Archive for November, 2007

Outras Judiarias

NÃO ESPALHEM: No filme “Capitão Alatriste” (com o Vigo Mortensen um bocado desfasado como soldado espanhol do século XVII) há uma cena do cerco católico a Breda. No meio dos espanhóis aparece um soldado português que os companheiros não têm em grande conta: “Vocês, portugueses, são todos meios judeus”.
Filipe Nunes Vicente, no Mar Salgado

JUDEN: Conversava sobre literatura alemã com o senhor E. O senhor E., cultíssimo e (mesmo assim) quase nazi, discordava de tudo o que eu ia dizendo. Em meu abono, comecei a frase “O George Steiner escreveu que”. O senhor E. não me deixou sequer citar. Fez um gesto de desprezo e declarou: “O George Steiner é judeu”.
Isto foi há uns 3 anos. Hoje, um sujeito do outro extremo ideológico chamou-me “sionista” porque eu sou entusiasta de Philip Roth. Tendo em conta que Roth não é cidadão israelita nem apoiante da política israelita, “sionista” neste contexto quer dizer simplesmente: “judeu”.
Dizer que “os extremos se tocam” é cada vez mais um eufemismo.
Pedro Mexia no Estado Civil

JUDEN (2): Primeiro passei pela estante do romance: tirei Kafka e Proust. E Bellow, Malamud, Perec, Bruno Schulz e Joseph Roth. Trouxe também os contos de Isaac Babel. Da pequena secção italiana extraí Natalia Ginzburg e Primo Levi. Dei com uns ensaios de Cynthia Ozick que nem sabia que tinha. Na poesia, estavam Osip Mandelstam e Leonard Cohen.
Atei-os todos num pacote de papel pardo, com umas guitas. Amanhã vou devolvê-los à Embaixa de Israel. Não quero cá em casa autores coniventes com o belicismo sionista.
Pedro Mexia no Estado Civil

DE GALEGOS E XUDEUS: Non sei por que na Lisboa de hai séculos galegos e xudeus compartían o odio dos cidadáns do común ata o punto de a paremioloxía lusitana recoller un acusatorio “De galegos e judeus, dos melhores livra-nos Deus”.
Afonso Vázquez-Monxardín, em Vieiros: Galiza Hoxe

Shabot 6000: O Dilúvio

Grandes Citações VII

Nunca respondo a provocações idiotas. O meu pai sempre me disse: ‘nunca te atires à lama a lutar com um porco – primeiro, porque te sujas; segundo, porque é disso que o porco gosta.’

Walter Winchell (1897-1972 ), judeu, jornalista americano.
in “Notes of a New York Columnist”, Daily Mail, 31 de Maio de 1948.

O “socialismo dos tolos”

Um glorioso choque cultural que recentemente aconteceu no Irão fez-me rir em voz alta. Os filhos de Che Guevara, o pin-up revolucionário, foram convidados à Universidade de Teerão para comemorar o 40º aniversário da morte de seu pai e para celebrar a crescente solidariedade entre “e esquerda e o Islão revolucionário”, participando numa conferência parcialmente custeada pelo Presidente venezuelano Hugo Chávez.
Houve saudações fraternais e sorrisos gerais à medida que eram denunciadas “as ambições planetárias devoradoras” da América. Mas foi então que um dos oradores, Hajj Saeed Qassemi, o coordenador da Associação dos Voluntários Mártires-Suicidas (que presumivelmente se mantém vivo desinteressadamente em nome da causa), revelou que Che era “um homem verdadeiramente religioso que acreditava em Deus e que odiava o comunismo e a União Soviética”.
Aleida, a filha de Che, interrogou-se se algo se teria perdido na tradução. “O meu pai nunca mencionou Deus”, disse ela, para consternação da assistência. “Ele nunca conheceu Deus”. Na confusão, Aleida e o irmão foram rapidamente acompanhados à saída e escoltados para o hotel. “No fim do dia, os dois Gueveras tinham-se tornado ‘não-pessoas’. A Imprensa controlada pelo Estado subitamente esqueceu a sua existência”, registou o escritor iraniano Amir Taheri.
Depois da sua partida, Qassemi prosseguiu afirmando que Fidel Castro, o “guia supremo” de Che Guevara, era também um homem de Deus. “A União Soviética acabou”, disse ele. “A liderança dos oprimidos passou para a nossa república islâmica. Aqueles que querem destruir a América têm de perceber isto e deixar-se de jogos de palavras.”

Este texto é o princípio de um artigo assinado por Sarah Baxter no Sunday Times de Londres, onde são analisadas as irreflectidas e afectuosas relações entre a esquerda “revolucionária” ocidental e o fundamentalismo islâmico. O texto pode ser lido na integra aqui: Times Online – Where do you stand in the new culture wars?
Mas sintomático é também o facto dos emblemáticos filhos de Guevara (e Hugo Chaves, Daniel Ortega e Evo Morales antes deles) nem terem pensado duas vezes em associar-se à figura sinistra de Ahmadinejad – o testa de ferro de um regime que demanda o extermínio dos judeus, persegue minorias étnicas e religiosas no seu território (ver Iran: Death penalty/ stoning - Amnesty International e Murder with Impunity: Iran targets the Baha’i - again); executa comunistas e homossexuais (ver Report: Iran Gay Teens Executed ; Iran: Two More Executions for Homosexual Conduct - Human Rights Watch)… e nos últimos tempos, após a infame “conferência” para negar a veracidade do Holocausto, se tornou a “luz” que ilumina as cabeças (algumas rapadas) de energúmenos neo-nazis.

Outro exemplo dessa estranha relação simbiótica, entre movimentos que racionalmente seriam naturalmente opostos, é o encontro que reúne anualmente, no Cairo, esquerdistas revolucionários europeus (a esmagadora maioria dos quais “ateus, laicos e republicanos”) e membros da Irmandade Islâmica, uma organização cujo lema é: “Alá é o nosso objectivo. O Profeta o nosso líder. O Corão a nossa lei. Jihad é o nosso caminho. Morrer pelo caminho de Alá é a nossa maior esperança.” O programa da próxima reunião, agendada para Maio de 2008, dispensa comentários e foi recentemente publicado na outrora respeitada revista marxista Monthly Review e pode ser lido aqui: “Resistance Movements Unite! Cairo International Conference and Liberation Forum”.
Unidos por ideais comuns de um anti-americanismo e de um antisemitismo primários, o fanatismo religioso e aqueles que sopram as últimas cinzas do materialismo dialéctico vão encontrado terreno comum naquilo que, nos finais do séc. XIX, August Bebel chamou “o socialismo dos tolos”.

::PARA LER:: Where do you stand in the new culture wars? - Times Online / Gulfnews: ‘Che like Chamran’ is a paradox / Islamist, Socialist Revolutions Don’t Mix / Guevera kids in Tehran: ‘Che would have supported Iran’ - Deutsche Presse-Agentur / Tehran Times: Children of Che Guevara meet Iran’s culture minister

::PARA VER:: YouTube - Chavez in Al Jazeera / YouTube - No gays in Iran, says Ahmadinejad / YouTube – Columbia University President Bollinger Introduces Ahmadinejad

É um Progressista da treta?


Um questionário do The Sunday Times, de Londres

1 – É permitido aos muçulmanos ser homófobos por causa da sua cultura?
2 – Devem ser punidos por lei os casamentos celebrados contra a vontade das mulheres?
3 – É aceitável exigir que as mulheres usem véus?
4 – É o antisemitismo uma reposta legítima à frustração com as políticas dos Estados Unidos e de Israel?
5 – Deve permitir-se que o regime iraniano de Ahmadinejad adquira a bomba nuclear?
6 – Pode ser-se um defensor do povo mesmo que o povo não possa eleger outra pessoa?
7 – Existem ocasiões em que prisioneiros políticos podem ser justificados?
8 – É a al-Qaeda uma organização legítima de resistência no Iraque?
9 – É Ayaan Hirsi Ali demasiado crítica em relação ao Islão?
10 – Devia o Governo Holandês retirar a sua [a Ayaan Hirsi Ali] segurança no estrangeiro?
11 – Deveria Salman Rushdie ter escrito sobre o Corão da forma que o fez em “Versículos Satânicos”?
12 – São a liberdade de expressão, a liberdade de associação e a liberdade religiosa (ou ateística) direitos humanos universais?
13 – É uma tradição cultural aceitável apelar à morte das pessoas que abandonam uma religião?
14 – É aceitável interditar a entrada em lugares sagrados a membros de outras religiões, como acontece em Meca?
15 – Podem os “crimes de honra” ou a mutilação genital de mulheres ser colocados num “contexto cultural”?
16 – É aceitável apelar à morte de cartunistas porque não se acha piada aos seus cartoons?

Respostas – 1)não; 2)sim; 3)não; 4)não; 5)não; 6)não; 7)não; 8)não; 9)não; 10)não; 11)sim; 12)sim; 13)não; 14)não; 15)não; 16)não – Se acertou na maioria das respostas, parabéns! É progressista a sério. Se falhou a maioria das respostas… então é um progressista da treta.

Original: Are you a phoney liberal? - Times Online (formato pdf)

Fotos da Judiaria


“Deus de Israel”, uma velha traineira encalhada em Viana do Castelo, fotografada por Luis Novaes Tito, que fez questão de a dar como presente pelo quarto aniversário da Rua da Judiaria. Muito obrigado Luís.

Antisemitas Anónimos

Dez princípios para a recuperação

1 – Admitimos ter uma predisposição para o preconceito e ser impotentes para controlar o nosso ódio.
2 – Reconhecemos que não são os judeus que nos prejudicam, mas sim nós que responsabilizamos os judeus pelos nossos problemas e pelos males do mundo. Somos nós que prejudicamos os judeus ao acreditar nisso.
3 – Um judeu pode muito bem ter defeitos, como qualquer outro ser humano, mas os defeitos sobre os quais temos de ser honestos são os nossos próprios: a paranóia, o sadismo, o negativismo, a propensão para a destruição, a inveja, etc.
4 – Os nossos problemas financeiros não são culpa dos judeus, mas de nós próprios.
5 – Os nossos problema de trabalho não são culpa dos judeus, mas de nós próprios (como o são os problemas sexuais, os problemas matrimoniais, os problemas da comunidade).
6 – O antisemitismo é uma forma de fuga à realidade, uma recusa em pensar honestamente acerca de nós próprios e da nossa sociedade.
7 – Na medida em que os antisemitas não conseguem controlar o seu ódio, eles não são como as outras pessoas. Reconhecemos que mesmo um insulto antisemita casual prejudica a nossa luta para nos livrar-mos da nossa doença.
8 – Ajudar outros a desintoxicarem-se é a pedra angular da nossa recuperação. Nada assegura uma maior imunidade à doença do antisemitismo do que um trabalho de recuperação intensivo com outros antisemitas.
9 – Não somos estudiosos, não nos importa saber porque temos esta terrível doença, estamos reunidos para admitir que a temos e para nos ajudarmos mutuamente a ultrapassá-la.
10 – Participando nos Antisemitas Anónimos, aspiramos controlar a tentação do ódio aos judeus em todas as suas formas.

In Operation Shylock, Philip Roth, p. 101 e 102 (Vintage, 1994)

Os antisemitazinhos

Os antisemitazinhos contemporâneos aprenderam a dizer que as acusações de antisemitismo, de que merecidamente são alvo, são apenas uma forma de os “fazer calar”. Mas, a despeito da lógica do seu próprio argumento, estes antisemitazinhos não se calam.
Tal como é definido por qualquer dicionário decente, antisemitismo (recuso-me a utilizar o hífen pelo simples facto de não se tratar de uma palavra composta, mas sim criada originalmente nesta sua forma – Der Antisemitismus – para traduzir unicamente ódio aos judeus), é antisemita quem alimenta, e se orgulha em exibir, uma profunda antipatia particular em relação aos judeus. Mesmo que diga não ser antisemita, um(a) antisemitazinho(a) é sempre um(a) antisemita.



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