Archive for May, 2007

Os nossos fantasmas em Salónica

A Chave em Salónica

Abarbanel, Farias ou Pinedo
atirados de Espanha por ímpia
perseguição, conservam todavia
a chave de uma casa de Toledo.

Livres agora da esperança e do medo,
olham a chave ao declinar do dia;
no bronze há outroras, distância,
cansado brilho e sofrimento quedo.

Hoje que sua porta é poeira, o instrumento
é cifra da diáspora e do vento,
como essa outra chave do santuário

que alguém lançou ao azul quando o romano
com fogo temerário acometeu,
e que no céu uma mão recebeu.

Jorge Luís Borges,
in El Otro, El Mismo, 1964

Este belo poema de Borges – que se considerava a si próprio um descendente de judeus portugueses fugidos da Inquisição –, vem a propósito de um interessante post no Abrupto sobre Salónica e sobre os fantasmas de uma cidade que, durante séculos, serviu de refúgio e morada a uma florescente comunidade de judeus portugueses e espanhóis que acabaria por ser aniquilada quase na totalidade pelos nazis entre 1941 e 1944. Hoje, dos sefarditas de Salónica pouco ou nada resta. Aconselho vivamente a leitura do texto de José Pacheco Pereira: Nunca é tarde para aprender: “Las mocicas de agora / todas vistem de tango”.
Leiam o que por lá se escreve e, depois, regressem à Judiaria para ouvir uma melodia cantada em Salónica, nessa língua mesclada de português e castelhano que os judeus ibéricos levaram para os lados do Levante. Chama-se “Morenica”, cantada por Savina Yannatou, do álbum “Primavera en Salonico”.
Escutem.


Savina YannatouMorenica
in Primavera en Salonico

Um pintor português em Nova Iorque


O Barco, Francisco Duarte Azevedo, 2005.


Quando acabo um quadro seguro ao seu lado um qualquer objecto feito por Deus – uma pedra, uma flor, o ramo de uma árvore ou a minha mão – como se fora um teste final. Se o quadro se aguentar ao lado de algo que o homem não pode produzir, o quadro é autêntico. Se houver um choque entre os dois, a arte é má.”
Marc Chagal, pintor, judeu russo naturalizado francês, em entrevista ao Saturday Evening Post, de Nova Iorque, a 2 de Dezembro de 1962.

Não é todos os dias que um pintor português expõe o seu trabalho em Nova Iorque. Não é também todos os dias que sinto orgulho em poder chamar amigo a alguém cujo talento admiro profundamente. Esta bela citação de Chagal é pretexto perfeito para convidar os meus leitores de Nova Iorque – e arredores –a conhecerem a pintura de Francisco Duarte Azevedo, actualmente em exposição a escassos três quarteirões de Times Square. Diplomata de carreira, cônsul geral de Portugal em Newark, poeta e escritor, Francisco Duarte Azevedo tem na pintura o veículo perfeito. Para o seu indiscutível talento e para a sua imensa generosidade.
Francisco expõe em conjunto com a fotógrafa nova-iorquina Dorothy Krakauer, que mostra um conjunto de excelentes fotografias do sul de Espanha. “The painter constructs, the photographer discloses”, escreveu Susan Sontag.
A exposição tem lugar no restaurante Pomaire, (o único restaurante chileno de Nova Iorque), 371 W 46th St, entre as avenidas 8 e 9, no coração da Broadway. Vejam os belos quadros de Francisco Duarte Azevedo, as fotos de Dorothy Krakauer e, já agora, aproveitem para provar a sopa – o caldillo de congrio chileno é também uma obra de arte.





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