Archive for October, 2007

Monumento à memória das vítimas do massacre de 1506


A Câmara Municipal de Lisboa vai discutir na quarta-feira, dia 31 de Outubro, a criação de um monumento evocativo da memória dos milhares de judeus portugueses assassinados na capital durante os sangrentos motins de 19, 20 e 21 de Abril de 1506. A proposta parte do vereador José Sá Fernandes, do Bloco de Esquerda, e conta com o apoio dos vereadores do PS e da vereadora Helena Roseta.
Segundo a proposta de Sá Fernandes o monumento será instalado no Largo de São Domingos, ao Rossio, local onde há 500 anos começaram os motins.
Aqui segue na integra a nota que nos chegou do gabinete do vereador José Sá Fernandes:

Na próxima sessão pública da CML, dia 31 de Outubro, Quarta-feira, o Vereador José Sá Fernandes irá propor a criação em Lisboa de um Memorial às Vítimas da Intolerância, evocativo do massacre judaico ocorrido na Cidade, em 1506, e de todas as vítimas que sofreram a discriminação e o aviltamento pessoal pelas suas origens, convicções ou ideias.
A 19, 20 e 21 de Abril de 1506, Lisboa foi palco do mais dramático e sanguinário episódio antijudaico de todos os que são conhecidos no nosso território, quando, por mera suspeita de professarem o judaísmo, foram barbaramente assassinados e queimados cerca de dois mil lisboetas.
Os acontecimentos tiveram início junto ao Convento de São Domingos (actual Largo de São Domingos) e culminaram em duas enormes fogueiras, no Rossio e na Ribeira, onde os crimes foram perpetrados.
O Vereador José Sá Fernandes propõe que a CML assinale estes acontecimentos, fazendo justiça póstuma a todas as vítimas da intolerância, naquilo que considera que constituirá uma afirmação inequívoca de Lisboa como cidade cosmopolita, multiétnica e multicultural, através da instalação de um Memorial às Vítimas da Intolerância, no Largo de São Domingos.
O memorial deverá ter, como elemento central, uma oliveira de grande porte e contemplará ainda uma lápide evocativa do massacre de 1506.
O arranjo urbanístico da área envolvente, a sua concepção, execução e instalação serão assegurados pelos serviços municipais.
De acordo com a proposta, a inauguração do Memorial deverá ter lugar no dia 19 de Abril de 2008, numa cerimónia promovida pela Câmara Municipal de Lisboa, para a qual serão convidadas todas as comunidades étnicas e religiosas da Cidade.
O Vereador José Sá Fernandes congratula-se pelo facto dos Senhores Vereadores do PS e da Senhora Vereadora Helena Roseta se terem associado a esta proposta, subscrevendo-a em conjunto.

::A LER:: 500 Anos do Massacre de Lisboa: Salomão Ibn Verga / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Garcia de Resende / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Samuel Usque / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Damião de Góis / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Alexandre Herculano / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Camilo Castelo Branco / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Oliveira Martins / 500 Anos do Massacre de Lisboa: Ferreira Fernandes / 500 Anos do Massacre de Lisboa IX: Memória e Esquecimento

Quatro anos de Judiaria

Hoje, 27 de Outubro de 2007, faz precisamente quatro anos que a Rua da Judiaria nasceu na blogosfera.
Obrigado a todos os leitores que por aqui vão passando, permitindo que um simples blog sobre um tema tão restrito tenha alcançado, até ao momento em que escrevo, 1.813.044 visitas, a uma média de cerca de 2 mil leitores diários.
A 27 de Outubro de 2003 estava longe de imaginar que tal poderia ser possível.

ADENDA: Obrigado pelas amáveis referências: Francisco José Viegas; João Carvalho Fernandes; Heitor; Luís Novaes Tito; Miguel Noronha; Mário Pires; Filinto Melo; Teresa Castro; Armando Rocheteau; Miguel Lomelino; Jorge Ferreira; Justo; Elsa Ribeiro; Marco Oliveira; José Pimentel Teixeira; João Tunes; Sérgio Aires; Philosemite; Adolfo Mesquita Nunes; Pedro Gómez Valadés; Pedro Correia; Joaquim Moreira; João Moreira; Maria Fragoso; Nérida Madeira; Cristina Gomes da Silva…
(em actualização)

Uma Pequena História

Há aqueles que descobrem que são Judeus.
E não podem acreditar.
Sempre odiaram Judeus.
Ainda crianças, vagueavam em bandos nas noites de Inverno
no velho bairro, à procura de Judeus.
Não eram Judeus, eram Irlandeses.
Agitavam garrafas quebradas, gajos rijos com sangue nos
lábios, à procura de Judeus.
Apanhavam rapazes Judeus andando sozinhos e batiam-lhes.
Às vezes ficavam satisfeitos por perseguir um Judeu que lhes
escapava fugindo. Ficavam contentes de o ver assim
a fugir. O cobarde! Todos os judeus eram medrosos.
Escreviam Judeu com um j pequeno.
E agora descobrem que eles próprios são Judeus
Aconteceu por alturas da Inquisição.
Para escapar à perseguição, fingiram converter-se à Cristandade.
Vieram para cá e estabeleceram-se no Sudoeste.
Ninguém viria a saber se não fossem os ossos aparecidos
na escavação.
Que desastre. Como podia isto acontecer-lhes? (…)

Excerto do poema A Little History, de David Lehman.

Tradução minha, com a devida vénia a Ana Murteira, que me sugerira o poema há alguns meses.

Leitura em Dia

You depart while others, unamazingly enough, stay behind to continue doing what they’ve always done – and upon returning, you are surprised and momentarily thrilled to see that they are still there, and, too, reassured by there being somebody who is spending his whole life in the same little place and who as no desire to go.”

in Exit Ghost, o último livro de Philip Roth

Com Nova Iorque cinzenta, abafada e húmida, apanhei hoje uma valente gripe que veio mesmo a calhar: comecei a ler a obra que marca o regresso (e o fim) de Nathan Zuckerman, o personagem de nove romances de Philip Roth. Exit Ghost acabou de sair aqui nos EUA. Sugiro uma leitura da recensão assinada pelo notável Clive James no New York Times: Exit Ghost - Philip Roth - New York Times Book Review. E, já agora, uma entrevista ao autor feita num podcast da Amazon: Amazon: Interview with Philip Roth. Isto promete. Mas agora… “Excusez un peu… Que grande constipação física! Preciso de verdade e de aspirina.
Shabbat Shalom!

Raiz judaica do Cantar Alentejano…

Sempre ouvi dizer que as raízes dos cantares tradicionais alentejanos eram árabes, e que remontavam aos séculos de domínio muçulmano do Sul de Portugal mas, confesso, e apesar de conhecer bastante música árabe, nunca encontrara entre elas qualquer analogia. Inclusive, alguma tentativas de aproximação entre as duas empreendidas por músicos contemporâneos, apesar de agradáveis, tinham sempre um sabor a casamento forçado.
Curiosamente, foi nas sinagogas sefarditas que encontrei melodias que me faziam de imediato lembrar as “modas” alentejanas das terras dos meus país.
As semelhanças encontram-se no todo, mas elas notam-se principalmente em pontos de contacto muito específico – o maior dos quais a sua forma “responsiva”, pois tanto na oração judaica como no cantar tradicional alentejano há um “líder” e um coro que responde. Mas é a forma como essa relação, esse diálogo melódico, se desenrola que parece deixar pouca margem para dúvidas acerca da evidente afinidade.
Comparem lá…

::PARA OUVIR::

Kedushah, gravada na Sinagoga Portuguesa e Espanhola de Londres, nos finais dos anos 50 e editada em 1960 pela Folkways Records, de Nova Iorque.


Meu Alentejo Querido, pelo Grupo Coral e Etnográfico “Os Ceifeiros de Pias”, editado em 2001 no CD Vozes do Sul.

::PARA LER E VER:: Smithsonian Folkways Recordings - Music of the Spanish and Portuguese Synagogue / Fundação Alentejo Terra Mãe / Raizes Musicais - Memória para os Cantares Tradicionais / YouTube - Cantares Alentejanos – Grupo Coral dos Mineiros de Aljustrel (vídeo)

O terrorismo dos “meninos nazis”

O país vai de carrinho
Vai de carrinho o país
Os falcões das avenidas
São os meninos nazis (…)

Assim começava a canção de Zeca Afonso que me saltou à memória no exacto momento em que li a notícia de que o cemitério Judaico de Lisboa tinha sido profanado por dois neonazis. Pelo menos 17 túmulos foram destruídos, lápides gravadas com cruzes suásticas. No final, para cúmulo da violação, li que os dois defecaram e espalharam excrementos pelas campas. Os jornais contam ter-se provavelmente tratado de uma “cerimónia de iniciação” de um dos criminosos implicados. Honestamente, acredito que a profanação do cemitério judaico de Lisboa foi um acto de terrorismo.
A resolução 51/210 da Assembleia Geral das Nações Unidas define “terrorismo” como um “acto criminoso destinado ou calculado para provocar um estado de terror junto do público em general ou de um grupo específico de pessoas”. A mesma resolução afirma serem os actos terroristas “injustificáveis em qualquer circunstância, quaisquer que sejam as considerações políticas, filosóficas, ideológicas, raciais, étnicas, religiosas”.
A intenção primária e única deste acto de barbárie, racismo e antisemitismo é espalhar o terror, o receio e o medo por entre os judeus portugueses.
O historial de violência, assassínios, agressões, ameaças e destruição perpetrados por este grupo de gente contribuem para enquadrar as suas acções entre os parâmetros delineados pela definição de terrorismo pela Lei Internacional. Tudo isto seria mais do que suficientes para que a Justiça portuguesa funcione desta vez.
Um olhar transversal pela História faz-nos ver que o antisemitismo, e os ataques a judeus e símbolos judaicos pelo simples facto de serem judeus, são inevitavelmente um prelúdio para uma generalização da violência. Os judeus, neste caso, funcionam como “balões de ensaio” numa sociedade insensível ao seu sofrimento. São as primeiras vítimas. Foi assim na Idade Média (ver Rua da Judiaria: “Como elRei mandou degollar dous seus criados, porque roubarom huum judeu e o matarom”); foi assim com a Inquisição; foi assim na Segunda Guerra Mundial; foi assim com os atentados suicidas terroristas da intifada
Mas nem aqui os “meninos nazis” portugueses são originais. Numa pesquisa rápida, encontra-se um número considerável de notícias relacionadas com profanações de cemitérios judaicos ocorridas um pouco por todo o mundo nas últimas semanas: Jewish cemetery vandalized in Siberian city - International Herald Tribune / Jewish cemetery vandalism suspect free on personal recognizance - Boston.com / Neo-Nazi Activity Spreading Around the World - Arutz Sheva / French court hands down 30-month prison term to vandal of Jewish cemetery - International Herald Tribune / Hevron Cemetery Desecrated Over Sabbath - Arutz Sheva / 2 arrested in West Side cemetery vandalism.
No meio de todo este hediondo cenário, e navegando as hiperligações dos jornais online, confesso, sorri ao deparar com o nome de um dos “meninos nazis”, um tal Pedro Isaque. Sim, um neonazi chamado Isaque… um admirador do terceiro reich que tem o nome de um dos patriarcas do judaísmo – justiça poética, na sua melhor acepção (ver Correio da Manhã: Líder skin fica preso, de 21/09/2007; e, já agora, Wikipédia – Isaac / Isaque).
Tudo isto me fez de novo pensar na imensa ironia sobre a qual já antes aqui escrevera, a propósito da origem judaica do sobrenome Machado, ostentado pelo neonazi Mário (ver “ultimo parágrafo do texto Os media e o “crime” ).
Mas esta gente nada sabe da História do seu país e da “raça” que diz ser a sua… Quando foram forçados a converter-se ao Catolicismo sob pena de morte, em 1497, o número de judeus portugueses cifrava-se em cerca de 200 mil. Isto num total de pouco mais de um milhão de portugueses fazia com que os judeus constituíssem mais de 20 porcento da população nacional na época (ver The Virtual Jewish History Tour - Portugal).
A conversão forçada não só os impele para a “clandestinidade” como inicia um processo de miscigenação que viria a ser reforçado quando, a 25 de Maio de 1773, o Marquês de Pombal acaba com a “limpeza de sangue”, manda destruir os registos e cadastros dos “cristãos novos” e ordena que famílias nobres, até então orgulhosas da sua “pureza de raça”, organizem casamentos com os descendentes dos judeus convertidos à força nos finais do século XV.
Depois de todas estas “aventuras do sangue”, como lhes chamou Jorge Luis Borges – ele próprio um descendente desses judeus portugueses convertidos à força –, será que existe algum português, um único que seja, que continue a dizer-se livre do sangue da semente de Abraão? Será que existe algum que queira apostar tudo nessa “pureza”? Que aceitem então um desafio, esses “meninos nazis”: que façam um teste de ADN, sim, porque o ácido desoxirribonucleico não mente e a ciência faz com que o código genético seja hoje tão transparente quanto a água. E bastante acessível… (aqui, por exemplo: Family Tree DNA - we do genetic tests for your genealogy questions!)
E se porventura o teste lhes demonstrar que a sua “raça portuguesa” não é assim tão pura quanto pensavam; que, em vez de traços de Viriato Lusitano, são feitos de mesclas das gentes de África e do Médio Oriente; que, em vez de nórdico ou “ariano”, o sangue que lhes corre nas veias é idêntico ao dos judeus, que odeiam, ou dos negros, que desprezam; se for este o resultado do teste de ADN, que farão eles?
A resposta racional, obviamente, levaria ao repensar de ódios e preconceitos. Forçaria a humanização da besta. Mas de nada vale acalentar esperanças. Mesmo perante todas as provas cientificas e racionais, a irracionalidade do ódio prevaleceria. A verdade é que esta gente nada tem de racional. Como escreveu Jonathan Swift: “É inútil tentar fazer um homem abandonar pelo raciocínio algo que não adquiriu pela razão.”
Quanto a nós, judeus, resta-nos fazer aquilo que mais os irrita; o que sempre fizemos, desde os tempos remotos da escravidão no Egipto ou de Nabucodonosor: sobreviver.

::A LER:: DN “Hoje somos todos judeus” / SOS Racismo denuncia terror nas escolas da margem sul do Tejo provocado por “skinheads”; - Lusa - SAPO Notícias / New York Times: In DNA, New Clues to Jewish Roots / Family Tree DNA - we do genetic tests for your genealogy questions! / Expresso: Skins vandalizam cemitério judeu / Juiz decidiu soltar os dois skinheads perigosos: ‘Lobo Nazi” em liberdade / Skinheads ameaçam magistrada do MP / Leis penais entram em vigor: 36 skinheads acusados / Investigação na Margem Sul: PS, PCP e BE na mira / Southern Poverty Law Center Report: Hammerskin Nation / ADL: Hammerskin Nation – Extremism in America

Barca

Das navegações à distancia
que empreendemos de costa a costa
sob motivos e circunstancia
de exorcismos e alguma esperança
de fugirmos ao pedaço circunscrito
do legado ou povoado
onde parimos nossos filhos,
ficou essa paisagem do mar
em fim de terra, da tarde em fim de mar
e da terra cruzada por esses ambos elementos
mais a saudade tremelicando nos dedos
dos que partidos se foram
definitivamente
somente com a ideia de voltar
quando do cabo do mundo
trouxessem a mágica fórmula
de enriquecer para nos serões
com nossa prole recordarmos
gestas, historietas, lendas e canções
de anónimos heróis,
sábios poetas e cavaleiros andantes
despidos de andrajos dourados
e apenas fardados de suas palavras
exigindo às tábuas da lei
a única porção de chão
onde depositar seu corpo
com vistas para o vasto oriente
de um promontório extremo.

Como uma barca “roja” atracada
em fim de tarde.

Francisco Duarte Azevedo
Newport, Jersey City, 5 de Outubro de 2007

Depois de alguma insistência, o Francisco deixou que eu publicasse aqui este seu belíssimo poema – um poema de Diáspora – feito a partir do quadro, também de sua autoria, que aqui o ilustra. Já agora, aconselho uma passagem pela galeria online onde o Francisco tem expostos alguns dos seus quadros. É só seguir o link: aqui.





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