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Para Cada Pessoa Há um Nome *

Para cada pessoa há um nome
outorgado sobre ela por Deus,
a ela dado pelos seus pais.

Para cada pessoa há um nome
concedido pela sua estatura
e pelo seu sorriso
e pela sua forma de vestir.

Para cada pessoa há um nome
vertido pelas montanhas
e pelas paredes que a circundam.

Para cada pessoa há um nome
dado pela roda da Sorte
ou por aquilo que os vizinhos lhe chamam.

Para cada pessoa há um nome
inscrito pelas suas falhas
ou pelos seus desejos.

Para cada pessoa há um nome
entregue pelos seus inimigos
ou pelo seu amor.

Para cada pessoa há um nome
derivado das suas celebrações
e da sua ocupação.

Para cada pessoa há um nome
apresentado pelas estações
e pela sua cegueira.

Para cada pessoa há um nome
que ela recebe dos mares
e que lhe é dado pela sua morte.

Zelda, poeta israelita falecida em 1984. Este poema, Para Cada Pessoa Há um Nome, tornou-se sinónimo da necessidade de recordar as vítimas do Holocausto e anualmente é recitado em cerimónias oficiais em Israel. Hoje, no 27º dia do mês hebraico de Nisan, comemora-se o Yom HaShoah, o Dia Memorial do Holocausto. Porque não se pode esquecer a História.


Gueto de Varsóvia, 1943
Uma das mais conhecidas imagens do Holocausto. Soldados nazis forçam os judeus a abandonar o gueto de Varsóvia, durante a revolta da resistência, em Abril e Maio de 1943.

Crianças judias no campo de concentração Auschwitz II (Birkenau)
Crianças judias no campo de concentração Auschwitz II (Birkenau), momentos após a libertação do campo por tropas soviéticas.

Crianças judias no campo de concentração Auschwitz II (Birkenau)
Prisioneiros no campo de concentração de Buchenwald, libertados pelo exército americano em Abril de 1945. O escritor e prémio Nobel Elie Wiesel aparece na foto – Wiesel é o último rosto completo visível, no segundo beliche a contar de baixo. Anos mais tarde Elie Wiesel escreveria: “Ficar em silêncio e indiferente é o maior pecado de todos”.

Crianças sobreviventes no campo de concentração Dachau
Sobreviventes no campo de concentração de Dachau celebram a chegada das tropas americanas.


O oficial das SS Eichelsdoerfer, comandante de Kaufering IV, é fotografado entre os corpos de prisioneiros mortos no seu campo de concentração.

A visitar:
Yom HaShoah Movie / Yad Vashem The Holocaust Martyrs’and Heroes’ Remembrance Authority / Survivors of the Shoah Visual History Foundation / Simon Wiesenthal Center / A Cybrary of the Holocaust, Remember.org / United States Holocaust Memorial Museum/ Ha Shoah / Holocaust (Shoah) Research Resources / The Optimists (The Story of the Rescue of the Bulgarian Jews from the Holocaust) / AMCHA - National Israeli Center for Psychosocial Support of Survivors of the Holocaust and the Second Generation / Anne Frank Center / Yad Layeled France / Center for Jewish History / Gedenkstätten für NS-Opfer in Deutschland (Memorial Museums for Victims of National Socialism in Germay) / The Mechelen Museum of Deportation and the Resistance / Shoah Project Titelseite / Testimonies: David M. Moore, 6th Armored Division

*Em hebraico, a palavra “nome” (shem) possui um simbolismo impar, por ser utilizada no discurso corrente e litúrgico como referência directa a Deus – HaShem, literalmente “O Nome”.

Contribuições para a História Judaica de Portugal

Aquilino Ribeiro “O declínio do sobrenaturalismo no Ocidente foi obra indirecta dos judeus expulsos e dos da sua progénite. Os títulos que punham aos trabalhos impressos – nada mais que por virtude do contraste que apresentavam em relação às designações de moda, herméticas e estapafurdicamente pedantes: de Amatus Lusitanus, Curationum medicinalium centuriae; de Rodrigo de Castro, De universa mulierum medicina; de Isaque Bem-Solimão, De febris, etc. revelavam eloquentemente pela precisão nas ideias que foram de sempre apanágio da raça hebraica. Estes títulos é quanto basta para nos dar a conhecer a dose de bom senso que tais homens apagados e nómadas acabaram por imprimir ao curso das ciências e das letras na Europa com manifesto eclipse do misticismo milagreiro. Muitos anos andados ainda Bacon trazia a lume o Lião verde, uma das suas obras postas nos cornos da lua sapiente.
Pelo combate que no campo das ciências aplicadas, em particular, davam à superstição e à medicina sobrenatural - como aposição de relíquias e de ferros santos, intercessão de bem-aventurados, a cada um competindo determinada zona anatómica ou espécie zoológica, assim a Cabeça Santa para a raiva, S. Fiacre para as almorreimas, Santa Luzia e Santa Flamínia, ambas concorrentes, para os achaques dos olhos, Santa Apolónia para a dor de dentes, S. Francisco de Paula a bem da sucessão masculina e ainda contra a estiagem, S. Marino para a sarna, Santa Tecla para as queimaduras, Santa Rita para todos os impossíveis do corpo e da alma, reservando-se Santo Antão o privilégio de guardar os porcos ao chambaril, Santa Marta de esconjurar o pulgão e o filoxera das vinhas, S. Pedro Gonçalves a lagarta das hortas e até S. Paulo Mártir de preservar as searas e favais do granizo e das trovoadas – concitavam contra si todos os agentes de rotina e de conservação. Para o vulgo os físicos hebreus eram herejes e sequazes do Diabo, com o qual tinham pacta. Queimava-se no Entrudo o judeu de estopa e alcatrão, como o judeu de carne e osso na Praça da Lã.
Esta perseguição da Igreja romana contra o judaísmo, equivalente dentro da ideia monoteísta, na esfera das reacções, à da pernada contra o tronco, do verbo contra o logos, de Deus Padre contra Jeová, de Cristo contra Moisés, é um dos casos mais estupendos e absurdos da história.”

Aquilino RibeiroPortugueses das Sete Partidas Lisboa: Bertrand, (1950?), p. 235-237

A Inquisição e o Declínio
do Império Português

“Quando os Portugueses conquistaram o Atlântico sul, estavam na vanguarda da técnica de navegação. Um empenho em aprender com cientistas, muitos deles judeus, fizera que os conhecimentos adquiridos fossem directamente traduzidos em aplicações práticas; e, quando, em 1492, os Espanhóis decidiram compelir os seus judeus a professar o cristianismo ou abandonar o país, muitos encontraram refúgio em Portugal, nessa época mais complacente quanto aos seus sentimentos antijudaicos. Mas em 1497, pressões da igreja católica e de Espanha levaram a coroa portuguesa a abandonar essa tolerância. Cerca de 70 mil judeus (1) foram forçados a um baptismo espúrio, embora válido como sacramento. Em 1506, Lisboa viu o seu primeiro “progrom”, que deixou um saldo de 2000 “cristão-novos” mortos (2) (a Espanha já adoptava essa prática há duzentos anos). Desde então, a vida intelectual e científica de Portugal desceu a um abismo de intolerância, fanatismo e pureza de sangue.
O declínio foi gradual. A Inquisição Portuguesa só foi instalada na década de 1540 e o seu primeiro auto-de-fé três anos depois; mas só se tornou sombriamente implacável na década de 1580, depois da união das coroas portuguesa e espanhola. Muitos estrangeiros, comerciantes e homens de ciência, acharam entretanto que a vida em Portugal estava a ficar demasiado perigosa para justificar a saída do país em massa. Levaram com eles dinheiro, experiência comercial, ligações, conhecimentos e – ainda mais importante – aquelas qualidades imensuráveis de curiosidade e inconformismo que constituem o fermento do pensamento.
Foi uma perda, mas em questões de intolerância a maior perda é a que o perseguidor inflige a si próprio. É esse processo de autodiminuição que confere à perseguição a sua durabilidade e a torna, não o acontecimento de um dado momento, ou de um reinado, mas de vidas inteiras, de gerações e de séculos. Em 1513, Portugal precisava de astrónomos; na década de 1520, a liderança científica tinha acabado. O país tentou criar uma nova tradição astronómica e matemática cristã, mas fracassou, até porque os bons astrónomos foram alvo da suspeita de judaísmo.
Tal como em Espanha, os Portugueses esforçaram-se ao máximo em fechar-se a influências estrangeiras e heréticas. A educação formal era controlada pela Igreja, que mantinha um currículo medieval centrado na gramática, retórica e argumentação escolástica. Característicos eram o exibicionismo e o bizantinismo (247 regras rimadas e decoradas da sintaxe de substantivos latinos). A única ciência de nível superior seria encontrada na faculdade de medicina de Coimbra. Mesmo aí, porém, poucos professores estavam dispostos a trocar Galeno por Harvey, ou a ensinar as ideias ainda mais perigosas de Copérnico, Galileu e Newton, todos banidos pelos Jesuítas ainda em 1746.
Deixou de haver mais jovens portugueses a estudar no estrangeiro e a importação de livros era rigorosamente controlada por fiscais enviados pelo Santo Ofício para inspeccionar os navios que chegavam e visitar livrarias e bibliotecas. Um índice de obras proibidas foi preparado pela primeira vez em 1547; sucessivas ampliações culminaram na gigantesca lista de 1624- a mais recomendada para salvar as almas portuguesas.
(…)
Claro que era impossível isolar um país envolvido no concerto da Europa e na disputa por um império. Os diplomatas e agentes portugueses no estrangeiro regressavam ao país com a mensagem de que o resto do mundo estava a avançar, enquanto Portugal ficava parado no tempo. Esses “estrangeirados” – uma alcunha pejorativa – atraíram profundas suspeitas, pois estavam “contaminados”. A sua rejeição estava implícita no orgulho português. Profundamente desastroso. Eles perceberam o que pouco portugueses podiam ou queriam ver: que a busca da pureza cristã era estúpida, que o Santo Ofício da Inquisição era um desastre nacional; que a Igreja devorava a riqueza do país; que o fracasso do governo em promover a agricultura e a indústria tinha reduzido Portugal ao papel de ‘melhor e mais lucrativa colónia da Inglaterra’. Através desse isolamento auto-imposto, os Portugueses perderam a competência até mesmo nas áreas que anteriormente tinham dominado. ‘De líderes na vanguarda da teoria e prática de navegação passaram a andar sem rumo muito atrás dos outros’, como afirmou D. Luís da Cunha, por altura da assinatura do Tratado de Methuen.”

in A Riqueza e a Pobreza das Nações: Porque são algumas tão ricas e outras tão pobres, David S. Landes, Gradiva 2002.

 Index et Catalogus Librorum prohibitorum, mandato Illustriss. ac Reverendis (Department of Special Collections da University of Notre Dame – The Inquisition Collection)

::Notas da Rua da Judiaria::
1) Os historiadores debatem ainda o número de judeus portugueses convertidos à força ao catolicismo, mas estima-se que este ascenda a mais de 150 mil pessoas. É, mesmo assim, consensual que existiam no reino de Portugal por alturas de 1497 cerca de 200 mil judeus – numa população total sensivelmente superior a um milhão de portugueses. Apenas uma pequena percentagem terá conseguido emigrar. Os que ficaram, tornaram-se “cristãos-novos” forçados (cripto-judeus na maior parte dos casos) – obrigados a uma existência de medos e dualidades, aos poucos os judeus secretos foram abandonando as actividades intelectuais (astronomia, medicina, física, matemática, filosofia) que até então tinham marcado o judaísmo português e ibérico. A dimensão da comunidade judaica portuguesa dos finais do século XV e princípios do século XVI era tal que fora de Portugal havia uma confusão recorrente entre “português” e “judeu”: “Um professor de grego da França, convidado a ensinar a sua disciplina em Portugal, aceitou o convite, mas tratou antes de aprender ele próprio a língua hebraica, que supunha fosse a língua oficial dos habitantes do reino, seus futuros discípulos.” (Elias Lipner, “O Sapateiro de Trancoso e o Alfaiate de Setúbal”, p.19). “Certo padre português, cristão-velho, interpelando um cardeal romano a respeito de um benefício eclesiástico que este dera a um português cristão-novo, ouviu do interpelado a seguinte resposta: ‘Andai, que vós portugueses sois judeus, e o vosso rei é o rei dos judeus’.” (Mendes dos Remédios, “Os Judeus em Portugal”, Vol. II, p.417)

2) O número de mortos resultantes do progrom de Lisboa, ocorrido em Abril de 1506, também não é certo, embora a maior parte das fontes e testemunhos da época apontem para cerca de quatro mil pessoas (cripto-judeus / cristãos-novos) chacinadas na sequência de motins antijudaicos incitados por frades dominicanos. No Rossio, contam Samuel Usque e Damião de Góis, o chão ficou “tapado com montanhas de corpos mutilados”. “Mais de quatro mil almas morreram(…)”, escreveu Samuel Usque em “Consolação às Tribulações de Israel” (1553).

“Von dem Christeliche / Streyt, kürtzlich geschehe / jm. M.CCCCC.vj Jar zu Lissbona / ein haubt stat in Portigal zwischen en christen und newen chri / sten oder juden , von wegen des gecreutzigisten [sic] got.”

Panfleto anónimo, impresso na Alemanha (presumivelmente poucos meses depois do massacre de Lisboa). O “progrom” de 1506 contra os judeus de Lisboa é descrito em detalhe e as matanças contadas ao pormenor. A gravura do frontispício mostra os corpos mutilados e envoltos em chamas de dois judeus portugueses, dois irmãos, os primeiros a morrer num massacre que vitimou mais de 4 mil pessoas.

(Esta gravura é reproduzida aqui na Judiaria a partir de uma cópia publicada pelo Hebrew Union College, Cincinnati, OH. O original, bastante raro, encontra-se na Houghton Library, Harvard University)

O Judeu nos Painéis de São Vicente

Paineis de São Vicente, atribuídos a Nuno Gonçalves

Escondido no último retábulo da mais conhecida obra da pintura portuguesa quinhentista, Os Painéis de São Vicente, atribuída ao pintor Nuno Gonçalves, encontra-se uma figura que tem despertado a curiosidade dos historiadores.Painel da Relíquia ou Alegoria do Comando Virtuoso, um dos poucos registos iconográficos de judeus portugueses quinhentistas que ainda restam.
No Painel da Relíquia, também conhecido como “Alegoria do Comando Virtuoso”, envergando um manto negro e um barrete, um homem robusto segura nas mãos um livro com caracteres indecifráveis. Uma análise detalhada do retábulo não deixa dúvidas: a misteriosa figura é uma das poucas representações iconográficas que restam de um judeu português quinhentista.
Além do livro com caracteres que imitam o hebraico, a figura ostenta no peito uma estranha insígnia de seis pontas, interpretada por alguns como uma representação oculta remanescente da estrela de David. No entanto, a insígnia não é mais do que o sinal que os judeus portugueses eram obrigados a usar nas suas roupas, decretado no texto das Ordenações Afonsinas – livro II, título 86 –, onde a lei Joanina de 1429 prescreve a utilização obrigatória de “sinais vermelhos de seis pernas cada um, no peito, acima da boca do estômago, (…) pois os judeus não traziam quais sinais que deviam trazer e esses que traziam eram tão pequenos que não se pareciam, e outros os traziam de duas e três pernas e mais não.
Mas a chave central para decifrar o judaísmo desta figura integrada numa das maiores obras primas da pintura europeia quinhentista, acima de tudo, é o livro que tem nas mãos. Acerca da representação do livro, e mais especificamente da forma como ele é manuseado, António Salvador Marques, no seu Painéis de S. Vicente de Fora - Modo de Utilização, escreve que a intenção do pintor em transmitir o judaísmo do personagem foi mais do que premeditada:

Livro em “hebraico” ilegível (clicar para uma versão ampliada da imagem)

O livro encontra-se nas mãos de uma figura com aspecto severo, marcada por um sinal vermelho de seis pontas na indumentária, cujo gesto denuncia a intenção de mostrar que as páginas se voltam da esquerda para a direita, isto é, no sentido contrário ao habitual. Se o leitor reproduzir o gesto defronte de um espelho, aperceber-se-á da forma como o posicionamento dos dedos no acto de passagem da página é significativo de uma tal intenção, muito mais que da exibição de algum trecho específico de livro conhecido.

Os livros hebraicos são abertos da esquerda para a direita e lidos em ordem inversa. Ainda na opinião de António Salvador Marques, o facto da escrita reproduzida pelo pintor ser constituída por caracteres “fantasiosos e ilegíveis” pode também ser demonstrativo:

A conotação judaica não é dada só pela forma como as páginas são voltadas, mas também pelo aparecimento de caracteres ilegíveis que poderiam sugerir a escrita hebraica aos olhos dos não conhecedores, como se interessasse apenas a compreensão de que se trata de um livro hebraico, e não a leitura de um qualquer trecho bem determinado mas irrelevante para os fins em vista. A figuração de comentários ao longo das margens parece sugerir a prática talmúdica de interpretação e comentário da escritura, e reforça ainda mais a conotação judaica. A presença expressa de numerosas anotações marginais num livro ilegível não parece fazer sentido em qualquer outro contexto.

Última parte do tríptico temporal, na “Alegoria do Comando Virtuoso” o judeu português quinhentista representa a virtude do rigor, ladeado pela penitência e pelo sacrifício.
Antes do restauro dos painéis, Joaquim de Vasconcellos, n’O Comércio do Porto de 28 de Julho de 1895, percebeu essa parte da alegoria, transmitindo-a numa prosa encharcada de preconceitos antisemitas: “aponta com gesto arrogante, todo ele vaidoso, enfatuado na sua sabedoria de rabino, para um livro de confusos caracteres fantasiados. É bem o tipo da sinagoga militante (…) por detrás do rabino dois clérigos de alva, esculturais, profundamente característicos, postos de sentinela ao bilioso sectário.” (via “Painéis de S. Vicente de Fora - Modo de Utilização”).
Os historiadores brasileiros Guilherme Faiguenboim, Paulo Valadares e Anna Rosa Campagnano, no recém editado “Dicionário Sefaradi de Sobrenomes” (Frahia, São Paulo 2003), vão mais longe e afirmam que este judeu nos painéis de Nuno Gonçalves pode muito bem ser D. Isaac Abravanel, um dos mais ilustres judeus portugueses do século XV – estadista, líder da comunidade judaica ibérica, filósofo e rabino cabalista nascido em Lisboa, cujos escritos são ainda hoje estudados – especialmente a sua interpretação do código de ética Pirkei Avot (A Ética dos Pais). Curiosamente, como comentam os autores, Isaac Abravanel é “o 15º avô do empresário e apresentador de TV [brasileiro] Sílvio Santos”, Senor Abravanel de seu nome verdadeiro.
Aos que quiserem saber mais sobre os painéis de Nuno Gonçalves, descritos pelo Museu Nacional de Arte Antiga, seu actual repositório, como “um dos mais notáveis retratos colectivos da pintura europeia”, aconselha-se uma passagem pela versão on-line do excelente trabalho de António Salvador Marques, intitulado Painéis de S. Vicente de Fora - Modo de Utilização.

Citações & Recortes Blogosféricos II

A propósito do meu post sobre o aniversário da chegada dos primeiros emigrantes judeus portugueses a Nova Iorque, em 1654 (ver Os primeiros judeus nas Américas), o escritor Luís Carmelo, no seu blog Miniscente, escreveu uma entrada intitulada Tragédia de um Esquecimentor aqui reproduzida. Às questões levantadas, que responda quem sabe.

“Lembra o blogue Rua da Judiaria que, em 2004, se celebram 350 anos “sobre a chegada dos primeiros emigrantes judeus à colónia holandesa de Nova Amsterdão, na ilha de Manhattan (actual Nova Iorque)”. Tratou-se, na altura, de um contingente de 23 emigrantes judeus fugidos à Inquisição do Recife, no Brasil. De facto, um certo mutismo português adora esquecer os labirintos judaicos de Amesterdão, de Antuérpia, de Istambul ou do Recife que, afinal, lhe saíram da sua própria carne. Por que razão será muda a história oficial portuguesa acerca da implosão judaica de finais de século XV e inícios do século XVI?
Independentemente de tal mudez, a verdade é que não há português que não traga consigo um pouco de Israel e, no entanto, parece disfarçá-lo com uma leviana saudade da escuridão, com uma timidez pessoana e quase mitológica, com uma ignorância tétrica e, às vezes, com uma apaixonada tentação pela erradicação memorial (tantas vezes pressionada pelos fluxos ideológicos de conjuntura).
É como se, na frente de um Portugal marmóreo e cristalizado, apenas ficasse o mar e as suas lendas a sós, apenas ficasse a imagem passada de um século de ouro, apenas ficasse a euforia das Europálias, das Expos, das Décimas sétimas, das N Capitais da cultura e das várias Exposições do mundo português. É como se, em todas estas cenografias da exaltação lusa, nada sobrasse do vestígio da alma judaica arrancada à nossa própria alma. Que auto-imagem celebrará tal amputação, ou tal compaixão desprovida de rosto?(…).”

Gravura da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão por Romeijn de Hooghe em 1675 (Gans Collection, CRDJ)
Gravura da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão por Romeijn de Hooghe, 1675 (Gans Collection, CRDJ)

Os primeiros judeus nas Américas


Gershom Mendes Seixas (1745-1816), o primeiro rabino de Nova Iorque.

Em 2004 celebram-se 350 anos sobre a chegada dos primeiros emigrantes judeus à colónia holandesa de Nova Amsterdão, na ilha de Manhattan (actual Nova Iorque). Fugidos da Inquisição no Brasil (Recife), os primeiros 23 emigrantes judeus a chegar à América eram portugueses.
Apesar da oposição inicial do governador Peter Stuyvesant, o governo holandês contrariou-o e concedeu aos judeus portugueses permissão para se instalarem na colónia. A primeira sinagoga construída na parte norte do “novo mundo” foi a Shearith Israel (meados do século XVIII), de Nova Iorque, que ainda hoje existe e mantém a designação de “Sinagoga Portuguesa e Espanhola“.
A comunidade floresceu com o correr dos anos e a aparente tolerância religiosa das Américas continuou a atrair judeus de todo o mundo, incluindo muitas famílias portuguesas que entretanto tinham emigrado para Inglaterra, Holanda e Brasil.
Apesar de pouco divulgada entre nós, a presença dos judeus portugueses na América deixaria uma marca indelével na história do país.
Entre os judeus portugueses que ascenderam à notoriedade em terras americanas destaca-se a família Mendes Seixas, levada de Lisboa para Nova Iorque pela mão do patriarca Isaac Mendes Seixas em 1730.
O filho mais velho, Gershom Mendes Seixas (1745-1816), conhecido como o “primeiro rabino da América do Norte”, era amigo pessoal de George Washington e foi um dos três representantes do clero presentes na cerimónia de tomada de posse do primeiro presidente americano, em 1787.
Quando o rabino Gershom morreu, a Câmara de Nova Iorque decretou luto municipal e o conselho de reitores da Universidade de Columbia abriu concurso público para que se fizesse uma medalha comemorativa com o seu busto. Tido como um exemplo de tolerância – contava com amigos entre os mais respeitados pastores protestantes da cidade – e serviço público, a American Jewish Historical Society considera ainda hoje Gershom “um modelo para os rabinos americanos contemporâneos”.
Além de Gershom, outros Mendes Seixas viram os seus nomes elevados a figuras de relevo da História americana: Abraão Mendes Seixas (1751-99) foi oficial no exército revolucionário de Washington; Benjamin Mendes Seixas (1748-1817) foi um dos fundadores da Bolsa de Valores de Nova Iorque – ao lado Isaac Gomes, outro judeu português –; Moisés Mendes Seixas (1744-1809) tornou-se um dos organizadores do Banco de Rhode Island – percursor da actual Reserva Federal – e presidente da histórica sinagoga de Newport. O filho de Gershom, David Mendes Seixas fundou o Instituto de Surdos Mudos de Filadélfia e foi um inventor prolífico, descobrindo, entre outras, formas mais eficientes de queimar carvão mineral.
A História americana destaca também o nome de Aaron Lopes, um judeu português de origem cripto-judaica (conhecido em Portugal como D. Duarte Lopes) nascido em Lisboa em 1731 que ainda criança viajara com a família para a América. Armador estabelecido na cidade de Newport, em Rhode Island, Aaron Lopes era dono de 30 navios transatlânticos e 100 embarcações costeiras que permitiram abastecer o exército revolucionário de George Washington, apesar da enorme pressão da coroa britânica.
Francis Salvador e Benjamin Nunes, outros dois judeus de ascendência portuguesa, foram de Inglaterra e França, respectivamente, para lutar ao lado das tropas revolucionárias. Francis Salvador seria mais tarde escolhido para integrar o Congresso Provisório da Carolina do Sul, em 1774, e foi também o primeiro patriota morto pelas tropas britânicas. Benjamin Nunes, que durante a guerra ascendera ao cargo de major, tornou-se membro da Câmara dos Representantes do recém formado país. Entre os judeus portugueses que combateram ao lado dos revolucionários americanos contam-se ainda os irmãos Jacob e Salomão Pinto, que em 1750 se estabeleceram na cidade de New Haven.
Por alturas da Guerra de Independência, estima-se que existissem já largas centenas de emigrantes portugueses na colónia, a esmagadora maioria destes de origem judaica. Cerca de 20% dos marinheiros do primeiro navio de guerra a hastear a bandeira americana, o Bonhomme Richard, capitaneado por John Paul Jones, eram portugueses.
O aniversário da chegada, em 1654, dos primeiros judeus portugueses à América vai ser assinalado este ano nos EUA pelo semanário Forward, de Nova Iorque. Na última edição é de ler um artigo assinado pela juíza do Supremo Tribunal de Justiça Ruth Bader Ginsburg, intitulado Recordando os Cinco Juizes Judeus do Supremo. Entre os nomes citados encontra-se outro descendente de judeus portugueses: Benjamin Cardozo, nomeado pelo presidente Hebert Hoover em 1932.

O Que é a Saudade?

É assim que o dicionário define a palavra:

“do ant. soedade, soidade, suidade < Lat. solitate, com influência de saudar;
s. f., Lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou a possuir; pesar pela ausência de alguém que nos é querido; nostalgia.”

Durante séculos, aprendemos a olhar para a Saudade como património exclusivo da língua portuguesa. Ausência, distância, melancolia, estado de alma permanente e perpétuo da nação. Crescemos a aprender que a palavra Saudade não tinha tradução em qualquer outra língua do mundo. Mas tem. Em hebraico existe um equivalente preciso da nossa saudade: Ergá – ערגה.
Usada durante milénios por rabinos, filósofos e poetas judeus para traduzir os mesmos estados de alma, ergá é indubitavelmente a saudade hebraica. E depois, claro, há a música. Aqui pode ouvir-se um excerto de uma melodia judaica da Europa de Leste intitulada “Ergá” (em formato RealOne).
Há mesmo quem sugira que a saudade entranhou a alma lusa por via judaica, e que uma das suas maiores manifestações colectivas, o Sebastianismo, poderá muito bem ser uma transmutação do messianismo dos judeus e cristãos-novos portugueses do século XVI.

Jesus, o judeu

Jesus, visto por Marc Chagall, pintor judeu

Nascido na Galileia há mais de 2 mil anos, Jesus de Nazaré foi, sem margem para dúvidas, um judeu. As escrituras cristãs confirmam a cada passo que Cristo – Yeshua ben Yosef, de seu nome hebraico – seguiu à risca as tradições e mandamentos do judaísmo ortodoxo. Mesmo assim, durante séculos, numa tácita aliança de silêncios, cristãos e judeus recusaram reconhecer as raízes judaicas do pregador da Galileia, a quem chamaram rabino, e que acabaria por tornar-se uma das mais influentes e emblemáticas figuras da História humana.
Abandonado, e mesmo combatido, pela Igreja Cristã (tanto católica como protestante) durante séculos, o judaísmo de Jesus, e o seu enquadramento contextual, só começou a ser explorado recentemente.
Esta corrente, nascida na recta final do século XIX, assumiu novas proporções nos finais do século XX, quando a busca do “Jesus Histórico” e das raízes hebraicas de Cristo começou a fascinar teólogos e historiadores cristãos e judeus. Arredados já do cíclico antisemitismo que levara os cristãos durante séculos a negarem o judaísmo de Jesus, estes redescobriam agora o Messias cristão no seu contexto histórico, étnico e religioso.
O judaísmo de Jesus foi, até 1900, praticamente posto de parte também pelos pensadores judeus, em grande medida como reacção às perseguições que o cristianismo encetara contra os hebreus. Recorde-se que até ao Concílio Vaticano II, em 1965, a própria Igreja Católica acusava os judeus de terem morto Cristo – uma acusação que não só negava a verdade histórica, desculpabilizando o papel do governador romano Pôncio Pilatos enquanto executor máximos da pena (ver Who is Responsible for Jesus’ Execution), como também escondia o facto de Jesus ser, ele próprio, um judeu. Esse era um facto histórico inescapável, mas mesmo assim rodeado de uma polémica apenas explicável por um antisemitismo latente.
“Muitos cristãos continuavam a recusar aceitar o facto de que Jesus era judeu, afirmando a pés juntos que ele era ‘cristão’. Mas um cristão, por definição, é um seguidor de Cristo. Se assim fosse, Jesus seria um seguidor de si próprio, o equivalente de um cão que persegue a sua própria cauda”, comenta o teólogo cristão Jonathan Went, um estudioso das raízes judaicas de Jesus.
Contando com as poucas referências talmúdicas, as fontes históricas judaicas sobre Jesus restringem-se a breves passagens de fragmentos deixados por historiadores hebreus, o mais famoso dos quais o Testimonium Flavianum, escrito por Flavius Josephus, que viveu entre os ano 37 e 100 da era comum.
Agora, quase dois mil anos passados sobre o seu desaparecimento, aos poucos, rabinos e pensadores humanistas judeus começaram a reclamar Jesus enquanto figura histórica intimamente ligada ao judaísmo.
Na década de 90, foram editados vários livros que abordavam uma visão judaica de Jesus, o mais significativo dos quais lançado em finais de 2001 nos Estados Unidos sob o título “Jesus Through Jewish Eyes: Rabbis and Scholars Engage an Ancient Brother in a New Conversation”.
Na verdade, os relatos das escrituras cristãs apontam para o facto de Jesus ter cumprido escrupulosamente todos os preceitos da religião judaica. Os Evangelhos do Novo Testamento bíblico contam que Jesus foi circuncisado oito dias após ter nascido (Lucas, 2:21), segundo regem as leis judaicas; ainda bebé foi apresentado no Templo em Jerusalém (Lucas, 2:22), de acordo com o que mandava a tradição, e foi educado na Lei de Moisés (Lucas 2, 39 a 42). A Bíblia cristã confirma ainda que ele, como todas as crianças judias, começou a aprender a Torá – a Bíblia hebraica – aos seis anos e aos 12 anos no Templo “ouvia e interrogava” os rabinos (Lucas 2:46). Mais tarde, os evangelistas relatam que Jesus celebrava os festivais judaicos (Páscoa, Tabernáculos e Hanuká) além de guardar todos os sábados como dias santos. Ao mesmo tempo, envergou tzit-tzit e tefilin, adereços litúrgicos ainda hoje usados pelos judeus ortodoxos. Mesmo assim, perante este verdadeiro mar de referências bíblicas ao judaísmo de Jesus, este continuou a ser ignorado através das gerações.
No livro “Rabbi Jesus: An Intimate Biography”, o teólogo e historiador anglicano Bruce Chilton traça um perfil do Messias cristão fortemente enraizado no judaísmo. Para Chilton, Jesus foi indubitavelmente um rabino, reconhecido como tal na Galileia, e “os seus ensinamentos tornavam-no em tudo semelhante a outros rabinos galileus, conhecidos como chasidim. (…) Os chasidim eram curandeiros que curavam os doentes e aliviavam a seca através da oração, e Jesus juntou-se às suas fileiras”.
Numa visão amplamente partilhada por vários teólogos judaicos contemporâneos – entre eles Z’ev ben Shimon Halevi – , o padre Bruce Chilton vê ainda em Jesus um discípulo dos mestres da Cabalá, uma palavra hebraica que literalmente significa “tradição recebida” e que traduz o misticismo judaico. As influências cabalísticas nos ensinamentos de Jesus são notórias. A mais evidente de todas é a chamada “regra de ouro do judaísmo”, ensinada pelo rabino Hillel, que viveu em Jerusalém cerca de 200 anos antes de Jesus. Conta o Talmude que um viajante pouco familiarizado com os judeus pediu ao rabino Hillel que numa frase lhe explicasse a essência do judaísmo. O rabino olhou-o por instantes e respondeu sem hesitar: “Ama o próximo como a ti mesmo. Agora vai e pratica o que aprendeste.” A mesma máxima, repetida posteriormente por Jesus, pode ser encontrada na Bíblia hebraica, no livro de Levítico.
A grande separação das águas, no entanto, acontece quando teólogos judeus e cristãos são forçados a debater o papel de Jesus enquanto Messias. Para os judeus, o Nazareno é um rabino que seguiu a senda de outros nomes grados da história do judaísmo, mas que nunca quis formar uma religião à parte – mas sim reformar por dentro, levando os judeus do seu tempo a repensarem a sua relação com Deus. Na verdade, a separação entre o judaísmo e os seguidores de Jesus acontece posteriormente, quando Saulo de Tarso (São Paulo) transforma em religião distinta o que até então era apenas uma seita judaica.
Apesar da existência de movimentos messiânicos , onde judeus assumem a sua crença em Jesus enquanto messias, a questão da divindade de Cristo assume-se como a barreira inexpugnável entre as duas visões.
Mas o judaísmo de Jesus não é apenas um tema de debate teológico. A essência transbordou também para a literatura. Em “Ulisses”, James Joyce coloca o seu personagem principal, o judeu irlandês Leopold Bloom, em confronto com um antisemita cristão nas ruas de Dublin. Nesta parábola carregada de simbolismo, o antisemita, tal como o ciclope enfrentado por Ulisses, tem apenas um olho. Às invectivas, Bloom responde perante a ira incontida do seu interlocutor: “Mendelssohn era judeu, como Karl Marx e Mercadante e Spinoza. E o Salvador era judeu e o seu pai era judeu. O teu Deus era judeu. Cristo era judeu, como eu.”
Um dos primeiros teólogos judaicos a abraçar o judaísmo de Jesus foi o rabino americano Stephen S. Wise, que num artigo intitulado “The Life and Teaching of Jesus the Jew”, datado de Junho de 1913, escreveu: “Nem protestos cristãos nem lamentações judaicas podem anular o facto de que Jesus era judeu, um hebreu dos hebreus.”

Notas
Para uma visão mais aprofundada do “cristianismo histórico” de um ponto de vista judaico, aconselho a leitura de Rabbi Yeshua ben Yosef’s “New Testament”, um trabalho interessante e obviamente polémico.

Festas Felizes
Aqui ficam os votos de uma quadra feliz para todos quantos têm passado aqui pela Rua da Judiaria. Assinalando a data, nesta antevéspera natalícia, esta prosa sobre Jesus, visto da margem de cá do rio das religiões.

*(Este post é uma versão “interactiva” de um trabalho deste vosso escriba publicado na edição de hoje da revista FOCUS)

O primeiro livro impresso em Portugal

O primeiro livro impresso em Portugal saiu das oficinas tipográficas de D. Samuel Porteiro, um judeu de Faro, em 1487. Sensivelmente 30 anos após Johannes Gutenberg ter espantado o mundo ao imprimir em Mainz a sua famosa Bíblia, o primeiro livro a sair de uma tipografia portuguesa foi igualmente uma edição das escrituras sagradas… mas em hebraico. O Pentateuco – os cinco livros de Moisés que compõem a Torá, foi impresso recorrendo já a avanços em relação à tecnologia inventada por Gutenberg, entre os quais a utilização de caracteres metálicos móveis. O único exemplar conhecido desta edição ainda em existência encontra-se na colecção permanente da British Library, em Londres, que detém ainda outra obra pioneira em termos nacionais: o Comentário ao Pentateuco, do rabino medieval espanhol Moisés ben Nahman (Nachmanides), o primeiro livro impresso em Lisboa, igualmente em hebraico, editado por Eliezer Toledano em 1487.
D. Samuel Porteiro imprimiu ainda em Faro, em 1488, uma edição de 22 volumes do Talmude do qual restam apenas fragmentos, uma vez que a Inquisição ordenou a sua destruição depois de D. Manuel ter decretado a expulsão dos judeus do reino de Portugal (e consequente conversão forçada ao Catolicismo), em 1497.


facsimile do Pentateuco hebraico, o primeiro livro imprenso em Portugal, no século XV

Genealogia Judaica Portuguesa

Nas últimas semanas, recebi no Correio da Judiaria várias mensagens de leitores que indagavam sobre as suas eventuais raízes judaicas. Por vezes os nomes de família e as terras de origem dizem tudo, e basta uma consulta rápida em dois ou três livros de história ou genealogia sefardita para confirmar uma conversão forçada ao catolicismo ou um julgamento perante os tribunais da Inquisição. Outras vezes é preciso trabalhar mais para conseguir desenterrar o que em muitas famílias portuguesas é o mais bem guardado dos segredos. Há uma extensa bibliografia que pode ajudar a traçar esta geografia da identidade pessoal de muitos descendentes de judeus portugueses. Aqui ficam alguns dos livros que considero fundamentais:

“A History of the Marranos”, Cecil Roth
“Sangre Judia”, Pere Bonnin
“Secrecy and Deceit: The Religion of the Crypto-Jews”, David Gitlitz
“Os Marranos em Portugal”, Arnold Diesendruck
“A Origem Judaica dos Brasileiros”, José Geraldo Rodrigues de Alckmin Filho
“Dicionário Sefaradi de Sobrenomes”, Guilherme Faiguenboim, Anna Rosa Campagnano e Paulo Valadares (ver Folha Online - Dicionário viaja ao passado dos sefaradis - 06/01/2004)

A título de referência breve, aqui seguem alguns nomes de família de “cripto-judeus”, prevalentes, mas não de forma exclusiva, nas regiões da Beira-Baixa, Trás-os-Montes e Alentejo*:

Amorim; Azevedo; Alvares; Avelar; Almeida; Barros; Basto; Belmonte; Bravo; Cáceres; Caetano; Campos; Carneiro; Carvalho; Crespo; Cruz; Dias; Duarte; Elias; Estrela; Ferreira; Franco; Gaiola; Gonçalves; Guerreiro; Henriques;Josué; Leão; Lemos; Lobo; Lombroso; Lopes; Lousada; Macias; Machado; Martins; Mascarenhas; Mattos; Meira; Mello e Canto; Mendes da Costa; Miranda; Montesino; Morão; Moreno; Morões; Mota; Moucada; Negro; Nunes; Oliveira; Ozório; Paiva; Pardo; Pilão; Pina; Pinto; Pessoa; Preto; Pizzarro; Ribeiro; Robles; Rodrigues; Rosa; Salvador; Souza; Torres; Vaz; Viana e Vargas.

Nomes de famílias judaicas portuguesas na Diáspora (Holanda, Reino Unido e Américas)**

Abrantes; Aguilar; Andrade; Brandão; Brito; Bueno; Cardoso; Carvalho; Castro; Costa; Coutinho; Dourado; Fonseca; Furtado; Gomes; Gouveia; Granjo; Henriques; Lara; Marques; Melo e Prado; Mesquita; Mendes; Neto; Nunes; Pereira; Pinheiro; Rodrigues; Rosa; Sarmento; Silva; Soares; Teixeira e Teles (entre muitos outros).

Sobrenomes judaicos de origem portuguesa na América Latina***:

Almeida; Avelar; Bravo; Carvajal; Crespo; Duarte; Ferreira; Franco; Gato; Gonçalves; Guerreiro; Léon; Leão; Lopes; Leiria; Lobo; Lousada; Machorro; Martins; Montesino; Moreno; Mota; Macias; Miranda; Oliveira; Osório; Pardo; Pina; Pinto; Pimentel; Pizzarro; Querido; Rei; Ribeiro; Robles; Salvador; Solva; Torres e Viana

*in “Os Marranos em Portugal”, Arnold Diensendruck
** in “Raízes Judaicas no Brasil”, Flávio Mendes de Carvalho
*** in “Os Nomes de Família dos Judeus Creolos”, estudo de Arturo Rab, publicado na revista “Juedische Familien Forschung”, Berlim, 1933

::ADENDA:: Nomes de família citados com maior frequência nos documentos da Inquisição, relativos a “relapsos” condenados pelo “crime de judaísmo”:

Rodrigues_________453 pessoas
Nunes____________229 pessoas
Mendes___________224 pessoas
Lopes____________282 pessoas
Miranda__________190 pessoas
Gomes___________184 pessoas
Henriques_________174 pessoas
Costa____________138 pessoas
Fernandes_________132 pessoas
Pereira___________124 pessoas
Dias_____________124 pessoas

Segue uma listagem (reduzida) de nomes de familias judias e cripto-judias retirada do Dicionário Sefaradi de Sobrenomes:

A

Abreu Abrunhosa Affonseca Affonso Aguiar Ayres Alam Alberto Albuquerque Alfaro Almeida Alonso Alvade Alvarado Alvarenga Álvares/Alvarez Alvelos Alveres Alves Alvim Alvorada Alvres Amado Amaral Andrada Andrade Anta Antonio Antunes Araujo Arrabaca Arroyo Arroja Aspalhão Assumção Athayde Avila Avis Azeda Azeitado Azeredo Azevedo

B

Bacelar Balao Balboa Balieyro Baltiero Bandes Baptista Barata Barbalha Barboza /Barbosa Bareda Barrajas Barreira Baretta Baretto Barros Bastos Bautista Beirao Belinque Belmonte Bello Bentes Bernal Bernardes Bezzera Bicudo Bispo Bivar Boccoro Boned Bonsucesso Borges Borralho Botelho Braganca Brandao Bravo Brites Brito Brum Bueno Bulhao

C

Cabaco Cabral Cabreira Caceres Caetano Calassa Caldas Caldeira Caldeyrao Callado Camacho Camara Camejo Caminha Campo Campos Candeas Capote Carceres Cardozo/Cardoso Carlos Carneiro Carranca Carnide Carreira Carrilho Carrollo Carvalho Casado Casqueiro Casseres Castenheda Castanho Castelo Castelo branco Castelhano Castilho Castro Cazado Cazales Ceya Cespedes Chacla Chacon Chaves Chito Cid Cobilhos Coche Coelho Collaco Contreiras Cordeiro Corgenaga Coronel Correa Cortez Corujo Costa Coutinho Couto Covilha Crasto Cruz Cunha

D

Damas Daniel Datto Delgado Devet Diamante Dias Diniz Dionisio Dique Doria Dorta Dourado Drago Duarte Duraes

E

Eliate Escobar Espadilha Espinhosa Espinoza Esteves Évora

F

Faisca Falcao Faria Farinha Faro Farto Fatexa Febos Feijao Feijo Fernandes Ferrao Ferraz Ferreira Ferro Fialho Fidalgo Figueira Figueiredo Figueiro Figueiroa Flores Fogaca Fonseca Fontes Forro Fraga Fragozo Franca Frances Francisco Franco Freire Freitas Froes/Frois Furtado

G

Gabriel Gago Galante Galego Galeno Gallo Galvao Gama Gamboa Gancoso Ganso Garcia Gasto Gavilao Gil Godinho Godins Goes Gomes Goncalves Gouvea Gracia Gradis Gramacho Guadalupe Guedes Gueybara Gueiros Guerra Guerreiro Gusmao Guterres

H/I

Henriques Homem Idanha Iscol Isidro Jordao Jorge Jubim Juliao

L

Lafaia Lago Laguna Lamy Lara Lassa Leal Leao Ledesma Leitao Leite Lemos Lima Liz Lobo Lopes Loucao Loureiro Lourenco Louzada Lucena Luiz Luna Luzarte

M

Macedo Machado Machuca Madeira Madureira Magalhaes Maia Maioral Maj Maldonado Malheiro Manem Manganes Manhanas Manoel Manzona Marcal Marques Martins Mascarenhas Mattos Matoso Medalha Medeiros Medina Melao Mello Mendanha Mendes Mendonca Menezes Mesquita Mezas Milao Miles Miranda Moeda Mogadouro Mogo Molina Monforte Monguinho Moniz Monsanto Montearroyo Monteiro Montes Montezinhos Moraes Morales Morao Morato Moreas Moreira Moreno Motta Moura Mouzinho Munhoz

N

Nabo Nagera Navarro Negrão Neves Nicolao Nobre Nogueira Noronha Novaes Nunes

O

Oliva Olivares Oliveira Oróbio

P

Pacham/Pachão/Paixao Pacheco Paes Paiva Palancho Palhano Pantoja Pardo Paredes Parra Páscoa Passos Paz Pedrozo Pegado Peinado Penalvo Penha Penso Penteado Peralta Perdigão Pereira Peres Pessoa Pestana Picanço Pilar Pimentel Pina Pineda Pinhão Pinheiro Pinto Pires Pisco Pissarro Piteyra Pizarro Pombeiro Ponte Porto Pouzado Prado Preto Proenca

Q

Quadros Quaresma Queiroz Quental

R

Rabelo Rabocha Raphael Ramalho Ramires Ramos Rangel Raposo Rasquete Rebello Rego Reis Rezende Ribeiro Rios Robles Rocha Rodriguez Roldão Romão Romeiro Rosário Rosa Rosas Rozado Ruivo Ruiz

S

Sa Salvador Samora Sampaio Samuda Sanches Sandoval Santarem Santiago Santos Saraiva Sarilho Saro Sarzedas Seixas Sena Semedo Sequeira Seralvo Serpa Serqueira Serra Serrano Serrao Serveira Silva Silveira Simao Simoes Soares Siqueira Sodenha Sodre Soeyro Sueyro Soeiro Sola Solis Sondo Soutto Souza

T/U

Tagarro Tareu Tavares Taveira Teixeira Telles Thomas Toloza Torres Torrones Tota Tourinho Tovar Trigillos Trigueiros Tridade Uchôa

V/X/Z

Valladolid Vale Valle Valenca Valente Vareda Vargas Vasconcellos Vasques Vaz Veiga Veyga Velasco Velez Vellez Velho Veloso Vergueiro Viana Vicente Viegas Vieyra Viera Vigo Vilhalva Vilhegas Vilhena Villa Villalao Villa-Lobos Villanova Villar Villa Real Villella Vilela Vizeu Xavier Ximinez Zuriaga



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