerão os graves efeitos da radiação. Israel tem cerca de sete milhões de habitantes. Nenhum iraniano irá ver ou tocar um único israelita. Tudo será bastante impessoal.
Alguns dos mortos inevitavelmente serão árabes – cerca de 1,3 milhões dos cidadãos de Israel são árabes e outros 3,5 milhões vive no território semi-ocupado da Cisjordânia [Judeia e Samaria] e na Faixa de Gaza. Jerusalém, Tel Aviv-Jaffa e Haifa possuem igualmente minorias árabes substanciais. Existem igualmente grandes concentrações de populações árabes em torno de Jerusalém (em Ramallah-Al Bireh, Bir Zeit, Bethlehem) e nos arredores de Haifa.
Aqui também, muitos morrerão, imediatamente ou aos poucos.
É duvidoso que um tão grande massacre de muçulmanos perturbe Ahmadinejad e os Mullahs. Os iranianos não gostam particularmente de árabes, especialmente de árabes sunitas, com quem têm guerreado intermitentemente desde há séculos. E eles têm um desprezo particular para com os (sunitas) palestinianos que, apesar de tudo, mesmo sendo inicialmente em número dez vezes mais do que os judeus, não conseguiram impedir durante o longo conflito que eles criassem o seu próprio estado ou controlassem toda a Palestina.
Além de tudo isso, a liderança iraniana encara a destruição de Israel como um supremo mandamento divino, tal como um sinal da segunda vinda, e as muitas vítimas colaterais muçulmanas serão sempre encaradas como mártires na nobre causa. De qualquer forma, os palestinianos, muitos deles dispersos por todo o mundo, sobreviverão enquanto povo, tal como o fará a grande Nação Árabe da qual fazem parte. E, com toda a certeza, para se livrarem do Estado judaico, os árabes estarão dispostos a fazer alguns sacrifícios. No saldo cósmico das coisas, valerá a pena.

UMA QUESTÃO pode mesmo assim levantar-se nos concílios iranianos: E Jerusalém? Afinal, a cidade alberga os terceiros mais sagrados lugares de culto do islamismo (depois de Meca e Medina): a mesquita de Al Aksa e a Mesquita de Omar. Mas Ali Khamenei, o líder espiritual supremo, e Ahmadinejad muito provavelmente responderiam da mesma forma que o fariam em relação à questão mais lata de destruir e poluir de forma radioactiva a Palestina inteira. A cidade, tal como a terra, pela graça de Deus, em 20 ou 30 anos irá recuperar. E será restaurada para o Islão (e para os árabes). E a outra poluição mais profunda terá sido erradicada.
A julgar pelas referências contínuas de Ahmadinejad à Palestina e à necessidade de destruir Israel, e à sua negação do primeiro Holocausto, ele é um homem obcecado. E partilha a obsessão com os Mullahs: todos eles criados sob os ensinamentos de Khomeini, um prolífico antisemita que frequentemente proferia sentenças contra “o pequeno satã”. A julgar pelo facto de Ahmadinejad ter organizado um concurso de cartoons sobre o Holocausto e uma conferência para negar o Holocausto, os ódios do presidente iraniano são profundos (e, claro, descarados).
Ele está disposto a pôr em jogo o futuro do Irão, ou mesmo o do Médio Oriente inteiro, em troca da destruição de Israel. Sem dúvida que ele acredita que Allah irá proteger o Irão, de alguma forma, de uma resposta nuclear israelita ou de uma contra-ofensiva americana. Mas, Allah à parte, ele pode muito bem acreditar que os seus mísseis pulverizarão o estado Judaico, destruindo a sua liderança e as suas bases nucleares terrestres, desmoralizando e confundindo de tal forma os comandantes dos seus submarinos nucleares que estes serão incapazes de responder. E, com o seu profundo desprezo pela indecisão frouxa do Ocidente, não levará a sério a ameaça de uma retaliação nuclear americana. Ou poderá muito bem achar, de uma forma irracional (para nós), que uma contra-ofensiva é um preço que está disposto a pagar. Tal como o seu mentor, Khomeini, disse num discurso em Qom em 1980: “Nós não adoramos o Irão, adoramos Allah… que esta terra [Irão] arda. Que esta terra desapareça em fumo desde que o Islão saia triunfante…”
Para estes adoradores do culto da morte, mesmo o sacrifício literal da pátria é aceitável se dai sair o fim de Israel.

O VICE-MINISTRO israelita da Defesa, Ephraim Sneh, sugeriu que o Irão nem sequer tem de utilizar a Bomba para destruir Israel. A simples nuclearização do Irão poderá intimidar e deprimir os israelitas de tal maneira que eles perderão a esperança, emigrando gradualmente; com investidores e imigrantes a evitarem o estado Judaico ameaçado de destruição. Conjugados, estes factores contribuiriam para o fim de Israel.
Mas sinto que Ahmadinejad e os seus aliados não têm a paciência necessária para esperar pelo lento desenrolar desta hipótese; eles procuram a aniquilação de Israel aqui e agora, no futuro imediato, durante as suas vidas. Eles não querem deixar nada à mercê dos vagos ventos da História.
Tal como durante o primeiro, o segundo holocausto será precedido por décadas de preparação de corações e mentes, tanto pelos líderes iranianos e árabes, como por intelectuais e órgãos de comunicação social ocidentais. Diferentes mensagens foram dirigidas a diferentes audiências, mas todas (de forma concreta) têm servido o mesmo objectivo – a demonização de Israel. Muçulmanos em todo o mundo têm sido ensinados que “os sionistas/judeus são a personificação do mal” e que “Israel tem de ser destruído.”
De forma mais subtil, o mundo ocidental foi ensinado que “Israel é um estado opressor racista” e que “Israel, nesta época de multiculturalismo, é um anacronismo supérfluo”. Gerações de muçulmanos, e pelo menos uma geração no Ocidente, têm sido criados com estes catecismos.

O CRESCENDO para o segundo Holocausto (que, curiosamente, irá provavelmente ter sensivelmente o mesmo número de vítimas que o primeiro) tem sido acompanhado por uma comunidade internacional fragmentada e conduzida pelos seus próprios apetites egoístas – a Rússia e a China obcecadas com os mercados muçulmanos; a França com o petróleo árabe; e os Estados Unidos, empurrados a um isolacionismo mais profundo pelo descalabro no Iraque. O Irão tem tido liberdade para prosseguir os seus sonhos nucleares, e Israel e o Irão foram deixados sós para se enfrentarem.
Mas Israel, basicamente isolada, não estará à altura da tarefa, tal como um coelho encadeado pelos faróis de um carro que corre contra ele. No Verão passado, liderado por um primeiro-ministro incompetente e por um sindicalista a fingir de ministro da Defesa, utilizando tropas treinadas para dominar gangues de palestiniano mal armados e pior treinados e demasiado preocupados em não sofrer ou infligir baixas, Israel falhou numa mini-guerra de 34 dias contra um pequeno exército de guerrilha financiado pelos iranianos (ainda que bem treinado e bem armado). Essa mini-guerra desmoralizou totalmente as lideranças política e militar de Israel.
Desde então, ministros e generais, tal como os seus homólogos ocidentais, limitam-se a observar taciturnamente à medida que os patronos do Hizbullah constróem os arsenais do Apocalipse. De forma perversa, os líderes israelitas podem até ter ficado satisfeitos com as pressões ocidentais a apelar à contenção. Muito provavelmente, eles querem acreditar de forma profunda nas garantias ocidentais de que alguém – a ONU, o G-8 – irá tirar do lume a batata quente radioactiva. Há mesmo quem tivesse acreditado na bizarra ideia de que uma mudança de regime em Teerão, conduzida por uma classe-média laica, acabaria por parar os loucos Mullahs.
Mas de forma ainda mais concreta, o programa iraniano apresentava um complexo desafio para um país com um número limitado de recursos militares tradicionais. Aprendendo com a experiência do sucesso da destruição pela Força Aérea israelita do reactor nuclear iraquiano de Osirak em 1981, os iranianos duplicaram e dispersaram as suas instalações, enterrando-as em bunkers profundos. Para atacar as instalações nucleares iranianas com armas convencionais seria necessário uma força aérea do tamanho da americana, trabalhando 24 horas por dia durante mais de um mês.
Na melhor das hipóteses, a força aérea israelita, os comandos e a marinha, podiam almejar a atingir apenas um dos componentes do projecto iraniano. Mas, no fim de contas, ele continuaria substancialmente intacto – e os iranianos ainda mais determinados (se tal for possível) a alcançar a Bomba o quanto antes. Ao mesmo tempo, sem qualquer dúvida, seria gerada também uma campanha mundial de terrorismo islâmico contra Israel (e possivelmente contra os seus aliados ocidentais) e, claro, uma campanha quase universal de vilipêndio. Orquestrados por Ahmadinejad, todos clamariam que o programa nuclear iraniano se destinava a propósitos pacíficos. Na melhor das hipóteses, um ataque convencional de Israel poderia apenas atrasar os iranianos em cerca de dois anos.

IMEDIATAMENTE, a liderança incompetente de Jerusalém enfrentaria um cenário catastrófico, quer fosse depois do lançamento de uma ofensiva convencional ou, em vez dela, lançando um ataque nuclear preemptivo e antecipado contra o programa nuclear iraniano, que tem algumas das suas instalações em torno de grandes cidades. Teriam eles estômago para isso? Estaria a sua determinação em salvar Israel alargada à eventualidade de matar milhões de iranianos e, na verdade, destruir o Irão? Este dilema foi há muito definido de forma certeira por um sábio general: o arsenal nuclear de Israel é inutilizável. Apenas pode ser usado demasiado cedo ou demasiado tarde. Nunca haverá uma altura “certa”. Usado “cedo demais”, quer dizer antes do Irão adquirir armas nucleares similares, Israel será investida no papel de pária internacional, alvo de um ataque muçulmano universal, sem um amigo no mundo; “tarde demais” quererá dizer que os iranianos já atacaram. Que vantagem tem?
Então os líderes israelitas cerrarão os dentes na esperança de que tudo corra pelo melhor. Talvez, depois de terem a Bomba, os iranianos se portem de forma “racional”?

MAS OS IRANIANOS são motivados por uma lógica mais elevada. E lançarão os seus mísseis. E, tal como no primeiro Holocausto, a comunidade internacional nada fará. Tudo acabará, para Israel, em poucos minutos – não como na década de 1940, quando o mundo teve cinco longos anos para cruzar os braços e nada fazer. Depois dos Shihabs caírem, o mundo enviará navios de salvamento e ajuda médica para os levemente carbonizados. Não atacará o Irão com armas nucleares. Com que objectivo e com que custos? Uma resposta nuclear americana alienaria de forma permanente o mundo muçulmano, aprofundando e universalizando o actual choque de civilizações. E, claro, não traria Israel de volta. (Enforcar um criminoso devolve à vida as suas vítimas?)

Então qual seria o propósito?
Ainda assim, o segundo holocausto será diferente no sentido em que Ahmadinejad não verá nem tocará aqueles que deseja ver mortos. Na verdade não haverá cenas como a seguinte, citada no recente livro de Daniel Mendelsohn, The Lost, A Search for Six of Six Million, na qual é descrita a segunda acção nazi em Bolechow, na Polónia, em 1942:

Um episódio terrível aconteceu com a senhora Grynberg. Os ucranianos e os alemães irromperam pela sua casa e encontraram-na prestes a dar à luz. As lágrimas e as súplicas dos familiares não ajudaram e ela foi levada de casa em camisa de noite e arrastada para a praça em frente da Câmara Municipal.
Ali ela foi arrastada para um contentor de lixo no pátio da Câmara, onde a multidão de ucranianos presentes dizia piadas e ria das suas dores de parto, até que ela deu à luz. A criança foi imediatamente arrancada dos seus braços, ainda com o cordão umbilical, e atirada ao ar – foi espezinhada pela multidão e ela ficou de pé à medida que sangue escorria do seu corpo, com pedaços pendurados a sangrar, e permaneceu desta forma algumas horas encostada à parede da Câmara Municipal. Depois foi com todos os outros para a estação de caminho de ferro de onde foi levada de comboio para Belzec.

No próximo holocausto não haverá cenas destas de cortar o coração, de criminosos e vítimas ensopados em sangue.
Mas será na mesma um holocausto.

Benny Morris é professor de História do Médio Oriente na Universidade Ben-Gurion e um dos mais marcantes representantes da esquerda académica israelita. Este ensaio foi publicado em Janeiro de 2007 no Jerusalem Post.

Aborto: uma perspectiva judaica

Exactamente com este título, publiquei aqui há quase três anos um texto do rabino Abraão Assor Z’L, líder espiritual da comunidade judaica de Lisboa entre 1941 a 1993. Na altura, as posições defendidas no texto foram bastante comentadas na blogosfera, especialmente pelo facto de, pela sua abertura, elas constituírem um dado completamente inesperado no campo religioso.

A poucos dias do referendo em Portugal, vale a pena reler esta contribuição para o debate público do tema:

Aborto: Uma Perspectiva Judaica





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