Archive for March, 2006

500 Anos: O massacre de Lisboa V

Testemunhos


Antes que el Rei fosse de Lisboa para Almeirim, ordenou Tristão da Cunha à Índia por capitão de uma armada, da qual, e do que nesta viagem se fez se dirá adiante, no ano de mil quinhentos e oito, em que tornou. Pelo que nestes dois capítulos, que são já derradeiros desta primeira parte tratarei de um tumulto, e levantamento, que aos dezanove dias de Abril, deste ano de mil quinhentos e seis, em Domingo de Pascoela fez em Lisboa contra os cristãos-novos, que foi pela maneira seguinte. No mosteiro de São Domingos da dita cidade estava uma capela a que chamava de Jesus, e nela um crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que davam cor de milagre, com quanto os que na igreja se acharam julgavam ser o contrário dos quais um cristão-novo disse que lhe parecia uma candeia acesa que estava posta no lado da imagem de Jesus, o que ouvindo alguns homens baixos o tiraram pelos cabelos de arrasto para fora da igreja, e o mataram, e queimaram logo o corpo no Rossio. Ao qual alvoroço acudiu muito povo, a quem um frade fez uma pregação convocando-os contra os cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro, com um crucifixo nas mãos bradando, heresia, heresia, o que imprimiu tanto em muita gente estrangeira, popular, marinheiros de naus, que então vieram da Holanda, Zelândia, e outras partes, ali homens da terra, da mesma condição, e pouca qualidade, que juntos mais de quinhentos, começaram a matar todos os cristãos-novos que achavam pelas ruas, e os corpos mortos, e os meio vivos lançavam e queimavam em fogueiras que tinham feitas na Ribeira e no Rossio a qual negócio lhes serviam escravos e moços que com muita diligência acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo, no qual Domingo de Pascoela mataram mais de quinhentas pessoas. A esta turma de maus homens, e dos frades, que sem temor de Deus andavam pelas ruas concitando o povo a esta tamanha crueldade, se ajuntaram mais de mil homens da terra, da qualidade dos outros, que todos juntos segunda-feira continuaram nesta maldade com maior crueza, e por já nas ruas não acharem cristãos-novos, foram cometer com vaivéns e escadas as casas em que viviam, ou onde sabiam que estavam, e tirando-os delas de arrasto pelas ruas, com seus filhos, mulheres, e filhas, os lançavam de mistura vivos e mortos nas fogueiras, sem nenhuma piedade, e era tamanha a crueza que até nos meninos, e nas crianças que estavam no berço a executavam, tomando-os pelas pernas fendendo-os em pedaços, e esborrachando-os de arremesso nas paredes. Nas quais cruezas não se esqueceram de meter a saque as casas, e roubar todo o ouro, prata, e enxovais que nelas acharam, vindo o negócio a tanta dissolução que das igrejas tiraram muitos homens, mulheres, moços, moças, destes inocentes, despegando-os dos Sacrários, e das imagens de nosso Senhor, e de nossa Senhora, e outros Santos, com que o medo da morte os tinha abraçado, e dali os tiraram, matando e queimando sem nenhum temor a Deus assim a elas como a eles. Neste dia pereceram mais de mil almas, sem que na cidade alguém ousasse de resistir, pela pouca gente de sorte que nela havia por estarem os mais dos honrados fora, por causa da peste. E se os alcaides, e outras justiças, queriam acudir a tamanho mal, achavam tanta resistência, que eram forçados a se recolher a parte onde estivessem seguros, de não acontecer o mesmo que aos cristãos-novos. (…) Passado este dia, que era o segundo desta perseguição, tornaram terça-feira este danados homens a prosseguir a sua crueza, mas não tanto quanto nos outros dias porque já não achavam quem matar, pois todos os cristãos-novos que escaparam desta tamanha fúria, serem postos a salvo por pessoas honradas, e piedosas que nisto trabalharam tudo o que neles foi.”

Damião de Góis (1502-1574), in “Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória”, escrito em Lisboa entre 1566 e 1567. Historiador e humanista, Guarda-Mor dos Arquivos Reais da Torre do Tombo, figura central do Renascimento em Portugal – ele próprio acusado mais tarde de “heresia” pela Inquisição por causa das suas simpatias luteranas e da amizade com Erasmo –, Damião de Góis relata com sentida e genuína indignação o massacre de 1506, ao contrário de outros cronistas “cristãos-velhos” que se limitaram posteriormente a fazer um relato desapaixonado e quase burocrático da matança, optando por “branquear” os detalhes mais macabros testemunhados nos escritos de Góis.

500 Anos: O massacre de Lisboa IV

Testemunhos


A Matança de Portugal. Ano 5266 1. Não bastou have-los trazido com tanta sem razão e injustiça à sua fé afastando-os da Lei com que nasceram, mas ainda assim não os deixavam viver quietamente, denostando-os, injuriando-os, abatendo-os, e tratando-os com baixeza e desprezo, e isto não o levaram em paciência, e lhes levantavam aleives e falsos testemunhos para os destruir e arrancar do mundo, pregando os pregadores nos púlpitos, e dizendo os senhores em lugares públicos, e os cidadãos e vilãos nas praças, que qualquer fome, peste ou terremoto que vinha à terra era por não serem bons cristãos: e que secretamente judaizavam; Assim que alcançando alguns intrínsecos amigos a vontade do povo quanto inclinada estava em seu dano, acharam aparelho para meterem em efeito seus maus ânimos, entre os quais ouve dois frades dominicanos que saíram pela cidade de Lisboa com crucifixos às costas amotinando o povo e clamando que viessem todos em sua companhia vingar a morte do seu deus, e com muitos perversos ociosos e briguenta gente que a eles se recolheram, com lanças e espadas nuas em suas mãos arremetendo contra o fraco e desprovido povo dos mal baptizados e novos cristãos mataram quatro mil almas deles, roubando e viando todas aquelas crueldades que em um saque de uma cidade se fazem, atassalhando os homens arremessando as criaturas às paredes e desmembrando-as, desflorando as mulheres e corrompendo as virgens, e sobre isto tirando-lhes a vida. Houve muitas que prenhes as lançaram das janelas sobre as pontas das lanças que já embaixo as estavam esperando, e ali atalhavam o caminho às inocentes criaturas antes que arribassem ao mundo onde o céu piedoso as mandava: entre elas se achou uma que esforçando a muita ira e sua honra a um frade que a queria forçar matou com uma faca que o mesmo frade trazia. Se este assim terrível mal durara daquele ímpeto acabavam todos os novos cristãos que na cidade de Lisboa habitavam, mas provendo a misericórdia divina, com as justiças da terra acudiram, e trás isso el rei que com grande diligência veio a socorro da vila de Abrantes onde então se achava cessou aquela matança tenebrosa.”

Samuel Usque (1492-?), in Consolação às Tribulações de Israel. Historiador e escritor, judeu nascido em Lisboa, Usque era primo do pintor e tipógrafo lisboeta Abraão Usque. Fruto das perseguições de que foram vítimas em Portugal, ambos emigraram com as famílias para Ferrara, em Itália, onde Samuel publica “Consolação…”, em 1533, dedicando-o a Dona Gracia Mendes, a Senhora (a obra seria mais tarde reeditada em Amsterdão, por volta de 1600). Samuel Usque acaba por emigrar definitivamente para Safed, na Galileia, onde vem a morrer em data incerta.


Samuel Usque, Consolação às Tribulações de Israel, Ferrara, Itália, 07/09/1553

1 O ano dado por Samuel Usque, 5266, refere-se ao calendário hebraico – 1506 da Era Comum.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 Anos: O massacre de Lisboa III

Testemunhos

Vi qẽ em Lixboa se alçaram
Pouo baixo & villãos
Contra os nouos Christãos
Mais de quatro mil matarã
Dos qẽ ouuerão nas mãos.
Hũos delles viuos queimarã
Mininos espedaçarão
Fizerão grandes cruezas
Grandes roubos & vilezas
Em todos quantos acharão.

Estando só ha cidade
Por morrerem muito nella
Se fez esta crueldade
Mas el rey mandou sobrella
Cõ muy grande breuidade
Muitos forão justiçados
Quantos acharão culpados
homẽ baixos & bragantes
& dous frades observãtes
vimos por isso queimados.

El rey teue tanto a mal
Ha cidade tal fazer
Qẽ o titulo natural
De noble & sempre leal
Lhe tirou & fez perder.
Muytos homens castigou
& officios tirou
depois que Lixboa vio
tudo lhe restituyo
& o titulo lhe tornou

Garcia de Resende (1470 - 1536), in Miscellania & Variedades de Histórias, costumes, casos & cousas que em seu tempo aconteceram, escrito entre 1530 e 1533, e publicado após a sua morte, em 1554.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 Anos: O massacre de Lisboa II

Testemunhos


A matança que ocorreu lá, em Lisboa:
Estando eu fora da cidade, contaram-me dias depois ao regressar que os dois não podem ser comparados, tendo em comum apenas a crueldade e a extrema dor1. O que me contou um ancião é o que a seguir relato.
Na noite de Páscoa os cristãos encontraram marranos2 sentados à mesa com pão ázimo e ervas amargas, seguindo os rituais da Páscoa, e trouxeram-nos perante o rei, que ordenou que fossem eles encarcerados na prisão até que a sentença fosse determinada. Naquela altura havia fome e seca pelo reino, e os cristãos juntaram-se e disseram: “Porque faz o Senhor isto a nós e à nossa terra senão por causa da culpa dos judeus?” E as suas palavras foram ouvidas pela Ordem dos Pregadores também chamados Dominicanos, que se concentraram em encontrar um ardil com que ajudar os cristãos. Então um deles levantou-se na sua casa de oração e pregou palavras ásperas e amargas contra a semente de Israel. E eles planearam um artifício e fizeram um crucifixo oco com uma abertura atrás, e vidro na frente, e por lá passavam uma vela, dizendo que a chama emergia do crucifixo, enquanto o povo se prostrava e gritava: “Vede o grande milagre! Este é um sinal de que Deus julga pelo fogo toda a semente de Israel!”
Um marrano foi lá que não ouvira estas palavras e, na sua inocência, disse: “Era melhor que fosse um milagre de água e não de fogo, pois com a seca é de água que precisamos!”
Os cristãos, cujos desígnios eram funestos, levantaram-se e disseram: “Olhai, que zomba ele de nós!” A multidão de imediato o pegou e matou. Quando o seu irmão ouviu, veio e disse: “Infortúnio, ai meu irmão, quem te matou?” E um de entre a multidão ergueu a espada, cortou-lhe a cabeça e a atirou sobre o corpo do irmão. Depois disto todos os frades se levantaram levando consigo os paus de Jesus Cristo3. Foram eles pelas ruas da cidade e proclamaram: “Quem matar algum da semente de Israel terá 100 dias de absolvição no mundo vindouro!” E de entre a multidão surgiram homens armados de espadas e durante três dias mataram quatro mil almas. Arrastavam e traziam para a rua os corpos para os queimar. Mulheres grávidas foram atiradas das janelas, os seus corpos recebidos pelas pontas das lanças, os fetos caindo a muitos pés de distância. E outras crueldades semelhantes e abominações que não quero aqui contar.
Aos magistrados de Lisboa não se pode culpar, nem aos seus nobres e líderes, porque tudo isto foi feito apesar deles. Eles próprios foram tentar salvar judeus, mas por causa do tamanho da multidão não o puderam fazer, pois quase lhes puseram as mãos neles também, e eles tiveram de fugir para salvar as próprias vidas.”

Salomão Ibn Verga, in Sefer Shebet Yehudah (ספר שבט יהודה), Livro do Ceptro de Judá, escrito em Portugal pouco depois do massacre de Lisboa mas publicado apenas em 1550, em Constantinopla, pelo seu filho, Yosef Ibn Verga.

NOTAS:
1 Salomão Ibn Verga alude aqui aos dois massacres: o ocorrido dentro de Lisboa e o subsequente que se alastrou pelas áreas rurais circundantes.
2 “Anussim” (אנוסים) no hebraico original do texto, expressão que literalmente quer dizer “os forçados”. Termo aplicado aos judeus portugueses forçados a converter-se ao catolicismo.
3 (עצי ישו הנוצרי) referência pejorativa aos crucifixos.

(texto traduzido do original hebraico)

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 anos: O massacre de Lisboa

1506-2006

Vai fazer exactamente 500 anos, nos dias 19, 20 e 21 de Abril, que um cataclismo se abateu sobre Lisboa. A alma da Capital do Império sofreu um abalo tão grande – senão mesmo maior – quanto aquele que a haveria de destruir em 1755. Durante três dias, em nome de um fanatismo sanguinário, mais de 4 mil pessoas perderam a vida numa matança sem precedentes em Portugal.
Como vozes que teimam em emergir de entre as poeiras da História, cronistas como Damião de Góis e Samuel Usque deixaram relatos detalhados dos motins sangrentos. Contam os testemunhos que tudo terá começado na Baixa, no dia 19 de Abril de 1506, um domingo, na Igreja de São Domingos, quando alguém gritou ter visto o rosto do Cristo crucificado iluminar-se inexplicavelmente no altar. Em redor, gente que rezava pelo fim da seca prolongada que grassava pelo país clamou que era milagre. Entre eles, um judeu convertido à força terá tentado explicar que a luz que emanava do crucifixo era apenas um reflexo de um raio de sol que entrava por uma fresta. Terão sido as suas últimas palavras. Arrastado para a rua, o marrano e um irmão seu foram espancados até à morte. Os seus corpos mutilados foram arrastados para o Rossio e queimados em frente dos Estaus – onde décadas depois foi instalada a Inquisição. Eles eram apenas os primeiros de entre mais de 4 mil mortos – anussim, judeus portugueses, homens, mulheres e crianças, assassinados em três dias sangrentos.
Incitada por frades dominicanos, a multidão que entretanto se aglomerara decide partir em direcção da Judiaria, gritando “morte aos judeus” e “morram os hereges”. As incompreensíveis cenas de violência que se deram a seguir fazem parte de um pedaço da história de Portugal que a História resolveu esquecer. Conto voltar ao tema e às descrições desta tragédia de há 500 anos. Por agora, queria apenas deixar um apelo. Em Portugal comemoram-se há muito os grandes feitos da História, testemunhos quase sebastianistas de uma grandeza perdida. Que não se esqueça também a desgraça que prova ser mito a velha máxima do tal “povo de brandos costumes”.
Aqui fica o desafio: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

ADENDA II: Existe um problema de Halakah do qual não me apercebi no início e para o qual fui alertado por alguns leitores: o dia 19 é dos últimos dias de Pessach, pelo que comemorações deste género estão vedados a judeus observantes. Por isso, em vez de alterar a data, gostaria de pedir aos meus leitores ortodoxos e masorti que passassem pelo Rossio para recitar Kaddish, preferencialmente com Minyan, no dia que coincide também com o dia do Serviço de Izkor de Pessach em Memória dos Mártires.

“Von dem Christeliche / Streyt, kürtzlich geschehe / jm. M.CCCCC.vj Jar zu Lissbona / ein haubt stat in Portigal zwischen en christen und newen chri / sten oder juden , von wegen des gecreutzigisten [sic] got.” (“Da Contenda Cristã, que Recentemente Teve Lugar em Lisboa, Capital de Portugal, Entre Cristãos e Cristãos-Novos ou Judeus, Por Causa do Deus Crucificado”)

Panfleto anónimo, com apenas seis folhas, impresso na Alemanha (presumivelmente poucos meses depois do massacre de Lisboa). O “progrom” de 1506 contra os judeus de Lisboa é descrito em detalhe e as matanças contadas ao pormenor por uma testemunha ocular. A gravura do frontispício mostra os corpos mutilados e envoltos em chamas de dois judeus portugueses, dois irmãos, os primeiros a morrer num massacre que vitimou mais de 4 mil pessoas.

(Gravura reproduzida aqui a partir de uma cópia gentilmente cedida pelo Hebrew Union College. O original, encontra-se na Houghton Library, na Universidade de Harvard)

O fantasma do Purim passado

Um artigo de Jeffrey Goldberg
New York Times 14/03/2006



Há três anos, enquanto visitava Teerão, fui apresentado a um homem sem charme chamado Muhammad Ali Samadi que, disseram-me, me iria falar da peculiar leitura que a teocracia iraniana faz do judaísmo e do sionismo. O senhor Samadi dizia que o líder supremo do Irão, Ayatollah Ali Khamenei, não defendia o antisemitismo. Mas, momentos depois, usaria uma metáfora epidemiológica para explicar o papel dos judeus na História. “O homem tem sempre doenças e infecções”, disse ele. “No mundo o Judeu Internacional é uma infecção .”
Um ano depois, o senhor Samadi tornou-se o porta-voz do Esteshadion, ou Aqueles que Buscam o Martírio, um grupo que tem por missão treinar jovens iranianos para matar Salman Rushdie, cometer actos de suicídio terrorista contra americanos no Iraque e fazer explodir judeus por todo o mundo. “Os sionistas devem saber que não estarão a salvo enquanto forem uma afronta a Deus”, disse ele. Perguntei-lhe se esses “sionistas” a que se referia eram israelitas ou, num sentido mais lato, judeus. “Judeus, sionistas, israelitas”, confirmou ele de forma pouco ambígua.
Eu não estava no Irão para recolher os despojos antisemitas de terroristas de segundo plano, apesar de ter comprado uma mochila cheia de panfletos e livros obcecados com os judeus, incluindo uma cópia do “Protocolos dos Sábios de Sião” em persa. Estava no Irão principalmente para atravessar a fronteira para o Iraque, cujo ditador estava à beira de ser deposto pelo exército americano. Saddam Hussein prometera uma vez “fazer fogo para queimar metade de Israel” – o que tentou fazer, sem sucesso, durante a guerra do golfo, em 1991.
Quis o destino que fosse Purim quando tentei atravessar a fronteira do Irão para o Iraque. Purim é uma ruidosa festividade judaica, celebrada hoje, que comemora o facto dos judeus da Pérsia terem escapado por um triz à aniquilação ordenada por Haman, um vizir sanguinário. A história do Purim é contada no Livro de Ester, que foi lido ontem à noite em sinagogas por todo o mundo – incluindo no Irão, que alberga os restos do que em tempos fora uma grande e antiga comunidade judaica. O judaísmo precede o Islão em mais de mil anos.
Purim é o ne plus ultra da velha anedota judaica que resume a história das festividades numa frase: “Tentaram matar-nos, não conseguiram, vamos comer.” O Purim é um dia ruidoso, uma espécie de Carnaval judaico durante o qual até os rabinos devem beber até cair. É possível imaginar, mesmo assim, que os judeus perseguidos do Irão, vivendo hoje sob a alçada de um presidente, Mahmoud Ahmadinejad, que nega a verdade histórica do Holocausto europeu ao mesmo tempo que ameaça com um outro no Médio Oriente, possam ver o Purim não como a história de uma tragédia evitada, mas sim como a de uma tragédia profetizada.
A história do Purim é recheada de suspense, ofensiva, e quase de certeza falsa, uma fantasia de vingança e redenção. Especialistas académicos geralmente concordam que se trata de uma pseudo-história introduzida no judaísmo há cerca de 2400 anos, numa altura em que a memória da conquista de Jerusalém pelos babilónios estava ainda bem viva. Na história, o presunçoso rei Ahasuerus escolhe a linda Ester para ser sua rainha. Ester, que esconde o facto de ser judia, tem um tio, o estóico e corajoso Mordecai, que não esconde a sua fé e que é odiado por Haman por se recusar a curvar perante ele.
Haman, cheio de ódio, decide vingar-se não só em Mordecai mas em toda a sua tribo. “Há um certo povo espalhado e disperso por entre os povos em todas as províncias do Vosso reino”, diz Haman ao rei Ahasuerus. “Não é do beneficio do rei tolerá-los.” O rei concorda em exterminar os seus súbditos judeus.
Para salvar o seu povo, Ester revela ao rei que é judia. Chocado, o rei ordena que Haman seja enforcado, na forca que o próprio Haman erguera para executar Mordecai. Mas o rei não tem poder para reverter o seu édito de genocídio, então, em vez disso, ele permite que os judeus se armem e se defendam contra o extermínio. E assim foi.
É uma história estranha em vários aspectos, um dos quais pelo facto dos antigos reis persas tolerarem outros deuses e os povos que os adoravam. Esta tolerância, deve dizer-se, era um dos principais atributos do politeísmo; os judeus não eram vistos como ameaça à ordem teológica na Pérsia pré-islâmica.
O Médio Oriente muçulmano de hoje, enfim, é um pano de fundo muito mais plausível para o tipo de plano de aniquilação anti-judaico descrito no Livro de Ester do que era a Pérsia antiga, onde a história tem lugar. O regime iraniano, apesar de tudo, faz paradas militares por Teerão com mísseis Shahab-3 envoltos em estandartes onde se pode ler: “Apagaremos Israel do mapa.” O líder de uma das assembleias clericais do país, Hashemi Rafsanjani, disse em Dezembro de 2001 que “a aplicação de uma bomba atómica não deixaria nada de Israel e produziria apenas danos menores no mundo islâmico.” O líder supremo ele próprio, Ayatollah Khamenei, disse de Israel em 2000: “Dissemos repetidamente que este estado é um tumor canceroso e que devia ser removido da região.”
Há aqui múltiplas tragédias. A civilização persa, pré-islâmica ou não, nunca foi muito hostil aos judeus. Na verdade, um dos grandes heróis da História Judaica é Ciro, o rei persa que restaurou os judeus em Israel após a destruição do Primeiro Templo. E a República Islâmica do Irão, embora não seja nenhuma utopia semita, também não tem sido a Polónia. Mesmo hoje, as tiradas febris contra os judeus que se ouvem entre a intelligentsia em Beirute ou no Cairo estão quase totalmente ausentes em Teerão, excepto entre a elite clerical, que compreende a utilidade do antisemitismo no seu esforço de aproximação aos muçulmanos árabes.
O que não quer dizer que os clérigos não acreditam no que dizem. Isto traz-nos de volta à triste metáfora do senhor Samadi. A terminologia da doença infiltra agora o discurso antisemita por todo o Médio Oriente. Há quatro anos, um líder do Hezbollah no Vale de Bekaa, no Líbano, chamado Hussein Haj Hassan disse-me que os judeus são “como parasitas nas nações que os acolhem.” Os líderes do Hamas e da Jihad Islâmica falam da mesma maneira.
Preocupamo-nos em não reagir de forma exagerada, mas este tipo de linguagem ecoa a passagem de Mein Kampf na qual o Haman austríaco compara os judeus a “um bacilo que começa a expandir-se assim que encontra um meio favorável.”
Ainda acredito que os judeus, e o Estado judaico, sobreviverão ao seu encontro com o senhor Ahmadinejad e o Ayatollah Khamenei do Irão. Os líderes do Irão ainda não têm a bomba e, apesar das suas inclinações escatológicas, eles podem não ser totalmente imunes ao charme da lógica da teoria da dissuasão. E, claro, tanto a parábola como a História ensinam que os judeus conseguem sempre sobreviver.
Mesmo assim, muita gente, no Irão e não só, acredita que o Estado judaico é um cancro, e é estúpido pensar que isto é uma ideia sem consequências. Como me disse um líder da Jihad Islâmica não há muito tempo: “Toda a gente sabe a cura para o cancro é a radiação.”

Ilustração de Anthony Russo

New York

Uma muralha.
Uma densa muralha de costas humanas, braços, pernas.
Uma amurada cinzenta com redondas manchas.
Um exército derrotado numa caverna, antes das manobras,
Esperando que se abram as portas.

Não como jaulas abertas, em tumulto.
Não como pedras arrancadas do chão.
O exército antecipa
O tortuoso oscilar do metropolitano
Rumo à estação

Portas a menos.
Portas a menos.

Lá dentro – comprimidos
Em pé e sentados –
Muralha, muralha,
Braços, costas,
Rostos, pernas –
Um reino por um assento!
Um reino por uma argola!
As muralhas crescem,
Espessas, apertadas, densas,
Faces cinzentas, tensas.

Entrei!
As portas cerram-se.
Tremor.
Um nó vivo:
Contido, reprimido, ameaçando clamor.

Denso, ainda mais denso,
Amargo, ilusório,
Contundente, tenso –
Para descansar, jantar e cinema.

Aaron Glanz-Leyeless (1889 – 1966). Pedagogo, linguista e poeta Judeu polaco.

Traduzido para português a partir da tradução do yiddish original para o inglês da autoria de Benjamin and Barbara Harshav.

Antisemitismo em França

Da edição de hoje do New York Times:

PARIS, 6 de Março – Três ataques contra judeus ocorridos durante o fim-de-semana aumentam o receio da existência de uma onda crescente de antisemitismo entre uma nova geração de franceses nos bairros operários onde residem predominantemente emigrantes.
Segundo a polícia, dois jovens judeus, de 17 e 18 anos, foram espancados na sexta-feira por um grupo de jovens negros e árabes em Sarcelles, um subúrbio localizado a norte de Paris onde reside um número significativo de famílias judias.
No sábado, um judeu de 28 anos foi espancado no mesmo subúrbio por um grupo similar que lhe dirigiu insultos antisemitas. Quatro jovens estão a ser interrogados pelas autoridades enquanto suspeitos no ataque de sábado.
“O antisemitismo está a crescer neste país”, afirmou o deputado socialista Dominique Strauss-Kahn à saída de uma reunião com o ministro do Interior Nicolas Sarkozy.
Na memória dos franceses está ainda bem presente o assassinato de Ilan Halimi, um jovem judeu de 23 anos, raptado, torturado e morto no mês passado.
A morte de Ilan Halimi veio alertar para o virulento antisemitismo que cresce em França desde o início da segunda intifada palestiniana contra Israel. Muitos dos jovens que habitam os subúrbios franceses são muçulmanos e trouxeram o conflito palestiniano para as ruas de França. No seguimento dos ataques do passado fim de semana, a polícia aumentou o patrulhamento em redor das sinagogas localizadas nos subúrbios parisienses.”

NOTA – Um olhar transversal para a História faz-nos ver que o antisemitismo, e os ataques a judeus pelo simples facto de serem judeus, são inevitavelmente um prelúdio para uma generalização da violência. Os judeus, neste caso, funcionam como “balões de ensaio” numa sociedade insensível ao seu sofrimento. São as primeiras vítimas. Foi assim na Idade Média (ver Rua da Judiaria: “Como elRei mandou degollar dous seus criados, porque roubarom huum judeu e o matarom”); foi assim com a Inquisição; foi assim na Segunda Guerra Mundial; foi assim com os atentados suicidas terroristas da intifada
Ver ainda: Rua da Judiaria: “Mostrem a estrela amarela com orgulho!” / Rua da Judiaria: Não há Antisemitismo em França? / Rua da Judiaria: Novo Antisemitismo? As Novas Faces do Mais Antigo Ódio do Mundo

Shabot6000: O Jogo


(clique na imagem para ampliar)

Glossário:
O Shabbat, o dia de sábado, é para os judeus um dia de rejuvenescimento espiritual, de descanso e estudo que requer um desligamento quase absoluto do trabalho e das actividades mundanas. Ouvir rádio, ver televisão, conduzir automóveis ou utilizar electricidade estão vedadas à maioria dos judeus ortodoxos observantes. Entre as modernas correntes do judaísmo – nomeadamente a Reformadora, a Conservadora e a Nova Ortodoxia – estas proibições são suavizadas, levando-se mais em conta, acima de tudo, a kavaná (literalmente “intenção”) do que a letra da Lei.

Blasfémia

Olho por olho,
O teu corpo pelo meu.
Abertos:
A Arca, o teu mistério
A minha boca.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Um poema “blasfemo” de Amichai, ideal para assinalar aqui o segundo aniversário do Blasfémias, um blog incontornável, polémico, irreverente, bem escrito e, por vezes, deliciosamente irritante. Que dure por muitos e bons anos. Parabéns! מזל טוב





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