Archive for May, 2005

Lag ba’Omer


Túmulo do rabino Shimon bar Yochai na cidade de Meron, na Galileia. Foto de autor desconhecido, cerca de 1880.

Celebra-se hoje, dia 18 de Iyyar de 5765, o festival de Lag ba’Omer, que marca o aniversário da morte do rabino talmúdico Shimon Bar Yochai (século II), autor de Sefer Ha’Zohar (ספר הזהרO Livro do Esplendor) o maior tratado místico do judaísmo.

Grandes citações

Se eu estiver certo, os alemães dirão que sou alemão, e os franceses dirão que sou filho da humanidade. Mas se eu estiver errado, para os franceses serei um alemão; e para os alemães não passarei de um judeu.”

Albert Einstein, sobre a Teoria da Relatividade

Separados à nascença?

Shimon Peres (foto de 1943), vice-primeiro ministro de Israel e líder do Partido Trabalhista, e Cosmo Kramer (Michael Richards), vizinho e amigo de Jerry Seinfeld (foto de 2003).

Katerina moça

Qu’achaste ó “ahanim”,
que vos assim namorou?
rezar bem o “tafalim”?
ou com que vos “çabacou”?
Eu jurar por minha lei
ou polos dez mandamentos?
ou dizer – viva el-rei!
Como sei
em seus estrevançamentos?

Em rezar o “baracha”
ou de que fôstes contente
ou em ser mui diligente
quando vão a “minaha”.
Em guardar bem o “sabá”
ou cheirar-vos à “defina”?
Como fôstes tam mofina
Katerina
Sobre serdes muito má.

Quando vier comer
que for o partir do pão
dir-vos ha ũ oração
sabê-lhe vós responder:
“Baru ata Adonai Eloheno”
Sam palavras que diz
Amoça “lecha minariz”
lhe respondêres, e peno,
pois meu bem foi tam pequeno.

Luís Henriques (finais do século XV), poeta e fidalgo da Casa de Bragança.
Esta estança, curiosamente recheada de palavras e frases hebraicas, foi escrita após Catarina, a sua amada “cristã-nova”, ter trocado Henriques por um judeu.
in Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516)

ShaBot6000: Tefillin


(clique na imagem para ampliar)

Glossário:
Tefillin - תפילין – Objecto ritual judaico habitualmente traduzido do grego (erradamente) para português como filactérios. Tefillin é composto por duas pequenas caixas de couro contendo pergaminhos com passagens bíblicas (Êxodos 13:1-10, 11-16; Deuteronómio 6:4-9, 11:13-21) utilizadas pelos judeus nas orações matinais (excepto no shabbat e em dias de festa). Ver Homem com Tefillin, de Marc Chagall. Higiene é fundamental quando se usa Tefillin. A tradição aconselha que se visite o quarto de banho antes de os colocar, de maneira a evitar ser acometido de vontades súbitas irreprimíveis durante as orações.

Sem título

Quando vagueio por avenidas
De poemas, de visões deslumbrantes –
Comprimo nesse precioso espaço
Os meus jovens segredos crus.

Não quero cobrir com cartazes de Deus
As esquinas abertas das ruas,
Mas celebrar o aniversário da eternidade
No minúsculo recanto de cada momento.

Quero construir – velha amostra
Das vindimas do meu espírito –
Vinho verbal para gerações longínquas
No mais fresco abismo de um poema.

Abraham Joshua Heschel, (1907–1972), rabino, filósofo e poeta.

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]

A Oferenda (um pequeno conto)


A Cidade de Safed, xilogravura de Harry Fenn (1838-1911)

Nos idos de 1500, um pobre e ingénuo judeu marrano português chamado Josué emigrou com a mulher para a cidade santa de Safed, na Galileia. Fugido da ameaça das fogueiras da inquisição portuguesa, Josué estava radiante por finalmente poder praticar livremente a religião dos seus antepassados.
Já instalado na Terra Santa, anos mais tarde, ouviu o rabino falar na sinagoga sobre os lechem hapanim, os “pães de rosto”1, que eram oferecidos na época do Templo Sagrado todas as sextas-feiras, antes do início do Shabbat. Depois de explicar as várias leis que em tempos antigos governaram estas oferendas, e de expor os seus significados místicos, o rabino suspirou profundamente e lamentou que, por causa dos nossos pecados, já não se podia alegrar Deus com estes pães.
As palavras sentidas do rabino sacudiram a alma do ingénuo marrano português. Quando chegou a casa, Josué contou tudo à mulher, Clara, e pediu-lhe que cozesse duas challot2 – o pão especialmente preparado para o shabbat – na sexta-feira seguinte. Deu-lhe todos os detalhes que se lembrava das palavras do rabino sobre o “pão de rosto”: a farinha, contou ele, devia ser peneirada 13 vezes, amassada ainda em estado de pureza e a massa devia ficar bem cozida no forno. “Deus deve estar cheio de fome, imagina, depois de tantos séculos sem poder comer estes pães! Vamos passar a levar-lhe challot todas as sextas-feiras.”, disse Josué cheio de alegria.
Clara cumpriu a vontade do marido e logo pela manhã da sexta-feira seguinte, quando Josué acordou, dois belos pães arrefeciam já sobre um pano imaculado na mesa da cozinha.
Faltando ainda muitas horas para o início do shabbat, o marrano português correu para a sinagoga, que estava deserta, e abrindo a Santa Arca disse com todo o fervor: “Oh! Senhor dos Céus, da Terra e de todos os seres, tem piedade deste teu filho e recebe esta pobre oferenda! Tomai estes pães e que eles sejam bem recebidos por Ti, como foram as oferendas dos nossos antepassados.”
Com as mãos trémulas, Josué depositou os pães na Santa Arca e, olhando em volta para ter a certeza que ninguém o vira, regressou rapidamente a casa.
Já Josué ia longe quando o shammash (o funcionário da sinagoga) chegou para preparar o shabbat. Ao abrir a Santa Arca para conferir os rolos da Torá, deparou com os dois belos e deliciosos pães e logo imaginou que só podiam ser para si. Algum judeu generoso os deixara em segredo, para não o envergonhar revelando a todos a sua pobreza, pensou ele.
Ao fim dessa mesma tarde, depois dos serviços religiosos, Josué dirigiu-se impacientemente à Arca Sagrada para ver se os pães ainda lá estavam. Quando viu que tinham desaparecido a sua alegria foi imensa. “Deus não desdenhou a nossa singela oferenda”, disse ele, radiante, à mulher.
E assim prosseguiu durante longos anos: sexta-feira de manhã Josué levava os dois pães feitos por Clara à sinagoga; e à tarde o shammash levava-os para casa profundamente agradecido ao seu secreto benfeitor. Ambos se deliciavam e agradeciam a Deus pelo milagre.
Tudo corria bem até que um dia o judeu português se preparava para cumprir o mesmo ritual de sempre quando os seus gestos foram observados pelo rabino, que nessa sexta-feira fora mais cedo para a sinagoga e, a um canto, preparava silenciosamente o sermão do dia seguinte. Intrigado, o rabino ouviu a prece de Josué oferecendo os dois pães a Deus. Primeiro ficou em silêncio, mas assim que compreendeu o que se passava, o rabino ficou irado. Finalmente, não se conseguindo conter por mais tempo, dirigiu-se a Josué: “Seu idiota! Que fazes tu? Por acaso pensas que Deus come e bebe como tu? É um pecado terrível imaginar que Deus tem qualidades físicas como os homens. Pensas mesmo que é Deus quem recebe os teus miseráveis pães? É óbvio que é o shammash que os come!”
O rabino gritava ainda, vermelho de raiva, quando o shammash entrou na sinagoga para cumprir as suas tarefas habituais. O rabino confrontou-o imediatamente: “Vá, diz lá a este pobre idiota quem é que todas as semanas tira os dois pães que ele deixa na Arca?!” O shammash admitiu logo ser ele quem levava os pães, sem compreender porque razão o rabino estava tão irritado.
Com os olhos encharcados em lágrimas, o marrano português contou então ao rabino como o seu sermão o inspirara a trazer os pães para a sinagoga. Acreditava que fazia uma boa acção, mas agora o rabino dizia-lhe que cometera um grande pecado. Desconsolado e sem saber o que dizer à mulher, Josué foi para casa.
Pouco tempo depois, entrou na sinagoga um mensageiro de Ari Ha’Kadosh3 que se dirigiu ao rabino. Em nome do seu mestre, o mensageiro disse ao rabino que fosse para casa, se despedisse da família e se preparasse, porque à hora destinada para o seu sermão de shabbat, na manhã seguinte, a sua alma teria já partido para o descanso eterno. “Assim anunciaram os Céus”, disse o mensageiro.
O rabino não queria acreditar na má notícia que ouvira. Sem perder tempo, foi ter directamente com o Ari Ha’Kadosh tentando saber que pecado fizera ele para merecer tal destino. O Ari confirmou a mensagem, acrescentando da forma mais gentil possível: “Ouvi que foi porque acabaste com um gesto que deleitava o Criador. Desde a destruição do Templo Sagrado que Deus não tinha uma alegria tão grande quanto aquela que lhe dava o gesto do marrano português, oferecendo os seus modestos pães do fundo do seu coração. Ao destruir a sua inocência, selaste o teu destino.”
E assim foi. Inconformado, o rabino dirigiu-se para casa e despediu-se da família. No dia seguinte, a sua alma partiu antes da hora marcada para a prédica de shabbat, tal como anunciara o Ari.

Este história, contada no século XVI no círculo de estudos do rabino Chaim Vital – sucessor de Isaac Luria, o Ari Ha’Kadosh, na liderança do movimento místico dos cabalistas de Safed – foi impressa pela primeira vez em meados do século XVII no livro Mishnat Hachamim, escrito pelo rabino Moshe Hagiz (1572-?), de Jerusalém.

::Notas::
1 Ver Levítico 24:5-9
2 Challot, plural de chalá. Ver Associação da Juventude Israelita Hehaver: Chalá - o que é ?
3 Ari Ha’Kadosh, expressão hebraica que significa “Leão Sagrado”, o cognome do rabino cabalista Isaac Ben Solomon Luria.

Joshua Benoliel em retrospectiva


Joshua Benoliel - Embarque do Corpo Expedicionário Português para a Flandres,
Cais de Santa Apolónia, Lisboa, 1917

A edição deste ano da bienal de fotografia LisboaPhoto integra uma notável retrospectiva – a primeira do género – dedicada ao trabalho de Joshua Benoliel, considerado o pai do foto-jornalismo português. Nascido em Lisboa, em 1873, Joshua Benoliel captou com a sua objectiva alguns dos momentos mais marcantes da história portuguesa do início do século XX: do assassinato do rei D. Carlos, em 1908, à participação portuguesa na Grande Guerra de 1914-18, passando pela implantação da república, em 1910, e pela “revolução” de Sidónio Pais, em 1917.
Judeu, membro activo da comunidade judaica de Lisboa e frequentador assíduo dos serviços religiosos da sinagoga Shaaré Tikvá (Portas da Esperança), Joshua Benoliel deixou transparecer na sua obra um fascínio indisfarçável por Lisboa. Sobre esta faceta de Benoliel conta José Pedro de Aboim Borges:

“Sente-se o amor que este homem tinha pela sua cidade e pelas suas gentes, a facilidade com que deambulava pelas ruas mais esconsas, testemunhando a precaridade das situações sociais, numa atitude próxima dos americanos Riis e Hine. É uma postura mais íntima, mais ‘fado’, mais humana.”

Quando o jornalismo português tentava colmatar o atraso que levava em relação à onda de modernização gráfica que varria o mundo – numa altura em que a própria arte da fotografia em Portugal era, ela própria, ainda embrionária – Joshua Benoliel transforma-se no primeiro repórter fotográfico português, produzindo milhares de “clichés” para inúmeras publicações nacionais e estrangeiras. De entre todas destaca-se a Ilustração Portuguesa, que chegou a atingir uma tiragem de 24 mil exemplares em 1908, um feito notável num país que na altura tinha cerca de 5 milhões de habitantes e uma taxa de analfabetismo na ordem dos 80%.
Sobre a copiosa produção de Joshua Benoliel escreve ainda José Pedro de Aboim Borges:

“Benoliel enviava semanalmente mais de 180 fotografias para a Ilustração Portuguesa (placas de vidro, de gelatino-brometo, de formato 9×12 cm). Se acrescentarmos mais umas 50 para as restantes publicações com quem colaborava, obteremos um número próximo das 260 fotografias semanais efectivamente transaccionadas.”

A exposição retrospectiva da obra de Joshua Benoliel, organizada por Emília Tavares, pode ser visitada até 21 de Agosto na Cordoaria Nacional, Torreão Nascente, em Lisboa.


Joshua Benoliel - Postal ilustrado. Sinagoga de Lisboa, inaugurada a 18 de Maio 1904.

::A VER:: Rui Tavares colocou online algumas excelentes fotografias de Joshua Banoliel (e também de Aurélio da Paz dos Reis, outro pioneiro) no Álbum do Barnabé. A merecer uma visita.

Luís e os Mouros

Devia ser leitura obrigatória. Acabadinho de chegar às livrarias, chama-se A Viragem Profética e foi escrito por Luís Carmelo na tentativa de desvendar o presente à luz das pegadas deixadas por um passado ibérico rico em literatura profética. No seu blog em inglês, o Luís oferece-nos ainda mais uma achega, para ler aqui: Minion: Prophetic literature and war in pre-modern times (The catastrophe of the Hispanic Moriscos or a Memory without Memory). Para complementar tudo isto, e na mesma linha, regressa-se ao Miniscente para ler um poema delicioso: Crescente poético luso – 1 - As laranjas II (Ibn Sâra de Santarém). Parabéns Luís pelo excelente trabalho!

Posta restante… um aviso à navegação

Por motivos infinitamente insondáveis, o meu endereço de email parece ter sido relegado para uma qualquer “lista negra” mantida por alguns ISP’s portugueses, que se recusam a encaminhar as minhas mensagens, o que me tem impedido de responder a uma longa lista de emails enviados para o Correio da Judiaria. Para os leitores que escreveram e ficaram sem resposta aqui fica o meu pedido de desculpas. Para contornar o problema, até ele ser resolvido de forma definitiva, sugiro que enviem mensagens a partir de outros servidores (Gmail, Hotmail, etc). As respostas seguirão na volta do correio…

Fadensonnen

Acima dos dejectos cinza e negros.
Uma árvore –
elevado pensamento
capta os tons da luz: há ainda
canções para cantar além
da humanidade.

Paul Celan (1920-1970), pseudónimo de Paul Antsche. Poeta, ensaísta e tradutor. Judeu de origem romena.

Eu Hoje Acordei Assim…


verde por fora, vermelho por dentro. Boa sorte Sporting!
(Um desejo que vem bem do fundo de um coração benfiquista)

Bloguices

O Bits & Bytes incluiu a Rua da Judiaria na rubrica os “10 blogues que adoramos” publicada no passado fim-de-semana. Aqui vão os outros nove blogs destacados:

Erotismo na Cidade / Blitzkrieg / O Século Prodigioso / Webcedário / O zombie comeu o meu blog / Ene Coisas / Jaquinzinhos / Alguidar Pneumático / Ao Mirante, Nelson

Um imenso obrigado a Marco Santos pela amável distinção e parabéns aos restantes nomeados. Além de editor do Bits & Bytes, o Marco é autor do Bitaites.

Com o embalo destes destaques, aproveito também para dar os meus sinceros parabéns a um blog notável, o Almocreve das Petas, uma verdadeira instituição da blogosfera, que hoje celebra o seu segundo aniversário. De parabéns está também The Rhine River, o blog do historiador Nathanael Robinson, que completou o seu primeiro ano de existência. Congrats and keep it up!

O Candelabro (um pequeno conto)

Era uma vez o jovem Moishe, que durante anos viajou por terras distantes à procura de um mestre artesão que lhe pudesse ensinar um ofício. Passado muito tempo, Moishe finalmente regressou a casa e cheio de orgulho contou à família que se tornara um ourives de talento. “A minha habilidade é tão grande que o meu trabalho é melhor do que o do meu mestre”, garantia ele perante o olhar incrédulo dos pais e irmãos. Vendo que a família não acreditava nas suas palavras nem nos seus dotes, Moishe pediu ao pai que chamasse os três ourives da cidade para ouvir o que pensavam eles de uma das suas peças – um candelabro de prata com três braços.
Dois dias depois os ourives foram ver a obra de Moishe. Para surpresa da família os três concordaram que nunca tinham visto tamanha monstruosidade. “Isto é uma vergonha para a nossa profissão. Mas este castiçal aqui está quase perfeito”, disse o primeiro, apontando para um dos braços do candelabro. “Absolutamente horrendo… tirando este outro pedaço, que é francamente bonito”, afirmou o segundo ourives. “Esta coisa devia ser enterrada para que mais ninguém lhe ponha a vista em cima. Mesmo assim, este braço aqui até está muito bem feito”, disse o último.
Depois dos ourives terem saído, Moishe olhou para o pai e exclamou radiante: “Eu não vos disse?! Estão a ver como não exagerei. Sou mesmo o mestre dos mestres!” Mas o pai nem queria acreditar: “Estás louco? Não os ouviste dizer que o teu candelabro era uma monstruosidade?”
Sorrindo, Moishe respondeu: “É verdade pai, ouvi. Mas repararam como cada um dos ourives admirou um dos braços do candelabro, mas nenhum deles gostou do mesmo braço? Pois quando eu era aprendiz estudei cautelosamente o trabalho destes três homens. Por isso decidi fazer um candelabro combinando todas as suas imperfeições. Hoje, cada um dos ourives reconheceu nele os defeitos dos colegas, mas ao olhar para os seus próprios erros nada viram de mal.”

Pequeno conto da tradição oral dos judeus da Europa Oriental, atribuído ao rabino Nachman de Bratslav, Lituânia (1772–1810).

::Ilustração:: O Velho Rabino (detalhe) 1642, Rembrandt van Rijn

ShaBot600: Superstições


(clique na imagem para ampliar)

Hoje é sexta-feira 13, mas no judaísmo o dia (e o número 13) não é visto como “azarado”. Rebuscando nos Arquivos da Judiaria encontrei um post sobre este tema escrito há um ano: Arquivos da Judiaria - Sexta-feira 13: Azar ou Sorte?



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