Archive for October, 2004

Sem os Meus Amigos…

Que mal fiz eu às estrelas?
Nas noites em que meus amigos a mim se juntam,
Elas voam depressa, como pássaros, da face dos céus;
Mas nas noites em que me sento em solidão,
Elas mancam, como se estivessem enfraquecidas.
Sem os meus amigos os dias são sombrios,
Mas com a sua companhia, a noite ilumina-se.

Moses Ibn Ezra (1070-1138), poeta, judeu de Granada. < Ilustração: Marc Chagall (מארק שאגאל), Lamentações de Jeremias, litografia, 1956

Sem os Meus Amigos…

Que mal fiz eu às estrelas?
Nas noites em que meus amigos a mim se juntam,
Elas voam depressa, como pássaros, da face dos céus;
Mas nas noites em que me sento em solidão,
Elas mancam, como se estivessem enfraquecidas.
Sem os meus amigos os dias são sombrios,
Mas com a sua companhia, a noite ilumina-se.

Moses Ibn Ezra (1070-1138), poeta, judeu de Granada.

Ilustração: Marc Chagall (מארק שאגאל), Lamentações de Jeremias, litografia, 1956

Yitzhak Rabin (יצחק רבין (1922-1995

Segundo o calendário hebraico, comemora-se hoje a passagem do 9° aniversário do assassinato de Yitzhak Rabin, ocorrido no dia 12 do mês de Cheshvan do ano 5756 (4 de Novembro de 1995). Rabin foi abatido por um extremista israelita, momentos depois de ter participado num comício pela paz numa praça de Tel Aviv que hoje ostenta o seu nome. No palco, depois de discursar, o então primeiro-ministro israelita e Prémio Nobel da Paz juntara a sua voz ao imenso coro que entoou a canção שיר לשלום (A Canção da Paz). O papel com a letra da canção, que guardou no bolso, ficaria manchado com o seu sangue.

Um Ano de Judiaria

A Rua da Judiaria faz hoje um ano. A todos os leitores que por cá vão passando – excedendo todas as minhas expectativas– o meu muito sincero obrigado!

:: Adenda :: Queria deixar ainda aqui um agradecimento especial aos que fizeram questão de assinalar o aniversário da Judiaria:

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[ainda em actualização]

Honestamente, sou incapaz de verbalizar a minha imensa gratidão pelas palavras amigas dos autores dos blogs acima citados. Obrigado soa-me a muito pouco…

Cabala - as Morfologias de um Velho Ódio

“Os seres humanos esparramam ao vento, premeditada ou inadvertidamente, abundantes palavras em incontáveis combinações, porém são muito poucos os que sabem que aspectos tinham essas palavras em seus dias de grandeza. Algumas chegaram ao mundo depois de uma grande e difícil viagem através das gerações; outras brilharam como relâmpagos e iluminaram repentina e momentaneamente o mundo inteiro, algumas passaram várias transmutações, deixando atrás de si sua estrela e aroma, outras mais serviram de vasilhas para complexos mecanismos de pensamentos profundos e sentimentos exaltados em maravilhosas permutas.”

In “Lo Revelado y lo Encubierto en la Lenguaje”, Haim Nahman Bialik (1873 – 1934), poeta israelita de origem russa.

Confesso que já há algum tempo que estava para escrever este post. Talvez mesmo desde o princípio deste blog. Depois de muito adiar (já lá vai quase um ano que comecei aqui a escrever), não consegui resistir ao desafio lançado por José Teixeira, no seu Ma-Schamba. Sou obrigado a admitir que sempre me perturbou a utilização que na política portuguesa – e no jornalismo, já agora – se faz da palavra cabala. Se à primeira vista este abuso do termo revela, por si só, algumas das piores características da “alma colectiva” portuguesa – entre elas a aparente incapacidade de assumir responsabilidades e a eterna maquinação de conspirações –, uma análise mais aprofundada escava algo bem mais triste.
A palavra cabala é um dos vocábulos da língua portuguesa onde a linguística e a filologia se intersectam com o fanatismo histórico e a intolerância. E com o antisemitismo institucional que durante séculos vigorou em Portugal graças à Inquisição.
Bem distanciada da definição que lhe é dada pelo português corrente, na sua raiz cabala é uma palavra hebraica (קבלה – pronunciada cabalá), habitualmente transliterada também como kabbalah, que significa literalmente “tradição recebida” e, na prática, traduz o conceito místico no judaísmo.

É impossível traçar as origens da cabala com precisão histórica – “monstros sagrados” das religiões comparadas, como Mircea Eliade e Gershom Scholem nunca chegaram a acordo –, mas o seu primeiro marco definitivo é o Livro da Formação (ספר יצירה), uma composição mística com pouco mais de 32 páginas atribuída pela tradição judaica ao patriarca Abraão e alegadamente redigida há mais de 3700 anos. Há cerca de dois mil anos, ainda durante o período mishnaico do judaísmo, o rabino Shimon bar Yohai viria a compor o Livro do Esplendor (ספר הזהר), um tratado de 20 volumes de interpretação da Torá (תורה), escrito em aramaico, que acabaria por se assumir como a obra central da cabala.
Peço desculpa a José Teixeira por transgredir por completo as suas exigências de um post “resumido e fácil”, mas definir a cabala em poucas linhas é uma tarefa absolutamente impossível. Como escreveu Gershom Scholem: “A Cabala não é um sistema único com princípios básicos que possam ser explicados de uma forma simples e directa, mas é antes composta por uma multiplicidade de metodologias diversas, amplamente separadas umas das outras e por vezes completamente contraditórias.” (On the Kabbalah and Its Symbolism, Keter House, Jerusalém, 1965).
Agora, para perceber a metamorfose da palavra no vocabulário português – de definição de um sistema religioso/espiritual do judaísmo até ao actual sinónimo de conspiração, intriga e trama usado na política e no futebol – é necessário mergulhar no universo histórico do Portugal quinhentista.
A Inquisição Portuguesa é decretada oficialmente pelo papa Clemente VII em 1531, iniciando um regime de terror e obscurantismo que viria a subjugar o país até ser finalmente abolida, em 22 de Abril de 1821 (ver A Inquisição e o Declínio do Império Português - Arquivos da Judiaria). Os judeus portugueses seriam os seus alvos primários, a esmagadora maioria dos quais convertidos à força ao catolicismo no seguimento do decreto de expulsão assinado pelo rei Manuel I a 5 de Dezembro de 1496.
Já de si, mesmo nos círculos judaicos tradicionais, a cabala era algo envolto numa aura de mistério, da qual muitos ouviam falar mas poucos sabiam exactamente o que significava. Até ao início do século XX, a esmagadora maioria dos rabinos defendia que o estudo da cabala podia apenas ser desenvolvido por homens casados, versados no Talmude e na Torá, e só depois de completarem 40 anos de idade. No Portugal quinhentista, onde o judaísmo era praticado em segredo e sob o espectro permanente das fogueiras da Inquisição, o secretisimo era ainda mais exacerbado.
Este período da história portuguesa é marcado por um antisemitismo religioso sem paralelo. Para tentar perceber o que isto poderia significar, Jean-Paul Sartre escreveu em Réflexions sur la Question Juive: “O que pesava sobre ele [Judeu] originalmente era a acusação de ser o assassino de Cristo. Alguma vez parámos para ponderar a intolerável situação de homens condenados a viver numa sociedade que adora o Deus que eles são acusados de matar? Originalmente, o Judeu era então um assassino ou o filho de um assassino – o que aos olhos de uma sociedade com um conceito pré-lógico de responsabilidade acaba inevitavelmente por ser a mesma coisa.”
Vistos como párias sociais, os judeus são alvo de uma campanha de vilificação sem tréguas. Palavras como “judeu”, “judiaria” e “judiar” passam a ser usadas em sentido pejorativo, como insulto ou sinónimo de crueldade – quando os judeus eram, eles sim, as vítimas das prisões, torturas e fogueiras inquisitoriais. O mesmo aconteceu com a palavra cabala. Associada à mística judaica, misteriosa aos olhos dos não-iniciados, cabala passa igualmente a partir daí a ter uma conotação negativa, ela própria associada ao secretismo e à conspiração, num sentido lato e sinistro.
Marca visível de um fanatismo e de uma intolerância históricas inegáveis, a versão deturpada destas palavras entrou na linguagem corrente por via da propaganda inquisitorial. E permaneceu através dos séculos.
Agora, 183 anos depois do fim da Inquisição, a palavra cabala jorra das bocas de ministros e dirigentes desportivos, transformada num tributo inconsciente e póstumo à obra daquela que foi a mais nefasta instituição da história portuguesa. Não é preciso um doutoramento em linguística ou semiótica para compreender a importância do vocabulário na moldagem das mentalidades. Basta ler George Orwell ou Aldous Huxley.

George Bush e “o Impostor”

Tradução do guia da exposição Jewes in America*, que decorre na New York Public Library até meados de Novembro (ver também NYPL, Exhibitions at the Humanities and Social Sciences Library):

GEORGE BUSH (1796-1859)
The Valley of Vision, or, The Dry Bones of Israel Revived
New York: Saxton and Miles, 1844
Dorot Jewish Division

Quando a Universidade de New York (NYU) foi fundada em 1830 como uma alternativa não sectária e democrática à elitista e episcopal Columbia, contrataram o mais competente hebraista americano, Isaac Nordheimer – antigo estudante na Eslováquia do Rabino Moses Schreiber – como seu primeiro professor da cadeira de Árabe. É um paradoxo que a primeira instituição secular e laica de ensino superior da cidade tenha considerado impossível permitir que um judeu ensinasse a Língua Sagrada. […] Mas, igualmente paradoxal foi a escolha de George Bush para ensinar Hebraico. Um hebraista cristão capaz, George Bush era na altura conhecido apenas como o autor do primeiro livro americano sobre o Islão – uma biografia de Muhammad, a quem Bush insistia em chamar “o impostor”. […] Bush construíra a sua reputação enquanto crítico do que considerava serem movimentos religiosos “de má reputação” – islamismo, milenarismo, etc. –, mas agora surgia como um dos principais defensores de duas controversas crenças mais recentes: a religião ocultista de Emanuel Swedenborg e a medicina alternativa de Anton Mesmer. George Bush deixou a NYU e passou o resto da vida como ministro da Church of the New Jerusalem em Brooklyn, uma igreja swedenborgiana. Os famosos homónimos actuais deste George Bush são descendentes directos do seu irmão, Timothy.

[via Zackary Sholem Berger]

* Esta exposição integra-se nas comemorações dos 350 anos da chegada dos primeiro judeus à colónia holandesa de Nova Amsterdão, actual Nova Iorque. Estes pioneiros eram judeus portugueses que tentavam escapar à reintrodução da Inquisição no Recife (ver Judeus Portugueses nas Américas – Arquivos da Judiaria).

Oração da Meia-Noite

Na escuridão da noite, o vento derrama
baldes de chuva no rosto da aldeia;
A pobre terra, afundada em lama,
salpicos e repouso, descansa.

As ruas calaram-se, apenas se ouve
o crepitar do cair da chuva.
Em redor, as casas humildes
projectam-se, aqui e ali, da escuridão.

Como órfãos que boa gente esqueceu
de vestir antes do soprar dos ventos frios,
as barracas de telhados nus
agacham-se procurando abrigo.

Será que sonhos medonhos inquietam o seu descanso?
Será que visões abomináveis se colam em seu redor?
Erguendo os punhos no ar,
parecem tremer e protestar.

Os pingos de chuva escorrem nas paredes
e com o som de choro enchem os ouvidos,
os telhados encharcados balançam, soltos.
A pequena aldeia cobre-se de lágrimas.

Nem uma estrela penetra a escuridão,
densa, suspensa sobre nós,
uma janela apenas revela uma centelha:
Um judeu acordou para orar à meia-noite.

Haim Nahman Bialik (1873 – 1934), poeta israelita de origem russa.


Marc Chagall (מארק שאגאל), Solidão (Solitude).

A Chuva

Marc Chagall (מארק שאגאל), A Chuva (La Pluie), 1911.

Hoje chove em Los Angeles. Há mais de oito meses que não caia água dos céus por estas paragens. Sentia-lhe a falta. Tinha saudades. Juro que nos últimos meses adormeci várias vezes a recordar as ruas molhadas de Lisboa, a sensação húmida das roupas… quem vive em fartura diluviana nem imagina que alguém possa alguma vez sentir-lhe a falta. Mas deste outro lado do mundo, só se vê chuva três, talvez quatro, vezes por ano. Hoje, encharcado de contentamento, lembrei-me de Chagall.

Os Olhos Esperam

Os olhos das gentes esperam por mim
Como pavios de velas por uma luz.

Irmãos humilhados imploram ajuda,
Irmãs enganadas sonham com consolação

E eu, com teimosa audácia, prometi
Acrescentar ternura ao mundo.

E parece que irei, com tempo,
Passar por esta terra
Com o brilho de todas as estrelas
Nos meus olhos

Abraham Joshua Heschel (1907 – 1972), rabino, filósofo e poeta.

:: NOTA :: Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam agora pela primeira vez em inglês 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.

A não perder…

…a entrevista do escritor israelita Amos Oz à revista de domingo do diário espanhol El Mundo: “Palestinos e israelíes están dispuestos a crear dos estados. Lo que ocurre es que Sharon y Arafat son unos cobardes”. A reler também o artigo assinado por Oz há dois anos no New York Times, intitulado O “senhor Sharafat”: dois homens teimosos e muitos mortos.

“A Circulação da Informação” …ou a Arte das Manipulações

As forças armadas israelitas (FDI) reconheceram ontem que erraram ao acusar a ONU de auxiliar grupos terroristas por alegadamente transportar lança-rockets nas suas ambulâncias (ver notícia completa no Ha’aretz). Um avião não-pilotado, vulgo drone, captara há semanas imagens aéreas de um homem a carregar um longo objecto tubular para dentro de uma ambulância da ONU. O formato e as dimensões do objecto levantaram suspeitas e as FDI apressaram-se a acusar a ONU. Agora, ficou provado que o tal “objecto suspeito” não passava de uma simples maca. O blog Not a Fish posta uma foto retirada do diário Yediot Aharonot (ידיעות אחרונות), na qual um funcionário das Nações Unidas demonstra como as autoridades militares israelitas foram induzidas em erro pela aparência de uma maca dobrada.
No Terras do Nunca, João Morgado Fernandes, com a sua ironia habitual, escreve um post intitulado “a circulação da informação” que merece ser lido com atenção. Digo isto porque o João não é um blogger qualquer. É um jornalista com responsabilidades na secção Internacional de um dos diários portugueses “de referência”.
No seu post, João Morgado Fernandes ridiculariza as acusações e receios israelitas (entretanto já desmentidos), esquecendo que nem tudo é a preto e branco no conflito israelo-palestiniano. A verdade é que a utilização de ambulâncias das Nações Unidas por membros armados do Hamas não é novidade e foi já documentada por diversas vezes.
A foto de cima, que ilustra este post, é retirada de imagens recolhidas nos territórios ocupados por um repórter da agência Reuters a 11 de Maio passado, mostrando um grupo de palestinianos armados a fugir numa ambulância da ONU. Curiosamente, ou talvez não, a notícia na altura não chegou à Europa e o próprio responsável máximo da UNRWA (United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East) chegou a reconhecer que era “perfeitamente natural” que a agência da ONU empregasse militantes do Hamas, uma organização terrorista responsável pela morte de centenas de civis. O vídeo da Reuters pode ser visto na íntegra clicando aqui (formato Windows Media).
Como é fácil comprovar, as acusações israelitas das últimas semanas em relação à UNRWA, apesar de se provarem agora infundadas, não apareciam de geração espontânea e eram fundamentadas na experiência de um passado bem recente.
A “circulação da informação”, como lhe chama o João, tem tendência a funcionar em sentido inverso. Basta recordar a forma absolutamente irresponsável como alguma imprensa europeia cobriu o célebre “massacre” de Jenin. O “massacre” nunca existiu, mas dele ficou o mito, atirado desde então como argumento em debates sucessivos sobre o Médio Oriente. Alguns jornais mais responsáveis, como o Guardian, deram-se ao trabalho de tentar perceber a origem do erro e dos preconceitos. Para que se aprenda com o passado, é um texto velho de dois anos que vale bem a pena ler: Guardian.co.uk - How Jenin battle became a “massacre”.

O Sonho Teológico

Não vejo hoje, nas cores do céu, esse azul que,
por vezes, se encontra nos horizontes de setembro. E
se a manhã nasceu enevoada, obrigando cada um a
olhar para dentro de si, é porque também o espírito
sente a opressão obscura do infinito. Com efeito,
o que ultrapassa os limites do conhecimento
pode obrigar-nos a não ver as cores mais puras;
e uma análise atenta da matéria leva-nos ao coração
da sombra, como se estivesse aí o segredo
do ser. Porém, há sempre alguma coisa que
nos lembra que as nuvens podem passar; e que,
para lá das impressões de hoje, o sol irá
voltar ao centro do universo. Então, mesmo que
se trate de uma ilusão de óptica, e que para lá
de nós outras galáxias nos afastem do sonho
da eternidade, ao menos por um instante
teremos saboreado um gosto divino.

Nuno Júdice (poema inédito)

[Ver nota neste post]

EUA: Judeus e as Presidenciais

Contrariando muito do que se tem escrito na Europa sobre o assunto, uma sondagem recente, efectuada pelo American Jewish Committee, mostra que 69% dos judeus dos Estados Unidos vão votar em John Kerry, contra apenas 24% que declaram a sua preferência por George W. Bush.
Na prática, a incessante campanha encetada pelo Partido Republicano para captar o chamado “voto judaico” valeu-lhe apenas uma subida de cinco pontos percentuais em relação às presidenciais de 2000 [ver também um interessante post sobre divisões étnicas/religiosas e as eleições americanas na Grande Loja].
Em relação às opções de voto, esta sondagem não traz grandes novidades, uma vez que historicamente a esmagadora maioria dos judeus americanos vota à esquerda – Al Gore obteve 79% do “voto judaico” em 2000 e Bill Clinton alcançou 80% em 1992 e 78% em 1996.
Os aspectos mais reveladores da sondagem prendem-se com as atitudes dos judeus em relação a temas sociais que actualmente dividem a sociedade americana, e que traçam uma linha de fronteira inexpugnável entre George W. Bush e John Kerry. Um desses temas é o casamento entre pessoas do mesmo sexo – oposto pelos republicanos e usado por Bush há alguns meses para assegurar o apoio das bases da chamada “direita religiosa”. Três em cada quatro judeus inquiridos é contra a proposta de Bush de criar uma emenda constitucional destinada a proibir o casamento gay. Mais de metade dos inquiridos mostra-se favorável à possibilidade de casais gay poderem vir a usufruir dos mesmos benefícios legais que os restantes cidadãos.
Apesar de constituirem apenas 2% da população dos Estados Unidos, os judeus têm uma presença considerável em alguns dos estados chave que podem decidir as presidenciais de 2 de Novembro, como a Florida e New Jersey.
De notar ainda que é por causa das questões sociais – onde a postura de Bush se cola à extrema-direita religiosa da Coligação Cristã –, a par da irresponsabilidade fiscal patente no défice recorde de 436, 9 mil milhões de dólares, que o actual presidente está a perder terreno junto da “ala libertária/liberal” do Partido Republicano. Basta ler com atenção o que vão escrevendo alguns ícones da direita blogosférica americana, como Andrew Sullivan ou Josh Chafetz (OxBlog). Hoje, especialmente depois dos debates, estão ambos à beira de declarar publicamente que irão votar em John Kerry.

Jacques Derrida, 1930-2004

“Les contingences ont fait de moi un juif français d’Algérie de la génération née avant la “guerre d’indépendance”: autant de singularités, même parmi les juifs et même parmi les juifs d’Algérie. J’ai participé à une transformation extraordinaire du judaïsme français d’Algérie: mes arrière-grands-parents étaient encore très proches des Arabes par la langue, les coutumes, etc. Après le décret Crémieux (1870), à la fin du XIXe siècle, la génération suivante s’est embourgeoisée: bien qu’elle se soit mariée presque clandestinement dans l’arrière-cour d’une mairie d’Alger à cause des pogroms (en pleine affaire Dreyfus), ma grand-mère élevait déjà ses filles comme des bourgeoises parisiennes (bonnes manières du 16e arrondissement, leçons de piano…). Puis ce fut la génération de mes parents : peu d’intellectuels, des commerçants surtout, modestes ou non, dont certains exploitaient déjà une situation coloniale en se faisant les représentants exclusifs de grandes marques métropolitaines : avec un petit bureau de 10 mètres carrés et sans secrétaire, on pouvait représenter tout le “savon de Marseille” en Afrique du Nord - je simplifie un peu. Puis ce fut ma génération (une majorité d’intellectuels : professions libérales, enseignement, médecine, droit, etc.). Et presque tout ce monde en France en 1962. Moi, ce fut plus tôt (1949). C’est avec moi, j’exagère à peine, que les mariages “mixtes” ont commencé. De façon quasi tragique, révolutionnaire, rare et risquée.”
Extracto da última entrevista de Derrida: Le Monde, 19/08/2004
[Com um imenso obrigado a Luis Carmelo]
:: A VER :: Derrida Movie Clip

Na Hora da Morte*

A morte veio ao meu encontro
num centro comercial, disse-lhe
espera por mim em casa, não
me leves daqui como se fosse
uma mercadoria, e a morte
assim fez e não estando eu
em casa à hora marcada
partiu de mãos vazias. Depois
foi numa igreja, invoquei
sacrilégio e foi-se embora,
mais tarde numa praça e aleguei
vergonha pública, e num
café pedi para terminar o lanche,
até que a morte me visitou
no meu quarto e eu disse esta
é a casa de meus pais.

*(a partir de um conto talmúdico)

Pedro Mexia (poema inédito)

[Ver nota neste post]



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