7a Noite

Para ouvir:
Sevivon, Sov, Sov, Sov! – Sagol 59
(via -=JeW*SCHooL=- - תודה רבה)
6a Noite

Representantes do governo marroquino (muçulmanos) assistem ao serviço de Hanuká na sinagoga de Bet El, em Casablanca, em sinal de respeito para com a minoria judaica do país. Fotografia de Alex Levac, 1994.
Para ouvir:
Apesar de por estas bandas o Ano Novo (ראש השנה) já ter começado há quase três meses, o final do ano 2005 da Era Comum traz inevitavelmente um sentimento de final de ciclo que convida ao balanço. A encerrar o ano, quero agradecer em primeiro lugar a todos os leitores que por aqui vão passando diariamente. Um muito obrigado também aos blogs que insistiram em colocar a Rua da Judiaria nas respectivas lista de preferências para o ano que agora encerra, nomeadamente ao Portugalidades (Luís Miguel Rocha), ao Almocreve das Petas (Masson), Ma-Schamba (José Pimentel Teixeira), Contra-indicado (José Nunes), Forum Comunitário (Walter Rodrigues), Anjos e Demónios (Patrick Blese), A Peste (Jorge Vaz Nande), Sob a Estrela do Norte (Homem das Neves), A Barriga de um Arquitecto (Daniel Carrapa), Francisco del Mundo, Malaposta (Alvarinho Castro), Tugir (Luis Novaes Tito e Carlos Manuel Castro), Duelo ao Sol (Harry Madox) e New Zionist (Yoav). Para mim, e de uma forma estritamente pessoal, 2006 será um ano de profunda mudança – quanto mais não seja, de geografias. Depois de exactamente 10 anos a viver em Los Angeles, no final de Janeiro mudo-me para Nova Iorque, trocando definitivamente o sol eterno da Califórnia pela neve da Big Apple. “Start spreading the news, I’m leaving today…”
Feliz Ano Novo!
(em actualização…)
5a Noite

Hanukah Menorah with Pictoglyphs (detalhe), Akiva Kenny Segan, 2004.
Para ouvir:
3a Noite

Sobrevivente do Holocausto acende as velas de Hanucá no Centro de Estudos Hebraicos da Comunidade Judaica de Praga, 1999. Foto de Ben Eden.
Para ouvir:
2a Noite

Menorah, Iris Gill.
Para ouvir:
Para ver:
Adam Sandler: The Hannukah Song (vídeo)
::A LER:: Hanucá - Wikipédia (artigo em português) / Judeus em Terras de Algodres: Hanukkah ou Chanuka / History of Hanukkah - History Channel / Hanukkah - Chabad.org / Judaism 101: Chanukkah
1a Noite


Os judeus não celebram o Natal nem acreditam na divindade de Jesus Cristo (ele próprio um judeu; ver também O Conceito de Messias no Judaísmo), cujo nascimento é celebrado pelos cristãos a 25 de Dezembro. Mas, paradoxalmente, não deixa de ser irónico que as mais populares canções de Natal tenham sido escritas e compostas por judeus. A maior parte delas vêm dos Estados Unidos, o país onde, tal como hoje o conhecemos, o Natal foi inventado, na cidade de Nova Iorque ao virar de 1900.
Mas tudo começara do outro lado do Atlântico, em meados do século XIX, quando um judeu francês, Adolphe Adam, o compositor do ballet Giselle, escreve Cantique De Noël, também conhecida em inglês como O Holy Night, ainda hoje considerado o hino por excelência do Natal.
Em 1940, Irving Berlin (cujo nome verdadeiro era Israel Isidore Baline), um talentoso judeu russo nascido na Sibéria e emigrado em Nova Iorque, compôs aquela que seria a canção de Natal responsável por moldar o imaginário natalício da América – White Christmas, cantada 14 anos mais tarde no musical homónimo pela voz de Bing Crosby. Musicais da Broadway e o cinema vieram popularizar inúmeras canções de Natal escritas por músicos judeus, entre elas Rudolph the Red Nosed Reindeer, Holly Jolly Christmas e Rockin’ Around The Christmas Tree de Johnny Marks; Let It Snow, Let It Snow, Let It Snow, de Sammy Cahn e Jule Styne; Silver Bells de Jay Livingston e Ray Evans; The Christmas Song (Chestnuts Roasting On An Open Fire), de Mel Tormé.
Apesar de serem das mais conhecidas canções de Natal, as composições natalícias escritas por judeus tendem a ser “laicas” e “seculares”, preferindo celebrar aspectos desta tradição cristã que nada têm a ver com religião propriamente dita, como a reunião das famílias, os presentes e o aconchego a que convida uma manhã nevada de Inverno.
Com votos de Festas Felizes, aqui fica um lote de presentes da Rua da Judiaria…
Para ouvir:
Placido Domingo - Cantique De Noël - (Adolphe Adam)
Bing Crosby - White Christmas (Irving Berlin)
Burl Ives - Holly Jolly Christmas (Johnny Marks)
Brenda Lee - Rockin’ Around The Christmas Tree (Johnny Marks)
Diana Krall - Let It Snow (Sammy Cahn and Jule Styne)
Perry Como - Silver Bells (Jay Livingston and Ray Evans)
Nat King Cole - The Christmas Song (Chestnuts Roasting On An Open Fire) (Mel Torme)
Ella Fitzgerald - Rudolph The Red-Nosed Reindeer (Johnny Marks)

Reinterpretação da Parábola dos Quatro Filhos, Wolloch Haggadá, David Wander, 1988.
Perguntaram uma vez ao Dubner Maggid: “Porque razão têm as parábolas um efeito tão grande nas pessoas?” Ao que o pregador respondeu: “Posso explicar contando uma parábola.”
E foi esta a parábola que contou;
Há muitos, muitos anos, a Verdade caminhava pelas ruas, nua como no dia em que nasceu. O povo recusava deixa-la entrar nas suas casas naquele estado. Qualquer pessoa com quem ela se cruzasse fugia a sete pés. Vagueava a Verdade com grande tristeza quando um dia se cruzou com a Parábola, que se vestia com roupas de esplêndidas cores. A Parábola perguntou-lhe: “Diz-me amiga, o que te faz andar tão triste?” Ao que a Verdade respondeu: “É terrível, minha irmã. Sou muito velha e por isso ninguém me liga.”
“Não é por causa da tua idade que as gentes não gostam de ti. Eu também sou velha, mas quantos mais anos passam mais as pessoas me apreciam. Deixa-me dizer-te um segredo: o povo gosta de adornos e encobrimento. Vou emprestar-te algumas das minhas roupas e verás como o povo também vai gostar de ti.”
E assim foi. A Verdade seguiu o conselho e vestiu as roupas da Parábola. Desde esse dia, a Verdade e a Parábola passaram a andar sempre juntas e o povo gosta das duas.
Rabino Yakov Krantz (1740-1804), conhecido como “o Pregador de Dubno” (Dubner Maggid), Ucrânia.
in Jewish Preaching 1200-1800, Marc Saperstein, Yale University Press, 1989.

Chamais grande a Demóstenes,
Orador gago da Grécia;
E o corcunda Esopo dizeis sábio;
No vosso círculo, suponho,
Eu serei duplamente sábio e grande.
Pois o que neles separado havia
Em mim encontrais unido, –
Língua pesada e marreca combinadas.
Moses Mendelssohn (1729-1786), filosofo e poeta; judeu alemão, corcunda e gago, era conhecido pelos seus contemporâneos como “o Platão Germânico”.
O judeu “português” que inventou o Telefone

Johann Philipp Reis (1834-1874), inventor alemão descendente de judeus portugueses.
Johann Reis nasceu a 7 de Janeiro de 1834 na pequena cidade de Gelnhausen, próximo de Frankfurt, na Alemanha. O seu pai, Segismundo Reis, um padeiro de parcos recursos, era filho de judeus sefarditas portugueses oriundos da Beira Baixa que emigraram para a Alemanha nos finais do século XVIII, juntando-se inicialmente à florescente comunidade de judeus portugueses estabelecidos em Hamburgo.
Órfão de mãe aos 11 meses, Johann Philipp Reis perdeu também o pai quando tinha apenas 10 anos, sendo criado pela avó materna, uma Judia portuguesa extremamente culta e bastante religiosa. Estudante talentoso desde tenra idade, Johann Reis passava horas na biblioteca do colégio, o Instituto Hanssell, lendo tudo o que apanhava sobre as suas disciplinas favoritas: geografia, matemática, física e línguas. Um dos seus tios queria fazer dele um comerciante, profissão tradicional na família, mas Johann tinha outras aspirações. Aos poucos, pagou do seu bolso aulas privadas de matemática e física e em 1858, um ano antes de casar, aceita a posição de professor de matemática e ciências no Instituto Garnier, em Friedrichsdorf, nos arredores de Frankfurt.
O caminho que o levaria à invenção do telefone teve início acidentalmente, quando Johann Reis investigava a possível construção de uma “orelha artificial” (künstliches ohr) para aliviar a surdez – uma doença que afectava a sua avô beirã, já em idade avançada. Reis começou a trabalhar na “orelha artificial” com apenas 18 anos, em 1852. No laboratório improvisado num barracão nas traseiras da sua casa, Johann Reis construiu o seu primeiro aparelho com componentes inesperados que encontrou quase ao acaso: um violino, uma agulha de malha, uma rolha de cortiça, fio de cobre e uma salsicha. Uma pele de salsicha esticada sobre uma rolha de cortiça oca servia de microfone, unido com cera ao fio de cobre que por sua vez era ligado a uma corda do violino, que funcionada como receptor e caixa acústica. Os resultados não foram muito animadores, mas Reis não desistiu.
Dois anos mais tarde, em 1854, Johann Reis lê um interessante artigo do telegrafista francês Charles Bourseul, publicado na revista L’Illustration de Paris, no qual ele descreve a possibilidade de transmitir sons através de uma corrente eléctrica intermitente. O artigo de Bourseul concedia uma base teórica às experiências de Johann Reis, permitindo-lhe avançar com o seu projecto, ao qual deu o nome de “telefone”, cunhando pela primeira vez o termo que viria a fazer parte do vocabulário de todo o planeta nos séculos que se seguiram.

Esquema do “telefone de Reis”, 1861.
Em 1860, quase dez anos após as suas primeiras experiências, as tentativas de Johann Reis davam frutos significativos, 16 anos antes do escocês Alexander Graham Bell reclamar a sua patente. A primeira frase transmitida pelo telefone de Reis foi “das pferd frisst keinen gurkensalat” (literalmente “o cavalo não come salada de pepino”). A demonstração pública do novo invento foi efectuada perante a Sociedade de Físicos de Frankfurt (Der Physikalische Verein) a 26 de Outubro de 1861. Na altura com apenas 27 anos de idade, Johann Philipp Reis proferiu uma palestra intitulada “Das Telefonieren Durch Galvanischen Strom” (“Telefonia Utilizando Corrente Galvânica”) e transmitiu os versos de uma canção através de um cabo de 100 metros, naquela que seria a primeira exibição pública que provava com sucesso a possibilidade teórica da conversão de variações de corrente eléctrica em ondas sonoras.
Apesar de algum sucesso relativo, o telefone de Reis estava longe de ser perfeito. Construído para converter quebras de corrente eléctrica em som, o aparelho conseguia transmitir música mas tinha dificuldades em reproduzir a voz humana. Por causa disso, a invenção ficaria conhecida na época como “telefone musical”. A palestra de Frankfurt granjeou a Johann Reis alguma fama temporária, fazendo com que modelos do seu invento fossem levados para a Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos e Rússia.
Mesmo assim, a Sociedade de Físicos de Frankfurt voltaria costas ao telefone, com parte da comunidade cientifica alemã a classifica-lo como um mero “brinquedo filosófico”. Confrontado com o antisemitismo de alguns dos membros, Reis abandona a Sociedade de Físicos de Frankfurt em 1867.
Johann Phillipp Reis, o inventor descendente de judeus portugueses, morreu vítima de tuberculose às cinco da tarde do dia 24 de Janeiro de 1874, com apenas 40 anos, sem conhecer o verdadeiro sucesso do seu trabalho mas acreditando nele até ao fim. Pouco antes de morrer, Johann Reis escreveu: “Olhando para a minha vida posso dizer, como na Torá, que tem sido ‘trabalho e sofrimento’. Mas tenho também de agradecer a Deus que me deu a Sua benção na minha carreira e na minha família, e me concedeu mais do que eu alguma vez saberia como pedir-lhe. Hashem ajudou-me até aqui; Ele irá ajudar-me daqui para a frente.”
A 22 de Março de 1876, um editorial do New York Times intitulado “The Telephone” elogiava e enaltecia Johann Phillipp Reis como inventor do novo engenho. O editorial não fazia qualquer menção a Alexander Graham Bell, que poucos meses depois receberia uma patente americana registando “melhoramentos” no telefone. Em 1878, um grupo de físicos da sociedade de Frankfurt mandou erigir um monumento a Phillipp Reis, classificando-o como “o inventor do telefone”. A paternidade do invento foi-lhe igualmente atribuída em inúmeros livros e tratados publicados por toda a Europa. Já no século XX, pelo facto de Johann Reis ser judeu, o regime nazi haveria de expurgar o seu nome dos manuais escolares alemães. Reis seria reabilitado após a Segunda Guerra Mundial, homenageado em 1952 pelo governo alemão numa colecção de selos comemorativa dos 75 anos do serviço telefónico no país – um novo selo, este com uma gravura da sua invenção, seria emitido em 1989 na RDA.
Em 1986 as cidades de Friedrichsdorf e Gelnhausen, em conjunto com a Deutschen Telekom, instituíram o Johann Philipp Reis Preis, uma bolsa anual de 10 mil euros destinada a premiar jovens cientistas que se distingam no campo das telecomunicações.

Selos de homenagem a Johann Philipp Reis emitidos em 1952 e 1989 na RFA e RDA.
::A LER:: BBC - Alemão pode ter inventado telefone antes de Bell / Who Invented the Telephone? / Philipp Reis, a most eminent Telephone Pioneer / Philipp Reis by Phonebook of the World.com / Istituto e Museo di Storia della Scienza – Reis telephone transmitter / Connected Earth: Reis, Philip (1834-1874) : DIY telephone designer / The Reis Telephone Receiver 1862-1872 / The early history of the telephone. / IMSS - Multimedia Catalogue - Instrument - XIV.138 Reis telephone transmitter / Reis’ telephone - Wikipedia / Invention of the telephone - Wikipedia / Rolf Bernzen “Das Telephon von Philipp Reis” / Philipp-Reis-Schule Friedrichsdorf

Retrato de Anna Akhmatova, 1914, por Nathan Altman, judeu russo.
Post descaradamente roubado ao Nuno Ramos de Almeida, no novíssimo Aspirina B.

Nevou e nevou em redor do mundo todo,
Neve varreu a terra de ponta a ponta.
Uma vela ardia na mesa;
Uma vela ardeu.
Como os enxames de mosquitos que no Verão
Batiam as asas contra a chama,
No pátio flocos de neve
Batiam na vidraça.
Sombras distorcidas levantavam-se
Sobre o tecto iluminado
Sombras de braços cruzados, de pernas cruzadas –
De destinos cruzados.
Dois sapatos minúsculos
tombaram no chão.
Uma vela na cómoda vazou lágrimas de cera
Sobre um vestido.
Tudo desapareceu na
Branca escuridão nevada.
Uma vela ardia na mesa;
Uma vela ardeu.
Uma corrente de ar soprou a vela
E a febre branca da tentação
Levantou suas asas de anjo
Numa sombra cruciforme
Nevou forte até ao mês de
Fevereiro, quase constantemente
Uma vela ardia na mesa;
Uma vela ardeu.
Boris Pasternak (1890-1960), escritor e poeta. Judeu russo.
Ilustração: caricatura de Pasternak da autoria de Vasco.
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