Archive for October, 2005

Dois anos na Rua da Judiaria


Rua da Judiaria, em Almada, fotografada por Fernando Fragata.

A Rua da Judiaria nasceu há precisamente dois anos. O parto de 27 de Outubro de 2003 foi complicado, confesso; era o resultado de meses de gestação e contemplações, decisões e rescisões, avanços e recuos. As minhas dúvidas iniciais eram básicas: Que poderia eu fazer com um blog? Que ganhariam os outros em ler as minhas prosas? Hoje, precisamente 730 dias e quase meio milhão de leitores depois, a Rua da Judiaria ultrapassou todas as minhas expectativas – especialmente por ser um blog, por opção, obrigado a seguir o estreito carreiro ditado por uma temática que à partida poderia parecer restritiva. O constante interesse dos leitores, e de tantos outros bloggers, sou obrigado a admitir, nunca deixou de me surpreender. A todos os que vão tendo a paciência de ler o que vou escrevendo e traduzindo, aqui fica o meu mais profundo agradecimento. Obrigado pela companhia nestes dois primeiros anos.

::ADENDA::
Aos que assinalaram o aniversário da Rua da Judiaria (com referências nos respectivos blogs ou por email), a minha gratidão.

Obrigado Lutz Brückelmann (Quase em Português) / A Origem das Espécies (Francisco José Viegas) / Abnegado (Luis Sequeira Lopes) / Adufe (Rui Cerdeira Branco) / Água Lisa (João Tunes) / Almocreve das Petas (Masson) / Amélia Pais / Anatomia Surreal (Maria Antónia) / O Anti-Tuga / O Arco da Velha (Francisco Pacheco Craveiro) / Arco do Cego (João Gundersen) / A Arte da Fuga / (Adolfo Mesquita Nunes) / Assumidamente / Atuleirus (Nelson Lourenço) / Aurélio Matos Simões / A Barca de Lyra / Bitaites (Marco Santos) / Blasfémias (Gabriel Silva e Carlos Abreu Amorim) / Blogame Mucho (Lolita) / BlogOperatório (José Teófilo Duarte) / bl-g-x-st- (João Pinto e Castro) / Bomba Inteligente (Carla Hilário de Almeida Quevedo) / A Bordo (Fernando Macedo) / C.Indico / Catalunya@large (Nuno Vargas) / Clara Mente (Gabriel Canhoto) / Click Portugal (Francisco) / Cibertúlia (Miguel Marujo) / Cocanha (Zazie) / Contra Capa (Riquita) / Contra-indicado (José Nunes) / Contemplamento (Abrunho) / A Cooperativa (Diogo Torgal) / Crónicas Matinais (Ana Albergaria) / A Cidade Surpreendente (Carlos Romão) / Daedalus (Francisco Curate) / Descrita (João Monge) / desNorte (H.V. Araújo) / A Destreza das Dúvidas (Luís Aguiar-Conraria) / Días Estranhos (Martin Pawley) / Eliana Zuckermann / Estafardanas (Isabel Paulos)/ Faccioso (António Torres) / Flores e Abelhas / A Fonte (Mário Almeida) / Food-I-Do (Altino Torres Ferreira) / Forum Comunitário (Walter Rodrigues) / Francisco del Mundo / Fumaças (João Carvalho Fernandes) / Geosapiens / Gabriela / Grande Loja do Queijo Limiano (Ninno) / Henrique Cabral da Silva / Guarda-Factos / Homem a Dias (Alberto Gonçalves) / O Homem do Leme (João Melo Alvim) / Ideias Soltas (Carlos Araújo Alves) / Imbricações II (Stela Polaris) / Os (In)separáveis (J.J.) / O Insurgente (Miguel Noronha) / jardim de luz (M.C.) / Joana Rabinovitch / Joaoscottex (João) / Jornada 2.0 (Filinto Melo) / José Rocha / Judeus em Terras de Algodres (Albino Cardoso) / O Jumento / Laços Azuis / Laranja com Canela / Letteri Café (Alberto Lyra) / Linha de Cabotagem (Helena F. Monteiro) / Linha dos Nodos (DL) / Local & Blogal (António Baeta Oliveira) / Ma-Schamba (José Pimentel Teixeira) / Malaposta (Alvarinho Castro) / Marcos Weiss Bliacheris / Margens de Erro (Pedro Magalhães) / Maria João Eloy / Mauro Castro / Miniscente (Luis Carmelo) / Miss Pearls (Isabel Matos Ferreira) / Memória Virtual (Leonel Vicente) / Mondo Piccolo (Ninno) / A Montanha Mágica (Luís) / Muito Cá de Casa / A Natureza do Mal II (Luís Januário) / Nese-Nese (António Eubozeno) / Netescrita (Emília Miranda) / Nova Floresta (Luís Bonifácio) / O Observador (André Abrantes Amaral) / Office Lounging (Luís A. Silva) / O Olho do Girino (Miguel Cardina)/ Outsider (Annie Hall) / Pantalassa (Ângelo E. Ferreira) / Paulo Dentinho / Planície Heróica (Francisco Nunes) / Parceiro Pensador (Sandra Martins Reis Pinto) / Portugalidades (Luís Miguel Rocha) / Por Tu Graal (Afonso Henriques) / Povo de Bahá (Marco Oliveira) / Prosa Caótica (Maira Parula) / Quatro Caminhos (Ana Cláudia Vicente) / A Razão das Coisas (Afonso) / Respublica (Filipe Alves) / Retorta (Mário Pires) / The Rhine River (Nathanael Robinson) / Rui Carmo / Sem Pénis, Nem Inveja (Tati) / Sob a Estrela do Norte (Homem das Neves) / Sol & Tude (Bastet) / Solvstäg (H.R.) / Sub Imo Corde (Inês) / Sub Rosa (Maria Elisa Guimaraes) / A Tasca da Cultura (O Bom Selvagem) / Tatarana (Manuel Jorge Marmelo) / Tela Abstracta (Rui Afonso) / Tomarpartido (Jorge Ferreira) / Tugir (Luis Novaes Tito e Carlos Manuel Castro) / Um Buraco na Sombra (Ana Luisa Teixeira) / Velho do Farol (Marcus Pessoa) / Uma Vida por Escrever (Elsa Ribeiro) / Viagens em Terra Alheia (Zedtee) / O Vilacondense (Alcazar, Dupond, Dupont e Haddock) / Welcome to Elsinore (Carla) / Write in Water (Igor Taam) / Zé do Boné (PequenaJoana)

(em actualização…)

Estatísticas

Por cada homem enfurecido há sempre
dois ou três que o acalmam com palmadinhas nas costas,
por cada chorão, muitos mais limpadores de lágrimas,
por cada homem feliz, uma profusão de infelizes
a querer aquecer-se no calor da sua alegria.

E todas as noites pelo menos um homem
não consegue encontrar o caminho de casa
ou a sua casa mudou-se para outro lugar
e ele vagueia pelas ruas,
supérfluo.

Uma vez estava com o meu filho pequeno na estação
e um autocarro vazio passou por nós. O meu filho disse:
“Olha, um autocarro cheio de gente vazia.”

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Grandes Citações VI


Se as estatísticas estiverem certas, os judeus constituem apenas um por cento da raça humana. Isto sugere uma ténue e nebulosa baforada de pó cósmico perdida na resplandecência da Via Láctea. Na verdade, mal se devia ouvir falar do Judeu; mas ele faz-se ouvir, e sempre se fez ouvir. As suas contribuições para as listas mundiais de grandes nomes da literatura, ciência, arte, música, finanças, medicina e saber recôndito estão também fora das proporções dos seus fracos números. Ele tem combatido, em todas as épocas, uma batalha admirável neste mundo; e fê-lo com as mãos atadas atrás das costas. Ele podia ser disto vaidoso e ser perdoado por isso. Os egípcios, os babilónios e os persas ascenderam, encheram o planeta com som e esplendor, depois desvaneceram em coisa de sonhos e partiram; seguiram-se os gregos e romanos, fazendo vasto ruído, e foram-se; outros povos brotaram e por momentos ergueram alto a sua tocha mas ela havia de extinguir-se; agora sentam-se no crepúsculo ou desapareceram. O Judeu viu-os a todos, venceu-os a todos, e é agora o que sempre foi, sem exibir decadência, nem enfermidades da idade, nem fraqueza das suas partes, nem abrandar das energias ou entorpecimento da sua mente vigorosa e alerta. Todas as coisas são mortais menos o Judeu; todas as outras forças morrem, mas ele fica. Qual será o segredo da sua imortalidade?”

Mark Twain (1835-1910), Harpers’s Magazine, 1899.

O Spinoza da Rua do Mercado

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)


Dois judeus à conversa nas ruas de Varsóvia, 1938. Fotografia de Roman Vishniac.

Parte I

O Dr. Nahum Fischelson caminhava para trás e para a frente no seu quarto, numas águas-furtadas da Rua do Mercado, em Varsóvia. O Dr. Fischelson era um homem baixo, encurvado, com barba acinzentada e praticamente calvo, à excepção de um tufo de cabelo que permanecia na nuca. Tinha o nariz curvo que nem um bico e os seus olhos eram grandes, escuros e agitados como os de um imenso pássaro. Era uma quente noite de Verão, mas o Dr. Fischelson vestia um casaco negro que lhe chegava aos joelhos, usava um colarinho apertado e um laço. Da porta caminhava até à clarabóia do tecto em declive, e dali voltava para trás. Era preciso subir uns degraus para olhar para a rua. Uma vela ardia num castiçal de bronze em cima da mesa e uma variedade de insectos zumbiam à sua volta. De vez em quando, uma das criaturas esvoaçava demasiado perto da chama e chamuscava as asas, ou outra incendiava-se e fazia o pavio brilhar ainda mais por um breve instante. Quando isso acontecia o Dr. Fischelson fazia uma careta. A sua face enrugada contorcia-se e debaixo do bigode desgrenhado mordia o lábio. Por fim tirou o lenço do bolso e agitou-o na direcção dos insectos. “Vão-se embora daqui, idiotas e imbecis”, ralhou ele. “Aqui não se aquecem; só se queimam.”
Os insectos dispersaram, mas um segundo depois estavam de volta e uma vez mais circundavam a chama trémula. O Dr. Fischelson limpou o suor da testa enrugada e suspirou, “tal como os homens eles não querem mais nada do que o prazer do momento.” Na mesa havia um livro aberto, escrito em latim, e nas suas largas margens estavam anotações e comentários rabiscados em letra pequena pelo Dr. Fischelson. O livro era a Ethica de Spinoza que o Dr. Fischelson estudava há 30 anos. Conhecia-lhe de memória todas as preposições, todas as provas, todos os corolários e cada nota. Quando ele queria encontrar uma passagem em particular, geralmente abria o livro no lugar exacto sem ter de procurar. Mas, ainda assim, continuava a estudar a Ethica horas a fio todos os dias, com uma lupa nas suas mãos magras, murmurando e acenado a cabeça. A verdade é que quanto mais o Dr. Fischelson estudava, mais frases surpreendentes encontrava, mais passagens pouco claras e mais observações crípticas. Cada frase continha pistas inimagináveis para qualquer dos estudiosos de Spinoza. Na verdade, o filósofo antecipara toda a crítica da razão pura feita por Kant e pelos seus seguidores. O Dr. Fischelson estava a escrever um comentário à Ethica. Tinha gavetas cheias de anotações e rascunhos, mas parecia que nunca iria completar o trabalho. O problema de estômago que o atormentava há anos piorava de dia para dia. Agora o estômago começava a doer-lhe logo às primeiras colheradas de farinha de aveia. “Deus do céu, é difícil, muito difícil”, dizia para si próprio usando a mesma entoação do seu pai, o falecido rabino de Tishevitz. “É muito, muito difícil.”
O Dr. Fischelson não tinha medo de morrer. Primeiro, porque já não era um homem novo. Segundo, como declara a quarta parte da Ethica, “um homem livre pensa apenas na morte e a sua sabedoria é uma meditação, não na morte, mas da vida.” Terceiro, porque também se diz que “a mente humana não pode ser absolutamente destruída com o corpo humano pois há uma parte dela que permanece eterna.” Ainda assim, a úlcera do Dr. Fischelson (ou talvez fosse cancro) continuava a importuná-lo. A sua língua sabia-lhe sempre mal. Arrotava frequentemente e emitia um gás nauseabundo de cada vez que o fazia. Sofria de azia e cãibras. Umas vezes apetecia-lhe vomitar, mas outras vezes tinha apetite para alho, cebolas e fritos. Há muito que deitara fora os medicamentos receitados pelos médicos e procurava os seus próprios remédios. Descobrira os benefícios de comer rábano ralado após as refeições e de ficar deitado na cama, de barriga para baixo, com a cabeça pendida para um dos lados. Mas estes remédios caseiros ofereciam apenas um alívio temporário. Alguns dos médicos que consultara garantiam-lhe que não tinha doença alguma. “É só nervos”, disseram-lhe. “Você pode viver até aos 100 anos.”
Mas, nesta noite quente de Verão, faltavam as forças ao Dr. Fischelson. Os joelhos tremiam-lhe e tinha o pulso fraco. Sentou-se para ler, mas a visão tornou-se nublada. As letras dançavam na página, ora verdes, ora douradas. As linhas ondulavam, saltando umas sobre as outras, criando largos intervalos em branco, como se pedaços do texto tivessem desaparecido de forma misteriosa. O calor era insuportável e vinha directamente do tecto de lata; o Dr. Fischelson sentia-se dentro de um forno. Por várias vezes subiu os quatro degraus em direcção à janela e pôs a cabeça à mercê da brisa refrescante da noite. Ficava naquela posição até que os joelhos lhe começavam a tremer. “Oh, que bela brisa!”, murmurava ele, “um verdadeiro encanto”, e lembrava-se que, segundo Spinoza, moralidade e felicidade eram idênticas, e que a maior acção moral a que um homem podia aspirar era entregar-se a um qualquer prazer que não fosse contrário à razão.

(continua…)

No Inferno (um pequeno conto)


Retábulo do túmulo de Don Sancho Sáiz Carrillo (detalhe), autor anónimo (século XIV).

E disse o rabino de Apt a Deus:
“Senhor do Mundo, eu sei que não tenho virtude nem mérito para poder merecer, depois da minha morte, entrar no paraíso ao lado dos justos. Mas, se porventura pensas colocar-me no inferno entre os pecadores, lembra-te que não me dou bem com eles. Por isso te suplico que os tires a todos do inferno, para que me possas lá pôr.”

Rabi Avraham Yehoshua Heschel, Apt (Rússia, século XVIII)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

Leituras

1. Invertendo a tendência corrente de transformar blogs em livros, Luís Carmelo, decidiu converter o papel em bits e bytes, transpondo para o Miniscente os 42 capítulos do seu livro O Trevo de Abel – leitura mais do que obrigatória. Autor de um dos melhores blogs de língua portuguesa, o Luís acabou de lançar também o seu site pessoal. Ainda no Miniscente, aconselho a leitura deste post: 1506-2006: pedido de desculpas e reflexão. Escrevendo sobre a aproximação do aniversário de um dos acontecimentos mais negros da História de Portugal, o Luís lança um repto que terá seguimento proximamente aqui na Rua da Judiaria.

2. No Ma-Schamba, José Pimentel Teixeira escreve sobre um tema eternamente ausente do debate político em Portugal. Para ler aqui: O Meu Voto nas Eleições Presidenciais em Portugal e O Voto dos Emigrados.

3. Por último, no excelente The Rhine River, o historiador Nathanael Robinson escreve um post bastante interessante sobre Konrad Adenauer, os judeus e a sua amizade com David Ben-Gurion. A ler ainda The Rhine River: Meet you in Deutz, onde Nathanael descobre a história deliciosa de Armando Rodrigues de Sá, um carpinteiro de Canas de Senhorim que, em Novembro de 1964, se tornou o milionésimo emigrante a chegar à Alemanha (disponível aqui em tradução automática, má mas legível, de alemão para inglês: The Millionth Guest Worker). O feito valeu-lhe uma mota, oferecida pelo governo da Alemanha Federal.

חג סוכות שמח


Festival de Sucot na Cidade Velha, Jerusalém. Foto de Gilad Benari.

Rabino Abraham Assor זצ”ל

Em Saudosa Memória
(Tânger, 7 de Setembro de 1920 – Lisboa 15 de Outubro de 1993)


Rabino Abraham Assor זצ”ל, fotografado por Yale Strom.


De acordo com a Halakhá (a Lei Judaica), o arrependimento, a providência e a profecia expressam a missão de criar. No Talmude, está escrito que ser judeu é mais uma acção do que uma crença, é mais fazer pelos outros do que ter fé. Modelo de homem judeu, de bondade, de humanidade, de justiça e de tolerância, o rabino Abraham Assor, sempre dedicado à sua comunidade, construiu um exemplo.
Deus permita que o saibamos lembrar.”

Joshua Ruah, ex-presidente da comunidade judaica de Lisboa
Sivan 5760 (Junho de 2000)

Mazel Tov Mr. Pinter!


Harold Pinter fotografado por Chris Saunders.

O dramaturgo britânico Harold Pinter venceu o Prémio Nobel da Literatura, tornando-se o 13o judeu a ganhar o Nobel nesta categoria, sucedendo à escritora judia austríaca Elfriede Jelinek, vencedora do prémio em 2004.

::ADENDA::
Será Harold Pinter descendente de judeus portugueses?
Esta questão, levantada, entre outros, por Jorge Palinhos (ver BdE - Blogue de Esquerda (II): O Pinto Nobelizado), não tem uma resposta fácil. Pinter acredita que o seu nome de família resulta da anglicização de “Pinto” (ou “Pinta”), um sobrenome generalizado entre as famílias de judeus portugueses da Diáspora (ver JewishEncyclopedia– Pinto Jewish Family Name, Ancestry.com – Pinter e Wikipédia – Isaac de Pinto). Na verdade, era bastante comum aos judeus portugueses emigrados alterar o nome de família como forma de melhor se integrarem nos países de acolhimentos – em França, os descendentes do pedagogo Jacob Rodrigues Pereira, por exemplo, chamam-se hoje “Pereire”, enquanto o ramo americano da mesma família optou por “Perera” (ver National Foundation for Jewish Culture: On Being Sephardic: The Children of the Diaspora, by Victor Perera).
Por outro lado, sabe-se que os judeus portugueses são responsáveis pelo restabelecimento da comunidade judaica em Inglaterra, depois do rabino Menasseh ben Israel (Manuel Dias Soeiro) ter negociado com Oliver Cromwell, no século XVII, a revogação do decreto de expulsão de 1290. Foram os judeus portugueses os primeiros a chegar a Londres (ver JewishEncyclopedia – Bevis Marks Synagogue). Sabe-se também que existiam vários “Pintos” entes estes pioneiros – o rabino português Joseph Jesurun Pinto (1565-1648), por exemplo, viveu em Londres grande parte da sua vida.
A eventual descendência portuguesa de Harold Pinter virá por parte do pai, Jack Haim Pinter, uma vez que a família da mãe, Frances Moskowitz, tem raízes nas comunidades judaicas da Polónia e Ucrânia. Mesmo assim, sem mais elementos factuais – a não ser a palavra do próprio Harold Pinter – é difícil traçar com certezas a sua mais do que provável ancestralidade judaica portuguesa. A pista final é dada pelo facto do pai de Harold Pinter ser sefardita e da esmagadora maioria dos judeus sefarditas britânicos descenderem de judeus portugueses. (Ver ainda New York Times – Harold Pinter.)
Quanto à importância que o facto de ter nascido judeu teve na formação de Pinter, a sua biografia no site oficial da Academia Sueca parece não deixar dúvidas: “Crescendo [em Londres], Pinter foi confrontado com expressões de antisemitismo que, segundo ele próprio indica, foram importantes na sua decisão de tornar-se dramaturgo.”

Yom Kippur II

Leonard Cohen


Leonard Cohen, fotografado por David Boswell em Vancouver, a 20 de Outubro de 1978.

Para ouvir:
Leonard Cohen – Who By Fire

O Yom Kippur (dia do perdão ou da expiação), que se inicia hoje ao cair da noite, é a data mais importante do calendário judaico, culminando 10 dias de introspecção iniciados com o Ano Novo (Rosh Hashaná). Com origem na Bíblia Hebraica (ver Levítico 23:26-32), o Yom Kippur é um convite à análise do ano que passou e um apelo a uma transformação espiritual e ética para o futuro. Escrita por Leonard Cohen com base no poema ונתנה תוקף (Unetaneh Tokef), da liturgia judaica do Yom Kippur, “Who by Fire?” é uma composição profundamente influenciada pela oração e pela intensidade do dia.
“Esta canção é inspirada directamente numa oração hebraica, cantada no Yom Kippur. Segundo a tradição, neste dia o Livro da Vida é aberto, e nele estão contidos os nomes de todos os que irão viver e morrer no ano seguinte. A melodia, porém, não é integralmente roubada, mas derivada da melodia que ouvi desde sempre sentado na sinagoga. É claro que o final da minha canção é completamente diferente. “Who shall I say is calling?” é o meu contributo à oração: Quem determina a vida do homem?”, escreveu sobre ela Leonard Cohen.
Durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973, Leonard Cohen foi a Israel e fez uma série de concertos gratuitos para os soldados israelitas. Esta experiência, segundo ele próprio escreveria mais tarde, influenciou também de forma marcada “Who by Fire”. Na década de 90, Leonard Cohen retirou-se para um mosteiro budista situado nos arredores de Los Angeles, dando origem a rumores segundo os quais teria abandonado o judaísmo tornando-se um “jubu” (ou “bujew”), como fizera antes o poeta Allen Ginsberg. Confessadamente fascinado pela espiritualidade e o recolhimento do budismo, no entanto, Cohen continua a sentir-se profundamente judeu, como ele próprio afirmou numa entrevista recente ao The Guardian: “Não busco uma nova religião. Estou bastante satisfeito com a antiga, com o judaísmo.”

Yom Kippur

Perdoa-me
A insensatez,
A inércia,
As palavras ditas,
As palavras caladas,
A falta de coragem,
A irritação,
A raiva,
A falta de raiva.

Perdoa-me
O dilúvio e a aridez.
Perdoa-me
O calor e o gelo.
Perdoa-me
O ruído e os silêncios.

Perdoa-me
Não ter conseguido ser
Nem mais nem menos
do que eu próprio.
Perdoa-me
Tudo.
Perdoa-me
O sopro,
A respiração,
A vida.

N.G.
Los Angeles, 9 de Tishri de 5766 (12 de Outubro de 2005)

Poemas à Moda da Antologia Grega

I
Dos 20 anos aos 30
Ela esperou apaixonadamente por um amante.
Dos 30 aos 40
Tentou diligentemente apanhar um.
Agora é conhecida
Como a virgem viva
Do Centro Nacional de Artes Dramáticas.

II
Ele consagrou a vida à defesa da liberdade.
Todos os que com ele trabalhavam
se ressentiam do seu feitio autoritário.

IX
Ela anunciava-se como pintora,
Incessantemente,
Até ficar conhecida
Pela alcunha de “Eu-sou-pintora”.
Agora que morreu
Enlutam-se os seus amantes,
Aqueles que ficaram em silêncio
Quando ela falava de arte.

X
Porque dizem tantos desses
Poetas de antologias gregas
Que é melhor não nascer
E nascendo, é melhor morrer cedo?

Eu discordo.
É melhor nascer,
E nascendo,
Escrever versos dizendo
Que é melhor não nascer.
Ter uma vida longa
E escrever versos dizendo
Que é melhor morrer cedo.
Porque se não nascemos,
Que podemos dizer?
E se morremos cedo,
Como aprendemos a dize-lo bem?

Nissim Ezekiel (1924-2004), poeta, dramaturgo e critico de arte. Judeu indiano nascido em Bombaim.

Let’s party like it’s 5766

Esta noite e amanhã, no primeiro dia do mês hebraico de Tishri (תשרי), celebra-se o Ano Novo judaico, conhecido como Rosh Hashaná. A todos os leitores da Rua da Judiaria, aqui ficam os desejos de um doce e feliz ano de 5766!

שנה טובה


Rosh Hashaná em Nova Iorque, ano 5672 (22 de Setembro de 1911)



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