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Dois Poemas de Leonard Cohen

All There is to Know About Adolph Eichmann

EYES: Medium
HAIR: Medium
WEIGHT: Medium
HEIGHT Medium
DISTINGUISHING FEATURES: None
NUMBER OF FINGERS: Ten
NUMBER OF TOES: Ten
INTELLIGENCE: Medium

What did you expect?
Talons?
Oversize incisors?
Green saliva?

Madness?

The Genius (”For you I will be a ghetto Jew ..”)

For you
I will be a ghetto jew
and dance
and put white stockings
on my twisted limbs
and poison wells
across the town

For you
I will be an apostate jew
and tell the Spanish priest
of the blood vow
in the Talmud
and where the bones
of the child are hid

For you
I will be a banker jew
and bring to ruin
a proud old hunting king
and end his line

For you
I will be a Broadway jew
and cry in theatres
for my mother
and sell bargain goods
beneath the counter

For you
I will be a doctor jew
and search
in all the garbage cans for foreskins
to sew back again

For you
I will be a Dachau jew
and lie down in lime
with twisted limbs
and bloated pain
no mind can understand

Leonard Cohen, poeta e cantor. Judeu canadiano. Dois poemas dos livros Flowers for Hitler, 1964, e The Spice-Box of Earth, 1961.

Lamento

Ó, tudo é tão longe
e foi tudo há tanto tempo.
Creio que aquela estrela
está morta há mil anos,
apesar de ainda lhe ver a luz.
Creio que naquele barco
passando pela noite
algo terrível foi dito.
Em casa um relógio
bateu…
Onde bate ele?…
Gostaria de andar
fora do meu coração
sob o céu aberto.
Gostaria de rezar.
Uma destas estrelas
tem de existir ainda.
Creio que sei
qual delas
persiste
e se ergue como uma cidade, branca
no céu ao fim de um raio de luz…

Rainer Maria Rilke (1875-1926), poeta austríaco de ascendência judaica.

[NT – a partir da tradução do alemão para o inglês da autoria de C.F. MacIntyre]

Max Beckmann (1884-1959), A Sinagoga, 1919

Um Cemitério Judaico na Alemanha

Numa pequena colina entre campos férteis
há um pequeno cemitério,
um cemitério judeu atrás de um portão enferrujado,
escondido por arbustos,
abandonado e esquecido.
Nem o som de orações
nem a voz dos lamentos se ouvem aqui
porque os mortos não louvam a Deus.
Soam apenas as vozes das nossas crianças,
procurando campas e rindo
sempre que encontram uma – como cogumelos na floresta,
como morangos silvestres.
Aqui está outra campa! Esta tem o nome da mãe da minha mãe
e um nome do século passado.
Está aqui um nome, e ali outro!
E quando eu limpava o musgo sobre o nome
Olha! uma mão aberta gravada na sepultura, a campa de um kohen,
os seus dedos abertos num espasmo de santidade e benção,
e aqui há uma campa resguardada por um mato de amoras
que têm de ser penteadas para o lado, como madeixas
na face de uma bela mulher amada.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Estilo

– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é o modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para um plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos , do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos. (…)

Herberto Helder>, in Os Passos em Volta, 1963

Herberto HelderHerberto Helder nasceu no Funchal, na ilha da Madeira, em 1930, no seio de uma família de origem judaica. Em 1946, foi para Lisboa, onde terminou o liceu. Depois de uma rápida passagem pelo curso de Direito, em Coimbra, frequentou durante três anos a Faculdade de Letras de Lisboa. Em 1955, após um breve regresso à Madeira, Herberto Helder volta de novo a Lisboa, frequentando o Café Gelo, ao lado de Mário Cesariny, Luiz Pacheco, António José Forte, João Vieira e Hélder Macedo. Colabora em várias publicações literárias e publica o seu primeiro livro, O Amor em Visita, em 1958. Ao longo dos anos, Herberto Helder desempenhou várias profissões e viajou para vários países. Personagem discretíssima, foi distinguido em 1983 com o Prémio de Poesia do Pen Club Português, pelo livro A Colher na Boca. Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa pelo conjunto da sua obra, distinção que recusou. (Nota biográfica via Herberto Helder - Biografia, Instituto Camões)

Versos Ladinos

“Ea Judios”
(Fancisco de Salinas- Salamanca-1577)
Ea Judios a enfardelar
Que mandan los Reyes
que passeys la mar.

“Yo en estando”
(Marrocos)
Yo en estando en la mi camà, ananá,
durmiendo como solía.
Tomí viguelita en manò, ononó,
temblíla como solía.

Dónde me fuera temblalá, ananá,
en casa de mi amiga.
Abre, la dije, mi almà, ananá,
abre, la dije, mi vida.

El nino tengo en los brazòs, ononó,
si abro despertaria.
Pónle un higuito en la manò, ononó,
de suyo se venceria.

Las puertas tengo i de pinò, ononó,
si abro rechinaría.
Echa vinagre en los quicìos, ononó,
de suyo se abriría.

El mal viejo está durmiendo, ononó,
si abro despertaría.
Échale trapos al viejò, ononó,
el sueno le venceria.

Ellos en estas palabras, ononó,
el viejo despertaria.
Que tienes tu, la mi mujer, ononó,
que te veo y sofocada.

Con el hijo de la vecina, nononó,
ke me trujo el pan quemado.
Te vea yo, la mi mujer, ononó,
en un patin ladrillado.

Te veas tu, el mal viejo, ononó,
con las cien hozmas de lena.
Con las cien hozmas de lena, ononó,
al forno vayas quemado.

“Yo m’estava reposando”
(Juan del Encina-1529)
Yo m’estava reposando
dormiendo como solía.
Acordé, triste, llorando,
con gran pena que sentia.

Três versos em Ladino retirados do disco “Sephardic Songs in the Hispano-Arabic Tradition of Medieval Spain” (Sarband, 1994), enviados por Ana Santos (obrigado!). A Ana sugere estas cantigas ouvidas na voz de Françoise Atlan. Para mais poemas em Ladino e informação sobre aquela que foi a língua franca dos judeus portugueses e espanhóis até ao século XV, aconselho este post. Para mais sobre música em Ladino, é imprescindível uma visita ao site The Ladino Music Hall.

Um Pastor Árabe Procura a sua Cabra

Um pastor árabe procura a sua cabra no Monte Sião
e na colina oposta eu procuro o meu filho pequeno.
Um pastor árabe e um pai judeu
ambos envoltos em falhanços temporários.
As nossas vozes encontram-se, acima
da lagoa do Sultão, no vale que nos separa.
Nenhum de nós quer o rapaz ou a cabra
presos nas rodas
da máquina de Had Gadya.*
Encontramos os dois entre os arbustos,
e a nossa voz regressa dentro de nós
rindo e chorando.
Procurar uma cabra ou uma criança sempre foi
o princípio de uma nova religião nestas montanhas.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

* Had Gadya quer dizer literalmente “pequena cabra”. É também o nome de uma canção da Páscoa judaica cantada em aramaico, uma lengalenga, que conta a história de uma pequena cabra comida por um gato; o gato é mordido por um cão; o cão leva com um pau; o pau é queimado pelo fogo; o fogo é apagado com água; a água é bebida por um boi; o boi é morto por um talhante; o talhante é morto pelo Anjo da Morte; e o Anjo da Morte é morto por Deus.

Dois poemas ladinos

A la Una
A la una yo naci
A las dos m’engrandeci
A las tres tomi amante
A las cuatro me cazi
Alma vida y corason.

Dime nina donde vienes
Que te quero conocer;
Si tu no tienes amante
Yo te hare defender
Alma vida y corason.

Yendome para la guerra
Dos bezos al aire di
El uno es para mi madre
Y el otro para ti.
Alma vida y corason.

Adio Querida
Tu madre cuando te pario,
Y te quitou al mundo,
Corason ella no te dio
Para amar segundo.

Adio, Adio querida,
No quero la vida
Me l’amargates tu.

Va, buxcate otro amor,
Aharva otras puertas,
Aspera otro ardor,
Que para mi sos muerta.

Dois poemas de cantigas tradicionais (cerca do séc. XV) em Ladino, a língua franca dos judeus ibéricos – considerada de raiz “Ibero-Romance”, o Ladino é uma mescla de espanhol e português medievais com hebraico. Com a expulsão dos judeus espanhóis em 1492, o Ladino acompanhou o processo da diáspora e hoje pode ainda ser encontrado enquanto língua viva entre algumas comunidades judaicas da Turquia, Marrocos, Grécia, Tunísia, Croácia, Bulgária, Bósnia, Estados Unidos e Israel. Em tempos a mais falada das línguas dos judeus sefarditas, estima-se que cerca de 160 mil pessoas em todo o mundo falem ainda Ladino. Para ouvir um pequeno trecho de uma destas melodias (“Adio Querida”) numa interpretação moderna da cantora americana Sarah Aroeste, é só clicar aqui (formato .mp3). Um achado de “arqueologia litúrgica” é esta oração de Rosh Hashana, “Sakrifisyo de Ishak” (formato .ra), em Ladino, gravada em Los Angeles, em 1966, recitada por Heskia Franco, um descendente de judeus portugueses nascido na Grécia (via site da Sinagoga Kahal Shalom, de Rhodes). Sobre o Ladino, vale também a pena ler este interessante texto – “The Ladino Language”, do historiador e genealogista americano Arthur Benveniste.

Hebréia

Flos campi et lilium convallium
(Cântico dos Cânticos)

Pomba d’esp’rança sobre um mar d’escolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa! …

Tu és, ó filha de Israel formosa…
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia…
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!

Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?

Sonhas acaso, quando o sol declina,
A terra santa do Oriente imenso?
E as caravanas no deserto extenso?
E os pegureiros da palmeira à sombra?!…

Sim, fora belo na relvosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qual Jacó vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho..

Depois nas águas de cheiroso banho
– Como Susana a estremecer de frio –
Fitar-te, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto…

Vem pois!… Contigo no deserto inculto,
Fugindo às iras de Saul embora,
Davi eu fora, – se Micol tu foras,
Vibrando na harpa do profeta o canto…

Não vês?… Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto!…
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meu anjo, mas caí vencido.

Eu sou o lótus para o chão pendido.
Vem ser o orvalho oriental, brilhante!.
Ai! guia o passo ao viajor perdido,
Estrela vésper do pastor errante!…

Castro Alves (1847-1871), poeta brasileiro (in “Espumas Flutuantes”, Salvador da Bahia, 1870).

Um Homem e a Sua Vida

 Yehuda Amichai.  Yehuda Amichai.

Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.
Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos. Eclesiastes
está enganado acerca disto.

Um homem precisa de amar e odiar no mesmo instante,
de rir e chorar com os mesmos olhos,
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
de fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.
E de odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
de planear e confundir, de comer e digerir
que história
leva anos e anos a fazer.

Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra
esquece, quando esquece ama, quando ama
começa a esquecer.

E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.
Só o seu corpo permanece sempre
um amador. Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,
embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.

Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,
as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar
onde há tempo para tudo.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Tradução de Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro

Cantares de Salomão – שיר השירים

Beije-me ele com os beijos da sua boca;
porque melhor é o seu amor do que o vinho.
Para cheirar, são bons os teus unguentos;
como unguento derramado é o teu nome;
por isso, as virgens te amam.

Leva-me tu, correremos após ti.
O rei me introduziu nas tuas recâmaras:
em ti nos regozijaremos e nos alegraremos;
do teu amor nos lembraremos, mais do que do vinho
os rectos te amam.

Eu sou morena, mas agradável,
ó filhas de Jerusalém,
como as tendas de Quedar,
como as cortinas de Salomão

Não olheis para o eu ser morena,
porque o sol resplandeceu sobre mim:
os filhos de minha mãe se indignaram contra mim,
e me puseram por guarda de vinhas;
a vinha que me pertence não guardei.

Dize-me, ó tu, a quem ama a minha alma:
onde apascentas o teu rebanho,
onde o recolhes pelo meio dia:
pois por que razão seria eu
como a que erra entre os rebanhos
dos teus companheiros?

Se tu o não sabes,
ó mais formosa entre as mulheres,
sai-te pelas pisadas das ovelhas,
e apascenta as tuas cabras
junto às moradas dos pastores.

Às éguas dos carros de Faraó te comparo,
ó amiga minha.
Agradáveis são as tuas faces entre os teus enfeites,
o teu pescoço com os colares.
Enfeites de ouro te faremos,
com pregos de prata.

Enquanto o rei está assentado à sua mesa,
dá o meu nardo o seu cheiro.
O meu amado é para mim um ramalhete de mirra;
morará entre os meus seios.
Como um cacho de Chipre,
nas vinhas de Engedi,
é para mim o meu amado.

Eis que és formosa,
ó amiga minha,
eis que és formosa:
os teus olhos são como os das pombas.

Eis que és gentil e agradável,
ó amado meu;
o nosso leito é viçoso.
As traves da nossa casa são de cedro,
as nossas varandas de cipreste.

Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.
Qual o lírio entre os espinhos,
tal é a minha amiga entre as filhas

Qual macieira entre as árvores do bosque,
tal é o meu amado entre os filhos:
desejo muito a sua sombra,
e debaixo dela me assento;
e o seu fruto é doce ao meu paladar.
Levou-me à sala do banquete,
e o seu estandarte em mim era o amor.
Sustentai-me com passas,
confortai-me com maçãs,
porque desfaleço de amor.

A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça,
e a sua mão direita me abrace.
Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém,
pelas gazelas e cervas do campo,
que não acordeis nem desperteis o amor, até que ele o queira.

A voz do meu amado! eis que vem aí,
saltando sobre os montes, pulando sobre os outeiros.
O meu amado é semelhante ao gamo, ou ao filho do veado;
eis que está detrás da nossa parede,
olhando pelas janelas, lançando os olhos pelas grades.
Fala o meu amado e me diz: Levanta-te, amada minha, formosa minha, e vem.
Pois eis que já passou o inverno; a chuva cessou, e se foi;
aparecem as flores na terra;
já chegou o tempo de cantarem as aves,
e a voz da rola ouve-se em nossa terra.

A figueira começa a dar os seus primeiros figos;
as vides estão em flor e exalam o seu aroma.
Levanta-te, amada minha, formosa minha, e vem.
Pomba minha, que andas pelas fendas das penhas,
no oculto das ladeiras, mostra-me o teu semblante faze-me ouvir a tua voz;
porque a tua voz é doce, e o teu semblante formoso.
Apanhai-nos as raposas, as raposinhas, que fazem mal às vinhas;
pois as nossas vinhas estão em flor.

O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
Antes que refresque o dia, e fujam as sombras, volta, amado meu,
e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes de Beter.

De noite, em meu leito, busquei aquele a quem ama a minha alma;
busquei-o, porém não o achei.
Levantar-me-ei, pois, e rodearei a cidade;
pelas ruas e pelas praças buscarei aquele a quem ama a minha alma.
Busquei-o, porém não o achei.
Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade;
eu lhes perguntei: Vistes, porventura, aquele a quem ama a minha alma?
Apenas me tinha apartado deles, quando achei aquele a quem ama a minha alma;
detive-o, e não o deixei ir embora, até que o introduzi na casa de minha mãe,
na câmara daquela que me concebeu:
Conjuro-vos, ó filhos de Jerusalém,
pelas gazelas e cervas do campo,

que não acordeis, nem desperteis o amor, até que ele o queira.

Que é isso que sobe do deserto, como colunas de fumo,
perfumado de mirra, de incenso,
e de toda sorte de pós aromáticos do mercador?

Eis que é a liteira de Salomão;
estão ao redor dela sessenta valentes, dos valentes de Israel,
todos armados de espadas, destros na guerra,
cada um com a sua espada a cinta, por causa dos temores noturnos.
O rei Salomão fez para si um palanquim de madeira do Líbano.
Fez-lhe as colunas de prata, o estrado de ouro, o assento de púrpura,
o interior carinhosamente revestido pelas filhas de Jerusalém.
Saí, ó filhas de Sião, e contemplai o rei Salomão com a coroa de que sua mãe
o coroou no dia do seu desposório,
no dia do júbilo do seu coração.

Como és formosa, amada minha,
eis que és formosa!
os teus olhos são como pombas por detrás do teu véu;
o teu cabelo é como o rebanho de cabras que descem pelas colinas de Gileade.
Os teus dentes são como o rebanho das ovelhas tosquiadas,
que sobem do lavadouro, e das quais cada uma tem gêmeos,
e nenhuma delas é desfilhada.
Os teus lábios são como um fio de escarlate,
e a tua boca e formosa;
as tuas faces são como as metades de uma roma por detrás do teu véu.
O teu pescoço é como a torre de David, edificada para sala de armas;
no qual pendem mil broquéis, todos escudos de guerreiros valentes.
Os teus seios são como dois filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios.
Antes que refresque o dia e fujam as sombras,
irei ao monte da mirra e ao outeiro do incenso.
Tu és toda formosa, amada minha, e em ti não há mancha.
Vem comigo do Líbano, noiva minha, vem comigo do Líbano.
Olha desde o cume de Amana,
desde o cume de Senir e de Hermom,
desde os covis dos leões, desde os montes dos leopardos.
Enlevaste-me o coração,
minha irmã, noiva minha;
enlevaste- me o coração com um dos teus olhares,
com um dos colares do teu pescoço.
Quão doce é o teu amor, minha irmã, noiva minha!
quanto melhor é o teu amor do que o vinho!
e o aroma dos teus unguentos do que o de toda sorte de especiarias!
Os teus lábios destilam o mel, noiva minha;
mel e leite estão debaixo da tua língua,
e o cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.
Jardim fechado é minha irmã, minha noiva,
sim, jardim fechado, fonte selada.

Os teus renovos são um pomar de romãs, com frutos excelentes;
a hena juntamente com nardo,
o nardo, e o açafrão, o cálamo, e o cinamomo,
com toda sorte de árvores de incenso;
a mirra e o aloés, com todas as principais especiarias.
És fonte de jardim, poço de águas vivas, correntes que manam do Líbano!

Levanta-te, vento norte, e vem tu, vento sul;
sopra no meu jardim, espalha os seus aromas.
Entre o meu amado no seu jardim, e coma os seus frutos excelentes!

Venho ao meu jardim, minha irmã, noiva minha,
para colher a minha mirra com o meu bálsamo,
para comer o meu favo com o meu mel,
e beber o meu vinho com o meu leite.
Comei, amigos, bebei abundantemente, ó amados.

Eu dormia, mas o meu coração velava. Eis a voz do meu amado!
Está batendo: Abre-me, minha irmã, amada minha, pomba minha, minha imaculada;
porque a minha cabeça está cheia de orvalho,
os meus cabelos das gotas da noite.
Já despi a minha túnica; como a tornarei a vestir?
já lavei os meus pés; como os tornarei a sujar?
O meu amado meteu a sua mão pela fresta da porta,
e o meu coração estremeceu por amor dele.

Eu me levantei para abrir ao meu amado;
e as minhas mãos destilavam mirra,
e os meus dedos gotejavam mirra sobre as aldravas da fechadura.
Eu abri ao meu amado, mas ele já se tinha retirado e ido embora.
A minha alma tinha desfalecido quando ele falara.
Busquei-o, mas não o pude encontrar;
chamei-o, porém ele não me respondeu.
Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade;
espancaram-me, feriram-me;
tiraram-me o manto os guardas dos muros.
Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, se encontrardes o meu amado,
que lhe digais que estou enferma de amor.

Que é o teu amado mais do que outro amado,
ó tu, a mais formosa entre as mulheres?
Que é o teu amado mais do que outro amado, para que assim nos conjures?

O meu amado é cândido e rubicundo, o primeiro entre dez mil.
A sua cabeça é como o ouro mais refinado,
os seus cabelos são crespos, pretos como o corvo.
Os seus olhos são como pombas junto às correntes das águas,
lavados em leite, postos em engaste.
As suas faces são como um canteiro de bálsamo,
os montes de ervas aromáticas;
e os seus lábios são como lírios que gotejam mirra.
Os seus braços são como cilindros de ouro,
guarnecidos de crisólitas;
e o seu corpo é como obra de marfim, coberta de safiras.

As suas pernas como colunas de mármore,
colocadas sobre bases de ouro refinado;
o seu semblante como o líbano, excelente como os cedros.
O seu falar é muitíssimo suave;
sim, ele é totalmente desejável.
Tal é o meu amado, e tal o meu amigo, ó filhas de Jerusalém.

Para onde foi o teu amado, ó tu,
a mais formosa entre as mulheres?
para onde se retirou o teu amado,
a fim de que o busquemos juntamente contigo?

O meu amado desceu ao seu jardim,
aos canteiros de bálsamo,
para apascentar o rebanho nos jardins e para colher os lírios.
Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu;
ele apascenta o rebanho entre os lírios.

Formosa és, amada minha, como Tirza,
aprazível como Jerusalém,
imponente como um exército com bandeiras.
Desvia de mim os teus olhos, porque eles me perturbam.
O teu cabelo é como o rebanho de cabras que descem pelas colinas de Gileade.
Os teus dentes são como o rebanho de ovelhas que sobem do lavadouro,
e das quais cada uma tem gêmeos, e nenhuma delas é desfilhada.
As tuas faces são como as metades de uma romã, por detrás do teu véu.
Há sessenta rainhas, oitenta concubinas, e virgens sem número.
Mas uma só é a minha pomba, a minha imaculada;
ela e a única de sua mãe, a escolhida da que a deu ã luz.
As filhas viram-na e lhe chamaram bem-aventurada;
viram-na as rainhas e as concubinas, e louvaram-na.

Quem é esta que aparece como a alva do dia,
formosa como a lua,
brilhante como o sol,
imponente como um exército com bandeiras?

Desci ao jardim das nogueiras,
para ver os renovos do vale,
para ver se floresciam as vides e se as romanzeiras estavam em flor.
Antes de eu o sentir, pôs-me a minha alma nos carros do meu nobre povo.

Volta, volta, ó Shulamite; volta, volta, para que nós te vejamos.
Por que quereis olhar para a Shulamite como para a dança de Maanaim?

Quão formosos são os teus pés nas sandálias, ó filha de príncipe!
Os contornos das tuas coxas são como jóias, obra das mãos de artista.
O teu umbigo como uma taça redonda, a que não falta bebida;
o teu ventre como montão de trigo, cercado de lírios.
Os teus seios são como dois filhos gêmeos da gazela.
O teu pescoço como a torre de marfim;
os teus olhos como as piscinas de Hesbom, junto ã porta de Bate-Rabim;
o teu nariz é como torre do Líbano, que olha para Damasco.
A tua cabeça sobre ti é como o monte Carmelo,
e os cabelos da tua cabeça como a púrpura;
o rei está preso pelas tuas tranças.

Quão formosa, e quão aprazível és, ó amor em delícias!
Essa tua estatura é semelhante à palmeira, e os teus seios aos cachos de uvas.
Disse eu: Subirei à palmeira, pegarei em seus ramos;
então sejam os teus seios como os cachos da vide,
e o cheiro do teu fôlego como o das maçãs,
e os teus beijos como o bom vinho para o meu amado,
que se bebe suavemente, e se escoa pelos lábios e dentes.

Eu sou do meu amado, e o seu amor é por mim.
Vem, ó amado meu, saiamos ao campo, passemos as noites nas aldeias.
Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas,
vejamos se florescem as vides,
se estão abertas as suas flores,
e se as romanzeiras já estão em flor;
ali te darei o meu amor.

As mandrágoras exalam perfume,
e às nossas portas há toda sorte de excelentes frutos,
novos e velhos; eu os guardei para ti, ó meu amado.

Ah! quem me dera que foras como meu irmão,
que mamou os seios de minha mãe!
quando eu te encontrasse lá fora, eu te beijaria;
e não me desprezariam!
Eu te levaria e te introduziria na casa de minha mãe,
e tu me instruirias;
eu te daria a beber vinho aromático,
o mosto das minhas romãs.
A sua mão esquerda estaria debaixo da minha cabeça,
e a sua direita me abraçaria.

Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém,
que não acordeis nem desperteis o amor,
até que ele o queira.

Quem é esta que sobe do deserto,
e vem encostada ao seu amado?
Debaixo da macieira te despertei;
ali esteve tua mãe com dores;
ali esteve com dores aquela que te deu à luz.

Põe-me como selo sobre o teu coração,
como selo sobre o teu braço;
porque o amor é forte como a morte;
o ciúme é cruel como o sheol;
a sua chama é chama de fogo,
verdadeira labareda do Senhor.
As muitas águas não podem apagar o amor,
nem os rios afogá- lo.
Se alguém oferecesse todos os bens de sua casa pelo amor,
seria de todo desprezado.

Temos uma irmã pequena,
que ainda não tem seios;
que faremos por nossa irmã,
no dia em que ela for pedida em casamento?

Se ela for um muro, edificaremos sobre ela uma torrezinha de prata;
e, se ela for uma porta, cercá-la-emos com tábuas de cedro.

Eu era um muro, e os meus seios eram como as suas torres;
então eu era aos seus olhos como aquela que acha paz.

Teve Salomão uma vinha em Baal-Hamom;
arrendou essa vinha a uns guardas;
e cada um lhe devia trazer pelo seu fruto mil peças de prata.
A minha vinha que me pertence está diante de mim;
tu, ó Salomão, terás as mil peças de prata,
e os que guardam o fruto terão duzentas.
Ó tu, que habitas nos jardins,
os companheiros estão atentos para ouvir a tua voz;
faze-me, pois, também ouvi-la:
Vem depressa, amado meu,
e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho da gazela sobre os montes dos aromas.

Shir Ha-Shirim שיר השירים (Cantares de Salomão), tradução de João Ferreira de Almeida.

Não é bom para o homem estar só
mas ele está só mesmo assim
ele espera e está só
ele adia e está só
só, ele sabe
que mesmo adiando
chegará

Original em hebraico

Natan Zach, poeta israelita contemporâneo.
Tradução de Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro

Quando telefonaste a tua voz estremeceu

Quando telefonaste a tua voz estremeceu
e eu soube que fiquei de luto por tua causa

E não precisei de ouvir as tuas palavras
porque quando telefonaste a tua voz estremeceu

E soube que fiquei de luto por minha causa
e tu não tiveste de ouvir a minha voz

Porque quando telefonaste a tua voz estremeceu
eu soube que estavas já ausente

Original em hebraico

Natan Zach, poeta israelita contemporâneo.
Tradução de Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro

A Noite, o Que é?

Hoje, madrugada de domingo, as saudades e o frio sentem-se nos ossos. Engana-se a distância, o tempo e o espaço, relendo.

Francisco José Viegas “Jaime Ramos voltou como voltara outras vezes, rendido a um mistério mais intenso do que a morte, mais doloroso do que a evidência da morte. Voltou, não se lembraria quanto tempo depois, mas voltou nessa mesma noite e olhou de novo para o corpo deitado sobre a mesa, sabendo que seria a última vez que o faria – mas pressentindo que aquelas imagens voltariam até que o pesadelo acabasse, o que demoraria muito tempo.
Foi então que acendeu o charuto e, ao aspirar o primeiro fumo, dando-se conta do cenário, lembrou a morte, a morte mais pura de todas, a morte que se acolhe como uma benção e como uma música vinda do interior da terra. Lembrou a morte como um passeio final ao cemitério, num dia de chuva, um cemitério de aldeia, ladeado de muros onde cresciam braços de hera, silvas, ramos soltos de árvores rasteiras, um cemitério num dia de chuva com um caixão de madeira, simples, a descer à terra, ao interior da terra, e dentro do caixão Jaime Ramos vê o seu pai, abandonado como numa despedida que, apesar de tudo, nesse caso, foi surpreendente. E para lá da chuva vê-se o retrato fino e escurecido de uma aldeia suspensa numa colina sobre o rio, uma casa de pedra, de madeira, de cal, o regresso a casa depois do enterro, o badalar dos sinos como um anúncio de rendição e de alarme. E nesse regresso a casa, muitos anos antes, Jaime Ramos viu a sua mãe, os seus irmãos, os xailes negros cobrindo as cabeças, toda a sua vida, todo o resto da sua vida, uma explosão de neve arrebatando o que nesse instante sobrava da noite, debruçado sobre o corpo estendido sobre a mesa de inox, diante do mostrador da balança que servira para pesar os órgãos do morto um a um, pelo menos os necessários, mais uma ardósia onde se anotam os números que equivalem a operações de uma aritmética simples mas inexacta, que é a da soma das medições, pesos, avaliações, observações. E os estilhaços dessa explosão traziam-lhe o que definira como uma suspeita sobre esses sinais insignificantes e finais, uma espécie de disciplina que a sua cabeça exigia, uma disciplina que evitasse o medo da morte e a vontade de sobreviver, uma disciplina que o levasse a organizar quadros, pistas, silêncios, arquivos, associações. Mas a morte vive em cada gesto, em cada sinal de envelhecimento, em cada minuto, encerrado nesta sala ou respirando a humidade da noite. Qualquer coisa como impressões digitais, autópsia, exame tanatalógico e de toxicologia, carne e osso, pistas descobertas em carne e osso e restos do que foi sangue e é uma matéria a entregar à noite e à podridão. Gestos mágicos. Jaime Ramos conhecia-os. Ilusões. Gestos de ilusão. A vida de um polícia. Que se foda, que se foda, que se foda, dizemos isto muitas vezes enquanto pensamos em nada e em tudo, na vida toda, na morte toda, nos impostos para pagar no fim do ano, nas contas do dia-a-dia, no fumo que se infiltra nos pulmões, no colesterol, que se foda, que se foda, que se foda, um tempo feliz, um tempo infeliz, um tempo em que o paraíso está tão próximo, um tempo em que o paraíso está tão afastado, um tempo e que a felicidade se descobre ao acender um charuto, ao beber um café, um copo de água, uma cerveja guardada como vinho de missa, um tempo colorido de azul como alguns sonhos, um tempo em que nos aproximamos do que nos aproxima do paraíso e da ideia que dele sobra vinda dos sonhos. Não quero morrer já. Não quero. Os cadáveres entram e saem desta sala, mas não quero que chegue a minha vez, tenho de ter tempo, um tempo de ser frio como um risco no céu de uma madrugada de Verão, um polícia vulgar, um polícia com nome, um homem com nome, um homem sem excepções de género, pessoas, declinação. Um homem que não tem de ser imune, um homem que toma duche e pequeno-almoço e sol e ar e tudo. E isso antes de ficarmos rígidos, cheios de manchas arroxeadas, sangue coagulado, um cadáver visto da cabeça aos pés, a distância a que o tiro foi disparado, a direcção do disparo, fragmentos na pele, rasgões nos tecidos, vísceras em formol, os seus extractos mínimos em lâminas observadas ao microscópico, o corpo aberto, o corpo sem corpo, o corpo que volta a ser cosido, lavado, rectificado, vestido como se fosse a um baptizado. Mas o que resta dele são apenas este momentos, fórmulas guardadas num papel, exames de dactiloscopia, de roupa, de estrutura dentária, cicatrizes, DNA nos ossos que já não são ossos mas formações ósseas, frases de peritos, um bisturi apontado para um cadáver, um bisturi que aponta para o único corpo onde se grava o segredo de uma morte e de uma vida, e paz, paz profunda, paz de objectos recolhidos que não têm senão um aparente sentido, uma aparente verdade.
Jaime Ramos levantou-se. Havia vozes ao fundo do corredor, duas vozes em surdina. Havia a noite. Toda a noite.”

Francisco José Viegas, Um Céu Demasiado Azul, Edições Asa, 1995.

Porque te Assustas?

Porque tens cuidados e te assustas, alma minha?
Fica queda e permanece onde estás.
Porque o mundo para ti é pequeno como uma mão
tu, minha tempestade, não irás longe.

Melhor do que caminhar de corte em corte
é sentar perante o trono do Senhor:
se te distanciares dos outros florescerás
e seguramente verás tua recompensa.

Se o teu desejo é como uma cidade fortificada,
com tempo um cerco o fará desmoronar:
Não tens porção para ti neste mundo,
acorda então para o mundo que ai vem!

Original do poema em hebraico

Solomon Ibn Gabirol, poeta medieval, judeu da Andaluzia (c. 1021-1058).

Saudades de Jerusalém

Terra bela,
Delícia do mundo,
Cidade dos Reis,
No Oeste longínquo, o meu coração chora saudades tuas.
Entristeço ao recordar como eras.
Agora a tua glória é finda, as tuas casas destruídas.
Se eu podesse voar para ti nas asas das águias,
Encharcaria o teu solo com as minhas lágrimas.

Yehudah ha-Levi (1080-1141), rabino, filósofo e poeta espanhol do século XII, nascido em Toledo .



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