Archive for April, 2008

Uma homenagem no último dia de Páscoa


Este quadro, da autoria de Francisco Duarte Azevedo, apresentado aqui em estreia absoluta, intitula-se The Day After the Auto-da-Fé, uma homenagem do pintor aos mortos do massacre de Lisboa, de Abril de 1506. Com uma beleza de calma aparente e toda uma carga de violência subentendida, o quadro pode também ler-se como uma metáfora à vida daqueles que tiveram de viver sob um terror constante.
Obrigados a converter-se ao catolicismo sob pena de morte e sem outra opção possível, os judeus portugueses continuaram a ser judeus, não só no segredo das suas casas, mas também aos olhos dos vizinhos cristãos-velhos que, com intolerância, nunca lhes haveriam de fazer esquecer a sua diferença. Com o correr dos séculos, as tradições judaicas familiares de muitos diluíram-se nas poeiras da história. Outros preservaram esboços de liturgias ancestrais sem se aperceberem dos significados. Outros ainda, numa tradição oral passada de pais para filhos, de avós para netos, cinco séculos depois, sabem que são judeus — um facto teimoso que continua a deitar por terra as teorias daqueles que acreditavam que o judaísmo tinha sido expulso de Portugal. A estes, convencionou-se chamar-lhes marranos — uma palavra que para uns é insulto, mas para outros motivo de intenso orgulho.

Zog Maran (Diz-me Marrano)
(uma canção para a Páscoa Judaica)

Diz-me Marrano, meu irmão,
onde pões a mesa para o Seder?
— Numa caverna escura e funda,
a minha Páscoa irei fazer.

Diz-me Marrano, onde vais
buscar os brancos matzos?
— Na caverna, com a ajuda de Deus,
a minha mulher os lá amassa.

Diz-me Marrano, como consegues
encontrar uma Hagadá?
Na caverna, entre as fendas,
há muito que escondi os livros lá.

Diz-me Marrano, como te
defenderás quando te ouvirem cantar?
— Se me vierem prender, com uma
canção nos lábios irei morrer.

Avrom Reisen

.::PARA OUVIR::.

Zog Maran, Vocolot, poema de Avrom Reisen música de Shmuel Bugatch.

Marrano” é a designação tradicional dada aos judeus forçados a converterem-se ao catolicismo na península Ibérica, sob pena de morte e confiscação de bens, nos séculos XV e XVI. Durante séculos a expressão foi considerada depreciativa por se julgar que derivava de “porco” em castelhano, na verdade, ela é obtida pela contracção das palavras hebraicas márre (מר — amargo/amargurado) e anúze (אונס — forçado / violado) – refere-se também aos seus descendentes, muitos dos quais optam agora pelo processo de conversão para “regressar” à sua tradição ancestral. Em hebraico, os marranos são conhecidos simplesmente como “anussim” (אנוסים). Para diferenciar a palavra da sua homófona depreciativa, e evitar assim qualquer tipo de comparações, o capitão Barros Basto insistia que ela deveria ser escrita com apenas um “r”.

Memória & Justiça

O filósofo e poeta espano-americano George Santayana escreveu que “aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”. Depois de séculos de esquecimento — voluntário e involuntário —, a Câmara Municipal de Lisboa contribuiu para que as gerações futuras não esqueçam um dos mais tristes e terríveis páginas da história da cidade quando, há 502 anos, milhares de cidadãos da capital foram chacinados pelos seus vizinhos pelo simples facto de serem judeus.
Segundo a Câmara Municipal de Lisboa, inaugurado agora no Largo de São Domingos, onde o massacre teve início, o memorial é composto por duas esculturas “contributos da Comunidade Judaica (da autoria da arquitecta Graça Bachmann) e da Igreja Católica (da autoria do arquitecto Segismundo Pinto e do escultor Carlos Ramos) que coexistirão como símbolo da reconciliação e do respeito; por uma lápide inscrita no pavimento, tributo da cidade de Lisboa às vítimas do Massacre Judaico de Abril de 1506 e por um mural onde se lê a frase ‘Lisboa, Cidade da Tolerância’ (da autoria dos designers Susana Jesus e Paulo Cardoso) em 34 línguas diferentes”.

.::A LER ::. 500 Anos do Massacre de Lisboa: Salomão Ibn Verga / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Garcia de Resende / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Samuel Usque / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Damião de Góis / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Alexandre Herculano / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Camilo Castelo Branco / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Oliveira Martins / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Ferreira Fernandes / 500 Anos do Massacre de Lisboa IX: Memória e Esquecimento

Os limites do internacionalismo

Um texto de Amitai Etzioni

Numa reacção à falência do unilateralismo da Administração Bush, o internacionalismo está novamente em voga. E para relembrar como funcionam as Nações Unidas, a organização internacional por excelência, basta ver a forma como recentemente abordou o chamado “discurso de ódio”.
O Conselho dos Direitos Humanos da ONU acabou de condenar de forma inequívoca um filme feito por Geert Wilders, um político holandês de extrema-direita, no qual ataca violentamente o Islão. O governo holandês fez tudo ao seu alcance para impedir o lançamento do filme. Nenhum canal de televisão da Holanda — ou de qualquer outro país — o quis transmitir. O que, por sinal, levanta sérias questões em relação à liberdade de expressão. Finalmente, o filme seria colocado online no site britânico liveleak.com. Como reacção, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução lamentando a utilização dos media “para incitar actos de violência, xenofobia ou intolerância e discriminação contra o Islão” ou outras religiões.
Entretanto, a Al-Aksa, uma estação de televisão do Hamas, continua as suas transmissões ininterruptas para as pessoas de Gaza. A programação desta estação glorifica frequentemente os bombistas suicidas, os responsáveis pelo lançamento de morteiros Qassam e apela à destruição do Estado de Israel. Nesta estação, até os programas para crianças promovem o ódio contra o povo judeu — incluindo repetidas acusações de que os judeus usam o sangue de outros nos seus rituais e que foram eles os responsáveis pelos atentados ao World Trade Center.
Repare-se que ao contrário do filme holandês, feito por um único indivíduo, a Al-Aksa é produto do esforço organizado de um movimento inteiro e do governo de Gaza, apostado em emitir tudo isto regularmente para milhares de crianças e jovens. Mas, mesmo assim, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU não encontra aqui nada que o preocupe.
Deixem-me primeiro dizer que o povo palestiniano têm bastante com que se preocupar, e que a situação em Gaza é horrível. No entanto, nenhuma destas preocupações — que devem ser atendidas o mais depressa possível — será servida se o Hamas continuar a exigir a destruição de Israel, ensinando aos seus jovens seguidores que odeiem cegamente os judeus.
Eu próprio apontei a importância crescente das Nações Unidas como uma força principal na determinação do que a comunidade internacional considera legítimo. A ONU desempenhou um papel importante na classificação de quando a invasão a um país é legítima (como no Kuwait) e quando não é (como no Iraque de Saddam). As suas agências sociais ajudam com frequência pessoas por todo o mundo.
No entanto, se a ONU quiser tornar-se uma parte ainda mais importante da nova arquitectura global, tem de se ofender mais por causa de actos de violência e menos com liberdade de expressão (quer pode chegar a ser ofensiva e revoltante) e ser, acima de tudo, muito mais imparcial. Ódio difundido contra os judeus não é melhor nem mais aceitável do que aquele dirigido contra os muçulmanos.

Este texto foi originalmente publicado em inglês, na semana passada, (ver The Limits of Internationalism) pelo professor Amitai Etzioni.

.::A VER::. Al-Aksa TV Child TV Host of Hamas Mickey Mouse Saraa Barhoum, Sings / Hamas Rabbit: Eat the Danes! / Hamas Bunny, Assud, Replaces His “Martyred” Brother Nahoul / Kindergarten Graduation Ceremony in Gaza on Hamas TV / Hamas Indoctrinating Toddlers / Hamas Cleric: We will Conquer Rome / Hamas: “We love Death More Then Life!”.
O Conselho de Direitos humanos da ONU: UN Human Rights Council: Defeating Freedom of Expression

Os Irmãos Coen e os judeus do Alasca

Acabados de arrebanhar quatro Oscares com No Country for Old Man, os Irmãos Joel e Ethan Coen estão a preparar dois filmes com temas judaicos. O primeiro projecto chama-se A Serious Man, mas o que me prendeu a atenção foi o segundo: uma adaptação cinematográfica do romance The Yiddish Policemen’s Union, de Michael Chabon.
Lembram-se de Fargo? Da omnipresença da neve, da claustrofobia das imensidões infinitamente brancas? Sim?! Agora polvilhem por lá uns milhões de judeus e terão o início de The Yiddish Policemen’s Union — um livro que mistura a ficção histórica com o que de melhor se pode desejar num romance policial. Chabon escreve aqui como se Sholem Aleichem ou Isaac Bashevis Singer se tivessem fundido com Raymond Chandler. Phillip Roth que me perdoe, mas The Yiddish Policemen’s Union é o melhor romance que li nos últimos meses. E o detective Meyer Landsman é o melhor personagem de um policial desde Phillip Marlowe, Sam Spade e Jaime Ramos.
A premissa conta-se em poucas linhas: depois do Holocausto, os judeus perdem a guerra da Independência de Israel, em 1948, e são forçados a aceitar o asilo temporário concedido no Alasca pelo presidente americano Franklin Roosevelt. Por incrível que possa parecer à primeira vista, esta proposta do Departamento do Interior dos EUA existiu de facto (ver Slattery Report), mas a sua votação no plenário do Congresso nunca chegou a acontecer por veemente oposição do congressista do Alasca Anthony Dimond.
Neste universo gelado Chabon inventa todos os pormenores de um quotidiano alternativo, chegando ao detalhe de engendrar, por exemplo, um calão que, de uma forma natural como o ar que ali se respira, mistura palavras hebraicas com sonoridades do iídiche e do inglês — piece (literalmente pedaço ou peça em inglês), no jargão noir quer dizer arma, mas a palavra lembra também a sua homófona peace (que quer dizer paz), logo, naquela imaginária colónia judaica do Alasca, que poderiam polícias, ladrões e gangsters chamar às suas armas senão… shalom. Pois. Se a adaptação cinematográfica não vai ser uma tarefa fácil, não menos complexa será a tradução do livro para português. O penúltimo livro de Michael Chabon, As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay teve já edição portuguesa, dada à estampa pela Gradiva, mas The Yiddish Policemen’s Union é um verdadeiro grau 9 na Escala de Richter para qualquer tradutor menos preparado.
Enquanto me deliciava com o romance, parei muitas vezes a meio de uma página, coçando o queixo e tentando antever como iria o tradutor português desvencilhar-se do primoroso nó cego que Michael Chabon acabava de dar numa frase brilhante. Não invejo o tradutor português de The Yiddish Policemen’s Union que, para além de um inglês americano com arcaboiço significativo, terá de ter conhecimentos de hebraico e iídiche — tudo isto misturado com uma necessária fluência de cultura e costumes judaicos.
Não invejo? Se calhar, o problema é que invejo mesmo… sim, porque há gente com muita sorte!

.:: A LER ::. Coens speak ‘Yiddish’ for Columbia - Variety / Meshuga Alaska - The New York Review of Books /Michael Chabon Q&A / Michael Chabon - The Yiddish Policemen’s Union - Book - New York Times — The frozen Chosen / Stuart Jeffries talks to Michael Chabon: The language of exile / Coen Brothers: Masters of the film universe / The Yiddish Policemen’s Union - Michael Chabon - Review - New York Times

Há 40 anos — Martin Luther King Jr. e os judeus


Rabino Abraham Joshua Heschel, Martin Luther King Jr., Ralph Abernathy e o rabino Maurice Eisendrath carregando os rolos da Torá.

Passaram este fim-de-semana exactamente 40 anos sobre o assassinato do reverendo Martin Luther King Jr., líder da luta pelos direitos cívicos da comunidade negra norte-americana. Recordado principalmente pela força dos discursos, pela capacidade de inspirar outros a irem além de si próprios e além das barreiras impostas pela injustiça, Martin Luther King encontrou nos judeus, desde o início, verdadeiros compagnons de route.
Ao longo de toda a sua campanha pela igualdade entre pessoas de diferentes raças, Martin Luther King contou sempre com o apoio incondicional da esmagadora maioria da comunidade judaica americana e dos seus líderes. Há 40 anos, em comícios, marchas e acções cívicas, os judeus juntaram a sua voz aos desejos de justiça expressos nos discursos e nos gestos de King. O rabino Abraham Joshua Heschel, seu amigo pessoal, participou com ele em inúmeras manifestações e caminhadas. Heschel chamava-lhes “rezar com os pés”.

.:: A OUVIR ::.

Sermão de Martin Luther King na congregação judaica de Temple Israel, em Hollywood, na Califórnia, a 26 de Fevereiro de 1965, apresentado pelo rabino Max Nussbaum.

.:: A LER ::. Two Prophets, One Soul: Rev. Martin Luther King, Jr. and Rabbi Abraham Joshua Heschel / Jews & Civil Rights / An Irvine rabbi remembers marching with Martin Luther King Jr. / Martin Luther King’s Hollywood dream

Teresa Salgueiro: uma voz Sefardita


::PARA OUVIR::

La Serena, Teresa Salgueiro & Lusitânia Emsemble, 2007

La Serena é a canção que dá o título ao último álbum de Teresa Salgueiro. Discretamente, sem pompa nem circunstância, mas com uma qualidade imensa, esta canção marca o regresso a Portugal — pela primeira vez em cinco séculos — do Ladino, a língua sefardita dos judeus ibéricos, feita de mesclas de castelhano e português medievais com hebraico. Na prática, La Serena é o resultado da junção de pelo menos duas canções distintas; uma delas, Mar de Leche, já passara pelas Músicas da Judiaria, há quatro anos, na voz igualmente notável de Suzy (que pode ser ouvida aqui: Mar de Leche, Suzy).





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