Archive for September, 2006

O mundo permanece em silêncio

Este extenso artigo foi publicado na edição de sexta-feira passada (22/09/2006) do diário israelita Ma’ariv. O seu autor, Ben Dror Yemini, um comentador de centro-esquerda, é editor das páginas de opinião do jornal. O artigo original em hebraico pode ser lido aqui: והעולם שותק. Optei por traduzir o texto e publicá-lo aqui porque Dror Yemini levanta várias questões pertinentes e apresenta factos que merecem uma reflexão aprofundada. Para ler atentamente.


Foto de Enric Marti, Associated Press. 2 de Fevereiro de 2004

um artigo de Ben Dror Yemini

Facto número 1: Desde o estabelecimento do Estado de Israel, um genocídio cruel é perpetrado contra muçulmanos e árabes. Facto número 2: O conflito no Médio Oriente entre israelitas e árabes no seu todo, e contra os palestinianos em particular, é considerado o conflito central do mundo actual. Facto número 3: Segundo sondagens levadas a cabo na União Europeia, Israel é considerada “a maior ameaça à paz mundial”. Na Holanda, por exemplo, 74% da população defende este ponto de vista. Não o Irão. Não a Coreia do Norte. Israel.
A ligação entre estes factos criou a maior fraude dos nossos tempos: Israel é encarado como o país responsável por todas as calamidades, desgraças e sofrimentos. Representa um perigo à paz mundial, e não apenas para o mundo árabe ou islâmico.

Como funciona a fraude

O dedo é habilmente apontado. É difícil culpabilizar Israel pelo genocídio no Sudão ou pela guerra civil na Argélia. Como é que isto é feito?

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Feliz Ano Novo – שנה טובה

Esta noite e amanhã, no primeiro dia do mês hebraico de Tishri (תשרי), celebra-se o Ano Novo judaico, conhecido como Rosh Hashaná. Aqui ficam os votos tradicionais judaicos para este dia, que dedico aos leitores da Rua da Judiaria: Que possam ser inscritos no Livro da Vida e selados para um ano doce e cheio de paz. Feliz 5767!

שתהיה לך שנה מתוקה נפלאה ומלאה בדברים טובים
שנה טובה

A História das Palavras

É a primeira incursão de Inácio Steinhardt pela blogosfera. Chama-se História das Palavras e promete desenlear os novelos de história e histórias que se escondem por detrás de palavras comuns da língua portuguesa. Começou há menos de uma semana, mas já tem muito que ler atentamente.
Na língua hebraica, um dos termos utilizados para “palavras” é “devarim” (דברים) que, além de “palavra”, quer também dizer “coisa”, “objecto” ou “matéria”, fornecendo à “palavra” uma qualidade tangível e palpável. Segundo a tradição judaica, o próprio universo foi criado com palavras. Por tudo isto, e pelas deliciosas histórias que nos conta Inácio Steinhardt, aconselho uma visita regular ao seu História das Palavras.

7.º Centenário da antiga Sinagoga de Lisboa

“Como são belas as tuas tendas, Jacob, as tuas moradas, Israel”
“Números” 24:5, verso inicial da oração de “Má tobu”, que os judeus pronunciam ao entrar na sinagoga

Um texto de Inácio Steinhardt *

Faz agora dois anos – foi em Setembro de 2004 – que a Comunidade Israelita de Lisboa comemorou, com a devida solenidade, o primeiro centenário da inauguração da Sinagoga Portuguesa “Shaaré Tikvá”.
Talvez não venha a despropósito assinalar agora, ainda que apenas de forma simbólica, a outra efeméride – o sétimo centenário da inauguração da primeira grande sinagoga de Lisboa, em 10 de Setembro de 1306, que foi nesse ano o primeiro dia de Rosh Hashaná [o Ano Novo judaico, que este ano é assinalado ao cair da noite da próxima sexta-feira, dia 22 de Setembro], do ano de 5067.
Rosh Hashaná, ou primeiro de Tishri, foi também o dia em que, segundo a tradição, terminou a construção do Templo do rei Salomão.
Talvez que essa outra efeméride estivesse também na intenção do Arrabi-Mor Dom Judah Ben Yahia, neto do primeiro arrabi-mor do Reino, Yahia Ibn-Yaish, ao escolher esse dia para inaugurar a sua opulenta sinagoga.
A placa, já bastante danificada, dessa sinagoga, ainda hoje se conserva no Museu Abraham Zacuto em Tomar.

Nela se lê, pela leitura erudita de Samuel Schwarz:
“Esta é a porta do Senhor pela qual os justos entrarão. Entrai pelas suas portas com graças e em seus átrios com louvor.
Vós que ides no caminho do Senhor acorrei à casa do culto. Três vezes por dia vinde às suas portas em acção de graças.
E tomai nas vossas mãos cítaras e cantai um cântico de graças.
Edifício formoso e belo construiu o opulento rabi Iahuda filho de Guedaliah que tem o seu assento nas assembleias dos justos e da congregação.
Ao nome do Senhor levantou e construiu esta obra magnífica.
E acabou a obra do nosso Deus no primeiro dia do nosso famoso mês de Eitanim, no ano de cinco mil e sessenta e sete do nosso cômputo.
Deus que dispôs o coração do rabino para aformosear a casa do nosso Deus e o nosso Templo, Ele reunirá o Seu povo no Seu santuário [em Jerusalém], e nos fará ver a sua reconstrução em companhia dos nossos filhos.
Bem-aventurado o homem que me obedece, velando às minhas portas todos os dias, guardando as ombreiras das minhas dos meus pórticos.”

“Eitanim” (os firmes) é outro nome dado ao mês de Tishri, porque, segundo a tradição, foi nesse mês que nasceram os três patriarcas da nação de Israel.
Devia ser realmente sumptuosa, em termos da época em que foi construída, essa sinagoga, situada na então Judiaria Grande de Lisboa, no ponto mais próximo da igreja da Madalena, que ficava então frente à cerca da Judiaria.
E talvez tivesse sido intencional a presença de um templo cristão, dedicado à judia arrependida Miriam de Migdal, junto ao bairro dos “cafres” judeus.
A única descrição visual que temos da sinagoga grande de Lisboa foi deixada pelo médico alemão, Jeronimus Muenzer, que visitou a Espanha e Portugal em 1494, num itinerário em latim, de que possuo a tradução em espanhol, de Júlio Puyol (Boletim da Biblioteca da Real Academia de la Historia):
“El sábado, vigilia de San Andrés, visité su sinagoga. No había estado nunca en uno de estos templos. En un patio que hay delante de ella, crece una parra gigantesca, cuyo tronco mide cuatro palmos de circunferencia. El interior, arreglado con extremada pulcritud, tiene una cátedra o púlpito para predicar, por el estilo del de las mezquitas; ardían diez enormes candelabros con cincuenta o sesenta luces cada uno, además de otras muchas lámparas, y las mujeres colócanse en lugar separado del de los hombres, alumbrado, de igual modo, con profusión de luces.”
Que a sinagoga tinha, pelo menos, três naves sabemos pelo inventário dos bens apreendidos a Dom Isaac Abrabanel, quando este fugiu para Castela, por ter sido acusado de implicação na tentativa de subversão do Duque de Bragança:
“hum lugar de sseda [”cadeira” na interpretação de Elias Lipiner] na esnoga grande de Lisboa, na nave do meo em que see assentava Yuda Abrabanel seu padre”
Os judeus pagavam à Comuna uma pensão anual pelos lugares reservados, que mantinham na sinagoga. Mas tinham o direito de os transmitir por venda ou por herança. Assim se explica que D. João II se tenha apropriado dos três lugares pertencentes a Isaac Abrabanel, de um dos quais fez doação, em 1486, a Mousem Zarco, seu alfaiate.
Em 1497, quando da conversão forçada dos judeus de Portugal, todas as sinagogas do reino passaram para a posse do rei.
Mais tarde D. Manuel I fez doação do edifício da sinagoga grande de Lisboa aos frades da Ordem de Cristo, em troca do convento que estes mantinham no Restelo, onde viria a ser construído o Mosteiro dos Jerónimos.
O edifício da sinagoga foi transformado pelos frades, devidamente autorizados pelo Papa, na Igreja da Conceição (Velha), que o terramoto de 1755 destruiu totalmente.

* Inácio Steinhardt, jornalista português, tradutor e historiador residente em Israel. Este texto é publicado aqui na Rua da Judiaria com a sua autorização. Conto publicar proximamente outras colaborações exclusivas suas para este blog

A benção

O rabino Mekhel, o pregador de Zlotschov, disse um dia aos seus filhos: “Uma das grandes bênçãos da minha vida foi nunca ter necessitado de nada que já não possuísse.”

Rabino Yehiel Mekhel, conhecido como o pregador (maguid) de Zlotschov (Ucrânia, século XVIII)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

“Torres irão desmoronar… e cair nesse dia”


“E queimará torres (…) torres irão desmoronar… e cair nesse dia.”


“(…) Qual é o seu nome? B’ladan é o seu nome, e ele não é um ser humano (…)”

ספר הזוהר, Sefer Ha’Zohar (O Livro do Esplendor), Rabino Shimon Bar Yohai, Jerusalém, século II E.C. (volumes I e XV, Parshat Shemot)

Judaísmo Pop

::PARA OUVIR::
Madonna Isaac

Ofra HazaIm nin’alu

Im nin’alu é um dos muitos poemas religiosos judaicos (piyyutim) escritos no século XVII por Shalom Shabazi, um tecelão poeta natural do Yémen. O poema serve de base para Isaac, uma canção do último álbum de Madonna, Confessions on a Dance Floor, lançado em Novembro do ano passado e que, só na primeira semana, vendeu mais de quatro milhões de cópias.
O mesmo piyyut fora já gravado numa outra versão, lançada em 1985, pela voz da cantora israelita Ofra Haza, ela própria descendente de judeus yemanitas.

Se as Portas Cerrarem (Im nin’alu)

Se as portas dos generosos se cerrarem
As portas das Alturas nunca se trancam.
O Criador reina supremo sobre querubins
No seu espírito, todos serão elevados.

Shalom Shabazi (1619-1689), poeta, judeu yemanita.

No Jardim Zoológico

O céu está cinzento com chuva que não cairá,
Nos carreiros de argila há poças de fantasmagórica neblina.
Empestada com imemorial tristeza,
A terra cinzenta drena a coragem de existir.

Pobres criaturas dos trópicos, encurraladas em terras do norte,
Eu também desejo o sol e sou escravo.
O meu coração está convosco,
Compreendo o leão que se volta vivo na sua sepultura.

Israel Zangwill (1864-1926), escritor, dramaturgo e poeta.
Judeu britânico nascido em Londres.





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