Archive for December, 2003

Os Nomes das Coisas,

… ou o Regresso à Rua da Judiaria

“Mais importante do que todas as riquezas é a escolha de um nome”
Provérbios (Kethuvim Mishlei) 22:1

A Rua da Judiaria existia há muito na minha geografia de afectos. Muito antes do blog. Muito antes de se sonhar que blogs um dia existiriam. Por coincidência, ou partida pregada pelo destino, a rua da minha infância chamava-se Judiaria – uma pequena e quase escondida rua de Almada, atrás da velha loja Singer e a dois passos do antigo edifício da Câmara e da Sociedade Recreativa Incrível Almadense. No terceiro andar esquerdo do número 24 da Rua da Judiaria aprendi a falar e a andar. Da mesma varanda onde se via uma nesga do Tejo e de Lisboa, olhei eu horas a fio para o jardim da casa da Janeca, o meu primeiro amor. Uma paixão impossível. Ela tinha 11 anos, eu apenas 5.
A minha Judiaria era também um palco de personagens – havia a Dona Delfina, uma rechonchuda senhora que fazia da sua janela um posto de vigia constante; a Carmen, a dona da taberna da esquina, uma trintona, galega e ruiva, que vivia sozinha e punha qualquer bêbado na ordem só com um olhar enviesado; o senhor Arnaldo, o latagão dono do ferro velho, que nós penalizávamos com boladas constantes na montra.
Foi na Rua da Judiaria que conheci Luís de Sttau Monteiro, em casa da Dona Isaura – uma doce velhinha de cabelos imaculados a quem Sttau chamava “mãe”, não porque ela o fosse mas porque assim se transformara quando visitou nas cadeias da ditadura o seu filho verdadeiro, companheiro de cela e de estrada de Sttau – ambos amigos do meu avô Emídio. A Dona Isaura, amiga inseparável da minha avó Maria da Luz, dava-me bolos e chocolates. Sttau alimentou-me com livros uma mão cheia de vezes, numa altura em que a minha insaciável curiosidade adolescente devorava tudo o que apanhasse. “Toma lá puto”, dizia ele de mão estendida.
Relembro agora tudo isto porque me escreveu a Renata, do blog Conversa na Travessa, contando que morara na mesma Rua da Judiaria onde eu crescera. Fomos vizinhos na infância. Agora, vizinhos voltamos a ser na blogosfera. Obrigado Renata por teres escrito!
Depois de muitos anos de ausência, voltei a passar pela Rua da Judiaria em Dezembro de 1998, da última vez que estive em Portugal. As imagens de infância que guardara durante tantos anos desmoronaram aos poucos, quase ao ritmo de cada passo. Lembrava-a como uma quase-avenida, uma rua imensa onde cabia um estádio de futebol onde joguei todos os dias, por entre carros e latões de lixo. Mas não, a Rua da Judiaria sempre foi bem pequena, engrandecida apenas pelos meus olhos de criança.
O senhor Arnaldo do ferro-velho morrera anos antes, contaram-me. Nunca soube se me perdoou o vidro partido da montra, produto de um chuto certeiro que zumbiu sobre a baliza feita de duas pedras da calçada. Também nunca mais soube da Janeca. A casa dela é hoje um restaurante, o Celeiro da Judiaria. Jantei lá na noite de Dezembro em que voltei à Judiaria da minha infância. Aquela que já não existe a não ser na minha memória.
Por tudo isto, o nome deste blog era inevitável. A intersecção perfeita entre a memória, a coincidência e o destino.

Saudades de Jerusalém

Terra bela,
Delícia do mundo,
Cidade dos Reis,
No Oeste longínquo, o meu coração chora saudades tuas.
Entristeço ao recordar como eras.
Agora a tua glória é finda, as tuas casas destruídas.
Se eu podesse voar para ti nas asas das águias,
Encharcaria o teu solo com as minhas lágrimas.

Yehudah ha-Levi (1080-1141), rabino, filósofo e poeta espanhol do século XII, nascido em Toledo .

O Que é a Saudade?

É assim que o dicionário define a palavra:

“do ant. soedade, soidade, suidade < Lat. solitate, com influência de saudar;
s. f., Lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou a possuir; pesar pela ausência de alguém que nos é querido; nostalgia.”

Durante séculos, aprendemos a olhar para a Saudade como património exclusivo da língua portuguesa. Ausência, distância, melancolia, estado de alma permanente e perpétuo da nação. Crescemos a aprender que a palavra Saudade não tinha tradução em qualquer outra língua do mundo. Mas tem. Em hebraico existe um equivalente preciso da nossa saudade: Ergá – ערגה.
Usada durante milénios por rabinos, filósofos e poetas judeus para traduzir os mesmos estados de alma, ergá é indubitavelmente a saudade hebraica. E depois, claro, há a música. Aqui pode ouvir-se um excerto de uma melodia judaica da Europa de Leste intitulada “Ergá” (em formato RealOne).
Há mesmo quem sugira que a saudade entranhou a alma lusa por via judaica, e que uma das suas maiores manifestações colectivas, o Sebastianismo, poderá muito bem ser uma transmutação do messianismo dos judeus e cristãos-novos portugueses do século XVI.

Jesus, o judeu

Jesus, visto por Marc Chagall, pintor judeu

Nascido na Galileia há mais de 2 mil anos, Jesus de Nazaré foi, sem margem para dúvidas, um judeu. As escrituras cristãs confirmam a cada passo que Cristo – Yeshua ben Yosef, de seu nome hebraico – seguiu à risca as tradições e mandamentos do judaísmo ortodoxo. Mesmo assim, durante séculos, numa tácita aliança de silêncios, cristãos e judeus recusaram reconhecer as raízes judaicas do pregador da Galileia, a quem chamaram rabino, e que acabaria por tornar-se uma das mais influentes e emblemáticas figuras da História humana.
Abandonado, e mesmo combatido, pela Igreja Cristã (tanto católica como protestante) durante séculos, o judaísmo de Jesus, e o seu enquadramento contextual, só começou a ser explorado recentemente.
Esta corrente, nascida na recta final do século XIX, assumiu novas proporções nos finais do século XX, quando a busca do “Jesus Histórico” e das raízes hebraicas de Cristo começou a fascinar teólogos e historiadores cristãos e judeus. Arredados já do cíclico antisemitismo que levara os cristãos durante séculos a negarem o judaísmo de Jesus, estes redescobriam agora o Messias cristão no seu contexto histórico, étnico e religioso.
O judaísmo de Jesus foi, até 1900, praticamente posto de parte também pelos pensadores judeus, em grande medida como reacção às perseguições que o cristianismo encetara contra os hebreus. Recorde-se que até ao Concílio Vaticano II, em 1965, a própria Igreja Católica acusava os judeus de terem morto Cristo – uma acusação que não só negava a verdade histórica, desculpabilizando o papel do governador romano Pôncio Pilatos enquanto executor máximos da pena (ver Who is Responsible for Jesus’ Execution), como também escondia o facto de Jesus ser, ele próprio, um judeu. Esse era um facto histórico inescapável, mas mesmo assim rodeado de uma polémica apenas explicável por um antisemitismo latente.
“Muitos cristãos continuavam a recusar aceitar o facto de que Jesus era judeu, afirmando a pés juntos que ele era ‘cristão’. Mas um cristão, por definição, é um seguidor de Cristo. Se assim fosse, Jesus seria um seguidor de si próprio, o equivalente de um cão que persegue a sua própria cauda”, comenta o teólogo cristão Jonathan Went, um estudioso das raízes judaicas de Jesus.
Contando com as poucas referências talmúdicas, as fontes históricas judaicas sobre Jesus restringem-se a breves passagens de fragmentos deixados por historiadores hebreus, o mais famoso dos quais o Testimonium Flavianum, escrito por Flavius Josephus, que viveu entre os ano 37 e 100 da era comum.
Agora, quase dois mil anos passados sobre o seu desaparecimento, aos poucos, rabinos e pensadores humanistas judeus começaram a reclamar Jesus enquanto figura histórica intimamente ligada ao judaísmo.
Na década de 90, foram editados vários livros que abordavam uma visão judaica de Jesus, o mais significativo dos quais lançado em finais de 2001 nos Estados Unidos sob o título “Jesus Through Jewish Eyes: Rabbis and Scholars Engage an Ancient Brother in a New Conversation”.
Na verdade, os relatos das escrituras cristãs apontam para o facto de Jesus ter cumprido escrupulosamente todos os preceitos da religião judaica. Os Evangelhos do Novo Testamento bíblico contam que Jesus foi circuncisado oito dias após ter nascido (Lucas, 2:21), segundo regem as leis judaicas; ainda bebé foi apresentado no Templo em Jerusalém (Lucas, 2:22), de acordo com o que mandava a tradição, e foi educado na Lei de Moisés (Lucas 2, 39 a 42). A Bíblia cristã confirma ainda que ele, como todas as crianças judias, começou a aprender a Torá – a Bíblia hebraica – aos seis anos e aos 12 anos no Templo “ouvia e interrogava” os rabinos (Lucas 2:46). Mais tarde, os evangelistas relatam que Jesus celebrava os festivais judaicos (Páscoa, Tabernáculos e Hanuká) além de guardar todos os sábados como dias santos. Ao mesmo tempo, envergou tzit-tzit e tefilin, adereços litúrgicos ainda hoje usados pelos judeus ortodoxos. Mesmo assim, perante este verdadeiro mar de referências bíblicas ao judaísmo de Jesus, este continuou a ser ignorado através das gerações.
No livro “Rabbi Jesus: An Intimate Biography”, o teólogo e historiador anglicano Bruce Chilton traça um perfil do Messias cristão fortemente enraizado no judaísmo. Para Chilton, Jesus foi indubitavelmente um rabino, reconhecido como tal na Galileia, e “os seus ensinamentos tornavam-no em tudo semelhante a outros rabinos galileus, conhecidos como chasidim. (…) Os chasidim eram curandeiros que curavam os doentes e aliviavam a seca através da oração, e Jesus juntou-se às suas fileiras”.
Numa visão amplamente partilhada por vários teólogos judaicos contemporâneos – entre eles Z’ev ben Shimon Halevi – , o padre Bruce Chilton vê ainda em Jesus um discípulo dos mestres da Cabalá, uma palavra hebraica que literalmente significa “tradição recebida” e que traduz o misticismo judaico. As influências cabalísticas nos ensinamentos de Jesus são notórias. A mais evidente de todas é a chamada “regra de ouro do judaísmo”, ensinada pelo rabino Hillel, que viveu em Jerusalém cerca de 200 anos antes de Jesus. Conta o Talmude que um viajante pouco familiarizado com os judeus pediu ao rabino Hillel que numa frase lhe explicasse a essência do judaísmo. O rabino olhou-o por instantes e respondeu sem hesitar: “Ama o próximo como a ti mesmo. Agora vai e pratica o que aprendeste.” A mesma máxima, repetida posteriormente por Jesus, pode ser encontrada na Bíblia hebraica, no livro de Levítico.
A grande separação das águas, no entanto, acontece quando teólogos judeus e cristãos são forçados a debater o papel de Jesus enquanto Messias. Para os judeus, o Nazareno é um rabino que seguiu a senda de outros nomes grados da história do judaísmo, mas que nunca quis formar uma religião à parte – mas sim reformar por dentro, levando os judeus do seu tempo a repensarem a sua relação com Deus. Na verdade, a separação entre o judaísmo e os seguidores de Jesus acontece posteriormente, quando Saulo de Tarso (São Paulo) transforma em religião distinta o que até então era apenas uma seita judaica.
Apesar da existência de movimentos messiânicos , onde judeus assumem a sua crença em Jesus enquanto messias, a questão da divindade de Cristo assume-se como a barreira inexpugnável entre as duas visões.
Mas o judaísmo de Jesus não é apenas um tema de debate teológico. A essência transbordou também para a literatura. Em “Ulisses”, James Joyce coloca o seu personagem principal, o judeu irlandês Leopold Bloom, em confronto com um antisemita cristão nas ruas de Dublin. Nesta parábola carregada de simbolismo, o antisemita, tal como o ciclope enfrentado por Ulisses, tem apenas um olho. Às invectivas, Bloom responde perante a ira incontida do seu interlocutor: “Mendelssohn era judeu, como Karl Marx e Mercadante e Spinoza. E o Salvador era judeu e o seu pai era judeu. O teu Deus era judeu. Cristo era judeu, como eu.”
Um dos primeiros teólogos judaicos a abraçar o judaísmo de Jesus foi o rabino americano Stephen S. Wise, que num artigo intitulado “The Life and Teaching of Jesus the Jew”, datado de Junho de 1913, escreveu: “Nem protestos cristãos nem lamentações judaicas podem anular o facto de que Jesus era judeu, um hebreu dos hebreus.”

Notas
Para uma visão mais aprofundada do “cristianismo histórico” de um ponto de vista judaico, aconselho a leitura de Rabbi Yeshua ben Yosef’s “New Testament”, um trabalho interessante e obviamente polémico.

Festas Felizes
Aqui ficam os votos de uma quadra feliz para todos quantos têm passado aqui pela Rua da Judiaria. Assinalando a data, nesta antevéspera natalícia, esta prosa sobre Jesus, visto da margem de cá do rio das religiões.

*(Este post é uma versão “interactiva” de um trabalho deste vosso escriba publicado na edição de hoje da revista FOCUS)

O Véu, o Kippah e a Cruz

Já muito se escreveu em torno do debate teórico da laicidade ligada à questão do véu islâmico em França. Ontem Pacheco Pereira, no seu Abrupto dava voz a vários leitores com interessantes perspectivas sobre o tema. Mas uma coisa é a discussão académica acerca do “equilíbrio entre Liberdade e a Igualdade”, como ali escrevia Ricardo Peres, num comentário bastante interessante. Outra são as reais implicações que advém da proibição exercida com força de lei – uma atitude “autoritária e tipicamente jacobina”, como escreveu Pacheco Pereira alguns dias atrás no Abrupto, uma leitura com a qual concordo (ver também uma excelente análise de Luís Carmelo no Miniscente).
Agora, o relatório da comissão Stasi vem propor a interdição por via legislativa, total e compulsiva, do uso de “símbolos religiosos ostensivos” nas escolas francesas. Véus islâmicos, kippot judaicos e “crucifixos de grandes dimensões” são banidos em nome da “integração”.
Como ponto de partida argumentativo, não faz o mínimo sentido comparar a cruz usada num fio de ouro ou prata com um véu islâmico (hidjab) ou com o kippah judaico. Ao contrário do crucifixo, usado pelos cristãos meramente como adorno, a hidjab e o kippah são obrigações religiosas para muçulmanas e judeus. Tal como o é, por exemplo, o turbante sikh – sim, bem sei que as motivações aqui são outras e os sikh, coitados, até nem são fundamentalistas… mas usar fundamentalismos e integrismos islâmicos como argumentos justificativos para esta proibição é passar verdadeiramente ao lado da questão central criada com esta medida: uma maior insularização (agora forçada) de comunidades já de si marginalizadas.
É essencial integrar os emigrantes, instilando-lhes os valores da sociedade francesa”, disse o ministro dos Assuntos Sociais francês, François Fillon, justificando o seu apoio às conclusões do relatório.
Na prática, o raciocínio de Fillon não anda muito longe – pelo menos em espírito – das políticas de integração desenvolvidas pelo governo australiano em relação aos aborígenes nas décadas de 40 e 50, ou da assimilação forçada por que passavam os nativos americanos e os emigrantes no final do século XIX nos EUA. Era nesse mesmo contexto que a World’s Columbian Exposition, realizada em Chicago em 1893, se proclamava como “the first expression of American thought as unity”, simbolizando a unificação e uniformização da cultura americana.
Salvaguardadas as distâncias, a conclusão contida no relatório Stasi, obrigando à secularização sob pena de expulsão, é equiparável às medidas inquisitoriais por que foram obrigados a passar os judeus portugueses e espanhóis no século XV. «La question n’est plus la liberté de conscience mais l’ordre public», assenta o relatório francês, uma frase justificativa que podia ser recuada cinco séculos mantendo todo o seu contexto.
Ao contrário do que diz o ministro Fillon, estas proibições não contribuem para qualquer tipo de integração. Forçados a escolher entre a escola secular e a religião, a escolha para aqueles que o relatório visa será sempre óbvia: a religião.
Para compreender isto é necessário perceber o que estes “símbolos religiosos” representam para aqueles que os usam. E aqui vou resumir-me apenas ao que conheço de causa própria, o judaísmo.
Para um rapaz judeu oriundo de uma família ortodoxa “praticante” – e ortodoxos são a esmagadora maioria dos judeus que vivem fora dos Estados Unidos, incluindo os portugueses – usar o kippah é uma obrigação. É um mandamento. Do ponto de vista bíblico, apenas aos sacerdotes do Templo (Kohanim) era requerido que cobrissem a cabeça. Mas o uso de kippot tornou um costume obrigatório que os homens judeus cumprem há quase 2 mil anos. A própria Halakhah (a Lei Judaica) diz: “é proibido andar quatro cúbitos sem cobrir a cabeça.”
No chamado mundo ocidental é costume descobrir a cabeça em sinal de respeito. No judaísmo, cobrir a cabeça é um sinal de respeito. O Talmude sustenta que o propósito do uso de kippot é funcionar como uma recordação constante que Deus está “sobre nós” (Tratado Kiddushin 31a). Acções externas criam consciência interna e o uso de algo simbólico e tangível “sobre nós” reflecte nos homens judeus o sentimento interior de respeito por Deus.
À parte de toda a discussão do estatuto da mulher no Islão (que considero igualmente fundamental, mas que, a meu ver, não cabe neste contexto), é também desta forma que a hidjab deve ser enquadrada, pelo menos enquanto prática religiosa islâmica.
Percebendo isto mesmo, ainda antes de se saber que a comissão Stasi iria propor igualmente a interdição do uso do kippah, o rabino chefe de Paris, rav Joseph Sitruk juntara já a sua voz ao coro daqueles que protestavam contra qualquer disposição legal que proibisse a hidjab islâmica.
Se Jacques Chirac aceitar agora os conselhos da comissão Stasi, o resultado prático destas proibições será um resurgimento acentuado de escolas privadas, islâmicas e judaicas, onde as crianças agora visadas crescerão de forma totalmente isolada e exponencialmente insular. Esta tendência começou já a dar sinais em França, com o aparecimento recente da primeira escola secundária islâmica, em Lille.
O problema maior reside aqui no facto da comissão Stasi ter decidido com base no preconceito. Em sociologia chama-se a isto “orientalismo manifesto”, uma visão neocolonialista do “outro”, transplantada agora para as entranhas da “Metrópole” (ver Edward Said’s Orientalism: a Brief Definition).
Acerca disto o recém falecido Edward Said escreveu:

“For every Orientalist, quite literally, there is a support system of staggering power, considering the ephemerality of the myths that Orientalism propagates. The system now culminates into the very institutions of the state. One would find this kind of procedure less objectionable as political propaganda – which is what it is, of course – were it not accompanied by sermons on the objectivity, the fairness, the impartiality of a real historian, the implication always being that Muslims and Arabs cannot be objective but that Orientalists. . .writing about Muslims are, by definition, by training, by the mere fact of their Westernness. This is the culmination of Orientalism as a dogma that not only degrades its subject matter but also blinds its practitioners.”

O grande desafio das sociedades modernas reside na capacidade de sobreviver nos moldes da diversidade, e na definição da palavra tolerância não cabe esta interdição.

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Judeus de Cabo Verde

A Congregação Har Shalom, nos arredores de Washington DC, vai acolher no próximo domingo, dia 14, uma conferência sobre os judeus de Cabo Verde. Carol Castiel, jornalista da Voz da América e investigadora de genealogia sefardita, irá apresentar as conclusões de um dos seus estudos sobre a mais recente das comunidades judaicas de Cabo Verde, composta maioritariamente por famílias originárias de Marrocos e Gibraltar que se fixaram no arquipélago em meados do século XIX. A conferência tem a chancela da Jewish Genealogy Society of Greater Washington. Já agora, aqui vai a morada da Congregação Har Shalom, para quem estiver aqui deste lado do mundo e por lá quiser passar: 11510 Falls Road, Potomac, Maryland.
Um artigo interessante sobre a história mais remota dos judeus de Cabo Verde e da costa da Guiné – e as suas ligações aos judeus portugueses – pode ser lido aqui.

“Falhanço Miserável”

Quem no Google fizer uma busca com a expressão “miserable failure” encontrará à cabeça dos resultados um link directo para a biografia oficial do Presidente George W. Bush, alojada no site da Casa Branca. Pessoalmente não me parece de todo descabido. Mas, aparentemente, o motor de busca não faz análise política por iniciativa própria e terá sido necessária a ajuda de centenas de membros da blogosfera americana e britânica, que com um bombardeamento de links conseguiram manipular os resultados do Google. A BBC NEWS explica como tudo aconteceu. Já agora, a expressão “miserable failure” aplicada a Bush foi cunhada por Richard Gephardt, ex-speaker da Câmara dos Representantes e um dos 9 presidenciáveis do Partido Democrata. Apesar da sua candidatura não ir a lado nenhum, pelo menos a expressão, essa, é um sucesso.

Escrita Automática

Muito se tem escrito nos últimos dias sobre a falta de inspiração e paciência que por vezes afecta os nossos blogistas. Uma solução para as “brancas”, quando se sente vontade de escrever mas nada sai, pode ser encontrada no The Apathetic Online Journal Entry Generator, um gerador automático de entradas apáticas para blogs. Os resultados são divertidos e satisfatoriamente inócuos. E para aqueles que acham que escrevem blogs pouco interessantes, aconselho uma passagem pelo The Dullest Blog in the World, um exercício prodigioso em monotonia e aborrecimento.

Ainda a Polémica do Relatório Sobre o Antisemitismo

“Il ne s’agit pas là d’une opinion mais d’un délit.”
Jean Paul Sartre, Réflexions sur la Question Juive, 1946, escrevendo sobre o antisemitismo.

O relatório sobre o antisemitismo na Europa, suprimido pelo European Monitoring Center on Racism and Xenophobia, voltou a dar que falar na blogosfera. O Terras do Nunca reagiu e criticou a forma como o relatório foi aqui referido. O Francisco José Viegas respondeu, e de forma brilhante, no Aviz.
Como a reacção do João no Terras do Nunca parece indiciar, o antisemitismo – a palavra em si – tornou-se um tabu. “Sinceramente, não percebo porque se está a tentar fazer uma tempestade num copo de água”, escreve ele, dizendo que depois de ler o relatório acha justificada a sua não publicação, isto porque cometia um “erro” de fundo: “a sistemática confusão entre anti-semitismo e anti-Israel (e, quando falo de anti-Israel, falo de oposição a políticas concretas do estado de Israel e não de oposição ao Estado de Israel)”, diz o Terras do Nunca. Mas não é isto que o relatório conta. Antes pelo contrário.

“In the public domain in Spain, France, Italy and Sweden, sections of the political left and Arab-Muslim groups unified to stage pro-Palestinian demonstrations. While the right to demonstrate is of course a civil right, and these demonstrations are not intrinsically anti-Semitic, at some of these, anti-Semitic slogans could be heard and placards seen; and some demonstrations resulted in attacks upon Jews or Jewish institutions. In the Netherlands pro-Palestine demonstrators of Moroccan origin used anti-Semitic symbols and slogans. In Finland however, pro-Palestinian demonstrations passed without any anti-Semitic incidents. In Germany, and less so in Austria, public political discourse was dominated by a debate on the link between Israeli policy in the Middle East conflict and anti-Semitism, a debate in which the cultural and political elite were involved.”

Esta citação é extraída do ”Executive Summary” do relatório a que o João se refere. Quando realmente se lê o relatório, o argumento do João esfuma-se, transformando-se em pouco mais do que um reflexo condicionado aparentemente gerado pela discussão levantada em torno do que é ou não é o antisemitismo.
Ao contrário do que o João infere no post do Terras do Nunca, a esmagadora maioria dos casos de antisemitismo referenciados no relatório nada tem a ver com uma eventual confusão com “oposição a políticas concretas do estado de Israel”.

Physical attacks on Jews and the desecration and destruction of synagogues were acts often committed by young Muslim perpetrators in the monitoring period. Many of these attacks occurred either during or after pro-Palestinian demonstrations, which were also used by radical Islamists for hurling verbal abuse. In addition, radical Islamist circles were responsible for placing anti-Semitic propaganda on the Internet and in Arab-language media.

Nada disto me parece uma mera confusão entre “antisemitismo e oposição a políticas concretas do estado de Israel”. Uma coisa são legítimas manifestações contra a situação em que vive o povo palestiniano – e para que conste, aqui fica escrito que apoio e sempre apoiei a criação de um estado palestiniano –, outra é quando algumas destas manifestações descambam em quasi-pogroms. Quando isto acontece, o visado não é o estado de Israel mas sim pessoas, homens e mulheres – cidadãos da Europa – , que são insultados por causa da sua aparência exterior religiosa, que vêem os seus lugares de culto vandalizados e as sepulturas dos seus cemitérios profanadas. Que tem isto a ver com um conflito político ou com a luta pela libertação de um povo? Nada, digo eu.
Mas o relatório dá ainda conta de casos concretos que não têm nada a ver com o conflito israelo-palestiniano:

Desecration of synagogues, cemeteries, swastika graffiti, threatening and insulting mail as well as the denial of the Holocaust as a theme, particularly on the Internet. These are the forms of action to be primarily assigned to the far-right.

Não quero transformar esta prosa num texto laudatório em relação relatório, até porque ele pouco ou nada traz de novo em relação ao que já se sabia. Também não pretendo que isto seja interpretado como um ataque ao Terras do Nunca, um blog que leio regularmente e com o qual, em regra, até tendo a concordar. Leiam-no apenas por aquilo que pretende ser: uma contribuição para um debate que merece espaço.
Tal como Francisco José Viegas referiu já vezes sem conta no Aviz, importa, de facto, fazer uma distinção concreta entre o antisemitismo e as críticas a Israel. Totalmente de acordo. Mas, como ele próprio também já escreveu – e como de alguma forma transparece também no relatório acima mencionado –, a linguagem de uma e outra coisa tende por vezes a fundir-se num perigoso cocktail. O problema aqui é de discurso. De semântica e semiótica. Desde já prometo voltar aqui a abordar a “linguagem” do conflito israelo-palestiniano e as implícitas nesgas de antisemitismo que por vezes dela transpiram.
Mas, acima de tudo, partilho com o Francisco a preocupação face à indiferença com que o fenómeno continua a ser visto na Europa. Na minha opinião, é neste contexto que a recusa do European Monitoring Center on Racism and Xenophobia em publicar este relatório deve ser lida.

Durme

Durme, durme
mi alma donzella
durme, durme
sin ansia y dolor
durme, durme
sin ansia y dolor.
Heq tu sclavo tanto dezea
ver tu sueño con grande amor
ver tu sueño con grande amor.
Hay dos años que sufre mi alma
por ti, joya, mi linda dama
por ti, joya, mi linda dama.
Siente, siente al son de mi guitarra
siente, hermosa, mis males cantar
siente, hermosa, mis males cantar

Cantiga de embalar tradicional, em Ladino, dos judeus portugueses e espanhóis (século XIV).

Ainda o Relatório sobre o Antisemitismo

O Congresso Judaico Europeu decidiu (e muito bem) divulgar o “polémico” relatório sobre o antisemitismo na Europa (o tal que o European Monitoring Center on Racism and Xenophobia, um organismo da UE, decidida arquivar por ser “politicamente incorrecto”). Escreve-se no relatório:

“No campo da esquerda, declarações antisemitas foram encontradas maioritariamente no contexto de manifestações e comícios pró-palestinianos e anti-globalização, bem como em artigos de jornal utilizando estereótipos antisemitas para criticar Israel. (…) isto gerou uma combinação de pontos de vista anti-sionistas e anti-americanos que se transformaria num elemento importante na emergência de um sentimento antisemita na Europa.”

O relatório aponta ainda para a crescente popularidade de livros e manifestos antisemitas – como o Mein Kampf, de Hitler, ou os Protocolos dos Sábios de Sião, forjados pela corte czarista no final do século XIX.
No relatório encontra-se uma entrada específica para Portugal, onde se dá conta dos (poucos) incidentes antisemitas ocorridos no nosso país.
Os judeus europeus, ainda de acordo com o relatório, transformaram-se em reféns das políticas de Israel, uma identificação que, por si só, é um sinal flagrante de antisemitismo – afinal nunca se ouviu falar, por exemplo, de um “sentimento anti-russo” por causa da guerra na Chechnya.

Novo Plano de Paz

Não é oficial e Sharon avisou já Washington que seria um “erro grave” se Colin Powell se avistassem com aqueles que o elaboraram. Por isto e por muito mais, vale a pena saber mais sobre o Acordo de Genebra, uma iniciativa não-governamental de paz que está a ser muito bem recebida por vários líderes mundiais. A iniciativa, oficialmente lançada esta segunda-feira em Genebra entre muita circunstância e alguma pompa, é o produto de dois anos de negociações semi-secretas entre representantes dos sectores moderados de Israel e da Autoridade Palestiniana – coordenados pelo ex-ministro trabalhista israelita da Justiça Yossi Beilin e o ex-ministro palestiniano da Informação Yasser Abed Rabbo. O objectivo, na prática, é inverter a pirâmide habitual da diplomacia, e fazer com que a opinião pública mundial pressione os governos de Israel e da Autoridade Palestiniana a aceitarem termos de paz “impostos pelas bases”.
O Acordo de Genebra vai além dos acordos de Oslo – dos quais Yossi Beilin foi um dos arquitectos – ao prever o desmantelamento da maioria dos colonatos existentes na Margem Ocidental, a divisão de Jerusalém em duas capitais distintas e a criação de um estado palestiniano.
É fundamental que a opinião pública mundial pressione as duas partes a aceitar os termos do acordo, que garantem ao mesmo tempo a segurança dos israelitas e a legítima autodeterminação palestiniana. Quem quiser pode passar por aqui para assinar uma petição internacional a favor da iniciativa do Acordo de Genebra. O link permite ainda ler o texto integral do acordo. Uma versão em hebraico do documento pode ser encontrada aqui.





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