Archive for May, 2006

Yeroushalaim (ירושלים)

Junto aos rios da Babilónia
Nos sentámos e chorámos
Lembrando Sião.
Lá nos salgueiros
Pendurámos nossas liras.

Se de ti me esquecer, ó Jerusalém,
Que mirre a minha mão direita,
Que a minha língua se quebre,
Se de ti me não lembrar,
Se não preferir Jerusalém
À minha maior alegria.

Salmo 137

::PARA OUVIR::
Ofra HazaYerushalayim Shel Zahav (Jerusalém de Ouro)

Stanley Kunitz 1905-2006

Era um dos mais brilhantes e constantes poetas americanos do último século. Stanley Jasspon Kunitz, nascido a 29 de Julho de 1905 na cidade de Worcester, Massachusetts, o terceiro filho do alfaiate Solomon Kunitz e de Yetta Jasspon Kunitz, morreu no domingo passado em Nova Iorque com 100 anos de idade. Contam os obituários que começou a escrever poesia a sério por volta de 1926, altura em que iniciava em Harvard um doutoramento que não havia de concluir. Um ano depois, disseram-lhe que nunca lhe ofereceriam uma posição de professor na universidade porque os estudantes anglo-saxonicos ficariam ofendidos por terem um judeu a ensinar-lhes literatura inglesa.

A Aproximação a Tebas

Filhos, netos, a minha longa posteridade,
A quem lego as aranhas da minha poeira,
Acreditem-me, por mais histórias que vos contem,
Ditas por médicos ou mendazes escribas,
De loucuras imberbes, de consanguínea luxúria,
Instigando pestilência, rebelião, guerra,
Eu vim preparado, presente no que vejo,
Mas amarrado à vida. Na estrada para Tebas
Tive a minha sorte, conheci um monstro encantador,
E a história é esta: do monstro fiz-me a mim.

Kunitz escrevia devagar. Fazia-o habitualmente numa velha máquina de escrever portátil, muitas vezes agarrando-se a um poema durante anos a fio até o dar como terminado. Preferia trabalhar à noite; o dia reservava-o para outras paixões, a maior das quais a jardinagem. Em entrevista à revista People, Kunitz insistia que o segredo da sua longevidade estava na sua atitude perante a vida: “Sou curioso. Sou activo. Faço jardinagem, escrevo e bebo martinis.”
No ano passado, por ocasião do seu 100o aniversário, Kunitz confessava ao New York Times que se reconciliara com a morte e que pouco se preocupava com o seu legado: “Imortalidade? Não é nada que me faça perder o sono. A minha mais profunda certeza é que estou a viver e a morrer ao mesmo tempo, e a minha convicção é relatar este diálogo.”

O Longo Barco (excerto)

(…)
Paz! Paz!
Ser embalado pelo Infinito!
Como se não importasse
qual fosse o caminho para casa;
como se ele não soubesse
amava tanto a terra
queria ficar para sempre.

::A VER E OUVIR:: The Academy of American Poets - The Portrait (poema dito por Stanley Kunitz) / Online NewsHour: Stanley Kunitz speaks with Elizabeth Farnsworth.- October 26, 2000 (vídeo) / NPR - All Things Considered: The Layers (entrevista com Kunitz. A página contém ainda um dos seus mais célebres e notáveis poemas, The Layers)

::A LER:: A Zanga (tradução minha de um poema de Stanley Kunitz, publicado na Rua da Judiaria por ocasião dos seus 100 anos) / The Academy of American Poets - Stanley Kunitz / Books & Writers: Stanley Kunitz / Poet: Stanley Kunitz - All poems of Stanley Kunitz / Stanley Kunitz - Wikipedia, / New York State Writers Institute - Stanley Kunitz


Stanley Kunitz, fotografado por Marnie Samuelson, em 2003, no jardim da sua casa de férias, em Provincetown. Poeta e professor, Kunitz era um dos mais consagrados poetas americanos. Faleceu a 14 de Maio de 2006, dois meses antes de completar 101 anos de vida.

Castelos

Castelos –
Castelos de ferro e granito,
Castelos de mármore e malaquita,
Castelos de bronze e aço e ouro,
Castelos e castelos incontáveis.

Castelos –
Bibliotecas e museus,
Monumentos e mausoléus,
Templos, igrejas, catedrais,
Todos os castelos
Desmoronam!

Mas os meus castelos,
Construídos de nostalgia,
Buscando de dia, ardendo de noite,
De desejo, de esperança
De espera, de busca,
Tecido, fiado
De longínqua lua, de sol distante,
Dos meus desejos
Sem fraquejar,
Todos os meus castelos, todos, todos, todos,
Não podem nunca desmoronar!

Aaron Glanz-Leyeless (1889 – 1966). Pedagogo, linguista e poeta. Judeu polaco.

Traduzido para português a partir da tradução do yiddish original para o inglês da autoria de Benjamin and Barbara Harshav.

Exercícios de memória

Já não escrevo, decoro. Construo o livro todo na cabeça.”

As palavras são de Antonio Tabucchi, numa conversa deliciosa com Carlos Vaz Marques. Uma entrevista que irá para o ar na TSF de hoje a uma semana, às 19:00h de quinta-feira, dia 18.
Na entrevista, do programa “Pessoal e… transmissível”, Tabucchi relata que o seu último conto foi recentemente remetido à memória no Alentejo. São cinco páginas, ainda inéditas, recitadas para o papel sem apontamentos, sem notas escritas. É um conto sefardita: “Chama-se Yo m’enamori d’un aire e começa com uma canção sefardita, meia portuguesa e meio espanhola, que fala de um homem que está apaixonado por uma rapariga que se desvanece no ar. Isto refere-se às perseguições dos judeus na península Ibérica no princípio do século XVI”, diz Tabucchi. Nele é contada a história de um regresso. Um descendente de judeus portugueses volta a Lisboa, caminha pelo Jardim Botânico e pelo Príncipe Real. Vem de um “sitio muito longínquo” buscando os lugares dos seus antepassados. “Ele não fala a língua dos seus antepassados, nem espanhol nem português, mas lembra-se de uma canção que ouvia cantar quando era criança.” O resto da história pode ser ouvido neste excerto da entrevista gentilmente cedido por Carlos Vaz Marques: Pessoal e… transmissível: Antonio Tabucchi.

::PARA OUVIR::
“Yo m’enamori d’un aire”, Parvarim



A canção em ladino que inspira o conto de Tabucchi

A ENTREVISTA:

::NOTA:: A entrevista completa por ser ouvida também em formato podcasting em TSF Pessoal e… transmissível (feed xml).
Obrigado Carlos por teres permitido aos leitores da Rua da Judiaria a audição antecipada deste excerto da entrevista.





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