Archive for July, 2007

Relativismo moral e “A Mighty Heart”

Um artigo de Judea Pearl *


Angelina Jolie e Dan Futterman nos papéis de Marianne e Daniel Pearl

Acreditei em tempos que o mundo estava basicamente dividido entre dois tipos de pessoas: aqueles que eram de um modo geral tolerantes e os que se sentiam ameaçados pela diferença. Se as forças da tolerância conseguissem vencer as forças da intolerância, pensava eu, o mundo poderia finalmente conhecer alguma paz.
Mas havia um problema com a minha teoria, e nunca tal fora tão claro como numa conversa com um amigo paquistanês que me disse que abominava pessoas como o Presidente Bush, que insistia em dividir o mundo entre “nós” e “eles”. O meu amigo, é claro, tomava uma posição inocente contra a intolerância e não percebeu que, ao fazê-lo, ele próprio estava também a dividir o mundo entre “nós” e “eles”, caindo exactamente no campo das pessoas que dizia abominar.
Esta é a versão política de um famoso paradoxo formulado por Bertrand Russell em 1901, que na época abanou os alicerces lógicos das matemáticas. Qualquer pessoa que diz ser tolerante naturalmente se define a si própria em oposição àqueles que são intolerantes. Mas isso faz com que essa mesma pessoa seja intolerante em relação a certas pessoas – o que acaba por invalidar a afirmação de tolerância.
A lição política do paradoxo de Russell é que não existe tolerância absoluta. No fim de contas, é necessário poder ser intolerante em relação a certos grupos ou ideologias sem renunciar à superioridade moral normalmente ligada à tolerância e à inclusão. Deve-se, na verdade, condenar e resistir a doutrinas políticas que advogam o assassínio de inocentes, que minam as normas básicas da civilização, ou que tentam tornar impossível o pluralismo. Não pode haver equivalência moral entre aqueles que procuram – mesmo por vezes desajeitadamente – construir um mundo mais livre e tolerante, e aqueles que defendem a aniquilação de outras religiões, culturas ou estados.
Tudo isto vem a propósito do meu filho, Daniel Pearl. Graças à estreia do filme A Mighty Heart, o filme baseado no livro homónimo de Mariane Pearl, o legado de Danny está novamente a merecer atenção. É claro, nenhum filme poderia captar exactamente o que fazia de Danny uma pessoa especial – o seu sentido de humor, a sua integridade, o seu amor pela humanidade – ou por que razão ele era admirado por tantos. Para os jornalistas, Danny representa a coragem e a nobreza inerentes à sua profissão. Para os americanos, Danny é o símbolo de um dos melhores instintos nacionais: o desejo de estender uma mão de amizade e diálogo a gentes de terras distantes. E para quem tenha orgulho nas suas origens e na sua fé, as últimas palavras de Danny, “eu sou judeu”, mostraram que é possível encontrar dignidade na nossa identidade, mesmo nos momentos mais negros. Traços destas ideias são certamente evidentes em A Mighty Heart, e espero que os espectadores saiam dos cinemas sentindo-se inspirados por elas.
Ao mesmo tempo, preocupa-me que A Mighty Heart possa cair numa armadilha que Bertrand Russell teria reconhecido: o paradoxo da equivalência moral, da tentativa de esticar demasiado a lógica da tolerância. Podem ver-se traços desta lógica nas comparações feitas pelo filme entre o rapto de Danny e Guantánamo – o filme abre com imagens da prisão – e com as suas comparações entre os terroristas da al-Qaeda e os agentes da CIA. Podem ainda ler-se nos comentários do realizador do filme, Michael Winterbottom, que escreveu no site do Washington Post que A Mighty Heart e o seu filme anterior Road To Guantanamo eram “muito semelhantes. Ambos contam histórias de pessoas vítimas de um crescendo de violência de ambos os lados. Há extremistas em ambos os lados que pretendem aumentar o clima de violência e centenas de milhares de pessoas morreram por causa disso.”
Estabelecer comparações entre o assassínio de Danny e os suspeitos detidos em Guantánamo é precisamente o que os assassinos queriam, tal como o expressaram nos seus emails e no vídeo do assassínio. Obviamente, Winterbottom não quis fazer eco destes sentimentos, nem certamente justificar as suas exigências nem os seus actos. Mesmo assim, preocupa-me que aspectos deste filme possam fazer o jogo dos profissionais da ofuscação da clareza moral.
Na verdade, após um visionamento antecipado de A Mighty Heart, um representante do Council on American-Islamic Relations alegadamente afirmou: “Precisamos acabar com a cultura das bombas, da tortura, da ocupação e da violência. Esta é a mensagem que sobressai do filme.”
A mensagem passada a jovens inflamados é infeliz: Todas as formas de violência são más; então, enquanto uma persistir, as outras não podem ser postas de parte. Esta é precisamente a lógica utilizada por Mohammed Siddiqui Khan, um dos bombistas suicidas de Londres, na sua mensagem transmitida pela Al Jazeera. “O vosso governo democraticamente eleito”, disse ele aos seus compatriotas, “continua a perpetrar atrocidades contra o meu povo… nós não vamos parar.”
A tragédia de Danny exige um fim para esta lógica. Não pode haver comparações entre aqueles que têm orgulho em matar um jornalista desarmado e aqueles que fazem votos de acabar com actos semelhantes – sem apelo nem agravo. O relativismo moral morreu com Daniel Pearl, em Carachi, a 31 de Janeiro de 2002.
Tempos houve em que traçar simetrias morais entre dois lados de qualquer conflito era a marca d’água do pensamento original. Hoje, com os intelectuais ocidentais a traçarem equivalências de forma absurda e negligente, reflecte apenas um preguiçoso conformismo. O que é necessário agora aos intelectuais, realizadores de cinema e a todos nós é resistir a esta perigosa moda e traçar distinções legítimas sempre que essas distinções se justifiquem.
O meu filho Danny teve a coragem de examinar todos os lados. Ele era também um ouvinte atento e um campeão do diálogo. Mas ele tinha também princípios e linhas que não ultrapassava. Ele foi tolerante mas não o foi de forma irresponsável. Espero que os espectadores se lembrem disto quando forem ao cinema ver A Mighty Heart.


Marianne e Daniel Pearl na vida real

* Judea Pearl, matemático e professor universitário, é pai de Daniel Pearl, o jornalista do Wall Street Journal assassinado brutalmente pela al-Qaeda no Paquistão, em Janeiro de 2002. Este artigo foi publicado na edição impressa desta semana da revista The New Republic.
O filme, que está em fase de lançamento nos Estados Unidos, estreará em Portugal em meados de Setembro próximo.

O Spinoza da Rua do Mercado (IV)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)

Parte IV (ver Parte I; Parte II e Parte III)

De três em três meses um carteiro especial que só entregava vales de correio trazia ao Dr. Fischelson oitenta rublos. Desde o início de Julho que ele esperava a sua verba trimestral, mas os dias foram passando sem que lhe aparecesse o homem alto com bigode louro e botões reluzentes, fazendo com que ele ficasse cada vez mais ansioso. Já praticamente não lhe sobrava um vintém sequer. Quem sabe – possivelmente a comunidade de Berlim rescindira o seu subsídio; talvez o Dr. Hildesheimer tivesse morrido, Deus queira que não; os correios podem ter cometido um erro. Que todos os acontecimentos tinham a sua causa sabia o Dr. Fischelson. Tudo estava determinado, tudo era necessário, e um homem racional não tinha o direito de se preocupar. Mesmo assim, as preocupações invadiam-lhe o cérebro, zumbindo à sua volta como moscas. Na pior das hipóteses, pensou ele, poderia suicidar-se, mas depois recordou-se que Spinoza não aprovava o suicídio e comparava a loucos aqueles que acabavam com as suas próprias vidas.
Um dia, quando o Dr. Fischelson foi à loja comprar um caderno, ouviu gente a falar da guerra. Algures na Sérvia, um príncipe austríaco tinha sido morto a tiro e a Áustria enviara um ultimato aos sérvios. O dono da loja, um homem novo com barba amarelada e amarelados olhos manhosos, anunciou “então lá vamos ter uma guerrinha”, aconselhando o Dr. Fischelson a armazenar comida porque no futuro era provável que houvesse racionamento.
Tudo aconteceu tão depressa. O Dr. Fischelson ainda não tinha decidido se valia a pena gastar quatro centavos num jornal, quando começaram a aparecer por toda a cidade cartazes a anunciar a mobilização. Viam-se homens a caminhar na rua com pequenas placas metálicas redondas na lapela, sinal de que tinham sido incorporados no exército. Eram seguidos pelas suas mulheres chorosas. Numa segunda-feira, o Dr. Fischelson desceu à rua para comprar comida com o dinheiro que lhe restava mas encontrou as lojas fechadas. Os donos e as suas mulheres estavam na rua, a explicar aos fregueses que era impossível obter mercadorias. Mas alguns fregueses especiais eram chamados à parte e conduzidos ao interior da loja pela porta das traseiras. Na rua tudo era confusão. Viam-se polícias montados a cavalo com espadas desembainhadas. Uma grande multidão juntara-se em volta da taberna onde, a mando do Czar, barris de whisky eram despejados na sarjeta.
O Dr. Fischelson foi até ao seu café do costume. Talvez ali encontrasse algum conhecido que o pudesse aconselhar. Mas não encontrou ninguém conhecido. Decidiu, então, visitar o rabino da sinagoga onde ele em tempos dirigira a biblioteca, mas o secretário informou-o que o rabino fora com a família para as termas. O Dr. Fischelson tinha mais amigos na cidade, mas não conseguiu encontrar ninguém em casa. Doíam-lhe os pés de tanto andar; começou a ver manchas pretas e verdes à frente dos olhos e quase desfaleceu. Parou e esperou que as tonturas passassem. Alguns transeuntes empurraram-no. Uma aluna de liceu com olhos negros tentou dar-lhe uma moeda. Apesar da guerra estar ainda no início, soldados marchavam com farda de batalha – estavam já cobertos de poeira e queimados do sol. Tinham cantis amarrados à cintura e envergavam cinturões de balas sobre o peito. As baionetas das suas espingardas cintilavam com um brilho esverdeado e frio. Cantavam com vozes enlutadas. Com os soldados vinham canhões, cada um puxado por oito cavalos; respirando por entre as palas dos freios um terror sombrio. O Dr. Fischelson sentiu náuseas. Doía-lhe o estômago; os seus intestinos pareciam querer voltar-se do avesso. Suores frios cobriam-lhe o rosto.
“Estou a morrer,” pensou ele. “É o meu fim.” Mesmo assim conseguiu arrastar-se até casa, deitando-se na cama de ferro, onde ficou a ofegar e a gemer. Deve ter adormecido, porque subitamente imaginou que estava na sua terra natal, Tishvitz. Tinha uma dor de garganta e a sua mãe preparava uma meia cheia de sal quente para lhe colocar em volta do pescoço. Conseguia ouvir vozes pela casa; falavam sobre uma vela e como um sapo lhe tinha mordido. Ele queria ir para a rua mas não o deixavam porque estava a passar uma procissão católica. Homens com longas vestimentas, segurando nas mãos machados de dois gumes, entoavam uma melodia em latim ao mesmo tempo que salpicavam água benta. Cruzes reluziam; imagens sagradas eram agitadas nos ares. O ar cheirava a incenso e a cadáveres. Subitamente o céus tornou-se rubro e o mundo inteiro começou a arder. Os sinos repicavam; as pessoas corriam loucamente de um lado para o outro. Bandos de pássaros esvoaçavam ao alto, guinchando. O Dr. Fischelson acordou sobressaltado. O seu corpo cobrira-se de suor e a sua garganta estava agora realmente dorida. Tentou meditar acerca daquele sonho extraordinário, para encontrar a sua ligação racional ao que lhe estava a acontecer e para compreender a sua sub specie eternitatis, mas nada fazia sentido. “Ah, o cérebro é um receptáculo de absurdo,” pensou o Dr. Fischelson. “A terra pertence aos loucos.”
Cerrou as pálpebras outra vez; outra vez se deixou dormir; e outra vez mais sonhou.

(continua…)





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