Archive for December, 2004

O Primeiro Leitor(a) do Ano Novo

… chegou à Rua da Judiaria às 00:02:03 de 1 de Janeiro de 2005, vindo do Porto, seguindo um link do DesNorte. Um 2005 imensamente feliz para todos com um abraço especial para este(a) visitante portuense que por aqui passou ainda o fogo de artifício trovejava sobre o Douro.
Shabbat shalom! (שבת שלום)

O Mar e a Praia

O mar e a praia estão sempre perto um do outro.
Querem ambos aprender a falar, aprender a dizer
uma única palavra. O mar quer dizer “praia”
e a praia “mar”. Cada vez estão mais próximos
da fala, depois de milhões de anos, de dizerem
aquela palavra solitária. Quando o mar disser “praia”
e a praia “mar”,
a redenção virá ao mundo,
e o mundo retornará ao caos.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.


J. M. W. Turner, Barcos Holandeses na Tempestade (óleo sobre tela, 1801)
National Gallery, Londres

A Tristeza II – Palavras Para Quê?

O diário palestiniano de língua árabe al-Quds al-Arabi, publicado em Londres, comentou a recusa do Sri Lanka em receber a delegação israelita de pessoal de emergência – médicos, enfermeiros, paramédicos e equipas de salvamento – (ver Triste… Muito Triste) – num inenarrável editorial intitulado “Uma Lição aos Árabes Dada pelo Sri Lanka”. Escreve o jornal na sua edição de hoje: “é um paradoxo que o governo do Sri Lanka insista em ser mais árabe do que os árabes, voltando as costas à normalização de relações com o Estado judaico.” O editorialista prossegue traçando uma comparação com a recente digressão pelo Golfo do presidente egípcio, Hosni Mubarak, a quem acusa de pressionar os estados árabes da região a estabelecer relações diplomáticas com Israel.
Ainda segundo o al-Quds al-Arabi, “enquanto o Sri Lanka recusa a ajuda humanitária israelita, o futuro presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, declarou ontem que o povo palestiniano deve abandonar a resistência armada, e que os palestinianos não podem derrotar Israel militarmente, defendendo o regresso às negociações porque esta seria a única forma de resgatar os seus direitos e um estado independente.”
No final, o diário palestiniano agradece ao “governo e ao povo do Sri Lanka”, afirmando que, ao recusar a ajuda de Israel, “fizeram lembrar a todos nós que existem países que possuem ainda os genes da dignidade e humanidade que os nossos governos árabes parecem ter esquecido, incluindo a maioria da nossa nova liderança palestiniana.”

(via United Press International, Review of Arab Press – os destaques são da minha exclusiva responsabilidade)

Presumo que qualquer tipo de comentário se afigura de todo desnecessário perante a eloquência desta prosa do al-Quds al-Arabi. Gostaria apenas de sugerir uma vez mais a leitura de um artigo escrito há um ano por Dennis Prager, comentando a recusa do Irão em aceitar ajuda humanitária israelita no seguimento do terremoto de Bam. O artigo de Dennis Prager intitula-se Iran Clarifies the Middle East. E explica muita coisa.


Entretanto, para os meus leitores que dominem o árabe e se queiram dar ao trabalho, o artigo original está aqui: al-Quds al-Arabi - درس للعرب من سيريلانكا (A versão pdf da primeira página do jornal pode ainda ser lida aqui, o editorial encontra-se a duas colunas na margem esquerda, no canto assinalado na imagem pelo círculo vermelho)

Susan Sontag (1933-2004)


Foto da autoria de Annie Leibovitz

::A LER:: Susan Sontag.com / Susan Sontag - Wikipedia / Susan Sontag / The New York Review of Books: Susan Sontag / Salon - The “traitor” fires back / Susan Sontag: “Fascinating Fascism / Online NewsHour: Conversation: Susan Sontag - February 2, 2001 (com video) / New York State Writers Institute - Susan Sontag / Interview with Susan Sontag (com áudio) / TNR Online Trophy as Metaphor by Daniel Halpern / The Guardian - The risk taker / Royce Carlton - Susan Sontag Fiction Writer Cultural Critic / Susan Sontag - political commentary on Sept. 11

Triste… Muito Triste

Em momentos de tragédia e necessidade, habitualmente os países colocam de lado as divergências e congregam esforços para a ajuda humanitária. Israel, por exemplo, esteve entre os primeiros a oferecer auxílio aos países do sudoeste asiático afectados pelo terremoto e maremoto de segunda-feira.
Mas é também hábito que estas coisas nunca sejam assim tão simples. O Sri Lanka, provavelmente o país mais afectado, recusou a oferta do governo israelita (ver também BBC - Sri Lanka rejects Israel rescuers), que se disponibilizara para enviar uma equipa de 150 especialistas preparada para montar hospitais móveis, equipados com unidades de emergência, pediatria, radiologia e laboratórios. Convém acrescentar que – pela mais triste das razões que advêm da experiência própria – Israel possui os mais especializados técnicos de salvamento do mundo. Entre 90 a 100 cidadãos israelitas, na sua maioria turistas, continuam desaparecidos na região.
A situação é profundamente triste, mas nada disto é novidade. Há exactamente um ano, quando um terremoto de grande escala matou cerca de 20 mil pessoas em Bam, no Irão, grupos humanitários israelitas contaram-se entre os primeiros a oferecer ajuda. Mas o governo iraniano, abrindo os braços perante a gratidão do mundo, anunciou de imediato que estava pronto a receber ajuda humanitária de todos os países – mas que era melhor os seus cidadãos morrem nos escombros do que serem salvos por judeus.
Nada é mais triste do que ver o ódio sobrepor-se à necessidade. Uma vez mais.

::ADENDA I:: Numa completa inversão da verdade, o diário oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, criticou fortemente (!?!) Israel na sua edição de terça-feira (link para ficheiro .pdf), acusando o governo de Jerusalém de ter “recusado um pedido de ajuda humanitária efectuado pelo Sri Lanka” (ver também Catholic World News : L’Osservatore raps Israel for declining disaster relief). O jornal católico corrigiria o erro, mas sem nunca o admitir verdadeiramente, na sua edição de quarta-feira (ver L’Osservatore Romano 29-12-2004, formato .pdf).

::ADENDA II:: O blog American Amnesia coligiu uma interessante lista parcial dos montantes da ajuda de emergência doados por vários países. De notar especialmente o montante da ajuda francesa, uma quantia verdadeiramente insignificante quando comparada com as de economias equivalentes.

EUA - $15.000.000
Austrália - $10,000,000
Emirados Árabes Unidos - $2.000.000
Canadá - $1.000.000
Alemanha - €1,000,000
Kuwait - $1.000.000
Japão - $370.000
França - €100.000

[Ver também A Tristeza II – Palavras Para Quê?]

Humores

Quem se mascara por trás do vento?
O que é o vento?
Centenas de milhares de humores
tacteiam cegos,

Apalpam o mundo em todos os sentidos,
ponto por ponto,
procuram a face aberta do mundo,
mas nada encontram.

Vida sim, vida não,
tentam e tentam.
Talvez o mundo não tenha rosto?
Não há resposta.

O velho sentinela – senil,
Nada sabe.
O livro antigo com antigas fábulas
não acreditamos agora nele

Centenas e centenas de humores
tacteiam cegos.
E eu junto-me à procissão,
a minha criança vem atrás.

Leib Kvitko (1893-1952), poeta, judeu russo, morto por ordem de Stalin durante a Noite dos Poetas Assassinados.

[traduzido para português a partir da tradução do yiddish original para o inglês feita por Joseph Leftwich]

::NOTA:: O American Jewish World Service, uma das principais organizações judaicas de ajuda humanitária, está a recolher fundos de emergência para distribuir por 24 ONGs sediadas nos países do Sudoeste Asiático directamente afectados pela catástrofe. As doações podem ser efectuadas directamente na Internet, aqui: American Jewish World Service Tsunami Relief.

Magen David’Ouro - Os Melhores Blogs de 2004

Prometera a mim próprio não fazer balanços do ano na Judiaria, especialmente porque aqui já se vai no ano 5765, e esse começou a 15 de Setembro passado… mas, depois de alguma ponderação, achei que valia a pena dar a conhecer aqueles que pessoalmente considero serem os melhores blogs de 2004, uma distinção norteada por critérios da mais completa subjectividade. Vale apenas pelo que vale: a garantia das minhas continuadas visitas diárias.

Portugueses (ordem mais ou menos alfabética):
Aviz / Abrupto / Adufe.pt / Afixe / Almocreve das Petas / Avatares de um Desejo / Babugem / A Barriga de um Arquitecto / Bloguitica / …Blogo Existo / Bomba Inteligente / A Bordo / A Causa Foi Modificada / O Céu Sobre Lisboa / Contra a Corrente / Desassossegada / Desnorte / Fora do Mundo / Homem a Dias / O Intermitente / O Jumento / Klepsýdra / Ma-Schamba / A Memória Inventada / Memória Virtual / A Minha Jornada / Miniscente / O Observador / Povo de Bahá / Professorices / A Praia / Pula Pula Pulga / Quartzo, Feldspato & Mica / Quase em Português / Super Flumina / Tradução Simultânea / Tugir

Judaicos e/ou de Israel (סדר אלפביתי):
An Unsealed Room / Balagan in Jerusalem / The Head Heeb / Not a Fish (provincially speaking) / Jewlicious / JeW*SCHooL / JRants.com (agregador) / Mystical Politics / PaleoJudaica.com / Sha! / Zackary Sholem Berger

Internacionais (ordem alfabética / alphabetical order):
Alexandre Soares Silva (Brasil) / Alto Volta (Brasil) / American Amnesia (EUA) / Blogico (Brasil) / Crooked Timber (EUA-UK) / Días Estranhos (Galiza) / Filisteu (Brasil) / Letteri Café (Brasil) / Marc Cooper (EUA) / Oficina de Objetos Perdidos (Espanha) / Peter Levine’s Weblog (EUA) / Pointblog.com (França) / Prosa Caotica (Brasil) / The Rhine River (EUA) / Sudan: The Passion of the Present (EUA) / Velho do Farol (Brasil)

Presenças individuais em blogs colectivos:
Daniel Oliveira / Filipe Nunes / João Pedro Henriques / Jorge Palinhos / Vital Moreira

Post do Ano:
As Notícias que Nunca Saem na Primeira Página (Jaquinzinhos)

::ADENDA:: 26/12/2004 – Gostaria de abrir um parêntesis para manifestar a minha mais profunda gratidão aos bloguistas que insistiram em colocar a Rua da Judiaria entre as suas escolhas de 2004. Obrigado Francisco José Viegas, Alberto Gonçalves, Ricardo Gross, Carlos “MacGuffin”, Walter Rodrigues, Paulo Pinto Mascarenhas, André Abrantes Amaral e José Flávio.

Memória


Dezembro de 2004, Plummer Park, West Hollywood, EUA.

Oração para Todos os Governantes

Não me destines, ó Senhor dos Exércitos
à humilhação – de vitória ou heroísmo.
Humilha-me, se a minha desgraça
for um conforto para os fracos.

Minha alma agita-se teimosamente:
Sim a tudo!
Apenas não à guerra!

E no princípio da guerra
rogo-te,
dai-me derrota!

Meu coração mais facilmente suportaria
as dores do falhanço, da perda
do que o significado de vitória.

Sê o salvador e guardião
da justiça profanada.
Deixa-me estar errado quando sinto triunfo!

Deixa-me levar os orgulhosos troféus
que marcam as alegrias que meus gestos
deixaram em corações humanos.

Não me destines, ó Senhor dos Exércitos
à humilhação – de vitória ou heroísmo.
Humilha-me, se a minha desgraça
for um conforto para os fracos.

Abraham Joshua Heschel, (1907 – 1972), rabino, filósofo e poeta.

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, agora pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]


O rabino Heschel (o segundo a contar da direita) ao lado de Martin Luther King (ao centro) em 1965, na famosa marcha de Selma para Montgomery, Alabama, durante a luta pelos direitos cívicos da minoria negra norte-americana.

Shabbat Shalom!


Marc Chagall (מארק שאגאל) Une Pincée de Tabac [”Uma Pitada de Rapé”]

Um ano na Ma-Schamba

Foi há dois dias, mas não podia escapar a uma referência (atrasada) na Judiaria: o Ma-Schamba, um dos melhores blogs que conheço, completou o primeiro ano de existência na segunda-feira. Diariamente, cada vez que viajo até Maputo ao clicar no link do Ma-Schamba, com lugar cativo entre os Profetas da coluna da esquerda, congratulo-me pelo facto de José Flávio ter desistido de desistir do blog. Parabéns José Flávio e obrigado pela excente prosa que nos dás.

Uriah Levy

O judeu português

que salvou Monticello

Quando Uriah Levy visitou pela primeira vez, em 1825, a vasta propriedade na Virgínia que poucos anos antes pertencera a Thomas Jefferson, o terceiro presidente americano – um homem que ele admirava profundamente –, ficou chocado com o seu estado de degradação. Outrora imponente, Monticello estava virtualmente em ruínas.
Apostado em conservar aquele que considerava ser um marco fundamental da história do país, Uriah comprou Monticello no ano seguinte, restaurando a mansão de Jefferson e abrindo-a ao público. O grande apreço que sentia por Jefferson tinha uma explicação: Uriah Levy era judeu – descendente de judeus portugueses – e a tolerância religiosa que Jefferson imprimira na matriz constitucional americana permitia aos judeus poderem desfrutar na América de uma liberdade que até então nunca tinham alcançado em qualquer outro país.
“Thomas Jefferson foi um dos mais importantes homens da História, que fez tanto para moldar a República de forma a que a religião de um homem não o impedisse de exercer uma carreira pública”, escreveu Uriah Levy.
Considerado um dos mais notáveis heróis dos primórdios da história naval dos Estados Unidos, Uriah Levy tinha sido confrontado durante toda a sua carreira militar – que durou mais de meio século – com um profundo antisemitismo. Quarenta anos antes do oficial do exército francês Alfred Dreyfus ter sido julgado, condenado e eventualmente exonerado em julgamentos que tiveram por base o antisemitismo, Uriah Levy enfrentou perseguições semelhantes nos Estados Unidos. Chamado por seis vezes a responder perante um tribunal militar, foi sempre ilibado, e após o último julgamento foi-lhe concedido o posto de comandante da Frota do Mediterrâneo – a maior da armada americana na época – e elevado ao posto de Comodoro.

Uriah LevyA sua forte personalidade, segundo os seus biógrafos, permitiu-lhe sobreviver ao antisemitismo que na altura reinava na instituição militar. De acordo com os costumes da época, Uriah Levy foi obrigado a defender a sua honra inúmeras vezes, a última das quais em 1816, quando matou em duelo o tenente William Potter por este lhe ter chamado “judeu maldito”. Vitima de antisemitismo durante toda a sua carreira militar, Uriah Levy nunca se cansou de expressar o seu apreço e profunda admiração pelos ideais de liberdade religiosa defendidos por Jefferson.
Casado com Virgínia Lopes, também ela descendente de judeus portugueses, Uriah Levy nasceu em Filadélfia, em 1792, filho de Michael Levy e Raquel Machado – que seria enterrada em Monticello –, pertencendo a uma longa linha de ilustres judeus portugueses foçados a emigrar para os Estados Unidos. A sua avó materna, Rebeca Machado – tida como uma das matriarcas das primeiras comunidades judaicas norte-americanas – era filha de David Mendes Machado, rabino da congregação Shearith Israel, a sinagoga portuguesa de Nova Iorque. O seu primo, Mordecai Manuel Noah, jornalista, escritor, político e juiz, foi o mais conhecido judeu americano do século XIX e um dos percursores do sionismo, defendendo, no folheto Discourse on the Restoration of the Jews, o regresso dos judeus à Terra Santa meio século antes da realização, em 1879, do Primeiro Congresso Sionista, em Basileia.
Uriah Levy era ainda bisneto de Diogo (Samuel) Nunes Ribeiro, um judeu português nascido em Idanha-a-Nova, em 1668, que para escapar à Inquisição – que o prendera duas vezes em Lisboa sob a acusação de “reconverter cristãos-novos ao judaísmo” – emigrou primeiro para Londres e depois para a América, onde se contaria entre os membros fundadores da cidade de Savannah, na Geórgia. Samuel Nunes Ribeiro era tio de António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), um dos mais destacados médicos e cientistas da época, membro do grupo de intelectuais portugueses exilados na Europa habitualmente designado como “estrangeirados”.
Uriah Levy foi também bastante activo no seio da comunidade judaica luso-americana do século XIX, ajudando a fundar e ocupando o cargo de presidente da Washington Hebrew Congregation e, em 1854, apadrinhando o novo seminário do Instituto Educacional Bnai Jesherun, em Nova Iorque.
Na história da marinha norte-americana, o seu nome ficou intimamente associado a uma cruzada pessoal que moveu pela abolição dos castigos corporais na Armada. Escandalizado com barbaridade dos castigos – era comum marinheiros serem chicoteados por delitos menores –, Uriah Levy fez apelos pessoais aos membros do Congresso para que a prática fosse proibida, chegando a enviar-lhes chicotes desafiando-os para que experimentassem “na própria pele”.
Como tributo à sua carreira militar, em 1959, a Marinha dos EUA concedeu o seu nome à sua mais antiga sinagoga, na base naval de Norfolk, na Virgínia. Durante a Segunda Guerra Mundial, o nome de Uriah Levy foi também dado a um caça-submarinos da Armada americana, o USS LEVY.

Após a sua morte, em 1862, Uriah Levy legou a propriedade de Monticello em testamento “ao povo dos Estados Unidos”.


Raquel Machado (1769-1839), a mãe de Uriah Levy,


O seu primo Mordecai Manuel Noah (1785-1851)


Uriah Levy, jovem capitão da Armada dos EUA


Monticello, a propriedade de Thomas Jefferson
(óleo sobre tela, Jane Pitford B. Peticolas, 1827)

::LER:: Who was Uriah Levy? / Judeus Portugueses na América :: Arquivos da Judiaria / The Levy Stewardship of Monticello / The Papers of Thomas Jefferson - Home Page / Monticello: The Home of Thomas Jefferson

Recados

1) Está solucionada a falha técnica das Músicas da Judiaria, que durante os últimos dias impossibilitou o acesso a quem quisesse ouvir a canção de Bob Dylan (ver post Bob Is Back). Obrigado a todos os que enviaram mensagens a alertar para o problema.

2) Estreou ontem em Portugal o último filme de Fernando Fragata, Sorte Nula (ver foto acima), entretanto colocado já entre as “Sugestões da Judiaria”, na coluna da esquerda. O Fernando é um bom amigo – uma das pessoas mais genuínas e generosas que conheço. No cinema, é um iconoclasta: quer fazer filmes portugueses que divirtam e entretenham. Imaginem só a chutzpah do rapaz!
PS [recado directo] Fragata: vê se voltas depressa a Los Angeles. Os empregados do Canter’s e da picanha do Pampas Grill, no Farmer’s Market, estão fartos de perguntar por ti e pela Sandra…

3) Agora faltam os parabéns. Ainda que com um atraso significativo, não posso deixar passar em claro o aniversário do Super Flumina, de Rui Oliveira, um excelente blog agora com nova morada. Desejos atrasados de feliz aniversário (foi no primeiro dia de Hanuká) também para Gus Erlichman, o criador do Pletz.com, o melhor e mais completo site judaico em língua portuguesa, e dinamizador da hiper-activa lista de discussão judaica brasileira Pletz@le – Gus: obrigado por todo o teu trabalho! מזל טוב חבר

Um Supermercado na Califórnia (1955)

Que pensamentos teus tenho esta noite, Walt Whitman, porque
caminhei pelas ruas sob as árvores com uma dor de cabeça
auto-consciente olhando para a lua cheia.
Na minha faminta fadiga, e procurando imagens, entrei
no supermercado de frutos de néon, sonhando com as tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras
fazem compras à noite! Corredores cheios de maridos! Mulheres nos
abacates, bebés nos tomates – e tu, Garcia Lorca, que
fazias tu junto às melancias?

Eu vi-te, Walt Whitman, sem filhos, velho cavador solitário,
apalpando as carnes no frigorífico e olhando os rapazes
do supermercado.
Ouvi-te fazer perguntas a cada um: Quem matou as
costeletas de porco? A como são as bananas? És tu o meu anjo?
Vagueei dentro e fora da brilhante pilha de latas
seguindo-te, e seguido na minha imaginação pelo segurança
da loja.
Caminhámos juntos pelos corredores abertos na nossa
solidão ilustre provando as alcachofras, possuindo todas as delícias
congeladas, sem nunca passar pela caixa.

Onde vamos nós, Walt Whitman? As portas fecham daqui
a uma hora. Em que direcção aponta a tua barba esta noite?
(toco o teu livro e sonho com a nossa odisseia no
supermercado e sinto-me absurdo.)
Caminharemos toda a noite por ruas solitárias? As
árvores juntam sombra a sombras, luzes apagadas nas casas, estaremos ambos
solitários.

Caminharemos sonhando com a América perdida do amor
passando por automóveis azuis à entrada das garagens, em direcção à nossa cabana tranquila?
Ah, querido pai, barba grisalha, velho solitário professor-coragem,
que América tinhas tu quando Caronte deixou de puxar a sua balsa
e tu desceste numa margem fumegante e ficaste a olhar o barco
desaparecendo nas águas negras do Rio do Esquecimento?

Allen Ginsberg (1926 – 1997), poeta, judeu americano.

:: Áudio :: O original deste poema pode ser ouvido aqui na voz do poeta.

*!חג חנוכה שמח


Além de todos os simbolismos históricos, religiosos e mesmo místicos, os dias de festa judaicos têm em comum um factor fundamental: a comida. Uma velha anedota hebraica resume assim todos os dias de festa do calendário judaico: “tentaram matar-nos, sobrevivemos, agora vamos comer!”
Nas festas que hoje se iniciam, Hanuká, o Festival das Luzes, a tradição manda que se jante bem durante todos os seus oito dias de duração. Entre as delícias tradicionais desta época festiva destacam-se as Sufganiot (סופגנייה), uma espécie de “Bolas de Berlim” recheadas com compota de morango, damasco ou ameixa.
Abrindo uma rubrica que gostaria de tornar permanente aqui na Judiaria, segue a receita de outro dos pratos tradicionais de Hanuká: Latkes.
Elogios, comentários e sugestões podem ser enviados para o Correio da Judiaria (disponível na coluna da esquerda), ao cuidado da responsável desta nova secção de culinária judaica, Shlomit, a magnífica cozinheira cá de casa.

* Feliz Hanuká

לטקעס, לביבות חנוכה של הסבתא שושנה

Latkes

(Panquecas de Batata, receita da avó Shoshana Z”L)
(Serve 4 a 5 pessoas)


4-5 batatas (grandes) raladas e escorridas
4 ovos (batidos)
2 colheres de sopa de natas (opcional)
3-4 colheres de farinha
1 colher de chá de sal
1 colher de chá de pimenta

Podem ainda ser adicionado os seguintes ingredientes (opcional):
alho francês (cortado em pequenos pedaços)
salsa (cortada em pequenos pedaços)
cebola picada

Misture todos os ingredientes numa tigela de dimensões razoáveis. Tenha em atenção o facto das batatas raladas poderem começar a oxidar caso estejam muito tempo a aguardar preparação. Para evitar que tal aconteça, aconselha-se que esprema sobre elas meio limão.
Com a massa dos ingrediente faça pequenas bolas. Frite-as em óleo quente, virando-as regularmente até ficarem douradas. À medida que for virando as latkes, espalme-as ligeiramente com a espátula.

Opções para servir à mesa:
As Latkes podem ser servidas como aperitivo, acompanhadas com puré de maçã e natas; natas e compota de frutas; ou simples. Podem ainda ser servidas à sobremesa, polvilhadas com açúcar de pasteleiro e canela (mas neste caso aconselha-se que sejam confeccionadas sem alho francês).

Bom apetite!





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