Archive for August, 2005

O massacre de Beslan, um ano depois

(…) Ainda assim, foi impossível conter o anjo de sonhos que, noite após noite, continua a aterrar os resgatados, foi impossível silenciar a persistente voz da consciência, que exige explicação para o mal diabólico e para os corações apáticos. Essas perguntas “Porquê, meu Deus, porquê? Porquê nós? Porquê eles? Porquê agora? Porquê desta maneira?” são deixadas em suspenso entre o céu e a terra, pairando sobre todos os actos humanos. E não há resposta.
O tempo dirá o que aprendemos; só o tempo poderá revelar se ouvimos verdadeiramente a voz do sangue dos massacrados gritando das entranhas da terra.

Não uses luto por tempo demais, mas não te afundes na apatia
do esquecimento. Não permitas que voltem dias de
trevas; chora, mas limpa as lágrimas.
Não absolvas nem desculpes,
não tentes compreender.
Aprende a viver sem
respostas.
Através do nosso sangue, vive!

מגילה השואה (Megillat Hashoah – “O Pergaminho do Shoá”, Assembleia Rabínica, Jerusalém, 2004), excerto de um poema da liturgia em memória das vítimas do Holocausto.

Laima Torchinova tem nove anos e gosta de desenhar. Mas em vez das habituais casas feitas de um quadrado com telhado em triângulo, desenhadas por outras crianças da sua idade, Laima faz retratos de homens de rosto tapado e armas nas mãos. Depois de muitos retoques, quando fica satisfeita com o resultado final, Laima rasga o desenho, acende um fósforo e queima-o. É um ritual que repete diariamente há quase um ano. Não é necessário ser psiquiatra para ler no gesto de Laima um exorcismo de fantasmas demasiado reais. Os olhos de Laima viram coisas terríveis.
Há exactamente um ano, começava o que havia de tornar-se um pesadelo inimaginável para os 33 mil habitantes da pequena cidade russa de Beslan – uma localidade sensivelmente do tamanho de Castelo Branco. Durante três dias, um grupo de 32 terroristas chechenos barricou-se numa escola primária, fazendo mais de mil reféns, na sua esmagadora maioria crianças que celebravam com familiares e professores o regresso às aulas. Após um cerco que durou três dias, entre o impasse e o desespero, 344 pessoas perderam a vida – 172 delas crianças com menos de 10 anos.
Laima sobreviveu às explosões e aos tiros. Mas o preço emocional que pagou é incalculável. “Desenho terroristas e queimo-os pelas crianças que morreram na escola. Quero vingar-me deles por terem morto as crianças”, disse ela à disse ela à BBC. “Porque eles? Porquê desta maneira?” – as interrogações do poema litúrgico judaico ressoam nos escombros de Beslan. Também aqui, sem que venham respostas. Porque a irracionalidade do terror não pode nunca ser explicada.

:: A LER:: Heavy hearts as Beslan anniversary draws near / BBC – Beslan boy recalls hostage horror / BBC School siege: Eyewitness accounts / Significant Terrorist Incidents 1961-2003: A Brief Chronology / Beslan - Wikipedia / Beslan school hostage crisis - Wikipedia / Трагедия в Беслане | 1 сентября 2004 г / Трагедия в Беслане | 1 сентября 2004 г (versão em inglês) / Hope for Beslan / BBC How the siege unfolded / Telegraph – ‘Innocent religion is now a message of hate’

:: A VER:: BBC – Children who survived the siege tell of their ordeal / “Georg is very lucky to have survived” / Beslan school attack… Photos (AVISO: este último site contém imagens de extrema violência.)

Um monumento

A blogosfera portuguesa, por entre os seus altos e baixos, as suas “mortes”, nascimentos e desvarios, vai mostrado trabalhos francamente notáveis. Num blog todo ele admirável e belo, como o Porto que ali é narrado (A Cidade Surpreendente), Carlos Romão mostra agora uma arte à beira do fim. Pela beleza das fotos e pelo que o Carlos nos conta, é imprescindível ver a Arquitectura do Rabelo.

ShaBot6000: A Má Língua


(clique na imagem para ampliar)

Glossário:
Lashon Hará – Expressão hebraica que literalmente quer dizer “má língua”; o mesmo que “mexerico”, “fofoca” ou “bisbilhotice”. As regras éticas do judaísmo estabelecem no Talmude fortes restrições contra a má língua: não se podem proferir afirmações depreciativas ou difamatórias sobre quem quer que seja, quer estas sejam verdadeiras ou falsas; não se pode dar a entender afirmações depreciativas ou difamatórias; não se pode nunca dar ouvidos a afirmações depreciativas ou difamatórias contra terceiros. Segundo algumas interpretações rabínicas, estas regras derivam da importância dada às palavras como forças criadoras e percursoras da acção. Assim como palavras positivas geram acções positivas, também as palavras negativas darão origem a actos negativos.

Spinoza

As translúcidas mãos do judeu
Lavram na penumbra os cristais
E a tarde que morre é medo e frio.
(As tardes à tarde são todas iguais.)
As mãos e o espaço de jacinto
Que empalidece no confim do Gueto
Quase não existem para o homem quieto
Que está sonhando um claro labirinto.
Não o perturba a fama, esse reflexo
De sonhos no sonho de outro espelho,
Nem o temeroso amor das donzelas.
Livre da metáfora e do mito
Lavra um árduo cristal: o infinito
Mapa d’ Aquele que é todas as Suas estrelas.

Jorge Luis Borges
in El Outro, el Mismo (1964)

Incêndios


Hollywood Hills: John Kilduff, Los Angeles vista de Mullholand Drive

Nas conversas telefónicas diárias para Portugal é impossível não falar de incêndios. E prevenção, que raio será isso? Lembrei-me de um exemplo vivido na primeira pessoa, quando morei em Hollywood Hills, uma área de Los Angeles fortemente arborizada, quase “selvagem”, onde diariamente se dá de caras com veados, coiotes, esquilos e doninhas a caminhar calmamente nas ruas. No final da Primavera, todos os anos, passava por lá um fiscal dos bombeiros que metia uma carta nos correios, dando aos moradores um prazo de três semanas para limpar a mata em redor das suas casas. Terminado o prazo, o fiscal fazia uma nova ronda e o incumprimento do aviso dava direito a uma multa entre €500,00 e €2500,00, ou pena de prisão até um ano. Numa região onde as casas são construídas totalmente em madeira, as autoridades aprenderam há muito que levar a sério a prevenção de incêndios é a única solução aceitável. Nos anos que ali morei nunca conheci ninguém que não limpasse a mata. E tenho até algumas saudades das tardes que passei de enxada na mão, com o gigantesco contorno branco e desnivelado do letreiro de Hollywood empoleirado nas montanhas ao fundo da paisagem.

::A LER:: Los Angeles Fire Departmant - HOMEOWNERS BRUSH SAFETY AWARENESS TIPS / Office of the State Fire Marshal - Fire Safe Planning - Property Inspection Guide / Quick Response Report – The 2003 Southern California Wildfires: Constructing Their Cause(s) / Fire Season 2005: Protect Your Clients from Wildfire Dangers / The Santa Monica Mountains North Area Plan / Fire Report Newsletter / Metro: Park service pays $25,000 fine to Valley air district / NBC 4 - News - Fire Prevention Goats Spark Neighborhood War

Ein Yahav


O deserto de Arava, Israel. Foto de Dan “Mobius” Sieradski, via Orthodox Anarchist.

Uma viagem nocturna de carro até Ein Yahav, no deserto de Arava,
Uma viagem à chuva. Sim, à chuva.
Ali conheci gente que cultiva tamareiras,
ali vi arbustos de tamarisco e arbustos de risco,
ali vi esperança farpada como arame farpado.
E disse a mim mesmo: É verdade, a esperança precisa ser
como arame farpado para afastar o desespero,
a esperança tem de ser um campo minado.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Para acabar de vez com ideias preconcebidas


Foto de Oded Balilty para a Associated Press

Na última edição da revista judaica norte-americana Tikkun, Aaron Tapper escreve sobre o rabino ortodoxo Menahem Froman, um colono apaixonado pelos árabes e pelo Islão que vive na Samaria (Cisjordânia), e o Sheikh Imad Al-Falouji, antigo fundador das brigadas Izz Al-Din Al-Qassam do Hamas, que entretanto se converteu à causa do pacifismo. (Ler Tikkun – Hamas Pacifists and Settler Islamophiles: Defining Nonviolence in the Holy Land.) Para baralhar ainda mais as cabeças dos que demonstram sempre ter “certezas absolutas” quando se fala do conflito israelo-palestiniano, aconselho a leitura das notícias que dão conta de uma doação de 14 milhões de dólares, feita por empresários judeus norte-americanos, para ajudar os palestinianos e o futuro de Gaza. O dinheiro destina-se a manter os sistemas de rega e as infra-estruturas das estufas nos complexos agrícolas dos colonatos agora evacuados. (Ler New York Times – How Old Friends of Israel Gave $14 Million to Help the Palestinians; American Jewish Donors Save Gaza Greenhouse.) Já agora, convém também esclarecer que, após concluída a retirada, as casa abandonadas pelos colonos serão destruídas pelo exército israelita a pedido da Autoridade Palestiniana – através do seu ministro dos Assuntos Civis, Mohamad Dahlan –, para que os palestinianos possam construir prédios de apartamentos em lugar das casas e vivendas actualmente existentes, de maneira a albergar um maior número de pessoas. O exército israelita, no entanto, deixará intactas todas as estruturas de apoio – escolas, hospitais, etc. – e áreas industriais.

Grandes Citações IV


Alguns de nós, judeus de Esquerda, sentimo-nos impedidos de abraçar de forma mais completa a causa palestiniana em virtude dos inegáveis contornos antisemitas dos discursos e escritos pró-palestinianos.”

Pierre Goldman, Libération, 31 de Outubro de 1978.

Judeu francês, jornalista e activista de esquerda (extrema-esquerda, dirão alguns), Goldman foi assassinado por brigadas terroristas de extrema-direita a 20 de Setembro de 1979, meses depois de ter sido ilibado num processo judicial kafkiano que inicialmente o condenara a prisão perpétua. Os seus assassinos nunca foram julgados. (Ver Pierre Goldman : Le dossier.)

Acção de Graças

No inferno metido,
Da Inquisição dura,
Entre os cruéis leões do capricho,
De ali me redimiste,
Dando a meus males cura,
Só porque arrependido me viste.

David Abenatar Melo (século XVI), poeta, filósofo e teólogo.
Judeu “marrano” português, nascido no Alentejo, em Fronteira, distrito de Portalegre, com o nome de baptismo de Fernão Álvaro Melo. Preso e torturado por diversas vezes pela Inquisição de Évora, foge para a Holanda em 1613, onde anos mais tarde se torna rabino da Sinagoga Portuguesa de Amsterdão.

התנתקות

Em hebraico escreve-se התנתקות (hitnatcut). Literalmente quer dizer desligamento. Agora, é com essas mesmas letras hebraicas que se vai escrevendo História. E esperança. O desmantelamento dos colonatos israelitas de Gaza e do norte da Samaria (Cisjordânia) – e a retirada militar –, é um momento histórico inegável. Nos próximos meses deverão ser lançadas as bases para um futuro no qual coexistirão Israel e Palestina, dois Estados livres e independentes.
As irreversíveis engrenagens da História, habitualmente pesadas e lentas, movimentam-se agora a uma velocidade vertiginosa, materializando os primeiros esboços dos anseios de um povo cansado da guerra. Em Maio do ano passado, centenas de milhares de pessoas manifestaram-se em Tel Aviv, na mesma praça onde Yitzhak Rabin foi assassinado, exigindo o fim da ocupação, a retirada dos territórios e o reatar das negociações de paz. As sondagens mostram que a esmagadora maioria dos israelitas apoiava essas pretensões. Mas há um ano, poucos se atreveriam a prevêr as notícias de hoje.
Sempre guardei, confesso, algum ressentimento para com os colonatos – uma antipatia por aquilo que aqueles enclaves representavam e pelos entraves intransponíveis que colocavam no caminho da paz. Ao ver agora as imagens das reportagens dos despejos em Gaza, ao ver as lágrimas e o genuíno desespero, lembrei-me deste poema de Yehuda Amichai, e de como é fácil desumanizar gente com quem se discorda, transformando indivíduos em blocos compartimentados e estanques, cuidadosamente arrumados do lado de fora da nossa esfera de emoções. Ainda que discordando profundamente da ideologia e das opções daqueles que escolheram viver nos colonatos, sou obrigado a reconhecer que estas imagens me tocam.
O peso das palavras volta aqui a ter uma importância desmedida. Chamar simplesmente “colonos” àqueles que agora abandonam as suas casas, como se fogo as tragasse, é uma forma “esterilizada” e mentalmente higiénica de nos alhearmos do facto de milhares de famílias estarem a ser desalojadas; que pessoas deixam agora para trás as casas que construíram, os cemitérios onde enterraram os seus mortos, as sinagogas onde casaram. Chamar-lhes “colonos” alivia o peso de ver gente – velhos, mulheres, crianças, homens – a abandonar tudo sem poder olhar para trás. Eles são agora para Israel o que os “retornados” de 1974 e 75 foram para Portugal: vítimas colaterais do curso – tortuoso mas, no fim de contas, justo – da História.

:: A LER:: Haaretz - Editorial - And now, determination / Haaretz - Disengagement from Gaza - Day Three Diary / Something to mourn, by David Grossmann / Haaretz - Forcible evacuation begins this morning / IDF: Gaza evacuation may last less than a week / Haaretz - How the IDF plans to evacuate the Gaza settlements (infografia) / PM to settlers: Don’t hurt troops over disengagement, hurt me / Jerusalem Post - Editorial - A test of our society / Ynetnews - Mubarak: I understand evacuees’ pain / Ynetnews – Pullout Special / Jerusalem Post - Disengagement Special / Israel’s Disengagement Plan: Renewing the Peace Process (página oficial do Governo) / Zeek | Postcards from Gaza / ‘Time for me to close my computer and finish packing’ from Guardian Unlimited: Newsblog / Haaretz - Metamorphosis of Ariel Sharon

::NOS BLOGS ISRAELITAS:: Balagan in Jerusalem - Living in a Roller Coaster! / Not a Fish » Not happy days. No. / Sha!: Day 1 / An Unsealed Room: It’s Not a Reality Show, It’s Reality / An Unsealed Room: How It’s Going / Jewlicious » “We Fell in Love With Ourselves.” Mea culpa by a religious Zionist / on the face: A day in the life/ JeW*SCHooL - The Human Tragedy / Treppenwitz: It couldn’t possibly hurt / Jewlicious » On the eve of disengagement

::A VER:: IBA Channel 33 (noticiário em inglês) / IBA (noticiário em hebraico) / Three Days in Gaza (documentário)

ADENDA: poucas horas após ter escrito este post, as agências noticiosas deram conta da morte de três palestinianos, civis inocentes, assassinados por um terrorista israelita nas proximidades da zona industrial do colonato de Shilo. O assassino foi prontamente detido pela polícia. Entretanto, os terroristas fundamentalistas do Hamas prometeram já “vingar” o ataque – exactamente o tipo de resposta pavloviana que o terrorista israelita parece ter pretendido desencadear. (Ver ainda Ynetnews - Sharon condemns Shilo shooting attack; Haaretz - Sharon slams grave Jewish terror attack on Palestinians; Ynetnews - Hamas: We will avenge Shilo attack.)

Kinky Friedman, o cowboy judeu do Texas

Músicas da Judiaria X


Em seis dias Deus criou os céus e a terra e todas as maravilhas do universo. Honestamente, acredito que ele devia ter levado um bocadinho mais tempo…”

Para ouvir

They Ain’t Making Jews Like Jesus Anymore

Ride ‘em Jewboy

Ride ‘em Jewboy (versão de Willie Nelson)

Os críticos chamam-lhe “o Frank Zappa da música country”, mas Kinky Friedman prefere ser conhecido como o cowboy judeu do Texas. Iconoclasta, mordaz, irreverente e “politicamente incorrecto” quando nem sequer havia ainda “politicamente correcto”, Kinky Friedman é, por mérito próprio, um ícone incontestado da música country. Nos seus álbuns, nas décadas de 60, 70 e 80, participaram músicos como Bob Dylan, Tom Waits, Willie Nelson e Ringo Starr (que fez a voz de Jesus Cristo na canção Men’s Room in LA, do álbum Lasso from El Passo de 1976)
A sua mais conhecida canção – uma das duas escolhidas para esta edição das Músicas da Judiaria –, escrita na melhor tradição de “canções-história” cómicas como A Boy Named Sue, de Johnny Cash, chama-se They Ain’t Making Jews Like Jesus Anymore. Na letra, Kinky Friedman relata um episódio da sua vida real, quando num bar do Texas confrontou (… à pancada) um racista antisemita. Kinky é ainda o autor daquela que é a única canção de country western dedicada às vítimas do holocausto nazi: Ride ‘em Jewboy, considerada pelos críticos uma das suas mais belas composições (apresentada aqui nas Músicas da Judiaria em duas versões, uma das quais cantada por Willie Nelson).
Richard “Kinky” Friedman nasceu em Chicago, a 31 de Outubro de 1944, mas tinha ainda poucos meses de idade quando a família se mudou para o racho Rio Duckworth, próximo da pequena localidade de Palestine, no Texas. Durante toda a sua carreira, Kinky Friedman fará questão de se apresentar como “o judeu de Palestine”.
Filho de um professor de psicologia da Universidade do Texas, Kinky inicialmente pensou seguir a carreira do pai, mas abandonou a ideia pouco tempo depois de se ter formado. Em 1966, entrou para o Peace Corps e passou dois anos de voluntariado a prestar ajuda humanitária no Borneo onde, segundo ele próprio conta, a sua maior proeza foi a introdução do frisbee junto dos nativos.
Regressado ao Texas, junta-se a um bando de músicos renegados para paradiar a surf music, então em voga, com um conjunto chamado King Arthur & the Carrots, mas sem grande sucesso. Em 1971, Kinky Friedman funda a banda que o acompanha até hoje e que acabaria por tornar-se a sua imagem de marca: Kinky Friedman and the Texas Jewboys, que depressa atingiu um estatuto de culto nas franjas da música country. A sua actuação em Nashville na mítica Grand Ole Opry – a “catedral” da música country –, ficaria lendária depois de Kinky saudar a audiência com um sonoro Shalom!


Kinky Friedman com Bob Dylan à porta do The Troubadour. Los Angeles, 1974

Com o seu amigo Bob Dylan, Kinky e os Texas Jewboys participaram, em 1975 e 76, na mítica digressão pelos EUA que ficaria para a história como The Rolling Thunder Revue, actuando ao lado de Joan Baez, Roger McGuinn, Rambling Jack Elliott, Joni Mitchell, Bob Neuwirth, Allen Ginsberg e, claro, do próprio Dylan (ver On the Road With Bob Dylan).
Musicalmente, Kinky influenciou toda uma nova geração de músicos da chamada zona indy country, de entre os quais se destaca Fred Eaglesmith.
Em 1986 Kinky Friedman escreveu o primeiro do que viria a ser uma série de 20 livros policiais, tornando-se um escritor de enorme sucesso dentro e fora dos EUA. Com títulos como Elvis, Jesus & Coca-Cola (1993), God Bless John Wayne (1995) e Love Song of J. Edgar Hoover (1996), os romances policiais de Kinky Friedman, tal como antes acontecera com os seus poemas e canções, oscilam entre um humor desbragado e uma seriedade capaz de obrigar o leitor a reflectir. O seu último livro, Ten Little New Yorkers, acabou de ser lançado nos EUA.
Hoje, para além da música e da escrita, Kinky Friedman embarcou numa carreira política semi-séria, candidatando-se ao lugar que em tempos pertenceu a George W. Bush, empenhado em tornar-se “o primeiro governador judeu do Texas”. Com o slogan “Why the Hell Not”, a sua candidatura não foi inicialmente levada a sério pelo establishment político texano, mas Kinky provou as suas intenções ao conseguir recolher mais fundos do que o seu opositor directo, o congressista democrata Chris Bell.
Apesar da campanha eleitoral ser a sério, Kinky Friedman não se deixa levar totalmente pela seriedade da política. Numa entrevista recente, um jornalista perguntou-lhe qual será o seu primeiro acto oficial quando for eleito governador. Kinky responde sem hesitar: “A primeira coisa será exigir uma recontagem dos votos.”

::A LER:: Kinky Friedman Official Site / Kinky Friedman’s Blog / The New Yorker: Lone Star / Texas Monthly: Kinky Friedman (colecção de artigos) / Kinky Friedman: a success against all odds (entrevista) / Azeite Farouk-Friedman

::A OUVIR:: Kinky Friedman Speaks Out (entrevista com Ann Devlin sobre o livro The Love Song of J. Edgar Hoover)

::A VER:: KLRU: Texas Monthly Talks > Kinky Friedman

Amanhã

Amanhã fico triste,
Amanhã.
Hoje não. Hoje fico alegre.
E todos os dias,
por mais amargos que sejam,
Eu digo:
Amanhã fico triste,
Hoje não.

Autor anónimo. Poema encontrado na parede de um dos dormitórios de crianças do campo de extermínio nazi de Auschwitz.

[A partir da tradução do yiddish original para inglês da autoria de Joseph Leftwich.]

God Speed Mister Jennings

Diariamente, este senhor fez-me acreditar que a minha profissão de jornalista ainda valia a pena. Peter Jennings, pivot e editor do jornal da noite da ABC, morreu ontem, vítima de cancro do pulmão. Recomeçara a fumar há quatro anos, numa manhã triste de Setembro, no dia 11. Era o melhor pivot de televisão do mundo. Tinha 67 anos.

O Jogo de Damas (um pequeno conto)

Num dos dias de Hanukah, o rabi Nahum, filho do rabino de Rizhin, entrou na sinagoga e encontrou os seus alunos a jogar às damas, como era costume naquele tempo. Quando viram o rabino, envergonharam-se e pararam de jogar. Mas o rabi Nahum sorriu e pediu-lhes que prosseguissem: “Sabem que as regras do jogo de damas são muito parecidas às regras da vida? Pois reparem: a primeira é que não se podem fazer duas jogadas ao mesmo tempo. A segunda regra diz que apenas se pode andar para a frente, e nunca para trás. E, por fim, quando se chega à última casa, alcança-se o dom de poder finalmente andar em qualquer direcção.”

Rabino Nahum de Stepinesht (Ucrânia, século XIX)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

A Capital – memórias de um cadáver esquisito

À medida que se envelhece, a vida faz questão de nos semear cadáveres pelo caminho. Nem sempre são os mais óbvios. Às vezes – na maior parte das vezes, talvez –, são “coisas”, ou simplesmente lugares que nos marcam, para o bem e para o mal. Coisas com alma, porque “morte” só faz verdadeiramente sentido quando ela se evapora.
No início desta semana morreu A Capital, o jornal onde estagiei. O fantasma deixa memórias. Cheguei ao jornalismo escrito “a sério” no final dos anos 80, na velha redacção do Bairro Alto, numa época em que o matraquear constante das máquinas de escrever ainda dominava o ritmo da vida dos jornalistas. Tenho guardada uma folha de lauda desses tempos, uma página timbrada com o logotipo d’ A Capital, marginada a 60 espaços, pronta a receber prosa de letra martelada a tinta que sujava os dedos e, às vezes, a própria consciência. Encontrei-a hoje, numa caixa cheia de papéis velhos que insisto em guardar sem saber muito bem porquê. Amarelada, velha de quase 20 anos, a folha de lauda d’ A Capital bem podia ser uma metáfora para um jornal que não conseguiu acompanhar os tempos – apesar de consecutivas mudanças e esforços vários.
A Capital nunca foi um “grande jornal”. Nunca foi uma referência no sentido que em tempos o foram o Diário de Lisboa, O Século ou A República, todos eles também desaparecidos. Podia nem ser um jornal influente, pelo menos no meu tempo, mas para um jornalista, um estágio n’ A Capital era o equivalente a uma pós-graduação nos bastidores do jornalismo. Era a “tarimba” no sentido mais completo da palavra e, durante décadas, A Capital formou gerações de jornalistas portugueses que hoje estão espalhados por uma miríade de publicações, do Diário de Notícias ao Público, passando pelo Expresso, pela Visão e pela Sábado, entre muitos outros.
A faceta de “jornal-escola” em que A Capital se convertera era uma espada de dois gumes: por um lado, por causa do violento ritmo de trabalho de um vespertino, aprendia-se a escrever depressa, a arrumar ideias e apontamentos antes de chegar à redacção, porque a prosa tinha de estar pronta num quarto de hora. Por outro, esse mesmo ritmo, aliado a condições de trabalho nem sempre favoráveis – longas horas de trabalho, falta de reconhecimento, baixos salários, etc. –, fazia com que os jornalistas debandassem à primeira oportunidade. Era um ciclo tornado vicioso que enchia a redacção de jornalistas estagiários inexperientes, que a A Capital formava para ver sair um ou dois anos depois.
É certo que muita coisa terá mudado desde 1992, altura em que sai d’ A Capital. De vespertino – talvez o último jornal europeu que ainda saía à tarde – passou a matutino, diluindo-se no meio de um mercado apinhado de títulos. As vendas foram caindo a pique, reflectindo mudanças bruscas que descaracterizavam o jornal e alienavam o seu público habitual sem se manterem o tempo suficiente para conquistar novos leitores.
Em Setembro do ano passado, Luís Osório e Rogério Rodrigues, dois excelentes jornalistas, assumiram a direcção do jornal e embarcaram na tarefa de o transformar radicalmente. Do incaracterístico produto populista que A Capital se tornara, quiseram fazer um jornal a sério. Honestamente, mesmo sem nunca ter visto o jornal impresso, acompanhando-o apenas pela Internet, acredito que o conseguiram. Agora, seis meses depois, A Capital morre de pé, inquestionavelmente melhor do que era antes, vítima de uma administração com vistas curtas – um mal bastante frequente na Imprensa portuguesa –, sem paciência para esperar que as mudanças conquistassem um novo mercado.
Pela parte que me toca, o fim d’ A Capital vem acentuar uma crescente desilusão pessoal para com o mundo do jornalismo português e, num sentido mais íntimo, com a própria profissão, um sentimento que vem fermentado há já algum tempo. Independentemente de tudo o resto, nas memórias dos anos em que lá trabalhei, fica a inevitável nostalgia; uma imensa saudade dos camaradas com quem partilhei a redacção. E o muito que com eles aprendi.



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