Archive for August, 2007

O Spinoza da Rua do Mercado (VI)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Parte VI (ver Parte I; Parte II; Parte III; Parte IV e Parte V)


Conversa no Gueto de Varsóvia, Polónia, inverno de 1938. Fotografia de Roman Vishniac.

O Dr. Fischelson tinha a certeza que iria morrer brevemente. Escreveu um testamento, deixando todos os seus livros e manuscritos à biblioteca da sinagoga. As suas roupas e mobília iam para Dobbe, uma vez que ela tinha tomado conta dele. Mas a morte não veio. Em vez disso, a sua saúde melhorou. Dobbe voltou à sua banca no mercado, mas visitava-os várias vezes ao dia, fazia-lhe sopa, deixava-lhe uma chávena de chá e contava-lhe as notícias da guerra. Os alemães tinham ocupado Kalish, Bendin, Cestechow e marchavam agora em direcção a Varsóvia. Dizia-se que numa manhã sossegada se podia ouvir, ao longe, o estrondo dos canhões. Dobbe contou-lhe que as baixas eram pesadas. “Eles caiem que nem moscas”, disse ela. “Que desgraça para as pobres mulheres.”
Ela não conseguia explicar porquê, mas o quarto do velhote atraia-a. Gostava de tirar das estantes os livros debruados a dourado, de os limpar, e depois de os arejar no parapeito da janela. De vez em quando ela subia os degraus até à janela e espreitava pelo telescópio. Também gostava de conversar com o Dr. Fischelson. Ele falou-lhe da Suíça, onde estudara, das grandes cidades por onde tinha passado, das grande montanhas que se cobriam de neve mesmo no Verão. O seu pai tinha sido um rabino, contou ele, e antes de ter ido para a universidade o próprio Dr. Fischelson tinha estudado num seminário rabínico. Ela perguntou-lhe quantas línguas ele conhecia, ele respondeu-lhe que conseguia falar e escrever em hebraico, russo, alemão e francês, para além do yiddish. Também sabia latim. Dobbe ficava estupefacta que um homem com tanta instrução pudesse viver num sótão na Rua do Mercado. Mas o que mais a espantava era o facto de ele não poder passar receitas, apesar de ter o título de “doutor”. “Porque não se torna um doutor a sério?” perguntou-lhe ela. “Mas eu sou um doutor. Não sou médico, mas sou doutor.” “Que espécie de doutor?” “Doutor de filosofia.” Apesar de não fazer a mínima ideia do que isso significava, ela sentia que devia ser muito importante. “Oh, mas onde é que foi buscar uma cabeça dessas?”, dizia-lhe ela.
Uma noite, depois de Dobbe lhe ter um copo de leite com bolachas, ele começou a fazer-lhe perguntas: de onde tinha vindo; quem eram os seus pais; e porque não se tinha casado. Dobbe ficou surpresa. Nunca ninguém lhe perguntara estas coisas. Ela contou-lhe a sua história em voz baixa e ficou até às onze da noite. O seu pai fora moço de fretes num talho kosher. A mãe depenara galinhas num matadouro. A família viveu numa cave do número 19 da Rua do Mercado. Quando ela tinha dez anos começara a trabalhar como criada. O seu patrão era um receptador que comprava mercadoria roubada aos ladrões na praça. Dobbe tinha um irmão que foi para o exército russo e nunca mais voltou. A irmã casara com um cocheiro de Praga e morrera ao dar à luz. Dobbe contou as batalhas entre o submundo e os revolucionários em 1905; falou-lhe do cego Itche e da sua quadrilha e de como eles cobravam dinheiro aos comerciantes em troca de protecção, dos criminosos que atacavam rapazes e raparigas que passeavam nas tardes de sábado se não lhes dessem dinheiro. Falou também de proxenetas que vagueavam pelas ruas em carroças raptando moças novas para serem vendidas em Buenos Aires. Dobbe jurou até que um homem a tentou seduzir a entrar num bordel, mas que ela conseguiu fugir. Queixou-se de milhares de males de que tinha sido vítima. Tinha sido roubada; tinham-lhe roubado o namorado; uma vendedora sua inimiga vazara um dia gasolina na sua cesta de pão; o seu próprio primo, o sapateiro, tinha-a feito perder uma centena de rublos antes de partir para a América. O Dr. Fischelson ouvia atentamente. Fazia-lhe perguntas, abanava a cabeça, suspirava.
“Bem, acreditas em Deus?” perguntou ele finalmente.
“Não sei”, respondeu ela. “E você acredita?”
“Sim, acredito.”
“Então porque não vai à sinagoga?” perguntou ela.
“Deus está em todo o lado. Na sinagoga. No mercado. Neste mesmo quarto. Nós próprios fazemos parte de Deus”, respondeu ele.
“Não diga essas coisas que me assusta”, disse Dobbe.
Ela saiu do quarto e o Dr. Fischelson ficou com a certeza que ela se tinha ido deitar. Mas ficou sem perceber porque não tinha ela dito “boa noite.” “Assustei-a com a minha filosofia”, pensou ele. Momentos depois ouviu-lhe os passos. Ele entrou no quarto carregando uma pilha de roupa, como se fosse uma vendedora ambulante.
“Queria-lhe mostrar isto. É o meu enxoval”, disse ela. E começou a desdobrar vestidos sobre a cadeira – de lã, de seda, de veludo. Tirando um vestido de cada vez, ela segurava-os contra o seu corpo. Mostrou-lhe tudo o que tinha no enxoval – roupa interior, sapatos, meias.
“Não sou gastadora. Sou muito poupada. Tenho dinheiro suficiente para ir para a América”, disse-lhe ela.
Depois fez-se silêncio e a sua cara ficou vermelha como um tijolo. Ela olhou para o Dr. Fischelson pelo canto do olho, tímida, curiosa. O corpo do Dr. Fischelson começou a tremer como se ele tivesse febre. “Muito bonito… coisas muito bonitas”, disse ele. Com as sobrancelhas arqueadas, puxou pela barba com dois dedos. Um sorriso triste apoderou-se da sua boca desdentada e os seus grandes olhos agitados, olhando à distância através da janela do sótão, sorriam também melancolicamente.

(continua…)

Dilema


Quanto mais me
afasto da loucura
na direcção do equilíbrio
e da razão,
mais me aproximo
da berma da loucura.
Devo surpreender-me:
mercador de paradoxos,
aliado da dialéctica?
Tremo com intimidações –
não de imortalidade.
Ou mudas, dizem eles,
ou morres de sanidade.

Nissim Ezekiel (1924-2004), poeta e dramaturgo. Judeu indiano.

::Do Mesmo Poeta::
Poemas à Moda da Antologia Grega / Vida e Poema Cartaz: Dois poemas de Nissim Ezekiel

Um pintor “português” morto em Auschwitz

Considerado um dos mais representativos retratistas holandeses dos finais do século XIX e da primeira metade do século XX, Baruch Lopes Leão de Laguna nasceu em Amsterdão, a 16 de Fevereiro de 1864, no seio de uma família sefardita portuguesa.
A sua vida começa tal como haveria de acabar – marcada pelos mesmos tons de tragédia. Aos dez anos perdeu os pais – Salomão Lopes de Leão Laguna e Sara Kroese – dando entrada no orfanato da comunidade de judeus portugueses de Amsterdão. Apoiado pelos professores da comunidade, ganhou o gosto pela pintura, estudando primeiro na Escola Quellinus e depois na Academia Nacional de Belas Artes da Holanda.
Para sobreviver, Leão Laguna trabalhou para o pintor Jacob Meijer de Haan – primeiro na pastelaria da família, no bairro judeu de Amsterdão, e posteriormente no atelier, como seu assistente.
Aos poucos, a pintura de Leão de Laguna foi ganhando fama e reconhecimento suficientes para lhe permitirem dedicar-se por completo à sua paixão. Em 1885 faz a sua primeira exposição na Associação Arti et Amicitiae, uma mostra bastante bem recebida pela crítica e pelos colegas. Por essa altura Baruch Lopes de Leão Laguna casa com Rose Asscher, filha de um lapidador de diamantes.
Durante os primeiros anos da ocupação nazi, Leão Laguna refugiou-se na região de Laren, no norte da Holanda. Terá sido nessa altura que pintou o auto-retrato que figura em cima. Auxiliado por uma família que o esconde numa quinta remota, Leão Laguna fica-lhes imensamente grato, oferecendo-lhes vários dos seus quadros (entre os quais este auto-retrato).
Eventualmente, Baruch Lopes de Leão Laguna é capturado pelos nazis e levado para o campo de extermínio de Auschwitz, onde é assassinado a 19 de Novembro de 1943, com 79 anos de idade.

Ilustração: Auto-retrato, Leão Laguna, óleo sobre tela, cerca de 1940, 82 x 54 cm

::PARA VER:: Baruch Lopes de Leao Laguna on Artnet / De Valk Lexicon kunstenaars Laren-Blaricum: Laguna / Baruch Leao Laguna – Ask Art / Kunsthandlung Nitsche / Joods Historisch Museum | Museumcollectie: Laguna…

O Spinoza da Rua do Mercado (V)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Parte V (ver Parte I; Parte II; Parte III e Parte IV)


O Gueto de Varsóvia, Polónia, inverno de 1938. Fotografia de Roman Vishniac.

As leis eternas, aparentemente, não tinham ainda ordenado o fim do Dr. Fischelson.
À esquerda da entrada do quarto do Dr. Fischelson havia uma porta que dava para um corredor escuro, apinhado de caixas e cestos, no qual um cheiro a cebola frita e sabão azul e branco estava sempre presente. Atrás desta porta vivia uma solteirona a quem os vizinhos chamavam Dobbe Preta. Dobbe era alta, magra e morena como a pá de um padeiro. Tinha o nariz partido e por cima do lábio despontava um bigode. A sua voz era rouca e masculina e usava sapatos de homem. Durante anos, Dobbe Preta vendera pão que comprava ao padeiro da esquina. Mas um dia zangou-se com o padeiro e mudara-se para o mercado, onde agora vendia “amassados”, um nome que o povo dava a ovos rachados. Dobbe Preta não tinha sorte com os homens. Ficara noiva duas vezes de aprendizes de padeiro mas duas vezes acabara o noivado. Algum tempo depois ficou noiva de um velho, um vidreiro que lhe dissera ser divorciado, mas que mais tarde se descobriu ainda ter mulher. Dobbe Preta tinha um primo na América, um sapateiro, que ela sempre dizia que um dia lhe havia de mandar uma passagem. Mas ia ficando por Varsóvia. As mulheres da vizinhança provocavam-na dizendo: “Já não há esperança para ti, Dobbe. Vais morrer velha e solteira.” Dobbe respondia sempre: “Não quero ser escrava de um homem qualquer. Eles que apodreçam todos.”
Naquela tarde Dobbe recebeu uma carta da América. Habitualmente ela pedia a Leizer, o alfaiate, que lhe lesse a correspondência. Mas naquela tarde Leizer não estava na loja, por isso Dobbe pensou no Dr. Fischelson, que os vizinhos pensavam ser um converso por nunca ir rezar à sinagoga. Ela bateu à porta do quarto do doutor mas não houve resposta.
“O herege saiu”, pensou Dobbe mas, mesmo assim, bateu novamente e, desta vez, a porta moveu-se ligeiramente. Ela empurrou-a ainda mais e entrou, assustada. O Dr. Fischelson jazia na sua cama completamente vestido; a sua cara estava amarela como cera; a maçã de Adão quase que lhe saltava do pescoço; a sua barba apontava para cima. Dobbe gritou; tinha a certeza que ele estava morto, mas – não – o seu corpo mexeu-se. Dobbe pegou num copo que estava em cima da mesa e correu para o encher à torneira, trazendo-o para a beira da cama e atirando a água à cara do homem inconsciente. O Dr. Fischelson abanou a cabeça e abriu os olhos.
“Que se passa consigo? Está doente?” perguntou Dobbe.
“Muito obrigado! Não!”
“Tem família? Posso ir chamá-los.”
“Não tenho família,” disse o Dr. Fischelson.
Dobbe queria ir ao outro lado da rua chamar o barbeiro, mas o Dr. Fischelson insistiu que não queria a ajuda do barbeiro. Uma vez que Dobbe não ia nesse dia ao mercado, uma vez que não havia “amassados” para comprar ou vender, ela decidiu fazer uma boa acção. Ajudou o doente a sair da cama e colocou-lhe um cobertor sobre os ombros. Depois despiu o Dr. Fischelson e preparou-lhe uma sopa no fogão a petróleo. O sol nunca entrava no quarto de Dobbe, mas aqui os raios de sol desenhavam rectângulos luminosos nas paredes desbotadas. O chão estava pintado de vermelho. Por cima da cama estava pendurada a imagem de um homem de cabelo comprido com um enorme colarinho de folhos. “Um homem de tanta idade mas, mesmo assim, tem o quarto tão asseado e arrumado,” pensou Dobbe. O Dr. Fischelson pediu-lhe a Ética e ela deu-lhe o livro a contragosto. Estava convencida que se tratava de um livro de orações dos gentios. Depois começou a arrumar o quarto, varreu o chão e trouxe um balde de água. O Dr. Fischelson comeu; depois de terminar, estava com mais forças e Dobbe pediu que ele lhe lesse a carta.
Ele leu-a devagar, com o papel a tremer-lhe nas mãos. Vinha de Nova Iorque, do primo de Dobbe. Uma vez mais ele escrevia que lhe havia de mandar “uma carta muito importante” e um bilhete para a América. Dobbe já sabia a história de cor e até ajudou o velhote a decifrar os rabiscos do seu primo. “Ele está a mentir”, disse Dobbe. “Há muito tempo que ele se esqueceu de mim.” Dobbe voltou à noite. Uma vela num candelabro de bronze ardia na cadeira ao lado da cama. Sombras avermelhadas tremiam nas paredes e no tecto. O Dr. Fischelson estava sentado na cama, a ler um livro. A vela lançava uma luz dourada sobre a sua testa, que parecia fendida em duas metades. Um pássaro voara pela janela e pousara na mesa. Por um momento Dobbe ficou com medo. Este homem fazia-a pensar em bruxas, espelhos negros, cadáveres a vaguear pela noite e mulheres aterradoras. Mesmo assim, deu alguns passos na direcção dele e perguntou: “Então, como se sente? Está melhor?”
“Sim, um pouco melhor, obrigado.”
“É verdade que é um converso?” perguntou ela sem compreender muito bem o que a palavra significava.
“Eu, um converso? Não, sou um judeu como qualquer outro judeu”, respondeu-lhe o Dr. Fischelson.
A garantia do doutor fez com que Dobbe se sentisse mais em casa. Procurou a garrafa de petróleo e acedeu o fogão, depois foi a casa buscar um copo de leite para fazer papas de farinha. O Dr. Fischelson continuou a estudar a Ética, mas naquela noite ele não estava com cabeça para os teoremas e provas com as suas muitas referências a axiomas, definições e outros teoremas. Com as mãos trémulas ele ergueu o livro à altura dos olhos para ler: “A ideia de uma afecção qualquer do corpo humano não implica um conhecimento adequado do corpo exterior… A ideia de uma afecção qualquer da mente humana não implica um conhecimento adequado da mente humana.”

(continua…)

Imagens da nossa Diáspora

A réplica de uma lápide do cemitério de judeus portugueses de Curaçao, nas Antilhas Holandesas, exposta no museu da Sinagoga Mikvé Israel-Emanuel, conhecida oficialmente como United Netherlands Portuguese Congregation Mikvé Israel-Emanuel, testemunha a presença inequivoca dos nossos e da nossa língua naquelas paragens.
Datada da primeira metade do século XVIII, a lápide encontra-se quase integralmente escrita em português, com excepção da inscrição cimeira, em hebraico, que cita o Livro de Ester: “E Mordecai compareceu perante o Rei”

No resto da lápide pode ler-se:

Do bem-aventurado e insigne varão Mordecai Hisquiau Namias de Crasto benquisto do geral e procurador da paz. Faleceu em 13 de Yiar do ano 5476 [5 de Maio de 1716]. Sua alma goze da glória.”


Esta rara imagem mostra o interior da Sinagoga Portuguesa de Curaçao, palco de uma curiosa tradição sefardita que apenas se mantém ainda nas Caraíbas: o chão encontra-se coberto de areia – por um lado para abafar os passos, recordando os tempos da Inquisição, em que o judaísmo era praticado em segredo; por outro para fazer lembrar que aqueles que a frequentam estão ainda no exílio – que pisam as areias do deserto do seu “Egipto”.

Fotos gentilmente cedidas por Francisco Duarte Azevedo.





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