Archive for April, 2004

Gershom Sizomu

Retratos III - Judeus na Primeira Pessoa

 Gershom Sizomu

Sou o líder espiritual dos judeus do Uganda (Abayudaya), em África. Somos poucos em número, mas somos uma comunidade judaica forte, espiritual e profundamente religiosa. Somos mais de 600.
Nascido em 1969, tenho 34 anos. Com a minha mulher, Tzipoprah, viajei até Los Angeles, na Califórnia, onde estudo no Colégio Rabínico da University of Judaism. Estamos muito longe da nossa terra.
Quando tinha apenas dois anos, Iddi Amin Dada, lendário pela sua crueldade e corrupção, tomou o poder e a presidência do Uganda pela força das armas. Entre 1971 e 1979, quando finalmente o seu regime foi derrubado, Amin tornou ilegal a nossa observância religiosa e proibiu que nos declarássemos judeus. Deu-nos três alternativas: a conversão ao islão ou ao cristianismo, abjurar por completo ao judaísmo ou a morte.
Enquanto muitos do nosso povo sucumbiram à primeira alternativa convertendo-se, a minha família e outras continuaram a celebrar o Shabbat e outros mitzvot em segredo. Na maior parte das vezes, celebrávamos os serviços religiosos nos quartos, onde podíamos adorar o nosso Deus de forma sussurrada.
Em 1989, aos 20 anos de idade, foi preso conjuntamente com outros três judeus. Fomos apanhados quando mobilizávamos a nossa juventude para aprender a tradição judaica e a língua hebraica, e quando reconstruíamos a nossa sinagoga, destruída durante o regime de Iddi Amin. Sofremos às mãos dos líderes muçulmanos e cristãos locais, que não estavam interessados na existência de uma comunidade judaica.
Para se ser judeu no Uganda é necessário suportar intimidação, opressão e insultos. Debatemo-nos com restrições no acesso a serviços sociais administrados por muçulmanos e cristãos. Mas o Uganda não é um desafio só nosso.
Eu não pareço judeu aos olhos dos outros, mesmo da comunidade judaica internacional, e muitas vezes me perguntam, “como se tornou judeu?” e “quem o converteu?”
Apesar de ter enfrentado situações que colocaram a minha vida em risco durante os meus 34 anos enquanto judeu no Uganda, sou também apenas mais um membro de um povo especial – os judeus – que tem resistido durante muitos séculos de ódio e opressão e continuam a dizer shalom ao mundo.”

Gershom Sizomu, judeu do Uganda, actualmente a estudar na Ziegler School of Rabbinic Studies da University of Judaism, em Los Angeles. Testemunho retirado do livro I Am Jewish: Personal Reflections Inspired by the Last Words of Daniel Pearl, 2004.

[A comunidade Abayudaya, de judeus do Uganda, foi fundada em 1919 por Semei Kakungulu. Um tribunal rabínico (beit din), composto por rabinos conservadores, efectuou a “conversão em massa” dos membros da comunidade Abayudaya em Fevereiro de 2002, “legalizando” a situação dos judeus do Uganda aos olhos da comunidade judaica internacional.]

A visitar: A History of the Abuyudaya Jews of Uganda / Kulanu: The genesis of the Abayudaya Community / Kulanu: Visiting the Ugandan Miracle / The Jews of Africa – The Abayudaya of Uganda / Abayudaya: Music from the Jewish People of Uganda / Abayudaya: les juifs noirs de l’Ouganda / Economist.com | Uganda’s Jews / Jewish Post of New York Online – The Jews of Uganda / The Jewish Journal Of Greater Los Angeles – Out of Africa, Into the Valley / Moving Heaven And Earth (documentário).


Fotos de Richard Sobol.

A Israel

Quem me dirá se estás neste perdido
Labirinto de rios seculares
Do meu sangue, Israel? Ou os lugares
Que os nossos sangues têm percorrido?
Tanto faz. Sei que moras no sagrado
Livro que abarca o tempo e que essa história
Do rubro Adão redime e na memória
E agonia do Crucificado.
Estás nesse livro, que é sempre o reflexo
De cada rosto que sobre ele se inclina
E do rosto de Deus, que num complexo
E árduo cristal terrível se adivinha.
Salve, Israel, que guardas a muralha,
A de Deus, na paixão dessa batalha.

Jorge Luis Borges, Elogio da Sombra, 1969.

[via Contra a Corrente.]

::A LER::: Borges judío / Judeidad y Borges / Borges on The Jews / Evelyn Fishburn: Borges, Cabbala and “Creative Misreading” / Editorial Letralia: ” Borges e la Kabbalah / FORWARD : Why Jorge Luis Borges Wished He Was an ‘Israelite’ / Algunas reflexiones sobre el “judaísmo” de Borges” / Literatura e judaísmo: o rosto judeu de Borges, Gerson Roani.

“Expressões e palavras a abandonar”

Foi com uma série de posts com este título, no seu brilhante Bomba Inteligente, que a Charlotte lançou um repto que pegou como fogo na pradaria pela blogolândia.
O desafio de limpar a língua corrente de detritos foi aceite, complementado e comentado nos blogs The World as We Know It, Azul Limão, à Deriva, My Moleskine, Ad Libitum, O Acidental, What do you represent, Mar Salgado, No Quinto dos Impérios, Homem a Dias, Contra a Corrente, Mood Swing e Miniscente.
Antes de prosseguir, convém aqui confessar que nunca me chocaram utilizações inventivas da língua de Luís de Camões, João Ubaldo Ribeiro e da mãe de John dos Passos. Choca-me muito mais o atavismo luso, que leva muitos a recusarem ler livros em excelentes edições brasileiras, só porque nelas se troca “acto” por “ato” e “facto” por “fato”. Já li críticos conceituados, de diários lisboetas de referência, a menosprezarem “brasileirismos” em livros… impressos no Brasil. Pois. Mas essa é matéria para outros posts – quem quiser ler mais sobre o tema, pode visitar o Aviz, onde Francisco José Viegas escreveu já extensamente sobre o assunto.
Regressando às palavras e expressões que a nossa Charlotte gostaria de ver abandonadas, tendo a concordar com a maioria delas. De todas as entradas sugeridas pelos bloguistas, foi a do Rodrigo Moita de Deus, no seu Segundo Sentido, que mais me deixou a pensar. Escreve ele:

“Oiço alguém falar. Eu queria, eu gostava, eu tenho, eu faço, eu aconteço eu, eu, eu, eu… e que tal abolir também o excessivo culto de personalidade?”

Concordo com o Rodrigo, não pela linguística estrita, mas pelo aspecto ético. A minha proposta de adenda para erradicação vocabular entra também por este caminho. Mas mais do que o auto-engrandecimento contido nestas expressões, proponho que se abandone o maior exemplo de lambe-botismo entranhado na alma lusitana: o “senhor(a) doutor(a) lançado de rajada a toda a gente que tenha completado um ano na universidade.
Este senhor doutor é um exemplo ainda vivo de provincianismo novecentista queiroziano, cultivado até à exaustão pelos meus camaradas dos media, para quem qualquer político é senhor doutor.
Na Europa não me lembro de equivalentes (talvez à excepção da Itália). No resto do mundo apenas existe o culto do título académico na América Latina, e mesmo assim no Brasil a culpa é toda nossa, por via da herança colonial. No México, na Bolívia e no Peru, por exemplo, os presidentes, senadores e deputados são tratados por “licenciados”, uma expressão igualmente pomposa, mas pelo menos mais verdadeira.
Aqui estou completamente de acordo com os anglo-saxónicos: doutor só o médico, e mesmo assim em moderação (apenas no consultório). Os americanos abrem também uma excepção para os teólogos. Na América, os reverendos pastores são também doutores. Mas os encómios honoríficos ficam-se por ai. Senhor e senhora chegam-lhes perfeitamente. E para nós, portugueses, deveriam chegar também.
Em contrapartida, Portugal é o único país onde “engenheiro” e “arquitecto” são títulos passíveis de utilização em conversas normais para apresentar alguém: “Este é o senhor engenheiro. Senhor engenheiro, apresento-lhe o senhor arquitecto.” Lindo.
Que se abandone o senhor doutor, o senhor engenheiro e o senhor arquitecto. Mas especialmente o senhor doutor. Digo eu.
Fica já aqui uma promessa: o primeiro que me chame senhor doutor – e o disser assim, sem ironia, mesmo depois do doutoramento –, parafraseando um escritor brasileiro de quem muito gosto, “cascudo nele”!

“Porquê?”

Primo Levi

“Levado pela sede, olhei para um pingente de gelo do lado de fora da janela, ao alcance da mão. Abri a janela e parti-o, mas um guarda corpulento e pesado que rondava lá fora tirou-mo da mão abruptamente. “Warum?” Perguntei-lhe no meu mau alemão. “Hier ist kein warum” (aqui não há porquês), respondeu ele, empurrando-me para dentro.”

Se Questo è un Uomo“, Primo Levi (1919-1987); escritor, judeu italiano, sobrevivente de Auschwitz.

[Uma das suas mais paradigmáticas obras, “Se Isto é Um Homem” – escrito apenas um ano depois de ter saído do campo de concentração –, foi reeditado em Portugal há cerca de dois anos na Colecção Mil Folhas, do Público. Existe ainda à venda outra edição da Teorema, que publicou também “A Trégua”, a continuação de “Se Isto é Um Homem”, tido por muitos como a obra maior de Primo Levi.]

La synagogue


Sinagoga Portuguesa de Amsterdão. Foto de Amélia Pais (2004).

Ottomar Scholem et Abraham Loeweren
Coiffés de feutres verts le matin du sabbat
Vont à la synagogue en longeant le Rhin
Et les coteaux où les vignes rougissent là-bas

Ils se disputent et crient des choses qu’on ose à peine traduire
Bâtard conçu pendant les règles ou Que le diable entre dans ton père
Le vieux Rhin soulève sa face ruisselante et se détourne pour sourire
Ottomar Scholem et Abraham Loeweren sont en colère

Parce que pendant le sabbat on ne doit pas fumer
Tandis que les chrétiens passent avec des cigares allumés
Et parce qu’Ottomar et Abraham aiment tous deux
Lia aux yeux de brebis et dont le ventre avance un peu

Pourtant tout à l’heure dans la synagogue l’un après l’autre
Ils baiseront la thora en soulevant leur beau chapeau
Parmi les feuillards de la fête des cabanes
Ottomar en chantant sourira à Abraham

Ils déchanteront sans mesure et les voix graves des hommes
Feront gémir un Léviathan au fond du Rhin comme une voix d’automne
Et dans la synagogue pleine de chapeaux on agitera les loulabim
Hanoten ne Kamoth bagoim tholahoth baleoumim

Guillaume Apollinaire, poeta francês de ascendência judaica.

[via Abrupto, EARLY MORNING BLOGS 189]

A Minha Revolução

A minha Revolução

Ele há coisas que uma criança tem sérias dificuldades em compreender. Uma delas é perceber que não convém muito cantar nos transportes públicos as cantigas revolucionárias que o avô lhe ensina. As crianças não percebem nada de ditaduras caducas. Pelo menos eu não percebia.
Em 25 de Abril de 1974 eu tinha quatro anos e um caso agudo de parotidite. O nome clínico faz a coisa parecer muito mais grave do que era na realidade – afinal o que eu tinha era só papeira. Não se guardam grandes memórias dessa idade, mas há coisas que recordo por entre algumas neblinas. Lembro-me de ter um mostrengo de um inchaço no pescoço, e da minha irmã não parar de gozar comigo. Lembro-me de ter acordado cedo e de ver o meu pai sentado na cama, debruçado sobre um pequeno rádio a pilhas. Lembro-me dele perguntar se alguém sabia do meu avô. Lembro-me dos meus pais me terem levado ao hospital, a Lisboa, e da janela de trás do Renault 10 ver por todo o lado soldados de armas na mão. Lembro-me do meu pai buzinar e acenar-lhes com dois dedos levantados em “V”. Lembro-me dos meus pais rirem muito um para o outro. Felizes.
Em minha casa, até àquele dia, “política” tinha sido uma palavra feia, que evocava memórias dolorosas aos meus pais e à minha avó. O culpado era o meu avô, que teimava em desafiar o regime, cismando em conhecer-lhe as cadeias e os interrogadores da PIDE. A política, fazia-a ele às escondidas, tal qual como em casa me ensinava cantigas que um miúdo de quatro anos provavelmente não deveria aprender – hinos revolucionários e canções que falavam de Liberdade. Coisas que eu não imaginava o que fossem, mas que o meu avô sonhava um dia poder viver.
Em minha casa, o 25 de Abril de 1974 foi, acima de tudo, a revolução do meu avô. António Emídio, um homem que sempre desprezou a mediocridade, viu derrocar um regime medíocre e bolorento. É verdade que só tinha quatro anos, mas mesmo sem perceber muito bem, nem como nem porquê, comecei naquele dia a olhar para o meu avô como quem olha para um herói de livros de quadradinhos. Faz hoje 30 anos que o vejo assim.

Revolução

Para Cada Pessoa Há um Nome *

Para cada pessoa há um nome
outorgado sobre ela por Deus,
a ela dado pelos seus pais.

Para cada pessoa há um nome
concedido pela sua estatura
e pelo seu sorriso
e pela sua forma de vestir.

Para cada pessoa há um nome
vertido pelas montanhas
e pelas paredes que a circundam.

Para cada pessoa há um nome
dado pela roda da Sorte
ou por aquilo que os vizinhos lhe chamam.

Para cada pessoa há um nome
inscrito pelas suas falhas
ou pelos seus desejos.

Para cada pessoa há um nome
entregue pelos seus inimigos
ou pelo seu amor.

Para cada pessoa há um nome
derivado das suas celebrações
e da sua ocupação.

Para cada pessoa há um nome
apresentado pelas estações
e pela sua cegueira.

Para cada pessoa há um nome
que ela recebe dos mares
e que lhe é dado pela sua morte.

Zelda, poeta israelita falecida em 1984. Este poema, Para Cada Pessoa Há um Nome, tornou-se sinónimo da necessidade de recordar as vítimas do Holocausto e anualmente é recitado em cerimónias oficiais em Israel. Hoje, no 27º dia do mês hebraico de Nisan, comemora-se o Yom HaShoah, o Dia Memorial do Holocausto. Porque não se pode esquecer a História.


Gueto de Varsóvia, 1943
Uma das mais conhecidas imagens do Holocausto. Soldados nazis forçam os judeus a abandonar o gueto de Varsóvia, durante a revolta da resistência, em Abril e Maio de 1943.

Crianças judias no campo de concentração Auschwitz II (Birkenau)
Crianças judias no campo de concentração Auschwitz II (Birkenau), momentos após a libertação do campo por tropas soviéticas.

Crianças judias no campo de concentração Auschwitz II (Birkenau)
Prisioneiros no campo de concentração de Buchenwald, libertados pelo exército americano em Abril de 1945. O escritor e prémio Nobel Elie Wiesel aparece na foto – Wiesel é o último rosto completo visível, no segundo beliche a contar de baixo. Anos mais tarde Elie Wiesel escreveria: “Ficar em silêncio e indiferente é o maior pecado de todos”.

Crianças sobreviventes no campo de concentração Dachau
Sobreviventes no campo de concentração de Dachau celebram a chegada das tropas americanas.


O oficial das SS Eichelsdoerfer, comandante de Kaufering IV, é fotografado entre os corpos de prisioneiros mortos no seu campo de concentração.

A visitar:
Yom HaShoah Movie / Yad Vashem The Holocaust Martyrs’and Heroes’ Remembrance Authority / Survivors of the Shoah Visual History Foundation / Simon Wiesenthal Center / A Cybrary of the Holocaust, Remember.org / United States Holocaust Memorial Museum/ Ha Shoah / Holocaust (Shoah) Research Resources / The Optimists (The Story of the Rescue of the Bulgarian Jews from the Holocaust) / AMCHA - National Israeli Center for Psychosocial Support of Survivors of the Holocaust and the Second Generation / Anne Frank Center / Yad Layeled France / Center for Jewish History / Gedenkstätten für NS-Opfer in Deutschland (Memorial Museums for Victims of National Socialism in Germay) / The Mechelen Museum of Deportation and the Resistance / Shoah Project Titelseite / Testimonies: David M. Moore, 6th Armored Division

*Em hebraico, a palavra “nome” (shem) possui um simbolismo impar, por ser utilizada no discurso corrente e litúrgico como referência directa a Deus – HaShem, literalmente “O Nome”.

Exílios

A tua imagem está gravada no meu coração e é no meu coração que está também traçado o teu afastamento.
E mais do que ela me reanima, a tua imagem ausente aflige-me.
A tua separação confunde os meus projectos; o teu exílio impede e torna tortuosos os meus caminhos.
É por tua causa que a minha alma foi abatida e o meu orgulho foi humilhado.
A ponto que os sicômoros se levantam acima do meu cipreste e que o arbusto do hisope pareça mais alto que os meus cedros;
Que o morcego ultrapasse o meu abutre e que a mosca voe por cima das asas da minha águia; (…)

Judá Abravanel, conhecido como Leão Hebreu (1465-1535), médico, filósofo e poeta, judeu português nascido em Lisboa, filho de D. Isaac Abravanel.

[fragmento de um poema escrito em Itália, em 1503, dedicado ao filho do autor, Isaac, de 12 anos, que ficara em Lisboa e fora convertido à força ao catolicismo. Escrito originalmente em hebraico, a tradução para o português é citada por Fiama Hasse Pais Brandão num artigo do Jornal de Letras de 26 de Maio de 1981. Uma tradução em inglês do poema completo pode ser encontrada aqui.]

Viagens na Blogolândia I

Ainda a recompor-me lentamente da ausência blogosférica, tento recuperar o tempo perdido, por entre pilhas de trabalho acumulado, toneladas de bytes de e-mail a responder e blogs a seguir. Mais uma vez, gostaria de agradecer a todos os que comentaram, citaram e felicitaram o meu casamento. Estou a tentar por a correspondência em dia e conto responder individualmente a todas as mensagens recebidas. Só espero que os destinatários me perdoem o atraso.
Para já, aqui ficam umas pequenas notas blogosféricas.

O Acidental – O Paulo Pinto Mascarenhas converteu-se à blogolândia! Durante anos falámos quase diariamente ao telefone, quando o Paulo era editor do Internacional d’ O Independente e eu o correspondente do jornal nos EUA…. apesar das divergências políticas, o Paulo e eu construímos ao longo dos anos uma excelente amizade da qual me ficaram saudades quando deixei o Indy, em 2001. Gostei de voltar a lê-lo. Um grande abraço para ti, camarada Paulo. (Sim, confesso, o “camarada” é para te lembrar the good old days.)

Aviz – O Francisco José Viegas já se mudou para o Brasil. O Mestre manda agora prosa tropical, da Bahia. A mudança de ares já se vai reflectindo nos posts. Portugal ficou mais vazio, ganhando em contrapartida outro “estrangeirado”. Um imenso abraço Francisco e desejos das maiores felicidades.

Pintura Portuguesa – Um blog magnífico, recém-criado pelo autor do Abre-latas. A página demora uma eternidade a abrir (as imagens conseguem ser “pesadas”), mas vale bem a pena esperar.

25 de Abril – O Coice que Abril Deu – Outro blog recém-nascido, desta vez criado pelo incansável autor do indispensável Jumento. De visita diária obrigatória. A bem da (R)evolução.

Povo de Bahá – Um blog bem escrito e muito interessante que já há algum tempo colocara na minha lista de links à esquerda. Nele descobri uma preciosa referência ao Ocean - World Religions Free Research Library, um projecto educacional da Fé Baha’i, com mais de um milhar de livros digitais (35 dos quais em Português), relativos a 10 religiões mundiais, entre elas o judaísmo. Interessante.

Parabéns! – Finalmente, e com um atraso significativo, não podia deixar de mencionar os aniversários blogosféricos de duas das mais inspiradoras bloguistas portuguesas: a Ana Albergaria, autora do Crónicas Matinais, e a Carla Hilário de Almeida Quevedo, dona da Bomba Inteligente. Obrigado a ambas pelas leituras diárias. Parabéns!

The Whore of Mensa

Woddy Allen
… por falar em judeus nova-iorquinos com um perfeito e exacerbado sentido de timing humorístico, descobri, via My Moleskine, a versão integral de The Whore of Mensa, um dos meus contos favoritos de Woody Allen. Uma delícia:
“It all poured out - the whole story. Central Park West upbringing, Socialist summer camps, Brandeis. She was every dame you saw waiting in line at the Elgin or the Thalia, or penciling the words ‘Yes, very true’ into the margin of some book on Kant. Only somewhere along the line she had made a wrong turn.”
Vá, agora vão ler o resto.

[A Inês (a quem aproveito para dar os parabéns pelo excelente blog) postou aqui um fragmento do conto traduzido por Luísa Costa Gomes, publicado no ano passado em Portugal pela Ficções – revista de contos.]

“Eu sou do meu amado e o meu amado é meu”

A frase transcrita acima, retirada do Cântico dos Cânticos (um dos mais belos poemas litúrgicos de que há memória, atribuído ao rei Salomão), simboliza na tradição judaica a união literal de duas metades da mesma alma. Assim fica explicada a prolongada ausência do autor deste blog, casado de fresco, literalmente unido à mais fantástica mulher do mundo. O casamento teve lugar na cidade de Raleigh, na Carolina do Norte, oficiado pelo rabino David Bockman, da Sinagoga Beth Meyer.
Escrevendo sobre a possibilidade de duas almas gémeas se encontrarem, o rabino místico quinhentista Isaac Luria, o Leão Sagrado, disse que esta era uma das mais complexas e difíceis tarefas da evolução espiritual do indivíduo: “Às vezes é preciso atravessar continentes e transpor oceanos.” Comigo foi mesmo assim. Foi necessário atravessar o Atlântico e a América do Norte para que encontrasse Shlomit Keren Stein, hoje a minha mulher e a minha melhor amiga.
Pronto, reconheço e admito a lamechisse destas linhas. Mas há ocasiões em que estas coisas se desculpam. O casamento faz parte desta lista.

PS – Obrigado a todos os que escreveram e enviaram felicitações.

Cenas de um Casamento

O rabino David Bockman explica a Ketubá, o contrato de casamento tradicional, inscrito em aramaico. A nossa foi inspirado na famosa Bíblia de Lisboa, iluminada em 1483 pelo judeu português Samuel Hasofer (fotos em baixo).

Regresso I – A Páscoa


Marranos (judeus secretos de Belmonte, Portugal) celebram a Páscoa judaica no sótão. Foto de Frédéric Brenner (1989)

A justificação da prolongada ausência seguirá dentro de momentos. Por agora, no dia em que o cristianismo inicia a comemoração da sua Páscoa, aqui fica a foto de uma família de cripto-judeus (judeus secretos) de Belmonte preparando-se para celebrar uma outra Páscoa, a judaica. Tirada num sótão anónimo em 1989 por Frédéric Brenner, esta foto está integrada no livro Diaspora: Homelands in Exile, um brilhante ensaio fotográfico sobre a Diáspora judaica. No judaísmo, a Páscoa comemora anualmente a libertação do povo hebreu do cativeiro no Egipto, a passagem da escravidão para a liberdade – a palavra hebraica da qual deriva a nossa “páscoa”, Pesach (פסח - pronunciada péssarr), quer literalmente dizer passagem. A Páscoa judaica é celebrada no dia 15 do mês hebraico de Nissan, que este ano recaiu na segunda e terça-feira passadas (segundo o calendário hebraico, os dias começam ao pôr do sol).





Enter your email address:

Delivered by FeedBurner

Bad Behavior has blocked 1943 access attempts in the last 7 days.